domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Filha de Nanã

Uma vez um colega de trabalho, iniciado no candomblé, me chamou para conversar. Disse que eu precisava fazer algo urgente para me libertar de uma coisa horrível que fizeram contra mim. Segundo ele, a única cura seria ir até Salvador me consultar com a sua mãe espiritual.
Dei risada. Obviamente fora de cogitação.

Mas aí outras três pessoas (de outras religiões) vieram me falar EXATAMENTE a mesma coisa: existia um trabalho que precisava ser desfeito. E mais! Era um caso de vida ou morte! Se não era mentira, pelo menos estava sendo bem contado. Comecei a me preocupar. Além do mais, eu conseguia admitir que estava mesmo bastante doente.

Por coincidência, neste mesmo mês fui apresentar um trabalho em... Salvador! Peguei o endereço da "mãe" do meu colega e prometi dar um pulinho lá, se desse tempo.
O último dia do congresso estava chatíssimo, então dei uma fugida e fui procurar a tal mulher. Liguei para marcar uma hora e minhas amigas junguianas ficaram morrendo de inveja! Estávamos todas interessadíssimas no estudo dos orixás, e estar sendo aguardada em um terreno de candomblé era como ganhar na loteria.
Psicólogas, bah!

O endereço era "Ladeira da Poeira", lado pobre e decadente do Pelourinho. Peguei um taxi e fui. A velha era incrivel e muito interessante. Ela jogou búzios, me disse muitas verdades e também algo que eu nunca soube: que sou filha de Nanã, a deusa das águas barrentas, pantanosas, enlameadas. Velha sábia e séria, Nanã não aceita ser mãe de qualquer um. Sua presença é uma coisa rara, só para pessoas especiais. Uau! Que honra!
Ela confirmou que alguém realmente fez um trabalho para me ver morta (coisa light!) e que seria preciso que eu ficasse hospedada na casa da mãe de santo por mais dois dias!



Hahaha!!! No way! Tinha um avião para pegar às 8 da manhã do dia seguinte. Ela lamentou profundamente. Disse então que eu deveria deixar com a mãe de santo alguma peça de roupa para que o trabalho fosse feito na minha ausência. Não ia ficar tão bom, mas ela achava que daria conta do recado. E é aí que a coisa fica engraçada.
Eu estava usando saia na altura do joelho, blusinha regata (sem sutiã) e chinelo. Não pensei duas vezes: tirei a calcinha, usada e suada pelo calor de Salvador, e deixei lá no altar da velha e séria Nanã!!! Hahahaha! A mãe de santo, então, olhou respeitosamente para a calcinha e começou a cantar.

Depois da linda cerimônia feita com minha peça íntima, a senhora gritou para o rapaz que morava nos fundos :
 -Ô Jefferson, a menina precisa deixar a calcinha dela aqui, mas eu não tenho coragem de deixar ela ir embora deste jeito. Por favor, leve a moça de volta.

Entrei morrendo de vergonha no fusca laranja do Adônis de quase dois metros, mas ele respeitosamente cruzou a cidade em silêncio e me devolveu ao congresso.
Minha amiga estava doida de curiosidade.
-E aí? Como é que foi lá? Foi legal?
Respondi com um sorriso malicioso:
- Só tenho uma coisa para te dizer: voltei sem calcinha.

Ainda bem que minha calcinha era linda e nova. Ufa! Bem que minha avó sempre me disse: "Use sempre calcinha bonita, querida, a gente nunca sabe quando é que uma mãe de santo vai precisar dela para salvar a nossa vida."

Naquela noite choveu tanto, mas TANTO, que a cidade ficou debaixo d´água. Rios de lama e barro invadindo Salvador. Tudo culpa do meu batismo como filha de Nanã. Uma noite barrenta e absolutamente perfeita. De manhã cedo o aeroporto ainda estava às escuras, com tudo fora do ar e vôos atrasados.

Querido povo baiano, desculpa aí pelo incoveniente! É que Nanã leva tudo muito a sério...

O trabalho foi um sucesso e minha calcinha conseguiu me representar bem na minha ausência. A mãe de santo ligou algumas vezes para o meu amigo querendo saber notícias minhas. Uma fofa.

Mas hoje, depois de 8 anos, não quero mais ser filha de Nanã. Esta semana recebi a visita de mãinha e estou sufocada com sua presença em minha vida. Preciso com urgência me emancipar. Macaulay Culkin fez isso e eu também quero.
Por quê? Por tudo isso que me aconteceu nos últimos 4 dias:

  • A represa em frente ao nosso portão subiu tanto que está quase transbordando. 
  • O esgoto voltou e minha casa ficou um caos. Quebramos o chão, trocamos os canos recolhemos o esgoto com sacos plásticos... uma delícia. 
  • Coincidentemente a prefeitura decidiu quebrar todo o encanamento que fica embaixo do asfalto na rua, mas SÓ em frente de casa. E toda vez que saio nestes últimos dias eu atolo meu carro no buraco profundo e enlameado que eles deixaram aberto em frente à garagem. 
  • Ontem os canos de água misteriosamente estouraram no jardim (nada a ver com o esgoto) e fontes jorravam do chão de cimento. Quebramos tudo de novo. Mais barro, mais água para ser tirada. 
  • Misteriosamente centena de peixes mortos apareceram anteontem boiando em frente de casa. Avisei o órgão competente, eles vieram investigar e descobriram que SÓ na frente de casa isso aconteceu. Furnas inteira está livre do problema. Só os 20 metros de represa em frente a MINHA casa sofre da maldição.
  • E agora no almoço uma tempestade caiu e, além das 42 goteiras já familiares, uma lama marrom misteriosamente começou a brotar do piso da cozinha formando um lago e me impedindo de fazer almoço.


Por tudo isso, querida Nanã, não quero mais ser sua filha. Não sei se essa lama toda é carinho ou bronca. Nunca entendi muito bem a senhora. Não consigo saber se está furiosa ou querendo chegar pertinho para me beijar, mas a verdade é que estou cansada de sua umidade. Foi muito bom te conhecer na Ladeira da Poeira.
Poeira eu ainda aguento, mas lama não dá mais não.

E obrigada por tudo que fez por mim. "Saluba Nanã"



12 comentários:

  1. Eita, Claudinha!
    Acho que ela quer mesmo é bater um papinho com você, hein? Talvez esteja te dando uma dica: benza-se!
    Ui.
    Beijos e muita água pra dissolver essa lama...

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  2. O que mais me impressiona e a capacidade de você ter tempo e presença de espirito para ainda fazeruma crônica tão deliciosa como essa em meio ao caos da sua rotina , no meio dessa lama toda ! Aí esta a explicação da visita da sua entidade : ela quer lhe fornecer material para seu blog . Você e minha heroína! Te amo . Tenho muito orgulho de você . Climene

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  3. amei amiga!!!!!!!!!um momento delicioso nesta manha de muito frio!!!!!!
    grande beijo e se precisar voltar para Salvador fica la em casa!!!!!

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  4. Tá bom fofa,pra deixar a Nanã vai ter que voltar lá e pegar a calcinha de volta. Isso se o Jefersson não está com ela lá, num altarzinho no quarto dele...hahaha

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  5. Como você é tonto!!! Jefersson era um cara sério, não tinha o "Wando style"! Mas confesso que também já fiquei imaginando o que foi feito dela depois que o trabalho foi encerrado, rsrs. Bjs e obrigada pela ilustríssima presença. Vc sabe que eu adoro você!!!

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  6. vc tem que ter e sorte de ser filha de nana por que as filhas de nana tem videncia e sonhos profeticos

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  7. e nana ea mais velha de todos os orixas vc tem e que tomar cuidado e as filhas de nana de cabeça sao muitos fechadas
    eu mesma sou filha de iansa e de ogum e tenho muito orgulho de ter eles como meus pais espirituais eu tou quase encorporando isso e legal tenho muito orgulho de ser umbandista

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  8. Concordo com a Climene

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  10. A crônica é perfeita.Mas vc precisa saber quem é Nanã e depois dizer Salubá de joelhos...Vc fosse filha da Bahia, e conhecesse a verdadeira essência dos Orixás...jamais falaria coisa parecida!!!
    Felicidades e muita sorte para vc!

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    1. Jamile, me conta então tudo isso melhor porque eu juro quero muito saber. Não tive intenção de magoar ninguém, muito menos... Nanã! "Saluba" é uma expressão corriqueira e eu jurava que era apenas um cumprimento. Depois me explica, ok?
      Obrigada pela dica, pelo elogio e felicidades para vc também!

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  11. olha...pesquise.Nanã é maravilhosa,vc não sabe como foi agraciada em ser filha dela...a sabedoria,a calma,e tdo o seu amor para cm os outros,vem dela.

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