quarta-feira, 30 de março de 2011

A difícil arte do desprendimento

Vocês já viram Toy Story 3? Andi vai para a faculdade e precisa decidir o que fazer com os brinquedos da infância. Ele não consegue se desfazer de nada. Buzz, Rex, Sr. Cabeça de Batata, porquinho... todos vão para o sótão. Woddy vai junto com o jovem para a faculdade, sortudo.

O ser humano é simbólico e possui a incrível capacidade de atribuir valores sentimentais a objetos. Aí ficamos estranhamente apegados à coisas estranhas, e na falta do ser amado usamos o objeto dele para sentirmos sua presença.

"E hoje o que eu encontrei me deixou mais triste, um pedacinho dela que existe,
um fio de cabelo no meu paletó!" 

Essa capacidade não é ensinada e nem cultivada pelos adultos, é inata. O ser humano nasce simbólico. Seu cérebro já possui este poder de se emocionar com objetos.
Bebês sabem o poder da blusa da mãe, um paninho, um bicho de pelúcia. São os chamados "objetos de transição" que deveriam ter aceitação irrestrita nas pré-escolas durante o período de adaptação.

Meu marido guarda a colher de pau da mãe dele que morreu há 16 anos. É a único objeto dela que existe em casa. A colher é velha, rachada, quebrada, mas ele usa ela toda vez que quer fazer algo realmente gostoso. O Dr. Bactéria (paranóico do Fantástico que acha germes em todos os lugares) teria um chilique se visse, mas meu marido jura que aquele pedaço de madeira o ajuda a fazer boas comidas.
Ok, não discuto.

E assim fazemos com tudo que foi envolvido numa época boa da nossa vida. Nos apegamos.
Uns mais outros menos.

Aí vem o budismo e diz que o apego às coisas materiais é algo mundano, terrestre, e que o desapego é necessário para evoluirmos. O espiritismo prega o desapego dos bens materiais também. Feng Shui diz que se o seu vaso preferido quebrar, jogue fora! Um vaso colado com Super Bonder bloqueia os bons fluidos da casa e compromete a circulação de energia.

Forças maiores conspiram contra nosso desejo de apego a objetos tolos!!!
Ah... mas é tão legal!!

Tudo bem que tem gente que exagera!! Tem aqueles que não joga fora escova de dentes velha porque acha que poderá usá-las na pia da cozinha (eca, Dr. Bactéria teria uma síncope). Existem senhorinhas que não jogam fora papéis de presentes porque têm certeza absoluta que poderão reutilizá-los um dia.
E existem ainda os guardadores compulsivos. Gente maluca que simplesmente não consegue se desfazer de nada. E mais! Levam para casa coisas que encontram na rua porque podem apostar que aquilo tudo terá uso no futuro. Entulham a casa de coisas, infernizam a vida de quem vive com eles e transformam-se numa ameaça pública acumulando toneladas de lixo. Já viram isso? É mesmo impressionante. 

São pessoas excessivamente simbólicas. Atribuem afeto a tudo.

Estou falando tudo isso para falar do luto, num caso de morte ou numa separação. É difícil prá caramba lidar com os objetos. TUDO tem uma história, tudo traz recordações. Tem gente que resolve o problema em segundos eliminando qualquer coisa que traga lembranças tristes, queimando ou dando para alguém.
Outros, por outro lado, cultivam os objetos patologicamente por anos, intactos, transformam cada canto da casa num altar. O ambiente fica macabro e triste.

" A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu."
 (Chico Buarque)

"Ainda tem o seu perfume pela casa, ainda tem você na sala, porque meu coração dispara quando tem o seu cheiro
dentro de um livro. " (Adriana Calcanhoto)

Ambas as músicas são de cortar os pulsos. E o filme também.
Lembro ainda de Naomi Watts lavando o tênis da filha morta no filme "21 Gramas". Triste demais.

Vocês já tiveram amigos para ajudá-los no desprendimento de lembranças doloridas e sangrentas? Eu já, e eles são essenciais. Outra visão, outras prioridades, mas com uma compreensão amorosamente suficiente para entender nossos apegos ensandecidos.


Quer coisa mais gostosa do que você usar uma roupa que foi da sua avó?

Para não sermos budistas desprendidos que não são deste mundo, mas também não sermos guardadores compulsivos, hoje lanço esta prece:

Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para jogar fora as coisas que não posso guardar, coragem para guardar as que eu consigo lidar e sabedoria para distinguir uma da outra – vivendo um dia de cada vez, desfrutando cada objeto de cada vez, aceitando o desapego como um caminho para alcançar a paz, considerando o mundo materialista como ele é, e não desprendido como eu gostaria que ele fosse, confiando em meus amigos para me ajudar a arrumar todas as coisas para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e sumamente feliz com minhas lembranças na eternidade.
E conceda-me um armário grande suficiente para guardar coisas que são fofas demais para dar ao orfanato. Ajude-me a mantê-las na família para as próximas gerações.


 


2 comentários:

  1. Adorei a oração, Có!
    Acho que vou imprimir e colar no espelho do banheiro: de manhã, de tarde, de noite!!!
    Valeu, querida, por mais essa pra suas lost-friends.
    Te amo.

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  2. Caraca!
    Posso copiar sua oração?
    PERFEITA!
    beijos (heheh)

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