sexta-feira, 11 de março de 2011

Como sair do mar e continuar sendo sereia

Já contei que fui professora de maternal?
Fui sim, bem depois de me formar como psicóloga.
A única coisa realmente perfeita que eu consegui fazer na vida é dar aulas para crianças de 3 anos. Modéstia à parte eu era boa e contava histórias com alegria e talento.

Uma que eu adorava contar era da Ariel, a Pequena Sereia, porque na escola em que eu trabalhava havia um aquário gigante que virava o cenário perfeito para histórias no mar.
Contava sempre. Mas contava a versão da Disney que é fofa e alegre.

Um dia, no final da história, uma aluninha perguntou:
-E o que aconteceu com as avós dela?
-Avós?? Que avós? (não tem avó nenhuma na história... não era a Chapeuzinho Vermelho!!)
E todas as crianças tentaram me explicar:
-Ela trocou as pernas pelas avós.
-A bruxa do mar ficou com as avós dela.
-Ela deu as avós para poder ter pernas e casar com o príncipe.
Me segurei para não rir:
-Ahhhhhh.... a VOZ!!! Ela trocou as pernas pela voz, não avós!!

E tive que explicar o que era voz.
Superestimamos o vocabulário das crianças de 3 anos.
Tadinhas, ficaram o ano inteiro visualizando em silêncio a Pequena Sereia entregando as vovós sereias para uma bruxa má só para conseguir suas perninhas.
Um verdadeiro pesadelo freudiano!

E isso me deu matéria prima para reflexões.
Tudo bem, Ariel não entrou com suas avós no escambo com a bruxa para garantir sua ida à terra firme, mas entregou a sua própria voz, o que dependendo do ponto de vista pode ser até pior.

E se não fosse a voz, ela teria entrado com outra coisa importante.
Sim, porque para abandonar nosso habitat natural e ousar perder nossa identidade para casar com alguém temos que fazer um sacrifício. Sempre algo é sacrificado porque a decisão é grande, radical, não dá para ser coisa pouca.

Prá começar Ariel salvou o príncipe do afogamento. Já começou sendo heroína (tenho raiva de quem diz que só a Fiona, do Shrek, é guerreira e ativa!!).
Depois, quando decidiu correr atrás do cara, perdeu sua identidade de seria, abandonou definitivamente sua família, seu ambiente marítimo, e prá complicar ainda deu sua linda voz para a bruxa do mar. E na história original de Andersen suas novas pernas sangravam e doiam!

Mas foi uma escolha, e tendo consciência disso ela assinou o contrato com a malvada. Meio no susto, mas as coisas são assim. Não dá mesmo para pensar em todas as consequências de todas as nossas escolhas.

Sebastião, a lagosta afro-descendente, bem que tentou convencê-la do contrário no início da fofíssima música "Under The Sea":

Ariel, listen to me
The human world, it's a mess.
Life under the sea
is better than anything they got up there.

Temos também muitos "Sebastiões" que tentam nos persuadir a não sair do lugar. Com as melhores intenções, na maior boa vontade, procuram mostrar que estamos muito bem em nosso habitat natural. Mas somos ousados e passamos por cima do bom senso das lagostas.

E qual é o preço que pagamos para casar? Perder a identidade de solteiro, perder a liberdade que esta condição permite, perder a privacidade, perder a segurança da casa dos pais, abrir mão da nossa cultura familiar garantida.
Isso tudo é o preço básico. É o normal. 

Mas acontece que as vezes temos que dar mais do que isso. As vezes o preço é inflacionado com taxas extras.
Ariel saiu do meio aquático e foi para o terrestre. As vezes saímos do meio rico e vamos para o pobre, do rural para o urbano, as vezes saímos de uma família alegre e carinhosa e nos deparamos com uma nova família fria e distante, as vezes casamos com pessoas que realmente nos fazem perder a voz, a opinião, os amigos, o estilo de vida.

E eu vejo em consultório que o sofrimento maior é o medo de perder o afeto dos pais por ter feito uma escolha independetemente da vontade deles. A idéia de trair sua origem é aterrorizante, não é? De boicotar os planos que seus pais fizeram para você. A culpa por não pertencer mais àquele meio é um preço bem alto, mesmo que seja só fantasiosa.

Mas na história da Ariel tudo ficou mais fácil depois que o príncipe se apaixona por ela e faz com que sua voz magicamente volte. E sua identidade de sereia aparece também de vez em quando possibilitando o regresso ao mar para visitar a família, o peixinho Linguado e seu amigo Sebastião.
E, o melhor de tudo: o mar inteiro a recebe de braços abertos!

Happy End.
Adoro a Disney!! A história original é terrível e baixo astral.
Gosto desta metófora:
Quando existe amor é possível todos terem voz.
Quando existe amor é possível que sua identidade, por mais bizarra que seja, continue existindo e sendo respeitada em outras culturas, outros ambientes.
Com amor, a transformação não precisa ser trágica e dramática. Dá para conciliar tudo. Não precisamos abrir mão de quem somos só porque nos casamos.
Que bom!

Em breve haverá na Inglaterra mais um casamento real.
Qual será o preço que Kate Middleton pagará para se casar com o seu príncipe? Quantas avós britânicas terão que ser sacrificadas para garantir um lugar ao lado de William?
E qual será a bruxa? A mídia? Mais uma vez?


    

2 comentários:

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