terça-feira, 5 de abril de 2011

Nenhuma mercadora fora de Veneza

Uma vez fui a Veneza.
Era minha primeira vez na cidade.

Cheguei no fim de uma manhã e tinha um dia e meio para conhecer a pequena região surreal e suas mil atrações.
Depois do almoço fizemos o que deu vontade: passseamos pela cidade sem rumo, apenas atravessando pontes e nos deliciando com a cidade mágica e linda.
Na manhã seguinte, museu, e depois do almoço eu disse:

-Vou para o hotel dormir.
-Hã???? Você está em Veneza! Hello!!!
-Sei disso, mas preciso dormir, estou cansada.


E dormi a tarde inteira. Só acordei de noite. Fui jantar e voltei para a cama.
Muitos sonhos, sonhos intensos, desses que a gente acorda cansada, faz xixi e precisa voltar para enfrentar outros sonhos.
E o que pareceu um desperdício (quem passa o dia dormindo em Veneza?) era, na verdade, um estado de exaustão diante de tanta história, tanta informação, tanta novidade porque já tinha vindo de Roma, Pisa, Toscana, Firenze.
Meu senso estético transbordou com o excesso de beleza e eu precisava fechar os olhos para recuperar minha paz.

E isso aconteceu comigo ontem na minha arrumação de ontem.
Sem tanta beleza, infelizmente, se bem que a água já bate no meu portão e barquinhos estacionam em frente de casa.
Fiquei exausta, não apenas pelo trabalho braçal, mas pelo excesso de estímulos e objetos contendo histórias e afetos, bons e maus. Cada gaveta aberta era uma tumba ressucitando mortos que, no final do dia, começaram a me assombrar.
Por isso, nada de "garage sale". Não conseguiria transformar o passado em mercadoria.
Fiz umas três viagens de carro depositando tudo em instituições espalhadas pela minha mini cidade. A vantagem de morarmos num país miserável é que existem pessoas necessitadas em todas as esquinas.
Olhar mais uma vez para tudo aquilo seria pesado demais.
Precisei me libertar do peso e, em poucos minutos, foi o que aconteceu.

Foram 300 quilos de desapego. De história pessoal. De objetos familiares.
E tudo foi feito de forma tão rápida que agora eu olho para a minha casa vazia e digo: nem doeu!
Não doeu, mas sobrou o cansaço.
E meus sonhos foram igualmente intensoso e simbólicos.
Finito.
Wake up, little Claudia, wake up.


"I spent a lot of my time looking at the blue.
No wonder that I blue it!"
(Kate Bush, a diva)
Por favor, não reparem no vídeo feio e tosco, mas Kate é assim: tãão década de 80
A segunda opção era bem pior...

Symphony In Blue

I spent a lot of my time looking at blue,
The colour of my room and my mood:
Blue on the walls, blue out of my mouth;
The sort of blue between clouds, when the sun comes out,
The sort of blue in those eyes you get hung up about.
When that feeling of meaninglessness sets in,
Go blowing my mind on God:
The light in the dark, with the neon arms,
The meek He seeks, the beast He calms,
The head of the good soul department.
I see myself suddenly
On the piano, as a melody.
My terrible fear of dying
No longer plays with me,
for now I know that I'm needed
For the symphony.
I associate love with red,
The colour of my heart when she's dead;
Red in my mind when the jealousy flies,
Red in my eyes from emotional ties,
Manipulation, the danger signs.

The more I think about sex, the better it gets.
Here we have a purpose in life:
Good for the blood circulation,
Good for releasing the tension,
The root of our reincarnations.

I see myself suddenly
On the piano, as a melody.
My terrible fear of dying
No longer plays with me,
for now I know that I'm needed
For the symphony.
I spent a lot of my time looking at blue
No wonder that I blue it!

Symphony In Blue (tradução)

Passei muito do meu tempo a olhar para azul,
a cor do meu quarto e do meu humor.
Azul nas paredes, azul da minha boca para fora.
Aquela espécie de azul entre as nuvens quando o sol aparece,
aquela espécie de azul daqueles olhos que você fica perdido de amores.
Quando aquele sentimento de futilidade se instala
 Tenho vontade de pedir a Deus para explodir a minha cabeça.
A luz no escuro, como os braços neon
A calma que Ele procura, o monstro que Ele acalma
O líder do departamento das boas almas.
Eu me vejo, repentinamente
no piano, como uma melodia
O medo terrível de morrer
Nunca mais eu vou ter
Por que agora eu sei que sou preciosa
Para a sinfonia
Eu associo amor com vermelho
A cor do meu coração quando ela está morta;
Vermelho na minha cabeça quando o ciúme ataca
Vermelho nos meus olhos de laços emocionais
Manipulação, os sinais do perigo
Quanto mais eu penso sobre sexo, melhor ele fica!
Aqui temos uma razão para a vida:
Bom para a circulação do sangue,
Bom para aliviar a tensão,
É também ele a raiz da nossa reencarnação.
Eu me vejo, repentinamente
no piano, como uma melodia
O medo terrível de morrer
Nunca mais eu vou ter
Por que agora eu sei que sou preciosa
Para a sinfonia
Passei muito do meu tempo a olhar para azul,
Não admira que tenha acabado com isso!


4 comentários:

  1. Olha que mudança desde aquele post sobre guardar coisas!! É isso, a vida é mesmo muito dinâmica, uma dinamite, eu diria!! rss...
    Welcome to the jungle!
    Beijos, Liebling.

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  2. Excelente!!! Porem será que conseguimos apagar e desapegar essas recordações do nosso eu interior e não apenas do físico-material? Acho que essas lembranças nos acompanharão na eternidade do progresso evolutivo como seres humanos, durante estágios que virão a passar neste plano, até que um dia vamos evoluir e entender o significado verdadeiro Amor liberto,desapegado e simples.

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  3. Uma amiga teve tanto medo de estar dispensando coisas muito importante, que colocou as dúvidas em uma caixa, passou fita adesiva e guardou por 1 ano. Passado o tempo, ela não se lembrava mais do que tinha lá dentro. Não abriu.Doou fechada e feliz por saber que se não se lembrava era porque não era realmente importante. Achei muito legal.

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  4. Falei disso ontem: Se existem coisas das quais a gente não sente falta por um ano é porque relamente não precisamos dela. É a "prova dos nove" do desprendimento! Boa!

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