domingo, 16 de outubro de 2011

Néctar dos Deuses Indecisos



Vocês já colocaram algo vermelho e rígido na boca que solta um caldo amargo e estranhamente doce?
Enquanto o caldo invade todas as suas papilas gustativas você, de repente, se lembra de que lá existem dezenas, talvez centenas de minúsculos bichinhos que, naquele exato momento, provavelmente nadam pela sua boca mas, mesmo assim, você adora e prefere abstrair a realidade absurda da coisa e se manter apenas na insanidade daquele sabor?
Sim??
Ok, vocês já comeram uma pitanga.

Não conheço sabor mais exótico do que o da pitanga.
É amarga e doce. Ruim e boa em proporções insuportavelmente iguais.
E mais do que tudo, a pitanga é linda. Uma miniatura de abóbora perfeita, que vai ganhando colorações cada dia mais vermelha até cair cansada e murcha.
Lembra alguma coisa? Sim.
Na minha opinião a pitanga deveria ser a fruta que Eva comeu no paraíso, porque nenhuma outra representa melhor o sexo, justamente por suas contradições.
A maçã é óbvia e doce. Aliás, sem graça de tudo! Nada é mais insosso do que uma maçã.
A pitanga não.
Minha querida pitanga é sedutora com seu brilho encerado, sua cor viva por entre as folhas claras e ternas, sua semente redonda e lúdica e... seus mil bichos sempre à espreita para te chocar.

Uma vez li que PITANGA é o nome do bicho que mora dentro da fruta. E a pequenina fruta ganhou o apelido de pitanga justamente pela abundância de vermes.
Mas a gente tem que aceitar a pitanga sem olhar. Nos submetermos cegamente à ela, sem a pretensão de compreender a natureza do bicho. Sem a curiosidade de investigar seus prejuízos (ou benefícios) para a saúde.
E mais do que tudo, sem pudor.
O bicho está lá. Certamente está. Deal with it!
Temos que comer uma pitanga sem fuçar, sem querer saber o que tem dentro. Só assim conheceremos a felicidade contida na fruta.

E mais uma vez, então, vamos falar de sexo.
Igual a pitanga, o sexo tem uma ambiguidade que seduz e assusta.
Temos que aceitar que a coisa é boa e abstrair os bichos que vem dentro do pacote. E os bichos, neste caso, podem ter muitos nomes.
Mas, mais importante de tudo: não devemos achar que, por ser boa, a coisa vai ser fácil e serena. Gostar da pitanga não é a coisa mais tranquila do mundo. E gostar de sexo também não.
Tem gente que passa a vida sem apreciar as dualidades da vida e não existe lugar melhor do que o sexo para se entender onde a dor se transforma em prazer e onde (engraçado isso!) o prazer é tanto que dói.
Onde o salgado vira doce.
Onde a serenidade vira fúria.
Onde o limpo vira sujo e o sujo fica magicamente limpo.
Onde o mundano fica sagrado, onde o pecado vira milagre.

Enfim, coisa para mentes evoluídas.
Não é à toa que ele não é recomendado para crianças. Muito mais do que predisposição física, as crianças não tem a alma preparada para compreender o sexo. A tal ambiguidade erótica não pode ser compreendida justamente pela dificuldade das crianças em conciliar num mesmo ato simbolismos tão diferentes e conflitantes.
Elas não entendem que o carinho é nojento. Que o nojento é gostoso e que o gostoso pode doer.
Isso é confuso demais para uma mente infante.
E muitos adultos também não evoluiram a este ponto.
Esperam algo linear, perfeito, óbvio.
E isso é algo que o sexo NÃO é.

Por isso dizem que o sexo melhora com a idade. Talvez seja mesmo verdade.
E a pitanga é para seres evoluidos e altamente sofisticados.
Que suportam bem o conflito. Que aceitam os bichos escondidos atrás do brilho reluzente. Que toleram as doses mínimas de sabor contidos numa frutinha, sempre tão altas e difíceis de conquistar.
As pitangas não estão nos supermercados, não aparecem o ano inteiro.  E as pitangas não são oferecidas às grandes massas já que nunca são excessivas.
Coisa rara, que se desnuda apenas para os sortudos que sabem apreciá-las.

O sexo também.
Ele não está nas multidões. Na sensualidade do rebolado óbvio. No grito da mídia pedindo atenção.
Isso não é sexo.
O sexo é um arquétipo que, como todo bom arquétipo, vive das contradições.
E a obviedade, definitivamente, não é o seu forte...






7 comentários:

  1. ah minha amiga, ja naos ei se falo de pitanga ou de sexo, se me lembro da minha infancia, da arvore de Pitanga a beira do rio, na casa da Tia Maria, se fico pensando na antecipacao que eu sentia quando chegava para visita-la.
    Era beijo pra ca, abraco pra la, beliscao na bochecha...nossa como ela cresceu, ta namorando? e a escola?... e eu me perguntando:
    Posso ir la pra pitangueira agora? posso ir la pra pitangueira agora? e assim que eles piscavam, eu desaparecia "quintal"afora. ia pra minha pitangueira, me esbaldava com as pitangas que pra mim, nunca foram amargas. Elas eram doces, azedas, deliciosas.

    Quando reformaram a velha casa e a transformaram em duas casas menores, minha unica pergunta foï: E a pitangueira??

    Ja nao sei mais dela. As casas estao alugadas, nao conheco os locatarios.

    Depois de tantos anos o gosto de pitanga e so uma lembranca longinqua. tenho que me contentar com sexo...


    PS : descobri recentemente que chocolate com pimenta e um bom substituto ( a pitanga?? ao sexo??). Ja tentou?

    inaier.blogspot.com

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  2. Rogério Rodriguesdomingo, outubro 16, 2011

    Obrigado Clau ! Agora sei o porque do meu amor incondicional pela Camila Pitanga ! huahuahuahua ! ! Poderia acrescentar algo pertinente, mas a piada foi inevitável !

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  3. Rogério, Estava com uma foto reservada da sua musa para encaixar em algum lugar do post, mas achei demasiadamente babaca. Ainda bem que tenho vc para não macular minha imagem de espertona e intelectual.
    Inaiê, vão-se as pitangas, fica-se o sexo. Pobre de você...

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  4. Sabe que Nunca saboreei uma pitanga.
    Vou tentar diferenciar os sabores.

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  5. Existem muitas versoes para qual era o tal fruto proibido da "Verdadeira Historia de Adao e Eva"
    A maça provavelmente nao era, ne'?
    Uma arvore de apricots secos, talvez...
    Sempre pensei que fosse maracuja', comido sem colher.
    Mas acho que vc agora me convenceu de uma forte possibilidade...pitanga!

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  6. Engraçado! Estava pesquisando sobre o amargo da pitanga, porque faço geleia e sempre fica amargo, daí li seu texto e amei. Adorei mesmo.
    Bjos

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