sexta-feira, 3 de junho de 2011

La vie n`est pas rose...réel.

Minha avó morreu há 9 anos. Deixou saudade e o seu cheiro delicioso em vários lugares.
Esta semana abri um livro dela para ler e o cheiro estava lá.

"Porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro dentro de um livro."
(Calcanhoto)

Eu sei, eu sei, já fiz essa citação aqui antes, mas não tinha como não repetí-la.
Incrível como as folhas de papel guardam a essência das pessoas que folhearam. Bom demais saber que as mãos dela viraram cada uma daquelas páginas, tocaram a capa lustrosa dezenas de vezes.

E dentro do livro da minha avó, além do cheiro, havia... papéis de Sonho de Valsa!!  Não o laminado prateado. O cefolafe cor-de-rosa.
Alisados e cuidadosamente embalsamados pelas páginas do livro. E os casais estiveram dançando lá dentro por anos sem que ninguém notasse suas existências.

Fiquei me perguntando por qual razão minha avó guardou pedaços tão mundanos de plástico. Coisa banal, que jogamos no lixo sem pestanejar.
Mas ela decidiu quardá-los para a eternidade... por quê?
Será que o bombom lhe foi dado por um cortejador romântico?
Será que o casal dançando a fazia lembrar de bailes inesquecíveis?

A verdade é que minha avó era uma sábia.
Ontem comprei um saco de Sonho de Valsa e, adivinha?
O plastico cor-de-rosa não existe mais. Sumiu!
No seu lugar existe agora um laminado rosa lacrando o chocolate à vácuo para que ele se mantenha crocante por mais tempo. O bombom agora não é preso apenas pela torção do papel (como uma bala). Ele é embalado num saco e, depois, torcido apenas para manter o aspecto tradicional do Sonho de Valsa.


"Pink - it was love at first sight
And Pink when I turn out the light
Pink gets me high as a kite
And I think everything is going

to be all right"
(Steven Tyler gostando de ser gay)

Triste.
As crianças nunca mais terão a chance de colocarem o celofane na frente dos olhos para poder enxergar o mundo em cor-de-rosa.
Nunca mais poderemos esticar o plastico e soprá-lo forte, fazendo um assobio agudo e alto.












Os casais dançando ainda estão lá. O aspecto geral ainda é rosa e brilhante e o bombom continua com o mesmo gosto (agora mais crocante!!), mas o plástico não existe mais.
Coisa boba, imperceptível, mas que abala nossa história pessoal e afeta nosso apego às tradições.

Um dia li uma crônica (de alguém que não me lembro) contando que tinha ouvido um boato de que o sabonete "Phebo" sairia do mercado. O cara entrou em pânico. Correu no supermercado e comprou todo o estoque para garantir munição no caso de uma hecatombe nos produtos de higiene pessoal. O alarme era falso, mas o desespero de perder o sabonete com cheiro de história despertou no cronista um apego desmedido pelas coisinhas banais.

A mesma coisa com o plastiquinho quadrado do Sonho de Valsa.
O bombom nem é assim tão gostoso e os papéis celofanes cor-de rosa existem nas papelarias aos montes, por 0,25 centavos a folha. Podemos continuar a ver o mundo cor-de-rosa pagando muito pouco por isso.
Nada foi realmente perdido.
Apenas a tradição.
Já não bastasse a morte da minha avó (muito, muito amada), ainda temos que perder pequenas e grandes coisas no nosso dia-a-dia.
Nossa árvore genealógica perdeu folhas e galhos.

Ainda bem que existem produtos que sabem deste nosso apego às bobagens e ressucitaram embalagens antigas.
Tenho no meu armário uma lata de Aveia Quaker (maravilhosa) imitanto as antigas. Comprei porque não resisti, tamanha a beleza do rótulo vintage. Comprei também toda a linha de embalagens comemorativas do Nescau (não são lindas?) e, ano passado, adquiri muitas latas de Leite Moça com a logomarca antiga.

Mas a embalagem do Sonho de Valsa não vai voltar nunca mais.
A tecnologia agora é outra.
Sorte que minha avó era uma visionária e me deixou de herança pedacinhos de plástico estampado com casais dançando.

Historinha Ilustrativa
Meu filho, aos 4 anos, olhando para a represa perguntou:
-Mamãe, o que é balsa?
Achei a pergunta estranhíssima, afinal ele anda de balsa todas as semanas. Moramos numa cidade que é praticamente uma ilha e a as balsas fazem parte da nossa rotina. Falei para ele da estranheza da pergunta dele e ele explicou.
-Eu sei o que é balsa, mamãe. Mas queria entender o que é um "Sonho de Balsa".

Tadinho. Tenho dó das crianças que gastam suas preciosas sinapses tentando achar explicação para coisas surreais.


-Não é balsa, meu filho. É valsa. E eu também não sei o que é um sonho de valsa. Existem coisas que nem os adultos entendem, acredita?

3 comentários:

  1. Dá licença?
    Cheguei aqui há um tempinho já, a convite da Tati Fadel. Ainda não tinha me pronunciado, a casa está sempre cheia e ainda não tinha dado certo de ir falar com a dona. Mas agora parece que deu certo. Gosto muito do que vejo aqui, a sua casinha é muito arrumadinha, bonita e interessante. Queria te convidar pra passar na minha, qualquer hora dessas, tomar um chá. O endereço é http://derrubandoparedes.blogspot.com
    Lá é meio bagunçado, por favor não repare. Mas seja bem-vinda.

    Abraços.

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