sábado, 6 de agosto de 2011

Tigre comendo maçã

Psiquê se apaixonou por Eros no escuro.
E no escuro ficou.
Ele era, literalmente, um anjo. Um homem perfeito e ela ficou bastante satisfeita com o achado.
A promessa dele era:
-Vou te fazer a mulher mais feliz do mundo! Mas você terá que me prometer que nunca irá me ver na luz do dia e nem tentar me enxergar no escuro. Promete?
-Ok.
-Jura???
-No problem. - disse a realizada Psiquê.

Mas aí ela caiu na bobagem de contar para as irmãs que encheram a cabeça da moça de caraminholas.
-Ele deve ser horrível!!!
-Se fosse bonito não falaria isso!
-Eu, se fosse você, tentaria vê-lo para garantir que não dorme com um monstro...

E a Psiquê acendeu uma lamparina naquela noite. O óleo pingou em Eros, ele se queimou, e a ferida nunca mais cicatrizou (mostrando que as traições são perdoadas, mas não esquecidas).
Ela comeu o pão que o diabo amassou para reconquistá-lo. Ainda mais que ele era filho de Afrodite... mas isso é uma outra história.
E o pior de tudo: ao acender e vela, Psiquê descobriu que o marido era o homem mais lindo do planeta e que ele não queria que ela o visse justamente para garantir que a esposa estivesse com ele pelo que ele era, não pela maravilha do seu rosto e corpo.

E o mesmo aconteceu com Bela. Era feliz da vida vivendo com a Fera até que... suas irmãs começaram a falar no ouvido dela e fizeram ela perceber que o cara realmente não era muito especial. No fim da história as duas irmãs intrigueiras viraram pedra para enfeitarem o portal do castelo da mocinha.

Barba Azul casou e era um ótimo marido. Mas tinha uma condição: a esposa não podia entrar num cômodo no segundo andar da casa. Mas... novamente as irmãs fizeram a cabeça da esposa feliz e ela, vencida pela curiosidade, abriu a porta. O terrível segredo do marido foi descoberto e ela teve que ser morta. Azar...

-5:15 da manhã, de óculos ray ban, eu vi
na minha frente aparecer a sua irmã: chapada,
descabelada! De braços dados com um tipo
mascarado. O cara tinha cara de televisão.
-De televisão??? Não acredito!
-Seu novo namorado era um roqueiro super
estrelo, sensação do verão.
-Ai que ódio!!!!!
(Rita Lee)
Isso para não falar nas irmãs da Cinderela: folgadas, difamadoras, invejosas e más.

E na vida real existem pessoas assim. Quando comecei a namorar meu marido fiquei deslumbrada falando mundos e fundos do meu novo namoradinho. Mas muitas amigas já vieram com o mesmo discurso: "No começo é assim mesmo, mas depois todos os homens são iguais."; "Pode esperar que depois virão os problemas, certeza!!"; "Olha direito porque ninguém é assim tão perfeito"... blá, blá, blá.
Incrível como tem mulher que odeia homem!
E na primeira briga já começam: "Não vai ligar prá ele, hein?"; "É bom deixar ele sofrer um pouco."

As "irmãs" dos contos e mitos são essas mulheres que vivem por aí (ou às vezes até dentro de nós) que ficam zicando a relação amorosa e tentando te convencer que a sua escolha está errada. Nem sempre fazem isso por maldade, tadinhas, mas acabam prejudicando nossas certezas.
E o respeito pelo marido, pelas promessas, pelos segredos do casal vão por água abaixo. Trocamos o nosso afeto pela sabedoria das irmãs e, obviamente, magoamos o ser amado.

E qual é o homem que não impõe condições para ser um bom companheiro? Eros não queria ser visto. Barba Azul tinha um quartinho secreto.
Mas todos nós temos os nossos segredos e manias:
-Serei um namorado perfeito, mas você tem que me deixar jogar meu futebol na 4ª à noite.
-Prometo ser o melhor, mas você nunca poderá perguntar se eu gosto mais de você do que da minha ex. 
-Sou um bom namorado, mas por que você fica querendo saber do meu passado? Não pergunte nada do que passou, tá bom?
-Nunca, nunca mexa no meu celular e nem no meu notebook. Pode ser?

Mas as "irmãs" sempre te convencem a fazer bobagem. E você queima seu Eros para sempre, invadindo sua privacidade, falando mal do cara e rompendo promessas.
Depois para reconquistá-lo é um custo...

Não é engraçado o poder que estas mulheres tem? Tá tudo bem no seu namoro, tudo acontecendo às mil maravilhas entre 4 paredes. Mas aí você começa a dar ouvidos às vozes alheias e, subitamente, parece que sua escolha está errada, que você é uma idiota por aceitar as manias do cara e que as condições dele são despropositadas.
E o duro é quando isso acontece dentro de nós. "Irmazinhas" chatas sentam no nosso ombro e nos assolam com suas críticas, fazendo a gente parecer a pessoa mais infeliz do mundo.

Por isso, se no meio de um deserto existencial você encontrar a sua irmã parecendo um tigre comendo uma maçã... tome cuidado.
Hahaha, esta música é doida de tudo.
Mas tem uma frase que eu adoro e que, hoje em dia, Pisquê concordaria com ela em gênero, número e grau:


"Apague a luz prá eu te ver melhor" 
(João Penca e seus miquinhos amestrados) 

Se é no escuro que você se dá bem com seu companheiro, fique no escuro. Nem sempre precisamos de luzes fortes para conhecermos os outros.
E não é ser corno manso ou trouxa. É ser sábio.

4 comentários:

  1. Esse texto mostra uma qualidade rara e incrível- sua capacidade de pegar coisas banais (como o pop João Penca e seus miquinhos amestrados) e coloca-las em outro patamar. Nunca mais ouvirei esta musica do mesmo modo, assim como nunca mais verei as histórias contados do mesmo jeito. Então, quando um texto percorre um caminho com o leitor e o modifica a partir de então, eu considero esse um texto muito bom. E aqui vemos a cada post essa capacidade sua, de colocar um microscopio em fatos e coisas que antes só avistavamos de bem longe. Obrigada por mais um desses! Sou fã n. 1 mesmo.

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  2. Sábia!!!!!!!! Palavrinha escolhida com afinco, de presente pra você.

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  3. A história de Eros e Psiquê está entre as minhas favoritas, mas nunca a tinha lido desta maneira. Muitas vezes as vozes alheias têm, sim, razão, mas e daí se eu quiser ficar no escuro? Como de hábito, retuitei...rs. Pessoal de Botucatu já tá viciado no seu blog...rs.
    Bjos

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  4. Paulo Ricardo Gadelha Pinheiroterça-feira, agosto 09, 2011

    Realmente é difícil para uma mulher segurar a sua curiosidade, deixar de olhar o rosto do seu amante, ficar só no escuro.

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