sábado, 28 de janeiro de 2012

A grama das vizinhas




Muita coisa na vida da mulher entra e sai de moda. Cada hora é uma novidade.
E a moda do dia é a depilação intima total. Chega! Nada de grama nos montes de vênus. Nada de obstáculos aos grandes e pequenos lábios.
Moda é assim, e tudo o que foge a ela pode agora ser considerado de mau gosto, cafonice ou, pior, falta de higiene!!!

E a coisa começou desta forma: um dia as depiladoras brasileiras migraram para os EUA mas não acharam trabalho porque as americanas não se depilavam. Na praia se cobriam com imensos triângulos de pano e, portanto, nunca sentiram falta de uma aparada nas laterais. Mas como precisavam ganhar dinheiro e tinham uma boa lábia, as depiladoras brasileiras inventaram que o balacobaco da mulher latina estava no tal "bikini wax".
Quem disse que o Brasil não tem nada a ensinar aos gringos? Tem sim!


"Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor"
(Novos Baianos)

O molho da baiana melhorou os seus pratos e elas finalmente aprenderam como deixar a grama aparada e sempre curta.
Mas como estas gringas são disciplinadas e ortodoxas, radicalizaram na ideia e resolveram arrancar tudo de uma vez. Antes essa era uma atitude reservada aos filmes pornôs que, realmente, precisavam de uma visão mais nítida da coisa para um melhor enquadramento da câmera. Mas agora as donas de casa, advogadas e profesoras americanas também precisam aderir à nova tendência para se sentirem confortáveis com os seus jardins. Nada de grama ao redor na florzinha!!

E, ironicamente, a coisa agora também chegou aqui no Brasil. O feitiço virou contra o feiticeiro. Ensinamos as gringas a se depilarem e agora precisamos radicalizar como elas. É a nova ordem mundial!

E uma pesquisa publicada esta semana revelou que o sexo oral aumentou significativamente depois das mulheres capricharem na depilação.

Folha de São Paulo: "Segundo a pesquisa americana, parece haver uma correlação direta entre depilação e sexo oral. Mulheres que não removem pelos pubianos relataram, em 58,7% dos casos, ter recebido sexo oral nas quatro semanas anteriores à pesquisa. O índice subia a 70,8% para as que haviam feito uma remoção parcial e chegava aos 81,6% para aquelas sem pelo nenhum." (reportagem completa aqui)

Vixi, e onde ficará a tradição de interromper o ato para caçar um pelo no céu da boca??


Bom, mas a descoberta que fizeram no meio disso tudo é que as mulheres estão felizes em redescobrirem a sua genitália, há anos camuflada e, por isso, desconhecida. Muito mais do que agradar aos homens, descobriu-se que as mulheres gostaram da depilação total e não tem mais vergonha do espelho, apreciando-se nos mínimos detalhes.
Se elas precisam desta exposição para se sentirem poderosas como mulheres, que seja benvinda a tal depilação radical.
"Toda mulher gosta de rosa. E rosas são rosas.
Muitas vezes são vermelhas
Mas sempre são rosas."
(Ana Carolina)
PS: odeio essa música!!!

A primeira vez que uma amiga teve um parto normal eu fui visitá-la e já fui logo perguntando a sensação. A resposta foi rápida:
-Imagina você ter que cagar um sofá. É a mesma coisa.
Hum, ok, muito bem explicado.
Mas o problema é que ela continuou:
-Depois você chega em casa, se olha no espelho e dá vontade de chorar. A barriga murcha parecendo uma bexiga que furou. Com um rídículo risco preto no meio. Os peitos gigantes, cheios de veias, com os mamilos roxos e enormes. Você inteira inchada e cheia de celulite. E a perereca... pelada, igualzinha da sua filha que acabou de nascer!! É horrível!!!!

Tenho trauma deste relato. Eu era ainda adolescente e fiquei bastante chocada com a descrição. Pior, muito pior, do que cagar o tal sofá era a visão no espelho, e a perereca pelada fechava com chave de ouro o terror do corpo disforme.

Desde então acho estranho o desejo de ficar parecendo uma recém nascida. Imagino (claro) que seja realmente melhor para algumas coisas, mas o preço que se paga para isso ainda me parece caro demais.

Sim porque a coisa dura apenas alguns dias! Depois é um tal de grama brotando de um lado, espetando de outro, provocando inflamações, pelos encravados e até pus.
Qual é a graça nisso tudo??

Conheço muita mulher (muita mesmo) que adora um homem com pelo no peito. Os homens que depilam o tórax nem imaginam que estão tirando de si o calor e a sensação acolhedora que o seu abraço peludo provocaria numa moça desamparada. Conheço também mulher que gosta de uma barba arranhando. Que ficam felizes em se enlaçarem a noite numa perna cabeluda.
Então qual é o problema de um gramado feminino bem cuidado e macio?
Aqui no Brasil já nos tiraram o direito de termos axilas francesas, sobrancelhas mexicanas, buços portugueses e pernas alemãs. Agora temos que ter pererecas...americanas?

Penso que não é a grama que faz uma rosa ser bem ou mal cuidada.
Como já dizia meu sábio amiguinho:

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante."
 (Antoine de Saint-Exupéry )

Sigam, então, as regras do Pequeno Príncipe: dedique tempo à sua rosa e compre alguma ovelha para aparar a grama.
Mas sem a necessidade de radicalismos, ok?


E sabem o que eu descobri com isso? Há algum tempo me questionei sobre a diferença entre a nudez das pinturas renascentistas e a foto banal de uma mulher nua. Falei sobre isso aqui no blog ( link aqui)
Hoje percebi uma coisa incrível. Sabem qual é a diferença? Os pelos. Os pelos são eróticos demais para serem expostos e, por isso, são ignorados por completo no nu acadêmico.
E quem lembrou deles se deu mal e vive sendo censurado em tudo quanto é exposição, inclusive lá no Facebook, onde a famosa imagem abaixo foi recentemente proibida.


"A origem do mundo" (1866)
de Gustave Courbet


Se eu fosse paranóica eu diria que o que está por trás da nova moda é uma tentativa (provavelmente da igreja católica) de tornar a nudez menos inquietante e mais comportada. Mas, veja bem: isso se eu fosse louca e acreditasse que há motivos obscuros em tudo.
Até na censura da origem do mundo.
Mas sou rasa como uma poça e só vejo nisso uma tentativa de vender mais cera e mais pomada para foliculite.
É, possivelmente, a indústria farmacêutica ditando as regras. Mais uma vez...


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Confete

Alguém percebeu que eu voltei?
Sim, voltei. Meu cachorro me sorriu latindo e tudo mais. É que um monte de gente escreveu contando que não comentam aqui no blog por vergonha ou falta de tempo, mas, diante do meu desespero por falta de feedback, me escreveram em off dizendo que lêem tudo e não perdem um post. Mandaram emails, mensagens e até ligaram para dizer que o blog precisa continuar.


"Oh! Joga água que é de cheiro, confete e serpentina!
Lança perfume no cangote da menina."
(União da Ilha, 1989)

Sabe confete? Então, eu acho que precisava disso.
Eu sei: ridículo.

Mas lá no post do desabafo sobre a sobre a minha crise de relacionamento com o blog ("Adeus Cavalinhos"), além de vários comentários fofos e lindos houve também um maluco que, desde então, não sai da minha cabeça.
Lá vai:
"Volta Volta!! Fico com dó das suas futuras noras:):) "


Não entendi. Meu deus, alguém me dá uma luz!!
Sim, tenho dois filhos homens e possivelmente terei noras dentro de alguns anos. Mas... por quê teriam dó das minhas noras? E o que as minhas futuras noras tem a ver com o assunto do post??
Essas duas carinhas sorridentes no final da frase são uma pista de que a coisa era para ser engraçada (inclusive já escrevi sobre isso no Post: "Como ser legal no Facebook"). Bom, mas não entendi a piada.

A única hipótese que consegui formular é que as minhas noras terão um azar danado por ter uma sogra... irreverente. Será isso?
Putz, ferrou. Já fazem anos que me atormentam com a maldição das mães de meninos homens.Toda mãe de filhos exclusivamente homens ouve horrores sobre o futuro reservado para elas:
  1. Existe uma lei que é incontestável: os netos sempre preferem a vó materna. Por isso, caia na real! É certo que você não terá muito ibope junto à eles;
  2. Outra lei: num casamento o marido sempre acaba se aproximando da família da esposa. É bastante provável, então, que você fique sozinha e abandonada depois que seus filhos se casem;
  3. E, fato: na velhice você vai ser cuidada por...noras.
Odiava esse papo por concordar com ele em gênero, número e grau. Realmente, acreditava que estava ferrada! Seria tããããõ bom ter uma família que me ama!
Sim, porque no fundo, no fundo, a gente só quer ser cuidada e querida.
Confete é bom e eu adoro!!

Aí tive uma idéia brilhante. Decidi que nada disso acontecerá se seu for a sogra mais divertida e legal do mundo!!! Minhas noras me amarão e disputarão a tapa quem será a primeira a trocar a minha fralda. Meus netos me acharão a avó mais legal de todas, meus filhos nunca conseguirão ficar longe de mim e minha casa seria um QG de gente feliz e satisfeita. Isso sem falar nos quitutes que eu serviria ininterruptamente para não correr o risco de perder a atenção da galera.
-Fica mais meia hora que o bolo já está saindo e eu vou passar um café.
Bingo!

Mas não contava que a minha simpatia esfuziante e irrestrita seria justamente o estopim para problemas.
Aí já imaginei o diálogo da minha futura nora no celular com uma colega:
-Lu, comecei a namorar este mês. É um fofo e super gracinha, mas tem uma mãe totalmente maluca. Sim, hahaha, nem tudo é perfeito!!! Lembra que eu dizia que não há nada pior do que ter uma mãe viciada em Farmville? Então descobri que existe algo bem pior: uma sogra... blogueira!! Hahahhahahaha, juro! E o pior é que ela é toda engraçadinha e irreverente, metida a ser moderna. Trata a gente com uma familiaridade estranha e é cheia de fazer piadinhas. O Enzo morre de vergonha, coitado.


-Oi, Sra. Gonçalves. Prazer em conheçê-la.
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Hum... triste mesmo.

Mas aí lembrei que durante alguns anos da minha vida tive uma sogra irreverente. Alías, ULTRA irreverente! Me deixava no chinelo em termos de dar foras, falar demais e ser destemperada. E eu...AMAVA!!!!
Na primeira vez que me hospedei na casa da família ela me recebeu com um jantar ultra chique. E o menu era: sopa de beterraba!!!! Fria!!
Tenho um problema sério com beterrabas e cometi a super indelicadeza em negar a sopa. Aí ela falou:
-Não tem problema, tenho um caldo de palmito na geladeira que eu esquento para você.
Meu namorado riu:
-A Clau odeia palmito, mãe!

As duas únicas coisas que eu não gosto na vida: beterraba e palmito. Agora, me diz: quais as chances disso acontecer no primeiro dia que você vai conhecer a sogra? Lei de Murphy total!
Para a sobremesa ela tinha preparado um lindo bufê de sorvetes: mil coberturas, confeitos diversos e tinha até casquinha para enfeitar a taça. Por eu ser visita ela foi educadamente preparar primeiro o meu:

-O que você vai querer no seu sorvete? Tem marshmallow, caramelo, chocolate, farofa de amendoim, castanhas, chantilly, granulado, confete, canudinho de chocolate, casquinha de biju...
-Nada não. Quero só o sorvete. Puro.
Silêncio na mesa. E ela lançou:
-Nossa, como você é chata!!!!
Terminou a noite cheia de beliscões embaixo da mesa.

E foi assim o começo dos meus anos intensos com uma sogra bocuda e irreverente. Anos deliciosos! Nossa relação era linda e cheia de pronunciamentos sinceros e bem humorados. Dizia que eu devia prestar vestibular de novo porque a minha cara estava cheia de espinhas, batia papo e falava bobagem em todas as lojas que a gente ia e era a palhaça da família que, depois do almoço, sempre fazia questão de me atualizar de todos os foras dados por ela naquele mês.
A sogra ideal para mim.

Por isso eu acho que é bem capaz de eu ter alguma chance de me dar bem com as noras. Mínimas, mas preciso confiar nisso. Vou mentalizar que os meus filhos encontrarão moças bem humoradas e loucas por um pouco de irreverência na vida delas.
É isso: se as minhas noras jogarem no meu time a nossa vida será perfeita.
Ah, e vou fazer macarronada no dia que elas forem me conhecer. Qual é a chance de uma jovem não comer... macarrão?? E vou deixá-las se servirem de sobremesa sozinha. Se quiserem. E se estiverem de regime eu não vou falar nada!! Juro.
Pronto, Happy End!

Mas ai fico dó dos meus filhos...pobres rapazes perdidos no meio de doidas...



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vem cá Luiza, me dá a tua mão...



Luis Fernando Veríssimo (o próprio, tenho certeza!!) certa vez escreveu que morre de inveja dos magros de ruindade. Magros que são magros porque comem pouco não dão inveja em ninguém. Gente que vive de dieta, sofrendo privações e passando vontade não tem sorte nenhuma. Tem disciplina!!
Mas tenho uma amiga que almoça e janta um prato de caminhoneiro, come o dia todo e é sempre magra e elegante. O famoso e inatingível manequim 36.
Ela é a tal magra de ruindade que dá inveja no Luis Fernando Veríssimo.
E no resto do mundo.

Existem também as "lindas de ruindade". Não admiro pessoas que ficaram lindas depois de apliques, alisamentos, botox, plásticas, lipos e mil e uma intervenções. Ficar linda depois disso não é mais do que uma obrigação.
Me encanto é com as "lindas de ruindade". Mulheres que não fazem absolutamente nada e desfilam pela praia com corpos perfeitos, passam os dias no sol e no mar com os cabelos sempre lindos e sedosos, nunca usam cremes e tem a pele lisa e saudável. Vão a uma festa sem precisar passar pelo salão de beleza e reinam absolutas.


Quê???? Imagina!!! Shakira é uma típica linda de ruindade! Mesmo com sombrancelhas grossas, cabelo natural e muito antes de um empresário dizer que ela deveria ser loira.
Esses idiotas não entendem nada de mulher bonita...olha esse olhos! Esse sorriso!!!

 Tem também os "simpáticos de ruindade" (pessoas sempre ultra bacanas sem uma gota de falsidade), os "engraçados de ruindade" (o cara que te faz gargalhar sem o menor esforço) e, claro, os "inteligentes de ruindade"!!! Você se mata de estudar, vara as madrugadas debruçado nos livros, e o cara lá: no cinema, jogando bola, namorando. Aí na prova ele vai e tira um 10 sem a menor dificuldade. Não é um mistério isso? Não invejo os CDFs que não vêem a luz do dia. Admiro, claro, mas não invejo. Bom mesmo é ser crânio de ruindade.

Mas hoje quero falar dos "bons de ruindade".
Vou explicar...
Tem gente que é bom porque o pai, padre, prefeito ou qualquer zé mané mandou ele ser bonzinho. Esta semana ouvi:
-Sinto que estou melhorando, estou ficando mais responsável e maduro. Mas tem algumas coisas que ainda preciso mudar: sou racista e detesto gay. Os gays me dão vontade de... socar.
Pois é.
Essa pessoa está fazendo um belo trabalho interno tentando mudar a crença de que é um ser superior. Ele sabe que está errado pensando assim, sabe que precisa mudar e traçou isso como meta para 2012.
E esta, se me permitem dizer, é uma belíssima meta!

Mas se ele passar a vida sem destruir a cara de um homossexual na rua é apenas mérito de alguém que, um belo dia, lhe explicou que isso é errado. Precisou acontecer aí uma aulinha de como ser uma boa pessoa, e, felizmente, podemos ter estas aulas em vários lugares.
Todas válidas e muito úteis!

Mas este homem ao qual me referi acima não é um "bom de ruindade". É um bom fabricado e moldado às necessidades sociais.

Entretanto, conheço pessoas que nunca nem pensariam em odiar alguém diferente. Pessoas que naturalmente se mobilizam diante do sofrimento alheio, que tem compaixão óbvia e imediata por um estranho. Que não criticam o cara porque ele gosta de uma música esquisita. Que não metem a boca numa coitada que se matou de rir por causa de uma garota que foi para o... Canadá.

Tem gente que nunca se incomodaria em aceitar algo diferente de si mesmo. São os "bons de ruindade" que, mais, muito mais do que os lindos e os magros, poderiam também ser invejados pelo Luis Fernando Veríssimo.
E pelo resto do mundo.

Veja só: ambos os bons (os fabricados e os de ruindade) são válidos e necessários para vivermos em comunidade. Mas precisamos urgentemente descobrir qual é o segredo da generosidade genuina para podermos clonar estes seres e reproduzirmos em série pelo mundo afora. Sim, porque dá MUITO trabalho tornar uma pessoa boa. Ainda mais que eles vão crescendo e se tornando espertinhos, precisando de argumentações cada vez mais elaboradas. Ou algo assim: Como explicar direitos gays a pessoas com discursos estúpidos

Os 10 mandamentos serão repetidos, tipos: ad eternum??
Jura que precisaremos para sempre de regras civis e religiosas para ensinar o... óbvio????

Por isso admiro as pessoas que nunca precisaram de um livro sagrado para entender como respeitar e o cuidar do próximo.
Admiro os agnósticos musicais que não amam música cafona, mas não pregam aos quatro ventos qual é a música certa a ser ouvida. E também adoro os sábios do humor que admitem que mesmo uma babaquice pode ser bastante gozada. Que um programa de TV ruim pode ser legal para alguns e ainda dar margens para questionamentos interessantes.
Que o bom é aquilo que a gente... gosta.

Como é estranho perceber o desrespeito e o ódio brotando no meio de uma bobagem!! Ou entre uma música e outra.
Quando foi que passamos a ser pregadores chatos e irritantes sobre aqilo que é bom para os outros?
Os bons fabricados andam com defeitos de fabricação...







domingo, 22 de janeiro de 2012

Adeus Cavalinhos!!!



Ontem uma amiga escreveu cobrando atualizações no blog.
Pois é... tem acontecido uma coisa engraçada por aqui. Não que eu não escreva. Nada disso, tenho escrito quase todo dia! Corrijo a ortografia, os erros de concordância, arranjo as fotos perfeitas para ilustrar o post e depois... apago. Mando tudo para o lixo cibernético.
Tenho certeza que iria dar polêmica, que seria mal interpretada ou, pior, que irá ser um post ruim e eu cairei em descrédito.
Com medo da reação dos meus poucos leitores, eu prefiro não arriscar e jogo tudo fora.
Tenho feito a mesma coisa no Facebook. Escrevo alguma coisa no mural, compartilho alguma piadinha gozada, divulgo alguma causa nobre, vou fazer um xixi e, na volta, excluo.
Estranho, né? Medo danado de falar bobagem.

Outro dia uma outra amiga me escreveu um email e a primeira frase era assim: "Oi minha querida amiga irreverente!!"
Contei a ela,então, que "irreverente" não tem sido um elogio por aqui. Não me sinto mais confortável sendo irreverente. Pena. Pedi que ela tentasse arranjar outro adjetivo para me qualificar, como: boazinha, leal, bacana, simpática. Isso sem falar nos óbvios: linda, inesquecível, suprema...
Ela respondeu que lamenta muito, e ficará de luto pela morte da minha irreverência. Contou que, inclusive, comentou com outra amiga nossa que a minha irreverência torna a vida delas menos complicada e um pouco mais leve.
Sim, entendo, mas não poderei ser assim para sempre. Sorry.

Bom, e é por isso que meu blog parou. Ele também era irreverente, e eu estou tentando me afastar de gente deste naipe. O blog tem muito "hahahaha", (já parei com isso, perceberam?) e muito campo minado em temas delicados. E eu que me gabava de ser uma pessoa ética, respeitosa e cheia de moralidade? Estou começando a achar que não, não sou.
O post do Patrick sendo Jesus Cristo causou um silêncio inquietante aqui no blog. Nenhum "curtir", nenhum comentário, nenhum compartilhamento. Depois de quase um mês um amiga escreveu dizendo que gostou muito, mas que achou mesmo perigoso.
Bom, resumindo, o blog é irreverente demais e não será um boa companhia no meu processo de reabilitação.

-Venha tesouro, não se misture com essa gentalha.
Brasilicus=Seu Madruga (vagabundo, metido, se acha, mas não ganha dinheiro)


Um exemplo:
Semana passada eu e minha mãe vimos num ponto de ônibus uma senhora japonesa tão estilizada, tão fofa, que paramos para saber se ela queria carona. Era tão linda e arrumadinha que a levaríamos até o Japão se fosse necessário. Mas ela, como uma boa dama que era, não aceitou a carona.
O problema é que aí veio um cara gordo barbudo perguntando se podíamos levá-lo no lugar da japonesa. Hum... tá bom, fazer o quê?

Pessoa para quem queríamos dar a carona.
(juro, a velha estava assim no meio da cidade!!!)
Pessoa para quem tivemos que dar.
A carona! 



















Logo que ele entrou no carro eu já fui contando que, na verdade, queríamos dar carona para a pequena gueixa, mas a gente faria um imenso esforço e aceitaria a presença dele no nosso carro. Ele pediu desculpas e eu disse, rindo, que era brincadeira e que ele podia continuar onde estava.
Bom, no caminho ele foi contando da quantidade absurda de gays que existe na cidade:
-Fiz faculdade em Santos e lá todo mundo tirava sarro de mim ao saber que eu era de Campinas. A cidade é famosa por ter muitos gays. E tem mesmo!
-Qual curso você fez? - perguntou a minha mãe, querendo ser simpática e mudar para um assunto politicamente correto.
-Arquitetua. - ele disse.
Aí a irreverente aqui já lançou:
-Bom, então você também não é muito homem. Você conhece a piada, né?
Nem ia escrever porque a piada é antiga, mas lá vai: Arquiteto= um cara que não é homem suficiente para ser engenheiro civil e nem gay o suficiente para ser decorador. 
-Sei, sei, conheço todas as piadas envolvendo a minha profissão. - ele disse rindo.
Por ele ter achado graça da minha brincadeira, uma porteira se abriu na minha mente irreverente e eu comecei a falar muita bobagem com o cara. Muita mesmo! Ele riu o tempo todo e, para mim, estava tudo bem.
Mas quando ele desceu do carro, minha mãe falou:
-Claudia você é louca!! Meu deus, se você não fosse minha filha eu acharia que você não bate muito bem. Coitado do rapaz!! Ainda bem que ele deu risada, porque eu não acharia graça nenhuma das coisas que você diz.
Aí eu me defendi:
-Só falei assim com o cara porque percebi que ele entenderia a brincadeira. É óbvio que eu nunca brincaria com aquela senhora japonesa que estava na rua!
-Bom, só se for um dom dos psicólogos que eu realmente não tenho. Para mim tudo é muito arriscado. Você pode magoar as pessoas brincando desse jeito.
-Sim, mamãe, é um dom que nós psicólogos temos.

Mentira.
Não tenho dom nenhum. Sou mesmo é muito desenfreada com o meu senso de humor besta e irritante. Penso (tolamente) que perder a piada é um enorme desperdício e que nada devia ser poupado de uma rápida gracinha da minha parte.
Supervalorizo o humor e esqueço que o povo prefere... o respeito.

Bom, é isso. Só isso.
Ser irreverente não está sendo bom para mim e acredito, inclusive, que começou a afetar as minhas amizades.
Não desejo mais isso para mim. Deculpa aí, pessoal, mas a irreverência saiu para um período sabático. E fazer um blog sério de coisas sérias não é necessário nem para mim e muito menos para o mundo, já soterrado de textos bons e importantes para serem lidos.

Meu marido sempre diz: Quem fala demais dá bom dia a cavalo.
Hum... realmente não entendo o que isso significa, mas, de qualquer forma não deve ser algo bom. Os cavalos ficarão sem o meu "bom dia" daqui prá frente.
Dizem que temos dois ouvidos e uma única boca para sermos obrigados a ouvir mais do que falar. Posso acrescentar ainda que temos dois olhos e um único cérebro para ver mais do que pensar.
Vou então evitar falar demais, escrever demais, pensar bobagens e me exceder com as pessoas.
Vamos ver até quando...


Enquanto isso fico em silêncio pensando por quê temos, então, dois rins e uma única bexiga? Dois pulmões e uma única traquéia? Dois ovários e uma única.................................................. nada não.
Adeus cavalinhos.


PS: depois que publiquei este post (vocês não imaginam como foi difícil! e a vontade de apagar??) é que reparei que o cavalinho da primeira foto é o penduricalho do whisky "White Horse".
Puxa, que honra! Adoro esse pequeno cavalinho branco e tenho vários numa gaveta aqui em casa. Pego todos em festas e casamentos que vou!!! Sou a maníaca do White Horse!
 Prá que? Para nada. Apenas um fetiche estranho por minuaturas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A luta no luto


-Mãe, vamos embora!!!!
-Vai dormir no carro, minha filha!
De todas as maluquices da raça humana, a obrigatoriedade de passar a noite em um velório é a que eu acho a mais estranha.
Hello!!!! O cara está morto! Ele não precisa mais de companhia!!!

-Estica, assim...isso, daqui a pouco a câimbra melhora! 
Calma, calma: acho esquisito, mas compreendo.
O problema é que nas comunidades mais tradicionais isso é lei, e algumas pessoas levam tão a sério que o parente que não encarar o desafio fica difamado no grupo. Ah, e quem é vencido pelo sono e vai prá casa é um fracote! Ou pior: não tem consideração pela família enlutada.

Cada vez mais eu concluo que amanhecer em um velório não tem absolutamente nada a ver com o morto. Tem a ver, sim, em se autoafirmar vivo, superando o sono, a dor nas costas, a escuridão e o estranhamento de ter um defunto na sala. Como aquelas provas de resistência de um reality show que demoram 40 horas para terminar e fazem o povo sofrer horrores.
Sem falar no programa gótico que é passar a madrugada perambulando em um cemitério!
Bom, eu acho que essa é a razão do velório de 12 horas ininterruptas: uma prova de que você está vivo, saudável e corajoso.

-Você ainda está com o mesmo que conheci no enterro do Tio Zé?
-Não, prima, voltei a namorar aquele que veio no enterro da Vó Dindica.
-Ahhhh, aquele era muito fofo!
Mas... como nem tudo na vida é trágico, devemos também lembrar que o velório é uma ótima oportunidade para você colocar o papo em dia com os amigos e parentes distantes. Sem música para distrair, comilança para atrapalhar e nem louça para lavar. Sentam e ficam de papo a noite toda! Quer programa melhor? E se for o caso de uma morte natural e previsível, 90 % da conversa nem é sobre o morto!! Ele só é relembrado quando chega algum visitante desavisado que chora escandalosamente ao ver o caixão. Ou quando as coroas de flores vão chegando e precisam abrir espaço para acomodá-las.
Fora isso o papo num velório é sobre amenidades e, veja bem: não há nada de errado nisso. Que bom que além de vivos, conseguimos nos perceber normais.

-Meu deus, a unha do meu pé tá horrível! Que vergonha!!!
-Bobagem tia, ninguém tá reparando.
-Na pressa nem lembrei de calçar um sapato fechado...tsc.
E ainda tem mais maluquices!!
Falando agora em termos estruturais: e o investimento absurdo que se faz em um caixão de madeira nobre? E a grana que se gasta decorando o túmulo com mármore e bronze? E as flores que se perdem, esturricadas sem sombra nem água? O mais engraçado é que as flores dos velórios nunca são de plástico. Compramos flores de plástico para enfeitarmos as nossas casas e desperdiçamos as naturais num enterro.
Mas qual é razão de matarmos diariamente tantas flores nos cemitérios? Só porque o cara morreu temos que oferecer um sacrifício em sua homenagem? Isso não seria muito... PRIMITIVO para os nossos tempos? Seria a mesma coisa que amarrar um cachorro no mármore do jazigo e deixar ele lá, secando ao Sol. Tipo aquelas pirâmides do Egito onde os faraós eram enterrados com os respectivos escravos. Vivos.
-Ok, eu vou morrer, mas levo um monte de lindas flores comigo!!! 
Qual é a vantagem???

"Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro.
Os punhos, e os pulsos cortados. E o resto do meu corpo inteiro.
Há flores cobrindo o telhado e embaixo do meu travesseiro.
Há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo.
As flores de plástico não morrem."
Titãs e o velório sob a perspectiva do morto. Sim, porque só mesmo lá para haver flores embaixo do... travasseiro.

PS:Felizmente existe no mundo um cara chamado Rafinha Bastos para ilustrar um assunto tosco como esse.
Colocar aqui um morto de verdade ia ser impossível do ponto de vista do bom gosto e respeito pelo tema.


Talvez o ritual de varar a noite num cemitério seja apenas uma maneira de empurrar a dura realidade da perda para um outro dia. Tipo:
-Enquanto amanhã não chega eu só vou pensar na minha dor nas costas, na garrafa de café doce e ácido e na minha amiga que engordou. Sim, porque quando eu puder estar na cama eu vou sentir muita saudade da pessoa morta e ISSO ainda é insuportável para mim.

E o dinheiro gasto com o morto é uma maneira simbólica de investir nele pela útlima vez e dizer que ele vai fazer falta. E vai mesmo, uma vez que você vai ficar longos meses pagando a prestação do velório ao invés de levar a molecada no cinema.
Bem fazem os japoneses que deixam uma discreta caixinha para os visitantes depositarem um dinheiro para ajudar nas despesas do velório. Bacana, né? Muito civilizado esses orientais. E, pela tabela recente, o mínimo que se deve depositar na tal caixa são 30 reais.
Hum... se o cara for popular ainda dá para pagar um pão de queijo no café da manhã.

Preciso urgentemente me convencer de que os rituais do luto são assim: tudo é simbólico e nada deve ser contestado. Muito menos por mim! O tal processo do luto sempre nos faz lembrar que nada mais somos do que uma enorme tribo, com um significado para cada pequeno objeto e/ou comportamento.
E assim será... forever and ever...



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Yes we can!

Sabe aquele momento em que você está com um anjo e um diabinho nos ombros sem saber a quem ouvir, mas está loooouco de vontade de se entregar ao desejo? Compro ou não compro a minha vigésima bolsa? Viajo ou não nas férias, estando no cheque especial há 3 meses?

Então, é duro aceitar que você poderá se queimar tão facilmente cedendo a uma reles tentação. Faz a gente se sentir imauro, vulnerável e fraco, não é?
Bom, preparem-se porque os meritrocratas tem a solução para o dilema. É simples: se convença de que você... merece!!!!!!!!
-Seu biscoito hoje veio em outro formato!!
Somos criados por um sistema de recompensas pavloviano e estamos sempre esperando uma premiação por sermos boas pessoas. Mas no mundo real as recompensas não aparecem. Não somos elogiadas por termos ajudado a vizinha a cuidar dos filhos. Não ganhamos medalhas por sustentarmos a família o ano inteiro!
Aí, tal qual cachorrinhos treinados, ficamos alertas, abanando o rabo e aguardando asiosamente o biscoitinho cair de algum lugar. Olhos atentos, salivação abundante, a adrenalina da espera...
-Parabéns, você merece! Pode puxar!!
E aqui está o macete da turma do "eu mereço": imaginar que o biscoitinho pode estar disfarçado de brownie no meio do regime, de cigarro entre um e outro adesivo de nocotina, de uma TV nova na liquidação de janeiro ou mesmo sexo casual no meio do casamento.
Você merece!!!
E ainda ganha um amigável tapinha nas costas: Bom garoto!
E é esta a mentalidade dos pecadores meritrocatas!!!
Conheço vários assim.


Existem, por outro lado, os pecadores racionais que sempre conseguem argumentar o porquê de terem saído da linha. Tecem longas ladainhas, improvisam teorias inéditas buscando organizar o pensamento para justificar o erro. E alguns ainda arranjam cúmplices: minha terapeuta disse que preciso me reinventar como mulher, meu chefe falou que preciso enturmar na equipe e eu acho que os happy hours são uma boa oportunidade profissional para mim, meu nutricionista disse que preciso comer um pouco do que comia antes para não radicalizar no regime.
Bingo!
Tudo bastante compreensível e decente. Diferente do bobo metritrocrata, você não está cedendo ao um desejo, está apenas seguindo ordens e fazendo (muito bem, por sinal!) o seu dever de casa. Você é um batalhador!! Biscoitinhos caninos são para os idiotas. Tenho orgulho da sua eficiência!


E existem, claro, os pecadores ingênuos que juram por Deus que não sabiam que aquilo iria prejudicar a vida dele ou a dos outros. Incrível como ainda existe isto no mundo e é ainda mais incrível como eu acredito na inocência destes pobres coitados! Tem gente que acha que não há nenhum problema em negociar com a escola do filho um ano inteiro de mensalidades atrasadas. Tem maridos que não vêem prejuízo algum em pagar para ter sexo na rua. Pior seria se ele...se apaixonasse!
Chamo isso de pecadores psicopatas que, de verdade, não conseguem ver imoralidade nenhuma em seus atos.
Tadinhos.
-Naaaaaaada a ver! Ela é uma amiga boazinha...

E nos 3 exemplos acima, o resultado é... voilá: 0% de insônia no fim do dia!!!
Nada de deitar no travesseiro com a cabeça ruim e a consciência pesada.

E com isso os 7 pecados (e algumas outras cositas más!) fazem a festa da garotada que acreditam piamente que estão aonde deveriam estar.
Bom, muito bom.
A única coisa que tenho a dizer sobre isso é: a culpa é mesmo uma merda! Fazemos papel de cãozinho idiota, nos convencemos do inconvencível, damos uma de João sem braço só para isolar o efeito devastador da culpa sobre a nossa vida.
E, com isso a alienação dos próprios atos, dos próprios princípios e, mais do que tudo, a incompreensão dos próprios desejos cresce no mundo a cada dia.

Que falta faz um bom momento de reflexão para colocar os pingos em todos os is...

 i de Idiota, i de Incompreensível, i de Imoral...

Mas eis que o rabo abana e começamos:

 I de bIscoitinho, i de Inocente, i de bom garotInho!!!! 

  Hahahaha...