sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ônibus

Na vida tudo é passageiro...
menos o cobrador e o motorista.

Depois de anos me iludindo com o dito popular, hoje eu cheguei à conclusão de que essa frase é sacana. A idéia de que tudo passa é algo que nunca poderia ser ensinado para as crianças, já que incentiva algo perigoso na raça humana: a esperança de mudança.
O papo no maternal devia ser assim:
-Não, meu filho, tem coisas ruins que nunca passam. Algumas perdas são para sempre e algumas dores são eternas. Nem tudo passa, meu anjinho. Contente-se então com o que sobra, tá bom?

Caxumba passa, amizades se refazem, machucados cicatrizam, a bronca dos pais um dia termina, o drama vivido por uma adolescente grávida passa e o trauma de repetir de ano na escola é esquecido.
Até aí é tranquilo (depois!!! porque na hora é um inferno).

Mas tem coisas que não passam e as crianças precisam entender isso. Fazer uma tatuagem é para sempre, amputar um membro é para sempre e ter um filho é para sempre, mesmo que ele morra depois. Aliás, principalmente se ele morrer: a dor é eterna e profunda.
Tem também amores que não passam e são acompanhados do difícil aprendizado de ter que lidar com a ausência (já falei sobre isso aqui post: Amor 90% Poliéster).Tem inseguranças que nunca somem e tem, obviamente, as doenças crônicas que não tem cura.

Bingo!! E é aí que eu queria chegar. Minha eterna doença. E agora com vocês, a Ilma. Sra. Esclerose Múltipla!!!
"Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou."
(Gonzaguinha)

Cansei de tentar ser muito mais do que um diagnóstico. Um diagnóstico eterno não dá para ser ignorado ad eternum.
Vamos lá, coração: pode explodir!

Bobagem
Hoje eu acordei cansada das coisas que não tem solução e nem perspectiva de melhora.
Mas como não posso desmentir a sabedoria popular assim, descaradamente, preciso encaixar a tal doença nas exceções.

Bom, já que meu problema, definitivamente, não é passageiro, preciso então escolher se quero fazer dele um cobrador ou um motorista.

Hum, ok, vamos analisar as duas opções:
Vejamos, o que temos aqui...

Não, o cobrador não me atrai. Ficar exigindo algo em troca do trajeto é aborrecido, e corre-se o risco de ser cruel com as pessoas que não tem muito a oferecer, como esperteza, malícia ou mesmo uma reles bondade no coração.
Vocês não odeiam gente que joga na nossa cara que fizemos escolhas erradas? Que nos esforçamos pouco? Que não acreditamos nas dicas de saúde do Globo Repórter? Que não prestamos atenção nas placas de perigo??
Eu odeio.
E não desejo ter um desses cobradores sentado no meu ombro me dizendo que eu podia ter feito melhor ou diferente. Imagina se fose uma doença de inteira responsabilidade minha como uma AIDS pega por uma mancada, uma câncer de pulmão por fumo ou uma cirrose hepática por excesso de bebida? Imagina que drama: além da coisa não ser passageira ela pode ainda se transformar num cobrador.
Chato demais.
E prá piorar tem o povo esotérico que, diante de doenças e acontecimentos onde não há culpa envolvida, insistem em acreditar que atraimos o fato com os nossos atos e pensamentos.
Tá bom, eu admito: eu acredito um pouco nisso. Mas acho que a coisa tem que ter um limite. Prefiro pensar assim: se for algo legal como um prêmio ou uma boa notícia, eu acredito que conquistei a benção para mim sendo uma pessoa positiva e generosa.
Se for uma desgraça? Ah, nesse caso é pura fatalidade, também conhecida como azar. O famoso Shit Happens.
Hahahah, minha crença na lei da atração é totalmente unilateral.

Historinha Ilustrativa do Cobrador:
Uma amiga foi assaltada duas vezes seguidas na mesma semana. Carro, casa e bolsa foram brutalmente surrupiados num intervalo de dois dias. Ela ficou chocada com os fatos e levou detalhes para a terapia na esperança de achar, nas entrelinhas da sua vida, onde é que estava o convite que ELA havia dado para os ladrões invadirem assim as suas propriedades.
E eu fiquei brava:
-Caramba, você mora em São Paulo! Hello!!!! Não venha me convencer que o seu pensamento convidou os bandidos para sacanearem a sua vida. A violência urbana não precisa da ajuda do seu querido incosciente para dizer a que veio. E, além de tudo, não seja pretensiosa!!! Suas vibrações não são assim tão poderosas. Menos, por favor.
Ela então sorriu, aliviada por eu ter demitido o seu cobrador tirano.

Dane-se o cobrador!!!
Resta então olhar com seriedade para a outra opção.
Gosto de pensar que os problemas que não são passageiros viram  motoristas, guiando-nos pela vida de uma forma sempre inusitada. Um motorista criativo que precisa ajustar o GPS, inventar atalhos, conhecer umas quebradas e refazer o trajeto diante dos obstáculos. Um motorista alerta e prudente, sim, mas ousado o suficiente para entrar numa contra-mão em caso de extrema necessidade ou dar propina ao guarda para se livrar de um problema.

E a doença crônica e incurável é assim. Aliás todo acontecimento brutal e traumático é assim. Muda a rotina, muda a nossa visão de futuro e de vida, muda as nossas prioridades (puxa, parecem aqueles depoimentos do final das novelas do Manuel Carlos, rsrs), mas também sabe muito bem fazer irregularidades vez ou outra.

Depoimentos emocionantes de final 
das novela do Maneco.
É fácil demais usar uma doença como moeda de troca para se dar bem. Ou usar uma desgraça para inspirar pena nas pessoas. Nem tudo são espinhos dentro da tragédia e não há nada de feio em afirmar isso.
Nós psicólogos chamamos isso de "ganhos secundários da doença", que são aprendidos desde muito cedo quando um garotinho percebe que, ao ficar com catapora, pode faltar na escola e ganhar paparicos da mãe.
Mas além de ganhar a atenção e a compaixão dos outros, existe a compaixão consigo mesmo, e esta é a mais importante.

É possível se dar bem quando viramos nossos melhores amigos e aprendemos a viver com menos cobranças, menos pressão e mais tolerância.
E deixar a sua doença "motorista" te guiar para uma vida mais leve é uma sabedoria boa que devia vir de brinde, junto com o diagnóstico.
Mas para mim veio muitos anos depois.

Eu vinha encarando a Esclerose Múltipla como um passageiro que (engraçado!) se esqueceu de descer no ponto certo!! Não acreditava que a tal doença incurável era incurável mesmo.
Podem chamar isso de negação, mas talvez fosse apenas uma maneira possível e sábia de olhar para a coisa.
Eu jurava que continuaria para sempre sendo a mesma. Sendo "normal".
Esta semana a máscara caiu e doeu bastante.

Mas, agora eu decidi deixar minha doença incurável ser uma motorista ousada, aventureira, cheia de adrenalina, mas amorosa e boa, sempre me guiando para lugares seguros. Ela sabe que precisa olhar o poste e que, infelizmente, ele não é de borracha!!
Ou seja, minha doença esta semana saiu do banco de passageiros e se transformou em:
Sandra Bullock
Vocês já assitiram a este filme? Eu não, hahaha.
Não vi mesmo, juro!
Por isso não vejo a hora de conhecer meu novo percurso. Só sei que o ônibus não tem freio, que não se pode pará-lo, que muita coisa será destruida pelo caminho, mas que o final, com certeza, será sereno e feliz. E levando em conta que estamos falando de Hollywood, certamente haverá uma piadinha e um romance para quebrar a tensão.

Puxa, que viagem mais emocionante essa...










4 comentários:

  1. I know exactly what you mean! De qquer forma é com muita FORÇA q acredito na sua recuperação total! Ah e o filme na verdade o ônibus têm freio, a Sandra é q não pode desacelerar ou o negócio explode, aí chega uma hora q a gente acha q não vai ter jeito, mas obvio q o Keanu dá um super jeito.... Haha
    Não se preocupe é um lixo de filme e ainda fizeram o 2 ....

    ResponderExcluir
  2. Querida:parabéns pela abordagem! Estaremos sempre com você dentro desse ônibus e de vez em quando poderemos ajuda-lá a dirigi-lo.Nao estamos nunca sozinhos.A sua volta estão seus familiares ,seus amigos e uma equipe de cientistas constantemente pesquisando maneiras de suavizar nossa vida.Essa viagem pode ser as vezes assustadora ,perigosa mas também emocionante.Navegar e preciso, viver nao e preciso ! Conte sempre com seus pais

    ResponderExcluir
  3. Li esse post com o coracao apertado, com uma angustia so. E vc leve, querida e maravilhosa como sempre.

    me lembro quando soube do diagnostico. Li tudo o que pude a respeito, perguntei pra um milhao de pessoas, tentei me informar ao maximo. E mais do que tudo, reclamei, reclamei muito sobre as injusticas do mundo.

    e isso por que o negocio estava acontecendo com VOCE que e uma pessoa que eu gosto muito.

    amo vc. e esse seu jeito de levar a vida e as merdas que ela traz.

    Bj

    inaier.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Somente mesmo o Super Homem com sua visao X-ray pra ver esse onibus todo, por dentro e por fora, de todos os angulos. Parabens, como sempre. O Super Homem e' capaz de tudo.

    ResponderExcluir

Se você não tiver uma conta Google e quiser comentar: escreva na caixa, assine (para eu saber quem escreveu!) e escolha a opção "Anônimo". Pronto! Seu comentário aparecerá imediatamente no blog.