segunda-feira, 28 de março de 2011

O titereiro invisível

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome." (Clarice Lispector)

Acho que pode ser chamado de comichão, de aflição, de larica.
Mas a verdade é que é uma vontade incontrolável de auto-realização, o que os junguianos chamariam de encontro com o self.

Alguns ouvem o chamado e se entregam.
Outros não ouvem.
E alguns não se entregam.

Bom, vou começar do começo.
Neurologicamene falando, existe o sistema simpático e o parassimpático.
Isso acontece porque o cérebro da gente não pode gastar energia e sinapses com todos os movimentos que fazemos na vida: colocar o sabonete de volta no suporte, guardar a moeda do troco, bater a mão no interruptor para apagar a luz... coisas repetitivas e pouco importante na longa rotina do nosso dia.

O cérebro, então, simplificou o trabalho e fez, literalmente, um atalho para que possamos fazer essas coisinhas banais indepententemente da nossa consciência. Por isso que ficamos na dúvida se trancamos ou não a porta, se apagamos ou não a luz da sala quando saímos para viajar.
Em geral está tudo em ordem, mas parece que não fomos nós que fizemos e aí a  necessidade de verificação.

Quando dançamos as pessoas perguntam:
-Como você fez este passo?
Putz... temos que parar, entender nossos próprios movimentos, organizar o lado direito e esquerdo e encontrar uma maneira didática de ensinar o passo. Muito difícil!!!! Ligar no automático e dançar é bem mais fácil.

- Qual marcha você está usando agora no carro?
Não dá para responder sem olhar. Depois que aprendemos a dirigir um carro mecânico, a necessidade de mudar a marcha se torna tão natural que fazemos sem pensar.

O sistema automático possui uma sabedoria própria decorrente, obviamente, do treino que recebeu da consciência durante o aprendizado. E aí fica independente, não precisa mais nos nossos cuidados.

Mas uma pessoa que não confia neste modo automático de funcionamento sofre. Os psiquiatras chamam isso de transtorno obssessivo compulsivo (TOC), que é uma desconfiança patológica em seu próprio sistema nervoso e faz com que a pessoa verifique mil vezes uma coisa que ela sabe que fez, mas não acredita e precisa conferir.

Isso provoca a insegurança de estar entregue às suas próprias regras malucas.
Quer coisa mais horrível do que não confiar no seu sistema nervoso?
E daí a angústia, ansiedade e, claro, depressão.

Bom, estou dando uma mini aula de neuropsiquiatria porque hoje eu acordei pensando que talvez aquele comichão que a Clarice Lispector se refere ser um sistema automático de auto-realização que insistimos em não respeitar.

Existe um destino, uma sina, um trajeto que precisamos fazer para nos sentirmos realizados e tranquilos. Uma sensação de paz, dizendo que está tudo certo, tudo dentro dos conformes.

Os espíritas devem chamar isso de carma, darma, ou sei lá o quê. As tárólogas e o mapa astral enxergam isso com uma incrível nitidez.

"Eu só quero saber em qual rua minha vida vai encostar na tua" (Ana Carolina)


Não tem explicação, mas deve existir.

Depois de ficarmos anos achando que estamos sendo guiados exclusivamente por nossas escolhas, percebemos que existe um outro sistema também decidindo nossa vida.
Automaticamente.
E sem precisarmos pensar nele e muito menos conhecê-lo.

É bem mais fácil dançar sem ter que entender os passos.
É bem mais fácil trocar a marcha quando simplesmente sentimos que precisamos.
É bem mais fácil viver sem explicar e entender.

Mas tem gente que fica verificando tudo. Insiste em funcionar apenas com base na compreensão das coisas.

E uma pessoa que não confia neste modo automático de funcionamento da vida sofre.
Isso provoca a insegurança de estar entregue às regras do seu próprio destino. As regras do titereiro invisível
Quer coisa mais horrível do que não confiar no seu self?
E daí a angústia, ansiedade e, claro, depressão.


E o desejo fica sem nome, misterioso e as vezes parece doença.

"Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe."
(Caetano Veloso)



5 comentários:

  1. Nem sempre a gente está atenta, mas quando está tudo se encaixa e faz sentido. Ganhei um livro que fala sobre isso de uma forma bem humorada. Deu vontade de contar o final agora. Caso você se interesse o nome dele é "Desastre", hehehe. Beijão.

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  2. Belo!
    I see you tomorrow (por que será que insisto em escrever em inglês pra vc?? Coisa esquisita...)
    Love.

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  3. Você fala em inglês comigo porque é poliglota, não tem a menor consciência de quando está usando suas diversas linguagens. Coisa de gente chique!
    Sil, quero o livro emprestado, pode ser?
    E... anônimo trol (aprendi isso ontem, trol é um cara que entra no blog só para meter o pau), bobagem é o seu narizinho torto!

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