domingo, 29 de maio de 2011

"Calma, Beto, calma! Assim você me machuca..."

Quando eu era pequenininha minha professora de natação tinha tanta pena de mim que, quando meu lábio começava a ficar roxo, ela me enrolava na toalha e me punha no colo.

-Tadinha da Claudinha.
E quando tinha competição eu ganhava medalha de ouro mesmo se chegasse por último. Porque, né...
-Tadinha da Claudinha.


Na faculdade fiz 4 anos de natação. No inverno de Ribeirão Preto a professora ficava com dó e dizia que a gente não precisava entrar na piscina. E o inverno de Ribeirão Preto é ridículo!
Um dia ela decidiu nos ensinar o nado borboleta. Eu tentava, mas não conseguia acertar o movimento. Ela então disse que eu não precisava aprender. Borboleta não era importante.
-Tadinha da Claudinha que não aprende direito.

Depois fiz natação com uma mocinha maternal. Ela estava defendendo um mestrado sobre a água da piscina representar o útero. Defendia a idéia de que a fobia das pessoas de mergulharem na água ter algo a ver com traumas de nascimento. Bom, resumindo, era uma fofa. Se eu cansava ela dizia:
-Respira, Claudinha, respeite o seu ritmo. Não se force.


-Fique quietinha no útero, Claudinha.

Aí, em São Paulo, fiz aula com uma mulher bacana. Me dava um chocolate se seu conseguisse evoluir na técnica. Saia de lá feliz da vida, me sentindo um cachorrinho sendo amestrado.

-Um chocolatinho para a Claudinha que nadou Borboletinha!!
Não sei se foi pelo chocolate, mas com ela eu finalmente consegui aprender a maldita borboleta. Mas só nadava se tinha chocolate no fim da aula, hahaha.

Bom, tudo ia bem até que, quando eu tinha 26 anos, mudei de academia e apareceu o Beto na minha vida.
Rapaz ainda, mais novo do que eu, mas era um professor que levava o esporte a sério e não gostava de brincadeira.
Prá piorar me matriculei num horário que só tinha homem que treinava para competição. Só atleta. Nadadores fortes, costas largas, altos e... bom, perfeitos.
Logo na primeira aula, Beto acabou com a minha mão de dançarina de flamenco. De tanto fazer aula de dança, meu punho automaticamente girava e meus dedinhos se retorciam durante a braçada. Beto ficou bravo:
-Que viadagem é essa, Claudinha? Mão espalmada, por favor.

Um dia Beto reclamou do meu maiô:
-Aqui não é Copacabana. Arranja um maiô que não seja cavado.
-Sim, Beto. Desculpa, Beto.

Quando eu parava para respirar ele gritava:
-Não pára não. Quero ver você diminuir 8 segundos, no mínimo, nesse seu Medley.
E eu voltava a nadar toda esbaforida, sentindo que ia morrer no meio da piscina.

Beto me inscrevia em travessias em mar aberto. Me punha com o maiô da academia para eu competir pelo time (eu???? justo eu?). Ficava com o cronômetro na mão e fazia tabela dos meus tempos.
Súper dedicado e sem uma gota de compaixão.

Um dia fui deixar o carro com o manobrista da academia e o rapaz do estacionamento perguntou:
-Perdeu a sua aliança?
Hã???? Achei a pergunta surreal.
-Não- falei sem graça - é que eu me separei... do meu marido.
-Ah.- respondeu ele com cara de tédio.
Cheguei na piscina comentando o assunto. Como pode alguém que me vê 12 segundos por dia perceber que eu estou sem uma aliança? E o Beto tinha a resposta:
-Claudia, todo homem que olha para uma mulher madura repara na mão esquerda dela.
Os meus colegas atletas cairam na risada:
-Beto, você A-CA-BOU de dar um fora!! Sacanagem dizer que a Claudinha é "madura". Coitada! Foi péssimo!!!
E ele, sério:
-Por quê? Falei alguma bobagem?? Por acaso ela é uma garotinha?

Não Beto, você tem razão.
Não sou mais uma garotinha. Não tenho que ser pega no colo, não tenho que ser poupada de críticas, não tenho que ficar descansando se estiver exausta e nunca mais precisarei ganhar chocolate de recompensa por meus méritos.

Sou uma mulher adulta e já estava mais do que na hora de eu ser tratada como tal. Sem frescura.

E é incrível como superar nossos limites físicos nos ajuda a superar também os psicológicos. Nuno Cobra (guru, treinador do Ayrton Senna, autor do ótimo livro: "A Semente da Vitória") estava certíssimo! Quando o nosso corpo diz que a gente é capaz a alma acredita e a coisa se torna uma verdade.

Um dia o Beto foi embora. Eu, então, saí da academia.
Perdeu a graça.
Nunca na vida niguém mais acreditou no meu potencial físico como ele.
E hoje eu entendo que precisamos de "Betos" assim na vida. A famosa função paterna que os Junguianos tanto falam. Enquanto a função materna de pega no colo se você cai e chora, a função paterna diz:
-Levanta agora! Chega de frescura.
Parece que estão te maltratando, mas no fundo, no fundo, ela te quer bem. A função paterna te diz nas entrelinhas:
-Eu confio no seu potencial. Sei que você consegue e vai dar conta do recado.

Uma delícia ter alguém que acredita nisso.
Mesmo que seja um brutamontes, sargentão, que não vê encanto nenhum no seu maiô que insiste em entrar no bumbum.

E a borboleta criou asas de verdade... sem frescura.
Esta semana eu decidi ressucitar seus ensinamentos e parar de treinar sem meta, só por um reles prazer ou para dizer aos outros que faço algum esporte.
Nada disso!!!
Voltei a exigir do meu corpo. Voltei a insistir em superar meus tempos mesmo com a piscina ultra gelada e o coração batendo dentro do cérebro.
Hahahaha, sabe quando você fica com o dedinho procurando a veia no pescoço para medir sua pulsação? Pois é. Sabemos que estamos realmente cansados quando não precisamos nos dar este trabalho. O coração bate no corpo todo e não há como perder a conta de suas batidas.

Bom demais...

5 comentários:

  1. Excelente... de novo!!!

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  2. Muito bonito o post. Acho que sofro do mesmo mal; essa coisa de ser "inha" é muito duro. Tadinha, fofinha, meiguinha, bonitinha... Beto foi o máximo...rs. Foi além da sua doçura e "suposta" fragilidade.

    Bjinhos

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  3. Somos exageradamente criados por mulheres: mães, avós, babás, empregadas, professoras primárias, a "Tia" da natação. Muito boazinhas e tal, mas não ajudam nada a superar nossos limites do medo e da ignorância dos nossos potenciais. Adoro essa energia masculina. Faz muita falta professores homens na pré escola e ensino fundamental. Maldita pedofilia que criou este tabú de que homens não podem conviver com crianças!!!

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  4. Quando eu era criança gostava de carrinhos(também) mas só me davam bonecas, meu sonho era ter uma autorama rss, mas eu era uma menininha...,quando meu pai falava duro com meu irmão eu achava que um dia chegaria a minha vez, não chegou mas mesmo assim aprendi a lição,ser mulher não é ser fragil, precisar sempre de alguém para fazer alguma coisa, cresci sou mulher , feminina e hetero ,mas aprendi cedo a enxugar as lágrimas e deixar de frescura sem traumas e sou muito bem humorada, tolerante e feliz, meninas acordem!!

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  5. Sensacional, Claudia. Adoro nadar e me superar. Gosto de quem me corrige e de quem me força a nadar mais e melhor. Já passei por muitas academias em 3 cidades e tenho certeza que os meus treinadores preferidos eram os que apontavam minhas falhas. Sucesso!

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