sábado, 25 de fevereiro de 2012

Queimando pontes...

Já aconteceu de você sair da sua realidade, viver experiências diferentes e voltar ao mesmíssimo lugar?
Claro que já!! Acontece com todo mundo. Pode ser uma viagem linda, pode ser um envolvimento com situações novas, o contato com outras realidades...
E pode ser, inclusive, um relacionamento amoroso, fugaz e transitório. Você vive aquilo intensamente depois... tchibum... mergulha de novo na rotina.
Pronto, acabou.
Existem coisas que não nascem para ser eternas.

Mas a imbecilidade da coisa é queimar as pontes que te levaram àquele lugar, achando que, por ser obrigado a retornar à rotina, o melhor a fazer é voltar a ser exatamente como antes. Parece óbvio acreditar que a melhor coisa a fazer é anular o trajeto. E disfarçar as evidências. E esquecer a felicidade vivida.
De preferência para sempre.

E mais uma vez aqui no blog vou falar de um filme que ilustra o que eu pretendo dizer. Para tanto, vou novamente chamar a atriz:
-And the Oscar goes to... Meryl Streep!
Ano passado Cid Moreira foi o campeão de citações aqui no blog. Este ano será de Mme. Streep.

Todos choramos com "As Pontes de Madison" (menos a minha mãe que não simpatiza com a causa, hahaha).
A família da dona de casa foi viajar por uns dias e ela (Meryl Streep) fica sozinha em sua cidade entediante. Mas ela acaba conhecendo Clint Eastwood. Ele é um fotógrafo charmoso que foi à pacata cidade fotografar... pontes.
E, obviamente, eles se apaixonam.
Com ele, Meryl Streep deu risada, foi fotografada e valorizada, ouviu elogios, dançou, soltou os seus cabelos e se sentiu desejada. Ficou sensual, feliz e linda.
Tudo de bom!
Mas quando ele a convida para ir embora da cidade, ela decide ficar.
Apesar de triste, o final foi previsível, afinal a mulher tinha uma vida para levar, casa para cuidar, marido para amar, filhos para criar... essa realidade que todo mundo conhece bem.

E o auge da tristeza do filme acontece no fim quando o marido chega de viagem e fala:
-Querida, vamos ali no centro comigo comprar algumas coisas?
Ela vai. Ela já tinha escolhido continuar a vida ao lado da família e, ir às compras, faz mesmo parte da tal rotina doméstica.
Enquanto espera o marido fazer as compras, dentro do carro, Meryl vê logo adiante Clint Eastwood se preparando para partir definitivamante da cidade. Ela então, sozinha no banco do passageiro, faz a melhor atuação gestual da história do cinema.
Esta:

Fica longos minutos segurando a maçaneta da porta, freiando o anseio de correr dalí e fugir para sempre com o fotógrafo bonito.
O público torce. O clima é tenso.
Mas ela, pela segunda vez, escolhe ficar.
O marido, então, chega feliz da vida com as sacolas e eles vão para a casa.
The End.

A cena da maçaneta é a mais dramática para o público e era também a mais triste para mim. Mas um dia a minha psicóloga me mostrou uma tristeza ainda maior no filme.
Para ela, a cena mais triste acontece antes, quando Meryl Streep recebe a família que regressa da viagem. Ela está linda, despenteada e sorrindo sozinha na cozinha, ainda lembrando dos dias de amor que viveu por alí. Mas quando avista o carro do marido apontando no portão, logo amarra os cabelo no mesmo coque e assume a mesmíssima postura de uma dona de casa infeliz.
E, segundo a minha querida terapeuta, isso sim era realmente triste.

Isso é queimar as pontes!!! Isso é pegar as experiências vividas e anular as suas existências. Isso é não aprender nada com a vida. Isso é jogar suas lindas lembranças no lixo emocional.
E isto é um desperdício.

Desde então tenho reparado em pessoas queimando pontes o tempo todo. Em várias situações, e todas muito tristes. Não percebem que a graça das experiências, boas ou ruins, é justamente inaugurar novas pontes às suas novas existências.
E obstruir propositalmente esta nova passagem é uma enorme burrice.

Neste fim de semana revejam o filme e, por favor, façam a lição de casa.
Prestem atenção à mensagem simbólica da história e aprendam com ela, ok? Vamos lá, com calma para ninguém se perder:
O cara bonitão chegou do nada na cidade pacata e valorizou cada monumento decadente aos quais, ninguém dava a menor importância. Usou a sua arte para fotografar as pontes. Nomeou todas elas, catalogou, registrou tudo!!  Deu status de obra de arte para as construções consideradas feias, gastas e sem tinta pela população local.
E deu as fotos para Meryl Streep.
Neste meio tempo, soltou o cabelo da mulher, disse que era era linda, elogiou a sua comida, tirou-a para dançar, deu risada das suas gracinhas, fez amor com ela (claro!) e contou que ela é tão importante, mas tão importante, que ele até tinha vontade de levar ela embora para sempre.

Puxa vida, não? Quanto simbolismo!
Conclusão: o cara era era apenas o "homem da ponte". Fez o serviço dele e foi embora. E, muito importante: ele não construiu as pontes!!! Elas já estavam lá! Ele apenas as valorizou...
Entenderam a mensagem ou querem que eu desenhe para ficar mais fácil??? hahaha

Aos olhos do público parece que ela não partiu com o fotógrafo por medo e/ou respeito pela família. Mas a verdade é que ela não foi porque não precisava ir.
Aliás, ela precisava mesmo ficar porque agora existe dentro do seu lar uma missão: ela precisa viver novamente a rotina familiar com este novo status que o fotógrafo lhe deu. Precisa ser uma dona de casa comprovadamente linda, divertida e amada. Precisa mostar ao mundo que ela conhece suas própias pontes e que transitar por elas é fácil e bem legal : dona de casa - dançarina; mãe brava - moça divertida; mulher velha - amante lindona; esposa atarefada - ser humano introspectivo; frágil - forte; ativa - passiva, etc, etc e tal.
Mas o problema é que ela, infelizmente, prende o cabelo e, neste exato momento, incendeia as suas pontes.
E ISSO foi muito triste...

Entenderam?? Então vamos lá, comigo: Você viveu uma experiência bacana? Volte para o seu eixo e use a ponte recém inaugurada para conhecer seus novos horizontes existenciais.
Um dia perceberá que suas mil pontes te levarão aonde você quiser e sempre que você precisar.


E isso se chama acessibilidade ao próprio Self!!


8 comentários:

  1. Esse filme deve ser coisa de terapeuta mesmo. A minha vive querendo que eu reassista o filme...kkkk

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  2. Eu nunca vi esse filme!! Quero assistir o mais breve possivel, parece ser ótimo. Infelizmente já quebrei milhares de pontes na minha vida, mas sempre tento reconstrui-las e ja faz um tempo que estou aproveitando suas construções.

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    1. Que lindo isso, Arthur. Vc, como eu, deve ter tido uma boa terapeuta ;o)

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  3. vc nunca vê os filmes como pessoas normais. sempre aparece com um por aqui pra eu ler o texto e pensar: não é q é mesmo!
    texto incrível.
    Thaian

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  4. Rogério Rodriguessábado, fevereiro 25, 2012

    Bravo ! Li um cliche numa foto recentemente " Desistir não é um ato mas uma escolha que dura para sempre" É brega, razo, mas se encaixa bem !
    Talvez a opção de fazer um comentário se declarando "Anônimo" não te ajude a iniciar novos caminhos ! Bjs
    !

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  5. Clau, Li ouvindo uma das minhas musicas preferidas:
    http://www.youtube.com/watch?v=t_YydYi4its
    tem muito a ver...
    mas acho que algumas pontes merecem ser queimadas...
    bjos

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  6. Cláudia, eu já tinha visto o filme e a peça de teatro, mas este seu texto me tocou. Quanto simbolismo mesmo vc consguiu captar neste filme. bjs Tiemi

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