terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cada um sabe aonde aperta...

Ontem, ouvindo vinil na garagem, meu pai me ensinou uma coisa engraçada.
Existe uma música que se chama "André de sapato novo" que tem umas paradinhas (apelidadas de breque) que é justamente para o dito André arrumar o sapato novo que lhe incomoda.
Obviamente todos já ouviram a música, mas a história do sapato novo torna os breques engraçadíssimos:

Hahaha, adorei isso.

Odeio quando vamos numa sapataria, experimentamos um calçado desconfortável e o vendedor sempre vem com o mesmo papo: "Mas laceia, viu?"
E até lacear, o que eu faço? Nossa vida não é regida por um chorinho que nos espera para reacomodarmos nossos calos. André tem este privilégio, nós não.
E não dá para esperar lacear sapatos para sermos felizes.

E todo o resto também é assim. Sabemos que as coisas mudam, mas teremos tempo e paciência para esperar?
Uma vez ouvi um amigo meu dizendo algo que eu levo sempre comigo: "Não espere por mudanças. Elas podem até acontecer, mas não podemos contar com elas ao investirmos num relacionamento."

Em outras palavras: um cara paquerador tem grandes chances de ser assim, mesmo depois de comprometido. Uma moça ciumenta pode continuar neurótica depois da troca de alianças e poderá, sim, transformar a sua vida num inferno.

A esperança de mudanças traz as ilusões, e as ilusões podem te fazer investir numa roubada.
Essa idéia de que o sapato vai lacear, de que o namorado vai parar de usar drogas depois de casado... bobagem.
Pode? Pode. Mas contar com isso é que não pode.

E incrível como, mesmo sabendo disso, temos e dom da ilusão. O rapaz acha que a mocinha que não o atrai sexualmete só é assim porque ele ainda não se acostumou com ela. Mas depois do casório... percebe que a coisa não mudará!! E aí? O que fazer?

Esperar o sapato lacear? E se ele não for do seu tamanho e nunca lacear?? E se a fôrma for diferente e seu pé precisar de um outro estilo de sapato?

Aí, neste caso, podemos dar uma de Elis Regina e passar a vida dançando com a ponta de um torturante Band-Aid no calcanhar. Mas aí precisaremos de um belo whisky com guaraná para dar conta do incômodo, hehe.

E a vontade é de ser o André e gritar para o maestro:

"Oh, come on! Give me a breque"


Mas na vida real o breque não existe...
Podemos passar a vida amaldiçoando nossas escolhas erradas e a promessa de que as mudanças ocorrerão com o tempo.
Chato, né?

E tem gente, ainda, que prefere não investir em outro sapato achando que só mudará as bolhas de lugar. Um aperta na joanete, é verdade, mas o outro pode ser cruel com o calcanhar.
Não gostam de trocar o certo pelo duvidoso e ficam incomodados ad eternum, morrendo de medo de encontrar outro problema pior no próximo parceiro.

Mas para algumas pessoas o milagre acontece! O sapato novo fica usado, laceado e tão familiar, tão confortável que nem parece que algum dia foi aquele perrengue todo para conviver com ele.


"É, talvez eu seja simplesmente como um sapato velho,
mas ainda sirvo se você quiser.
Basta você me calçar que eu aqueço o frio dos seus pés."
(Roupa Nova)


É, essa coisa de insistir num sapato que machuca é mesmo um risco. Para estômagos fortes ou para pessoas fracas, depende do ponto de vista.

Neste aspecto, as chinesas têm muito o que nos ensinar:


 -No começo ele me machucava um pouco, não vou negar, mas depois fui me acostumando e hoje parece que fomos feitos um para o outro. Estranho, as vezes acho que nenhum outro sapato serviria para mim.



Ah, parece tranquilo, pode mandar um alcoólatra, violento e mentiroso para mim... se as chinesas deram conta, eu também darei.

Um comentário:

  1. Paulo Ricardo Gadelha Pinheiroquarta-feira, agosto 10, 2011

    É isso mesmo,Cláudia, nessa fauna humana tem gosto pra tudo.

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