domingo, 12 de fevereiro de 2012

Delícia...

"Meu vício é você. Meu cigarro é você. Eu te bebo eu te fumo. Meu erro maior eu aceito e assumo:
por mais que eu não queira eu só quero você..."

(Alcione)



-Claudinha, você parece ser uma pessoa tão culta!! Gostar de música brega não combina muito com você.
Ouvi isso certa vez. Agradeci o elogio, claro, mas tive que explicar o porquê das pessoas, mesmo chiques e evoluidas, precisarem gostar de músicas cafonas. Não é o caso de ter ou não um bom gosto musical. É uma questão de sobrevivência! Precisamos alimentar nosso lado carnal e cheio de hormônios para continuarmos nos reproduzindo e perpetuando a espécie. E isso é uma coisa que, infelizmente, as músicas elegantes não conseguem fazer por nós com suas metáforas poéticas e abstrações filosóficas.

Ontem ouvi com calma a música polêmica do tal Michel Teló e pensei que o adjetivo "delícia" é, com certeza, o mais animador para conquistar uma moça. Pelo menos uma moça como eu.
a) Oi princesa.
b) Oi querida.
c) Oi lindinha.
d) Oi delícia.
e) Oi chuchu.
"Delícia" ganha disparado no meu julgamento e tenho certeza que a música recebeu fama por causa disso. Delícia dá a sensação de sermos apetitosas e cobiçadas, e isso é algo bem legal.



"Como um bom-bocado pra te devorar
Dim dim dim dim, dim, dim, dim.
Como um brigadeiro pra te lambuzar
Dim dim dim dim, dim, dim, dim.
Boto a mão no bolo prá comemorar.
Prá te comemorar, prá te comemorar.
Danço o miudinho pra te conquistar
Dim dim dim dim, dim, dim, dim."
(Art Popular)


Semana passada uma moça me contou que estava com raiva do ex namorado que a abandonou. Ela jurou que infernizaria a vida dele até o coitado voltar. Mas o engraçado é que ela não queria o cara de volta para sempre. Não!! No fundo sabia que ele não valia mesmo a pena. Queria ele por apenas mais uma noite...
E isso eu ouvi também há alguns meses. Uma amiga querida ligou para o ex e disse:
-Você pensa que pode ir embora assim, sem ficar comigo pela última vez? Nada disso, volta aqui e faz mais uma vez comigo.
Juro.

Conclusão: necessitar de uma despedida em grande estilo é uma carência universal. Atinge a todos nós, igualmente. O inconsciente coletivo exige que você peça uma última transa, mas nossa mãe não nos educou para implorar por sexo. Ainda mais para um cara que já disse que não te quer.
O que fazer então?
Ataque de Zezé de Camargo e Luciano e mande um email para o cara com o link abaixo.
Simples assim.

Acredito que a nossa alma primitiva não está preparada para decodificar signos confusos encontrados nas letras rebuscadas. Na hora do desespero precisamos mesmo da obviedade do concreto. E, com palavras claras e óbvias, os detalhes sexuais que habitam as músicas cafonas dão uma sacudida naquela líbido que adormeceu em algum ponto entre o trabalho e os filhos:
"Quem dera ser um peixe para em teu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor prá te encantar. Passar a noite em claro, DENTRO de ti." (Fagner)
"E quando SAI de mim, leva meu coração. Você é fogo, eu sou paixão." (Wando)
"Vem depressa vem sem fim DENTRO de mim, que eu quero sentir o seu corpo pesando sobre o meu." (Marisa Monte, sim ela também sabe ser beeeem cafona )

Percebeu o abalo que o "entra e sai" da história faz dentro e fora do seu corpo civilizado? Pois é. Um mal necessário que só as pessoas com pouco senso crítico e muitos hormônios borbulhantes podem fazer por você. Obrigada, querido Wando!

Um dia me disseram que não há como respeitar uma música que tem na letra a palavra... xodó.
"Que falta eu sinto de um bem. Que falta me faz um xodó." (Dominguinhos)
Mas que culpa tem os chiques se também sentem falta de um xodó e também, invariavelmente, arranjam apelidos fofos para nomear o ser amado? Desculpem, mas o nome correto da coisa é mesmo "xodó" e não devemos lutar contra isso. Portanto, acho que aceitar o ridículo da coisa e se submeter à tristeza pela falta do tal xodó é mesmo o melhor remédio.

E isso porque ainda não falei na dor de corno insuportável e crônica. Ninguém fala disso melhor do que o universo sertanejo, e se sentir compreendido e traduzido é mesmo uma delícia no momento de sofrimento. Bom demais saber que alguém já se sentiu igualmente bobo e pequeno, apelando para a perda total de amor próprio na esperança de ter a pessoa de volta.
"Vive inventando paixões prá fugir da saudade, mas depois da cama a realidade: é só a sua ausência doendo demaaaaaaaaaaaaaaaaaaais. Dá um vazio no peito uma coisa ruim o meu corpo querendo o seu corpo em mim." (Fafá de Belém)
"Eu juro por mim mesmo, por Deus, por meus pais. Vou te amar!!!" (Chitãozinho e Xororó)
"Chega de mentira, de negar os meus desejos. Eu te quero mais que tudo, ai, eu preciso dos seus beijos. Eu entrego a minha vida prá você fazer o que quiser de mim." (César Menotti e Fabiano)

E a vergonha de se humilhar ligando para falar... nada? Quem nunca passou por isso? E o pior é que hoje, com o tal BINA dos celulares, nem dá prá desligar na cara e passar impune ao mega mico.

"Mesmo os meus dedos me traem e discam o seu telefone"
 (Bruno e Marrone)


E hoje morreu Whitney Houston. Sou uma pessoa conhecida por não apreciar cantoras que gritam, mas reconheço que é um mal necessário para exorcizar a dor de amor. Moças elegantes que cantam contidamente não convencem a nossa necessidade passional. Não encarnam com maestria o desejo de cortar os pulsos. Mas Whitney era a nossa porta voz do desepero e fará falta nas madrugadas das rádios de todo o mundo.

Mas agora quero falar algo muito importante. Atenção!
Não tente se convencer que gostar de música cafona é excêntrico e até um pouco naif. Não faça isso! Não enquadre a música como um charme a mais que uma pessoa culta e chique deve ter. Tipo um "Lado B" fofo e bem humorado.
Não deveríamos encarar a música popularesca como uma categoria "café com leite" que não merece muito crédito.
Isso é um desrespeito aos coitados que se sujeitaram, se humilharam e deram a cara à tapa apenas para dar voz ao seu sofrimentozinho cafona e inevitável. Não respeito gente que coloca a música romântica como uma subcategoria.
Portanto, vista a camisa e não desperdice a chance de reconhecer-se no clima criado pelo "abajur cor de carne", no perigo de ter o cara perto dos olhos mas longe do coração, e nas lágrimas e chuva que molham o vidro da janela enquanto ninguém te vê.
Tudo isso é você, ouviu? E não necessariamente é o seu lado pior.

E antes que ela morra também, preciso agora homenagear Toni Braxton com sua música bonita no clipe com um cara bonitão.


Say you love me again!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ufa, pronto, acabei.



7 comentários:

  1. Outro dia fui a um churrasco na casa de um cara que eu adoro. E ele A D O R A FAbio Junior. Gosta mesmo. Muito. e todo mundo tira sarro dele.

    Ai ele botou o karaoke. E era Fabio junior em cima de Fabio Junior.

    Ele vira pra mim e diz: Aqui, so EU gosto dele, esse pessoal todo, se esgoelando de cantar TODAS as musicas de cor, nao gosta nao, viu. E muito brega!!

    E eu rolei de rir...

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    1. Ainda bem que eu e vc somos da mesma raça, Inaiê: daquelas que não se apegam à essas classificações mundanas como chique e brega. Eu também adoro Fábio Jr! Como nós duas somos casadas com um Fábio, podíamos chutar o pau da barraca e batizar o próximo filho de Fábio Jr. Que sorte a nossa!!!!!! Bjssssssss e saudades de notícias.

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  2. Claudinha, Depois de muito resistir, finalmente dei a mao (ou seria a face) a palmatoria e aderi ao Facebook. Checo o meu pelo menos dia sim dia nao e sempre procuro por seus novos posts com a antecipacao de quem vai abrir um presente. Coincidentemente, estava pensando nesse assunto ontem: o mulherio americano, tao feminista e conscio do seu papel de igual na sociedade, no escurinho do quarto ainda ouve "stand by your man" da Tammy Linette. Essa gravacao tem sido por mais de 30 anos a mais, ou uma das mais vendidas. Voce esta certa - acho que no fundo, nos nossos gens, esta inscrita essa necessidade de viver o amor total, incondicional de que essas musicas sempre falam. Como sempre, gostei muitissimo do seu post. Beijos, Myriam (mae da Caca)

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    1. Myriam querida, Ouvir isso de vc vale por 40 elogios aqui no blog. Nem imaginava que vc lia isso aqui. Que bacana. Que honra! Beijos e adoro vc!!!!

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  3. Os portugueses usaram a música do Telo para fazer um hino de protesto com outra letra, e claro. Música brega também e culturatransformadora.Parabéns pela bela defesa da música brega, tão importante como qualquer outra.

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    1. Aqui vai a portuguesa:

      http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,ai-se-eu-te-pego-vira-musica-de-protesto-em-portugal,102733,0.htm

      Não sei se isso é legal...

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  4. Sempre admirei minhas amigas que gostavam de música brega! Sempre admirei a coragem em assumir em público o gosto pela música "romântica dor-de-cotovelo". Por isso, que, na faculdade, as Festas do Cafona eram tão divertidas, lembra?

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