segunda-feira, 4 de março de 2013

A Prateleira


Um dia ouvi de uma pessoa próxima sobre o seu medo de estar em uma prateleira. Não consegui entender de imediato a expressão, mas logo compreendi que estar em uma prateleira significa ter sido deixado de lado e, ao mesmo tempo, continuar disponível para o relacionamento.
É assim: 
-Sempre vejo você e o Pedro juntos. Vocês estão namorando?
-Não. A gente sai junto e ele me devolve na prateleira.

E as pessoas não gostam de serem colocadas na prateleira.
Têm vergonha disso. Se sentem humilhadas por serem apenas uma opção (e não a prioridade) na vida do parceiro. Mas, ao mesmo tempo que se sentem usadas, engraçado isso, se recriminam diariamente por não sairem da prateleira para cuidarem da própria vida. Culpam o parceiro quando, no fundo, sabem que a responsabilidade é delas.
Porém, quando estão quase desistindo, quase pulando definitivamente da história, o telefone magicamente toca e aí  ficam envaidecidas e gratas por terem sido escolhidas. E na segunda-feira voltam para a prateleira. Mas, agora, cheias de honra.
Vida estressante essa. Estar na prateleira subentende uma montanha russa emocional de raiva, saudade, alegria, vaidade, esperança, culpa, auto-crítica e uma enorme carência afetiva. Estar na prateleira é tudo aquilo que nossas mãe dizem para a gente nunca fazer na vida, mas acabamos sempre fazendo porque, porque.... ah, sei lá.
Minha hipótese é que estar numa prateleira tem o seu charme.

Eu não preciso procurar a minha bolsa numa prateleira porque ela está sempre ao meu lado, pendurada na cadeira. Minha bolsa não é escolhida, ela é funcional. Está ao meu lado por ser necessária. Mas quando quero algo realmente diferente, algo que fará meu dia especial, eu vou na prateleira e elejo um objeto exclusivo. Isso me dá a sensação de ser privilegiada, por ter escolha, e ainda dou ao objeto a honra de ser lembrado.

-Oi leva eu! Eu também quero ir... 
(link da música aqui)
Quando você é a prioridade na vida de alguém, não existe massagem clara no ego, por mas contraditório que pareça.
Pode-se ter a sensação que o marido te leva ao cinema porque você está por ali, e, portanto, parece ser a escolha mais óbvia. Sua esposa te chama para comer uma pizza porque, também, talvez você seja a companhia mais fácil.
Estar num relacionamento estável e oficial é delicioso pela estabilidade emocional que gera, mas não tem o encanto de ser escolhido.
Casamentos, em sua enorme maioria, são previsíveis. A vida de solteiro, não. E cada status de relacionamento tem o seu lado bom.

E é isso que as pessoas da prateleira precisam perceber: estar na prateleira e ser escolhido é legal, e é POR ISSO que muita gente fica nela. Ser lembrado e eleito para usufruir de um final de semana ao lado da pessoa amada provoca uma adrenalina rejuvenecedora, massageia o ego e proporciona um bem enorme para a auto-estima.

A não ser que:
1º você nunca seja escolhida/o.
2º você não tenha voz ativa na relação.

Se você ficar mais de um mês amarelando na prateleira, esqueça. Pule fora. Ele/ela não te quer, simples assim.

Se você é retirado vez ou outra da prateleira, suporta o estresse e gosta da adrenalina de ser escolhido, fique nela. Mas saiba que, apesar de ser apenas mais um/uma da vida do outro, você pode (e deve!) ser verdadeiro com seus próprios sentimentos. Pode dizer que ficou chateado porque a pessoa não ligou, pode dizer que adora quando é lembrado, pode ficar bravo e pode demonstrar ciúmes. Ufa. Isso dá um verniz mais humano à estranha relação. Por mais que você seja um bobo exigindo direitos que você NÃO tem, pelo menos você fez a sua parte. Você tentou.
E depois de cobrar, brigar e espernear por respeito, duas coisas podem acontecer: ou parceiro te larga (vale dizer que essa alternativa é a mais provável), ou diz: "Tá booooooooooooom, vamos namorar, então".

Seja qual for o resultado, valeu a pena. Sempre acho que devemos agradecer aos parceiros, bons ou ruins, que passaram pela nossa vida. E perdoá-los por nutrir expectativas nos nossos corações.
São essas as pessoas que nos ensinam a crescer. Nos ensinam a detectar nuances sutis nas falhas das comunicações. Nos fazem entender que a nossa voz nunca pode morrer, por mais difícil que seja encontrar um lugar para ela numa história de amor.
Ou, como diz lindamente Anais Nin num trecho do seu diário: são essas as pessoas que nos ensinam a amar humanamente.


"Ontem à noite eu chorei. Chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque meus olhos estavam abertos para a realidade. (...) Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar. Ainda consigo amar apaixonadamente sem acreditar. Isso significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela."






Por pior que seja a prateleira, 
ela pode deixar saudade depois que pulamos dela. 
Saibam disso.  

PS: antes que alguém me pergunte ou desconfiem (incrível como esses posts geram problemas), nada disso tem a ver comigo, ok?





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Damas fora.




Dizem que uma dama sempre sabe a hora de se retirar. Acho essa frase muito certa e concordo com ela, embora eu nem sempre saiba me comportar com tamanha finesse.
Quando percebe que não tem mais nada a lucrar com a situação e/ou não pode colaborar com contribuições relevantes, a elegante dama se retira. E ela sai, preferencialmente "à francesa", ou seja, sem se despedir. É mais chique.
E este é um benefício exclusivo das mulheres.

Quando uma mulher termina um namoro ou casamento sempre achamos que ela foi sensata e madura. As mulheres tem esse dom de deixar suas saídas sempre glamourosas. Se ela sai sem dar satisfação, então, fica ainda melhor. Parece que o tolinho do homem não soube decodificar os sinais e, portanto, não poderá reclamar por não ter sido previamente avisado.
-Como assim "eu vou embora"?? Sem se explicar, querida?
-Se eu soubesse que você precisava que eu desenhasse para você todas as minhas reclamações no decorrer destes últimos anos eu deveria, no início, ter comprado um caderninho. Agora já é tarde. Adeus.


No entanto, homens não podem se retirar sem dar satisfação. Este é um direito que eles NÃO tem. Em geral, homens quando terminam uma relação são vistos como imaturos. Se saem sem avisar, então, são os maiores filhos da mãe do mundo.
Há! Adoro ser mulher por causa disso!! Poxa, precisávamos mesmo ter alguma vantagem depois de termos nascido com úteros que doem e peitos que caem. Para as mulheres, vítimas absolutas durante toda a história da existência humana, sempre existiu a vantagem da maturidade. Ufa.

-Querida, não quero mais.
-Hã? Você é gay??
Digo isso porque parece que existe um pacto silencioso entre os casais onde fica definido que é a mulher que deve se retirar. 99% dos divórcios que acompanhei só aconteceram por causa das mulheres que, num belo dia, deram um basta e se retiraram. É raro ver um homem terminando uma relação. Eles traem, inventam atividades extra-conjugais no fim de semana, trabalham mais do que o necessário, enrolam, ofendem a esposa para ver se elas desistem, dão um gelo nelas para ver se elas arranjam outro, mas não olham para a parceira e dizem: "Querida, não quero mais."
Eles esperam pacientemente pela retirada de suas damas.
E a minha opinião é que eles não vão embora justamente para não serem taxados de cafajestes. Parece que existe um combinado entre o casal onde eles dão a deixa para ELAS serem as elegantes e deixarem eles imunes ao julgamento da comunidade.
Ah, também existe o fato de homens não conseguirem sobreviver sozinhos. A filosofia de vida deles parece ser: antes mal acompanhado do que só.

Resumindo, a regra é a seguinte:

  • Quando mulheres são abandonadas, são vitimas. Quando abandonam, são maduras.
  • Quando os homens são abandonados, mereceram. Quando abandonam, são cachorros.

Simples assim. Vamos analisar estas imagens:


Dama se retirando.
Cafajeste indo embora.









Dama se retirando.









Cafajeste indo embora (pela esquerda).


Eu sei, eu sei, isso tudo é muito sexista e limitante. Uma grande bobagem.


...mas é a mais pura verdade, sorry.
Escrevo isso porque já faz tempo que assisto a retiradas de damas e cafajestes e, por mais que todos ponderem as particularidades das relações, as conclusões do público são sempre as mesmas. Ela foi a madura do casal e ele, o fraco.
Ah, deixa a gente se gabar disso, vai! Puxa, sofremos taaaanto, ganhamos menos, lavamos mais louça, limpamos mais crianças, sangramos todo mês.... deixa a gente ser elegante de vez em quando. Pode ser?
Valeu.

Pronto, depois desta minha brilhante conclusão (que todos sabiam, mas ninguém ainda tinha oficializado) ficou mais fácil para uma mulher sair de um relacionamento com elegância. 
Quero ver sair de uma piscina...








terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Do not skip the ad!

E lá vou eu novamente filosofar na mesa do café da manhã...



Toda vez que vejo esta foto estampada na caixa de Sucrilhos acho engraçado haver uma discreta frase na lateral: "O leite e a fruta são apenas sugestão de consumo".
Há! Sempre achei isso muito curioso. Será que algum mané realmente acredita que dentro da caixa haverá morangos frescos e leite gelado? Com uma tigelinha à tiracolo? Será que a empresa já foi processada por iludir alguém e, por isso, a obrigatoriedade da frase?

Hoje descobri que sim. Hoje meu filho gritou, todo contente, no corredor dos cereais:
-Mãe, vamos levar esse! Já vem com morango!!

Pois é...
Precisamos sempre pensar nos iludidos. Não podemos esquecer dos deslumbrados e, para estes, temos que avisar tudo, tudinho.

E aí que está a graça da história. TODOS nós nos iludimos com a divulgação de um produto. Em maior ou menor grau, todos somos engambelados pela propaganda e não percebemos que muita coisa não vem incluída no pacote.

Hope avisa: A Gisele e o chiclete são apenas sugestões de consumo.

Já aconteceu de você comprar uma lingerie só porque achou linda a moça da propaganda? Comigo já. Aí a gente chega em casa, veste a calcinha e se sente profundamente enganada, apesar de nunca confessar que momentaneamente achávamos, sim, que ficaríamos gatas. Vou processar a Valisère.

Também já usei produtos para o cabelo que me deixaram frustrada. Não por culpa do creme, mas da moça deslumbrante do comercial. Homens elegantes nos carros chiques, casas arejadas, ensolaradas e com cortinas esvoaçantes em comercial de inseticída e tudo que NÃO vem incluso nos produtos, mas a gente jura por Deus que terá algo semelhante ao pagar por ele.  

Existe uma frase no marketing que diz:
"Se você quer ganhar dinheiro, invista na inocência das crianças, na vaidade das mulheres e na ambição dos homens"


Hoje acredito que não. Acho que a frase deveria ser mudada:
"Se você quer ganhar dinheiro, invista na inocência das crianças, na ingenuidade das mulheres e na ilusão dos homens."

Tá, tá... até aí tudo dentro dos conformes. Os marketeiros renomados ganham fortunas justamente para fazer isso com as nossas mentes. Até aí não existe novidade.
Mas....

O estranho é que estamos tão treinados à ilusão que começamos a fazer isso no cotidiano.
E não percebemos.
Na vida real não existem letras miúdas dizendo que grande parte do cenário é apenas uma opção, não garantia. Não existem letras miúdas nos informando que os relacionamentos não serão tão lindos, os bebês não serão tão fáceis e os trabalhos, não tão glamourosos  E aí nos frustramos profundamente quando percebemos que, na vida que construímos (com escolhas racionais e emocionais), não existe toda a alegria que acreditávamos. Acho que, com a divulgação desenfreada de comerciais e propagandas, acabou que a vida real nos ilude com as mesmíssimas promessas, mesmo sem marketeiro algum por trás
.  
A felicidade da família e a melancia são opções de consumo.


Mas... para provar que a vida pode, sim, ser uma eterna propaganda, eu decidi comprar o morango e o leite gelado que faz "splash" e reproduzir um Sucrilhos igual ao da embalagem.
Não é tão bonito e nem um pouco gostoso, mas... quem se importa???

E com isso descobri que podemos acatar a sugestão de consumo e consumir tudo na vida de um jeito alegre e colorido.
Hoje em dia faço assim: se um filho meu chora de madrugada, já me sinto numa propaganda de Vick Vaporub. Se tenho se sair com ele para o hospital. Simples! Imagino que estou num comercial de plano de saúde.
Se brigo com o meu marido, já penso num comercial de perfume, com portas batendo, malas sendo apressadamente feitas, moça escorregando pela parede até se sentar no chão, close nas lágrimas rolando pelas bochechas e relógio na parede mostrando a demora.
Se fico presa no elevador, já ajo como se estivesse num comercial famoso da década de 80.
Até para prisão de ventre tem comercial! Até para dor de cabeça, hemorróidas, cólica ... é uma fartura!

Hoje, especificamente, me sinto divulgando algum produto excêntrico da Polishop, tentando perder alguns quilos com programas de fitness caseiro.
E haja glamour!




-Deixa eu adivinhar: você também acreditou que a 
Gisele Bundchen viesse dentro da embalagem.

-Gisele? Não. Eu queria mesmo era o chiclete.

-Xiiiiii..... garçom, desce mais dois.