segunda-feira, 7 de março de 2011

Ruth me tirou da solidão

Todo mundo tem segredos:

Tem gente que é gay e não conta para ninguém. Vive no armário.
Tem mulher que nunca na vida teve um orgasmo. Vive na fingição.
Tem gente que votou no Maluf a vida toda em segredo. Vive no Cingapura.
Tem mulher que é moderna e esclarecida, mas sonha em segredo com uma cesariana com data marcada, de preferência numa quinta-feira. Vive no medo.
Tem vegetariano que sonha com sanduíches de presunto. Vive no desejo.

Eu também tinha muita vergonha do meu segredo, mas atualmente consigo lidar bem com a verdade:

- Quantos anos você tem?
- Oito, por quê?
- Porque eu fico querendo saber como você conseguiu ficar tão burro em tão pouco tempo!
- Por quê, o senhor demorou mais?


Hahahah... adoro!
Quem tem um bom faro já percebeu que este diálogo acontece entre Chaves e Seu Madruga no melhor humor para crianças que existe na TV.
Hoje assumo que adoro "Chaves", e daí??

Eu sei, "Chaves" é feio prá caramba, mas sempre achei o texto inteligente e o timing divertidíssimo.
Eu me considerava inferior por gostar de "Chaves". Tinha vergonha de dizer isso para as pessoas, assistia escondida, ria discretamente quando calhava de estar com alguém, me segurava para não falar socialmente algum jargão do programa com medo de ser discriminada, ufa... era uma sofrimento só.

Mas um belo dia Ruth Rocha apareceu para virar minha aliada e salvar a minha honra.

Há alguns anos ela deu uma entrevista à revista Veja dizendo que, na opinião dela, a única programação infantil que vale a pena ser vista é "Chaves".
Aqui vai o trecho:

Ruth O melhor programa infantil é o Chaves, do SBT. Pode ser pobre, feio, mas quem escreve aquilo é inteligente. Chaves é circense. As crianças se identificam com os diálogos, com os trocadilhos, com as cenas de pastelão e com o personagem-título, que se comporta exatamente como elas. É uma atração simples e divertida, que não faz mal a ninguém. Considero-o melhor que o Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. O Castelo é consistente, tem ótimos atores e atrizes e, no deserto da TV brasileira, é uma maravilha. Mas é um pouco over, exagerado.
Veja Como assim?
Ruth O Castelo tem muita cor, ruído, grito, correria, apelo sensorial. As crianças, principalmente as menores, têm dificuldade em assimilar o que acontece na tela. Está provado que o barulho em excesso prejudica a audição. Da mesma forma, o excesso de estímulos diminui a sensibilidade infantil. O Castelo tenta dar noções de arte ao telespectador mirim mostrando bons quadros. É inútil porque a criança está fora daquele diapasão, daquele nível de aprendizado. Os desenhos que ela e seus amigos fazem são muito diferentes daquilo.

Um intelectual que gosta de "Chaves" gera polêmica (Caetano Veloso com suas declarações excêntrica que o diga). E, por isso, obviamente ela teve que explicar isso novamente no programa Roda Viva:


"Gosto muito de "Chaves" porque ali os personagens são feios, ou, no mínimo comuns, são pobres, vivem numa vila feiosa, não são nenhum modelo de sucesso e perfeição e apesar disso são felizes! O que faz passar a seguinte mensagem às criaças que assistem: “você não precisa ser lindo para ser amado, você não precisa ser rico prá ser feliz, você não tem que ter um brinquedo chique-moderno prá ser aceito”

Uma fofa né?

"Chaves" está agora no Cartoon Network e faz o maior sucesso com a geração que não tem a menor idéia do sucesso que Chaves faz há décadas. Os pequenos de hoje gostam porque é muito bom mesmo, e não porque alguém os ensinou a gostar.

Tentaram fazer um desenho animado da série, mas não deu certo.
E "Chapolin Colorado" é chato.

O que mais me diverte é antecipar quando vão acontecer as frases e cenas que acontecem em todos os episódios:
  • Quando Chaves diz: "Ninguém tem paciência comigo."
  • Quando Dona Florinda diz: "Vem tesouro, fique longe desta gentalha."
  • Quando Kiko diz: "Cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!"
  • Quando Chaves mexe com os dedinhos perto do rosto dizendo: "Isso, isso, isso."
  • Quando ele pula chutando as perninhas quando está feliz e gagueja para falar algo.
  • A maneira tão característica e engraçada de Chaves, Kiko e Chiquinha chorarem.
  • Quando Seu Barriga é derrubado por Chaves todas as vezes que entra na vila e diz: "Tinha que ser o Chaves!"
  • Quando Professor Girafales e Dona Florinda se atrapalham de tanta paixão e trocam as palavras das mesmíssimas frases que dizem quando ela o convida a entrar e tomar um café.
  • Quando Kiko tenta corrigir alguma bobeira que falou chutando respostas aleatoriamente: "Uma tesoura? Uma faca? Um canivete? Uuuuma lâmina de barbear?". Aí ele olha para a câmera e fala: "Não deu."
Antes disso tudo aí em cima se passar na história, a gente acha graça porque já prevemos o que vai acontecer e rimos antecipadamente. Quer coisa mais engraçada?
Outro dia fui a um circo mambembe e percebi isso: depois de algumas poucas repetições das mesmas palhaçadas, a graça passa a estar na expectativa delas acontecerem de novo. E aí a molecada ri ainda mais.

Eu, como Ruth, gosto de "Chaves" porque ele é puro, simplório, corriqueiro, com poucos personagens e quase nenhuma variação de cenário. Fácil de entender, fácil de acompanhar e com uma crueldade que está perfeitamente dentro do aceitável do politicamente incorreto.

E além de tudo o programa tem umas situações agri-doces que já me emocionaram muitas vezes, em geral quando os moradores da vila ficam com pena do Chaves e convidam ele para a ceia de Natal ou juntam dinheiro para lhe comprar um presente.

Se "Chaves" fosse ruim não teria durado tanto tempo. E o programa não é fruto de um bom marketing porque as poucas mercadorias voltadas para o público infantil com a marca "Chaves" são ridículas e com uma venda insignificante.
E talvez seja isso que me faz gostar do programa também como mãe: não apela para a venda, para o consumismo.

Até hoje, depois de mais de 15 anos do programa ter encerrado suas gravações, "Chaves" vence no Ibope de programas caros, inéditos e cheios de bons profissionais envolvidos.
No Cartoon Natwork, onde entrou recentemente, ultrapassa tranquilamente outros sucessos da grade.

Por tudo isso, meu queridinho que assume amar sanduiches de presunto: Você mora no meu coração!

E foi assim que Ruth Rocha me deu a coragem para sair do barril.








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