quinta-feira, 21 de junho de 2012

Obrigar? Brigas?? -Obrigada, Brigadeiro!


Essa sou eu, aos 9 anos, servindo panquecas
que eu mesma fiz num café da manhã qualquer.

Um post anterior me fez pensar em muita coisa sobre o encontro entre a psicologia e a culinária.
Muitos filmes já falaram sobre isso: "A Festa de Babette", "Como água para chocolate" e outras dezenas de produções sobre chefs de cozinha.
É senso comum dizer que comer traz alegria e que cozinhar é um ato amoroso.
No tal post anterior falei ainda do apetite para comida refletir também o apetite sexual.
Pffff... grande coisa.




Os filmes acima também já concluiram a mesmíssima coisa. "Nove semanas e meia de amor" explicou a todos o importante passo a passo, e os morangos com champanhe de "Uma linda mulher" arrematou a aula.
Ok, todos nós entendemos a lição.
Mas eu precisava voltar aqui para dizer o quão importante é para uma criança aprender a fazer o seu próprio alimento.

Não acredito em psicoterapia infantil sem fogão no consultório. Sempre tive este apetrecho na minha sala de atendimento mesmo sem nunca conseguir teorizar a importância da comida no processo terapêutico. Alimentava meus pequenos pacientes por intuição e, por isso, era de vez em quando mal vista pelos outros colegas. Soava bobo e sem propósito. Eu até poderia "alimentá-los" simbolicamente com o meu afeto, mas... no concreto? Com comida de verdade? Parecia que não havia mesmo essa necessidade.
Cozinhar com pacientes não tem nada a ver com as teorias que emabasam a psicologia.
Mas um dia veio a explicação.

Eu estava fazendo uma formação em terapia familiar e precisávamos passar um final de semana mergulhados nas emoções e lembranças das nossas próprias famílias. Uma dinâmica chamada "Família de Origem do Terapeuta".
Depois de muitas coisas incríveis, ditas e ouvidas num ambiente como aquele, foi marcado um segundo encontro onde todos deveriam levar um prato de comida que fosse o símbolo da família de cada um.
Foi uma festa!
Um levou o frango com farofa da madrinha, outra levou o bolo de fubá da mãe, uma levou a sangria com açúcar da avó italiana servia aos netos no domingo... muitos quitutes carregados de histórias e boas lembranças.
E houve também, claro, o lamento de muitas receitas terem sido perdidas com a morte de quem as fazia. Triste mesmo.





Eu? Eu levei brigadeiro que eu apendi a fazer com 8 anos de idade e todos ficaram com dó de mim. Nem sei porquê! O brigadeiro foi a comida mais significativa da minha infãncia.
O meu leite materno.



Não, eu não tive uma família desprovida de afeto na cozinha e nem fiquei fora dos almoços de domingo. Nada disso! Eu era até bastante amada e minha família sempre foi bem normal. Com uma pequena diferença: eu não gostava das comidas oferecidas pelos adultos.
Nadica de nada.
A razão? Nenhuma. Pura recusa.

E assim fui crescendo: anêmica, magra e inapetente.
Parecia que a coisa seria assim para sempre quando surgiu uma descoberta maravilhosa que mudou o rumo da minha vida para sempre: posso fazer o meu próprio alimento e não dependo daquilo que os outros me oferecem.
Isso pode soar bobo e irrelevante para alguns, mas quando temos poucos anos de idade e estamos totalmente submetidos ao cardápio criado por aqueles que cuidam de nós, isso parece uma linda luz no fim do túnel.


Somos passivos na infância e, qualquer recusa em aceitar a dieta imposta, costuma ser mal recebida e vista como rejeição. E rejeitar o alimento que a sua mãe te oferece abala por demais a auto estima dela. E a nossa.
Negar o peito é um desaforo enorme na relação de uma mãe com o filho! E negar o arroz com cebola... também.
E aí a birra e a implicância se tornam, então, recíprocas.

Se somos seletivos com os alimentos somos taxadas de crianças enjoadas. Se reclamamos da nata no leite, somos frescos. Se recusamos o arroz manchado de beterraba irritamos os adultos na mesa.
-Não gosto da casquinha do feijão, não como biscoitos quebrados, não gosto de cenoura cozida. Só crua!!

Não é fácil ser criança e ter que nos submetermos ao paladar e à cultura gastronômica dos pais, e lutar por uma autonomia gastronômica é uma tarefa difícil quando se é criança.
Mas aí eu cresci e percebi que posso ser dona do meu próprio cardápio. E inaugurar o festival com... brigadeiro me parecia um belo começo.

-Uhuuu! Sou auto suficiente! Posso me alimentar do meu jeito! Vou comer brigadeiro até morrer.
Depois desta importante descoberta na vida de uma criança, a mágica da culinária se reflete na alma e toda a transformação psíquica acontece: alimentar-se sozinha, escolher o próprio cardápio, assar um pão para a família, fazer uma sobremesa para os pais... tudo isso tem bastante significado dentro de um processo terapêutico. E o seu desenrolar é lindo e sempre rico.

A culinária desencadeia uma transformação alquímica das emoções, e a psicoterapia com crianças então deslancha.
-Bon appétit!!!
Quando começamos a cozinhar para nós mesmos percebemos que somos independentes e que a nossa sobrevivência está garantida.

Quando cozinhamos para os nossos pais podemos então inverter os papéis e alimentá-los do nosso jeito. Com os nossos temperos.

E isso é muito enriquecedor para uma criança.

Mas agora fica a pergunta: qual seria a comida mais significativa da família de vocês?? Qual comida marcou mais a sua infância?
Pense em uma e me conte.
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18 comentários:

  1. Esse dia foi inesquecível! Voce nos ofereceu esse café da manha no dia do nosso aniversario de casamento .te amamos.Climene

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    1. Jura?? Então não era "um café da manhã qualquer" como diz a foto. Era a comemoração da união de duas pessoas incríveis!! Que eu amo também :o)

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  2. Estaá tudo explicado. Na minha casa nunca teve comida convencional. só yogurtes, yakults, coca cola, batata frita e bife. A qualquer hora do dia ou da noite...

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  3. Filé K'sobrou... Uma vez as tias resolveram que se podia votar na comida do natal. Nada mais justo numa família de 70, das quais 20 eram crianças e não aguentavam mais o conjuntinho Peru, Tender, Pernil com mil frutas que transformavam o intragável em sobremesa intragável. O voto quase unânime de todas as crianças foi o filé de frango à milanesa IRREPRODUTÍVEL da minha tia Taís fazia. Só que ela se empolgava na cozinha e fez tipo... 468 filés mais ou menos. Mesmo as crianças se empanturrando com aquilo, não teve jeito de dar conta da filezada, porque os adultos ainda ficaram no trio PTP. A sorte do ano foi que a minha mãe tinha acabado de comprar um freezer daqueles verticais, e gentilmente se ofereceu pra guardar o FILÉ QUE SOBROU DO NATAL. Por meses e meses escolhíamos: O que vcs vão querer jantar? O filé que sobrou do natal! Logo o bichinho ganhou o apelido Filé K'sobrou, e até hoje em dia, minha mãe usa o termo. (verdade que hoje ela não faz mais isso, é adepta de suco de couve com banana verde, mas essa é a viagem de comida dela talvez...)

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    1. Trio PTP, hahah. ADOREI essa história!!!!
      Se vc fosse no encontro que eu fui vc teria, definitivamente, que levar o filé K´sobrou (não sei Q´sobrou? as crianças eram poligrótias? já??). Mas vc teria que levar os 468, porque a quantidade é justamente a razão do marco dele na sua infância. Hahah, boa história!
      "Obrigado por contar! Seu comentário é MUITO importante para nós!!"

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  4. Que legal isso que você contou, Clau. Acho que a Isa segue por aí, com essa ideia de ser chef (chefe da própria barriga). Aqui em casa tem as comidas de cada uma das avós, que se eternizaram como especialidade de cada uma das bisas. Da minha avó paterna o arroz doce. Da avó materna a torta de goiabada. Da avó materna do pai, a sopa, que alimenta a alma. Da avó paterna do pai (parece redundância, rs)o rocambole, que vinha de presente pra bisneta mais velha pelo correio nos aniversários. Amor e lembranças em cada uma das receitas. Beijo e obrigada por isso!

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    1. Rocambole pelo correio???? Ai que meigo! Que delícia de lembranças gastronômicas/afetivas!
      Minha avó materna sempre dizia que quando ela morresse, ela não queria que a gente pensasse: "Oh, meu deus, nunca mais vamos comer... aquele filé, aquela torta de frango, aquele macarrão.", e por isso ensinou a todos as receitas dela. Mas quando o caixão dela descia em silêncio, no buraco de terra, eu (talvez até por brincadeira com ela) SÓ conseguia pensar no filé, na torta e no macarrão. Todos sabemos fazer, mas nunca mais fizemos porque NUNCA fica igual.

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  5. agora sei,como conquistei minha independencia,desde pequena fiquei sempre por perto da cozinha,conversando com minha mãe ou avó,ja que elas não aceitavam minha ajuda,porém eu observaba toda a movimentação,assim quando mudei de pais sozinha,desenvolví técnicas culinarias excelentes muito apreciadas por meus amigos e até o dia de hoje mantenho minhas amizades muito bem alimentadas,não só com nutrientes mas com muito amor.......

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    1. Queria ser sua amiga, Irma. Bom quando a gente aprende a cozinhar (bem!!) com as nossas próprias técnicas, né?
      Obrigada pelo comentário! Bjs

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  6. biscoito de polvilho - Quando viajava pra Minas pra ver minha avó, ela sempre fazia biscoitos de polvilho no forno à lenha, mas não era um biscoito caseiro qualquer, era em formato de bonequinhos e bichinhos e era uma delícia =D.
    Tenho duas tias que até tentam reproduzir o biscoito, mas uma coloca erva doce demais e a outra... bem, é bom, mas... não é o da vó.
    Ah! como comia aqueles biscoitos... agora quando a vó me vê pelo skype ela diz "menina, cê tão tão magrinha" [uhum vó...]
    E sei bem, mas não gosto de cozinhar.
    thaian.

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    1. Erva-doce no biscoito de polvilho??? Fica bom? Acho uma heresia isso. Não sou fã de erva doce. Nem de coentro!
      Thaian, não te conheço, mas concordo com a sua avó: você está muito magrinha!! Você podia aprender a delícia que é não depender da mão alheia para se alimentar. Entre num curso de culinária. Ou pega umas receitas na net e vai experimentando. Mas começe com algo que você goste MUUUUITO. Faça hoje uma lista das suas sobremesas preferidas, sua pizza predileta e as comidas mais deliciosas do mundo para você. Essas listas instigam fome e desejo. E isso é muito bom. Depois me conta. Bjsss

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    2. fica bom, mas não sou muito fã de misturar doce com salgado, prefiro sem.
      E sei cozinhar direitinho. o problema é q eu DETESTO cozinhar mesmo. acho q quando minha mãe deixar eu sair de casa [hahaha] serei adepta aos PF's e comidas congeladas da perdigão.
      bjos (ah e adoro teus textos) =D
      thaian.

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  7. Fui expulsa da cozinha,durante a minha infância e adolescência, com um "vai estudar, menina". Talvez isso explique a minha obsessão pela culinária:adoooro!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Claudia, to me apaixonando pelo seu blog! Tive a oportunidade fazer psicologia, esse curso maravilhoso e infelizmente tive que parar pois vou embora da cidade! Mas com certeza quando me estabilizar foi começar de novo e concluir. Já disse que seu blog é ótimo??? hahaha beeijos querida!

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