quarta-feira, 27 de junho de 2012

Criação



Já faz mais de um ano que eu quero escrever aqui no blog sobre adoção, mas o que eu desejava escrever ia causar polêmica.
E eu ia dizer que acredito que, estatisticamente, as crianças adotadas dão mais trabalho do que as outras.
Quando eu falo "estatisticamente" é porque tem umas que não dão trabalho nenhum, e, por outro lado, têm filhos biológicos que dão um trabalho do caramba. Mas é fato de que existe uma grande incidência de crianças adotadas sendo atendidas por psicólogos mundo afora.

Uhhhhhh, que polêmica!! Todo mundo, no fundo, sabe dessa história, mas ninguém ousa dizer porque é demasiadamente incorreto.

Não escrevi sobre a minha constatação porque iam tecer comentários revoltados e eu não teria embasamento teórico nenhum para explicar o meu ponto de vista. Não existem pesquisas consistentes explicando o porquê dessa alta incidência de abacaxis psíquicos entre as crianças adotadas. Alguns psiquiatras e psicanalistas já teceram hipóteses sobre o mistério (a maldição da genética desconhecida; o "filho que eu quis ter para ser uma boa pessoa, mas no fundo eu não desejava"; o não reconhecimento familiar na criança adotada), mas ninguém nunca chegou a certezas. Gustavo Ioschpe deveria passar uns anos estudando o assunto e montando planilhas para, finalmente, desmistificar a adoção.

Bom, com tudo isso, o povo anda com medo de adotar. O que é estranho, porque a adoção existe desde que o mundo é mundo, e não só entre os humanos, mas em toda a natureza. Animais adotam, as plantas adotam!! Soa como algo instintivo e natural. E as crias adotadas não costumavam dar trabalho, mas, ultimamente, criou-se uma praga chamada "tabu" e aí a adoção, antes óbvia, virou um drama.

Mas hoje eu estou escrevendo aqui porque descobri algo incrível. Prestem bastante atenção. Ninguém tem que adotar. Quem quiser um filho em casa simplesmente "pega prá criar".
A diferença? Muita! Vou explicar:




Stuart foi adotado. Vivia num orfanato, mas foi escolhido por uma família que o desejava e, juntos, passaram por toda a burocracia do processo. Aí o povo passou a dizer que agora ele era um membro da família Little. O menino de óculos dizia que não, que ele era um rato, e que ele queria um irmão "normal", mas os pais ficavam bravos e dizia que ele era, sim, um menino igualzinho a ele.
E o filme, que deveria ser fofo, para mim chega a ser macabro e triste.Vocês não percebiam algo esquizofrenizante na família Little?? O sorriso da Geena Davis não os assutava? Uma alegria forçada, uma negação absurda...
Pois é. Já atendi muitas famílias de crianças adotadas exatamente assim. Uma negação total da realidade. E a minha hipótese é que esse jogo de enganação é prejudicial à criança: "eu finjo que sou sua mãe e você finge que é meu filho". E ninguém nunca, jamais, poderá dizer que o rei está nú.
Adotar uma criança desta forma é realmente um problemão.

Mas aqui vai a solução: uma sabedoria dos antigos resolve todo o problema. Tira o medo dos pais desejosos de um filho e dá um lar às milhares de crianças abandonadas.
Antigamente existia algo bem mais simples do que a adoção. Antigamente, como os bichos, você "pegava prá criar".
-Que lindos! Gêmeos! São seus filhos?
-Não, peguei prá criar.

Muitas pessoas acima de 50 ou 60 anos tem irmãos de criação que, vejam bem: "moravam na nossa casa, mas NÃO ERAM nossos irmãos." 
A mãe passeava com a criança de 5 anos a tiracolo e o povo perguntava:
-Que menina bonita. É a sua filha?
E a resposta era algo do tipo:
-Não, não é minha filha, eu peguei prá criar. O pai bebia, matou a mãe, e ela ficou sendo criada por uma irmãzinha de 8 anos, mas que não tinha juízo. Comia toda a papinha da neném e deixava a menina chorando de fome. Aí eu levei prá casa. Era só pele e osso e nem sorria. Em um mês ela engordou dois quilos, tadinha. É muito boazinha, já ajuda em casa e até me chama de mãe.

Preto no branco. Simples assim.
E tem gente que ainda não sabe como contar para o filho que ele é adotado!! Pffffff.

E a criança crescia na família sabendo de cor e salteado a sua origem, a sua história, e sabendo bem a diferença entre ela e os resto dos irmãos.
E... tudo bem!! Costumo perceber que, na grande maioria das vezes, só existe gratidão, respeito e amor nessas relações. Conheço muita gente que tem irmãos de criação e sempre deixam bem claro a diferença: "Olha Claudia, deixa eu te apresentar: essa é a minha irmã de criação. Mamãe pegou ela com 3 anos e ela viveu lá em casa até casar. Mas a gente gosta dela igual." 
Aqui na roça isso é muito comum e não vem acompanhado de sofrimento algum. Muito comum o povo antigo falar: tive 5 filhos e criei outros 2.

E, dentro desta minha teoria maluca, a diferença é:

  • Quando uma criança é adotada ela é considerada filho, mas age como se não fosse.
  • Quando uma criança é "pega prá criar" ela não é considerada filho, mas age como se fosse.

Sim, eu sei que a raça humana burocratizou a coisa e, hoje em dia, existe uma instituição chamada Fórum que traz instrumentos de pressão e cobrança chamados: Assistência Social, tutor legal, guarda provisória e guarda definitiva. E sei que isso estressa prá caramba! Mas encare a criança como se você estivesse, amorosamente, "pegando prá criar" e não se preocupe com a papelada burocrática. 
Só assine.
Fica mais fácil, mais óbvio e mais natural. Como o Balú! 



-Puxa Balú que bonitinho!
-Pois é. Achei por aí. Peguei prá criar e c
ortei o cabelinho chanel. O que você achou?

-É seu menino?
-Não, o tigre atacou os pais dele e eu peguei prá criar. O coração da mãe saiu prá fora ainda pulsando. O pai viu tudo e depois foi morto também. Era tanta unhada que nem dava mais prá saber o que era cabeça e o que era pé. Foi tanto sangue que dava prá encher um rio. Bom, mas ele é bonzinho e sorri o dia todo.


-Uau, Jane, já nasceu?
-Não, seu bobo, essa aqui eu peguei prá criar.



-Linda família, Sr. Tanner. Este peludo também é seu filho?
-Não, a gente pegou prá criar.
-Mas... mas... o nariz dele é A CARA do seu pênis!
-Hahaha, nossa querido, é mesmo!!! Vamos pedir um DNA. 

7 comentários:

  1. A adoção não transforma aquele que adota em pai ou mãe nem o adotado em filho. E por que é que uma pessoa só cuida se adotar? Não é mais a necessidade da própria pessoa de ser pai ou mãe? Complicado, mas eu me pergunto muito sobre isso. Mas a adoção é bela, solidária, carinhosa, doentia também... quando se pega para criar, às vezes transformam a criança em um empregado da casa, empregado explorado... existe de tudo um pouco. No final, seria importante poder cuidar sem ter que adotar. Porque se uns acreditam que se tornam pais por causa do papel assinado, outros se sentem representando um papel artificial. O amparo da lei é indispensável para proteger o menor, mas acho que uma pessoa pode muito bem ter o desejo de cuidar de outra sem ter que necessariamente se transformar esse desejo em adoção. Cuidar com cuidado, com respeito, com solidariedade, com o conhecimento da lei que resguarda o interesse do menor. Liana Mendes

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    1. Conheci uma moça que foi "pega prá criar" aos 9 anos por uma senhora paraplégica. Esta mulher precisava de alguém que a ajudasse a se vestir, tomar banho e de alguém que arrumasse a casa para ela. Além de companhia porque era muito solitária. Bom, é CLARO que a menina ia trabalhar!! Mas a garota morava em condições sub humanas e foi "doada" pela família. Esta senhora a ensinou TUDO o que ela sabe (e é muita coisa!!) e ela hoje diz que só consegiu subir na vida e ser o que é devido a esta mulher que a pegou para criar por necessidades mútuas. Ela hoje é casada, tem uma loja grande e ainda cuidou desta senhora até a morte dela. Digo isso pq é difícil julgar de fora as relações que se formam neste casos. Pegar uma criança para ser um aprendiz é algo que sempre existiu na história da humanidade e se for feito por pessoas sensatas, amorosas e boas, a criança só tem a ganhar.

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  2. P.S. Assunto polêmico mas excelente! Cada vez mais devemos encontrar meios de proteger e de oferecer cuidados às crianças.

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  3. Pegar para criar e un retrocesso! Em tempos de tudo descartavel nao podemos pegar uma criança sem ser para sempre. Uma criança que voce assume tem que ser para sempre. "Tu te tornas responsável por aquilo que cativas " O tramite da adoção significa compromisso eterno com aquele ser humano , na saúde e na doença ,na alegria e na tristeza ate que a morte os separe mesmo que seja preciso muita terapia para organizar a relação.Climene

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    1. Em momento algum eu disse que o compromisso não seria igualmente grande no tal "pegar prá criar". Não sei se alguém percebeu, mas é exatamente igual a adoção, com a diferença que neste modelo ninguém pisa em ovos e não existem meias palavras, o que torna a coisa toda mais fácil de ser compreendida e elaborada.
      E também percebo uma diferença grande: a relação começa por uma razão puramente instintiva: o desejo de cuidar, natural nos adultos, e a necessidade de ser cuidada de uma criança necessitada. E, a partir daí, o amor e o compromisso nascem espontaneamente.
      Vejo que é muito, muito difícil achar um momento ideal na vida para ter um filho biológico: ou vc não tem tempo ou não tem dinheiro, ou mil outras coisas. Adotar é mais difícil ainda porque além de tudo, antes da criança chegar na sua casa, JÁ existe o compromisso e é muito estressante esta pressão (ainda mais que todos sabem que é um caminho sem volta... ou pelo menos deveria ser). O "pegar para criar" começa de um jeito mais natural e óbvio. E é só essa a diferença.

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  4. Sua avó Carmen pegou pra criar 3 meninas: a Raimunda, a Firmina e a Célia. Todas em uma idade e numa situação que eu duvido que alguém iria se candidatar à adoção. Aliás, ao exemplo de sua cidade, ninguém em Abaetetuba - Pa sabia o que era adoção. A Raimunda foi visitar o seu avô dois anos atrás e eu era o único irmão, o mais velho, que se lembrava dela. A Firmina mora em S Paulo e quis mover um processo de paternidade contra o seu avô. A Célia eu perdi de vista. Eu entendo que o saldo é sempre positivo nesses casos em que se sua avó não tivesse "pegado pra criar" a situação dessas três seria muito pior, e é isso que importa. Condenar "pegar pra criar" morando fora da realidade de Guapé ou de Abaetetuba não faz o menor sentido.

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    1. Não há nada para se condenar mesmo porque é uma tradição inerente à raça humana (e digo mais: inerente à natureza). O problema é que, atualmente, a burocracia excessiva do processo de adoção assusta quem deseja proteger e cuidar de uma criança, e torna o cuidado (para mim espontâneo e natural) demasiadamente estressante para ambos os lados. E o tabú do segredo, o fingir ser filho quando na verdade não é... tudo fica incompreensível e provoca dúvidas desnecessárias. Acho que a coisa toda pode ser mais óbvia.

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