sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sou morto, mas não sou corno.


A vida do psicólogo Malcom Crowe não andava nada bem.
Sua esposa o esnobava, o mundo parecia lhe virar as costas e ele já não tinha muito trabalho, só um paciente estranho e cheio de esquesitices.
Diziam até que a mulher dele estava com um outro cara.
Ele estava entrando em desepero quando descobriu que, na verdade, estava morto.
E a sua reação, surpreendentemente, não foi ruim. Malcom ficou feliz e aliviado com a notícia.
Happy End.
  
Pacman: o médium canibal, hahaha!!!

E a minha reação no cinema foi:
Ah... por isso que ninguém olhava para o coitado?  Só o fofíssimo Cole, que ficou o filme inteiro choramingando: "I see dead people, I see dead people...".
Ele deu UM MONTE de dicas!!!
Dãããr!! Como eu não percebi isso antes?


O mundo parou para falar do fim surpreendente de "O sexto sentido".
Tinha gente que falava com um ar blazê: "Nossa, tava na cara! Eu percebi desde o começo!"; outros citavam detalhes técnicos: "Você não reparou que o reflexo do Bruce Willis não aparece no close da maçaneta da porta????"


Não, eu passei muito tempo admirando o olhar do Bruce para me preocupar com maçanetas.


"Uh....as vezes um charuto não é apenas um charuto."
já dizia Bill Clinton

Uso este exemplo do filme sempre que quero mostrar o lado bom de um diagnóstico médico.
Falo também de um cara que conheci que, quando criança, lia muito mal, repetiu de ano, se sentia a pior de todas as crianças da escola. Até que num maravilhoso dia descobriu que tinha miopia: 5 graus!!! E o sentimento foi igual ao de Malcom Crowe: ufa... não sou burro! E o óculos virou seu melhor amigo.

-Pronto? Podemos sair?
Não é bom saber que não somos os culpados pelos sintomas horríveis que carregamos?
Ufa, sou diabética, por isso estava sempre tão cansada. Eu não sou preguiçosa!
Ufa, tenho hipotireodismo, por isso minha libido diminuiu! Não há nada de errado com meu casamento.
Ufa, tenho psicose, por isso os vizinhos estavam falando mal de mim embaixo da minha cama. Não há nada de errado com meus vizinhos. Nem com a minha cama.
(PS: esta história dos vizinhos na cama é real.)

E depois do diagnóstico a pergunta é sempre a mesma: "Mas durante quanto tempo eu vou ter que tomar a Insulina? O Puran T4? O Risperidona??" 
E a resposta é: depende.
Em doenças com começo, meio e fim a coisa pode ser calculada, pode até haver uma previsão.
Mas para as doenças crônicas não tem nem o que pensar.
Você quer ter qualidade de vida? Então tome para o resto da vida. Simples assim
Você pode até se revoltar com o seu destino, discordar do diagnóstico, não aceitar a medicação, mas vai ter que aracar com as consequências e suportar não só os sintomas chatos, mas também a evolução inevitável da doença.
Your choice. Você foi avisado.

O diagnóstico é mesmo assustador, e saber que você não está saudável é realmente pessimo.
Sei disso.

Mas, por outro lado, há uma sensação libertadora e incrivelmente deliciosa quando você percebe que:
1- Finalmente descobriram o seu problema. Uhu!!!!!! 
2- O seu problema tem um nome. Agora você faz parte de um grupo que pode trocar informações e experiências. Corre pro Google!
3- Seus sintomas tem um culpado: a doença. Ótimo! Isso te absolve de toda responsabilidade. A não ser que você mergulhe numa explicação psicosomática maluca que diz que foi você que produziu a sua própria doença. Por favor, evite este pensamento!!! Não ajuda. 
4- Você pode chorar, pode lamentar, mas o choro tem que acabar porque agora você tem uma segunda tarefa a cumprir: o tratamento. E é tão bom se desesperar com hora marcada para terminar o choro! 
5- O tratamento sempre existe.  Se a cura ainda não foi descoberta, pelo menos a sua vida, de agora em diante, tende a melhorar bastante com a atenção médica que você receberá. Sem falar do carinho das pessoas que te amam!!!!!!!!!

E é tão bom saber que existem médicos e cientistas que ficaram anos num laboratório só para te dar um remedinho! Milhões de dólares foram gastos... por você!!
Hahaha! Adoro fantasiar isso!
Juro que não consigo entender as pessoas que não aceitam uma medicação. A adesão ao tratamento de algumas doenças, como AIDS, é surpreendentemente baixa.
Acho incrível, porque acho tão bom olhar para o seu remédio e dizer:


"Oi amiguinho. Obrigado por vir de tão longe para me ajudar. Não vejo a hora de conhecer todos os benefícios que você pode me proporcionar. Eu juro que vou suportar todos os seus efeitos colaterais, ok? Prometo. Porque eu sei que você só quer o meu bem, né? Fofinho!!!" 

Whisky, Cachorro e Remédio: os melhores amigos do homem.
E a frase acima era para o remédio, viu?
O whisky veio de longe, mas não quer seu bem. O cachorro, às vezes.
   
O terceiro estágio é a adaptação à nova situação.
Inserir a rotina médica na sua vida, os medicamentos nos seus hábitos diários e, claro, mudar tudo que está ao seu alcance para ajudar no tratamento: dietas, exercícios, fisioterapia, vida mais tranquila, psicoterapia, e pedir a ajuda dos familiares e povo do trabalho, blá, blá, blá.
Muitos assuntos que fogem do foco aqui.


Mas enquanto isso, na casa do pequeno Cole:

Eu vi o que você fez no verão passado.
E eu também vi você de cueca no quintal
E eu sei que foi você que quebrou a minha vidraça.
E minha mãe só suporta a sua porque são vizinhas.
Todo mundo aqui na rua fala mal de vocês!!!!!!

 Oh, oh... diagnóstico errado!




4 comentários:

  1. É verdade, minha vida ficou mais fácil quando eu aceitei que preciso tomar remédio para o resto da vida....ahhh e que bom que ele existe...rs

    Adorei o texto.

    bjs
    Angélica

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  2. Um barato o jeito como você "amarra" os assuntos rsrsrsrs
    Respondendo a sua pergunta lá de trás, quem comentou do seu blog pra mim foi minha amiga Priscila Teixeira, que mora (na Bélgica?) e acabou de ter uma menininha.
    Por minha vez, eu compartilhei um texto seu com as meninas de um grupo de discussão que participo, (aquele da cachinhos de ouro) e aí, claro que eu citei a fonte, e elas também vieram parar aqui. Uma delas me disse que tinha virado vício e ela também não conseguia mais parar de ler o seu blog. rsrsrsrsrs
    Acho que você está ficando conhecida no boca-a-boca (ou melhor, no dedo-a-dedo rsrsrsrsrs)Beijos

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  3. Aqui na Australia seu blog pode ser lido em ingles.Fica chiquezimo.Seu texto serviu para consolar Renata que sofre de uma dor cronica na coluna. As vezes ela pensa que nao precisa mais do remedio e nao toma e ai no dia seguinta la vem a dor de novo!

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  4. Passei por todas estas maquinas que conseguem ver agente por dentro e só conseguia pensar no seguinte:
    Que bom que tem gente que descobre coisas que eu jamais descobriria, que bom que posso me beneficiar do tanto que alguem se matou estudando, todo nerd tem o seu valor.
    Tambem gosto de imaginar que tem uma turma de cientistas se ocupando de pesquisar algo que garanta meu futuro... bem vivinha e saudavel.
    Adoro como vc brinca com as palavras !
    Boa Páscoa !
    Dia de celebrar o renascimento e a renovação. A nossa reinvenção !

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