segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Nuts


A história aconteceu com a amiga de uma pessoa muito próxima. Moça casada, sem filhos, casamento feliz e marido bacana. Mas um dia ele a chamou para uma conversa séria. E a fala dele foi mais ou menos assim:
-Querida, eu preciso da sua ajuda. Já faz algum tempo que ando tendo pensamentos insistentes e apavorantes. Tenho desejo sexual por crianças. Nunca tive isso e não sei porque estou tendo agora. Vejo crianças e me dá vontade de fazer sexo com elas. Acho isso desprezível e não desejo prejudicar ninguém, mas tenho medo de um dia não conseguir me controlar. Estou te contando porque já não sei mais o que fazer.

A moça pirou. Teve nojo, raiva, pena, tristeza e acabou por se separar. Depois de alguns meses descobriu algo incrível: o ex marido estava com um tumor cerebral. Na área que comanda a sexualidade. Operou e os desejos por crianças cessaram.
Já ouvi alguns pedófilos dizerem: "Não me tirem da cadeia! Não me soltem porque irei estuprar e matar mais crianças por ai.", como se estivessem pedindo ajuda para impedir um impulso pelo qual não têm controle.

Uma outra amiga também se separou quando o marido se tornou agressivo e frio. Depois de separados, o mesmo diagnóstico: tumor cerebral. E o médico afirmou que todo o estranho comportamento dos últimos tempos poderia, sim, ser explicado pelo fato. Ela cuidou dele até o fim.

Charles Whitman era um rapaz normal e legal mas, do nada, entrou atirando na torre da Universidade do Texas matando 13 pessoas e ferindo dezenas. Esses eventos não existiam antes de 1966. Foi ele quem inventou essa moda que, hoje, virou epidemia. Mas antes de fazer essa imensa bobagem o cara escreveu uma carta pedindo para alguém, por favor, fazer uma autópsia em seu cérebro (ele sabia que seria morto na universidade), uma vez que ele suspeitava que, além da enxaqueca, havia algo na sua cabeça algo que justificasse esse desejo estranho de matar. Bingo! Um tumor já necrosado do tamanho de uma noz deformava e comprometia a sua amídala cerebral, responsável pelas emoções.

Esta semana li na Folha de São Paulo a história de um neurocientista que também defende a ideia de que os psicopatas tem disfunções anatômicas que justificam a falta de afeto e empatia. Não é a primeira vez que li sobre isso, mas o gozado deste texto é que o responsável pela pesquisa se submeteu a um exame de imagem e descobriu que ele próprio tem o cérebro de um psicopata. Diz ele que isso justifica uma frieza que sempre espantou os seus familiares.
Na USP há uma importante linha de pesquisa que diz que adolescentes que roubam os pais, mentem compulsivamente e apresentam pequenos comportamentos delinquentes tem sérias disfunções anatômicas que se revelam na cintilografia de perfusão cerebral. E o lobo pré-frontal costuma ser o alvo dos problemas.

Sempre acreditei nisso. Já atendi algumas crianças psicopatas e, mais do que atender a criança em si, tinha uma enorme preocupação em esclarecer aos pais:
-A culpa não é dele e a culpa não é de vocês. Por favor, entendam e não se martirizem por isso. Ele nasceu assim. 

Houve uma época em que a ciência culpava os pais de crianças autistas pelo estranho comportamento. A psicologia dizia que era uma falha no início da relação da mãe com o bebê. Balela! Hoje se sabe que os autistas tem uma disfunção no sistema límbico. Simples assim. Mas antes disso muitos pais se culparam durante décadas por causa de julgamentos precoces.

Fora a infinidade de problemas de comportamento que ficam como sequela depois de acidentes com traumatismo craniano. Conheço muitos casos de pessoas que, depois que se acidentaram, passaram a mentir, roubar e serem pessoas ruins. A família dizia que era trauma do acidente, que estavam querendo chamar a atenção, que precisavam de psicoterapia, mas os neurologistas insistiam: é sequela do acidente. Tem gente que fica cega, com problemas de memória, tem gente que fica paraplégica, mas alguns começam a roubar.

Bom, só digo tudo isso porque acho que devemos levar mais a sério a neurociência.

Nas escolas, nos presídios e nos consultórios de Psicologia



Imagina se descobrirmos que os pedófilos tem problemas neurológicos? O que fazer com isso? Continuar culpabilizando-os? O que mudaria nas leis e na punição dessas pessoas?
Sempre achei a pedofilia curiosa. É estranha, cruel (aliás, cada vez mais, no consultório, chego à conclusão que nenhum fator de risco para problemas na vida adulta supera a violência sexual na infância) e sempre imperdoável, mas acontece em todas as culturas e épocas. Por quê? Qual é a origem desta aberração no fluxo normal da sexualidade adulta? Sempre buscamos causas psicanalíticas e ambientais para explicar o comportamento (Ex: quando criança o agressor foi também abusado, pai agressivo, mãe sedutora, insegurança com a própria sexualidade, repressão na família), embora nunca tenha existido um consenso a esse respeito. Só nos esquecemos de procurar por motivos dentro do cérebro.

Devemos, sim, aprofundar os estudos neste sentido, ainda mais com a previsão sombria que os tumores cerebrais serão a próxima epidemia mundial dos próximos séculos. Já disse aqui que acredito nisso.
Claro que não são todos os tumores que causam problemas afetivos (depende da localização, óbvio) e nem todos os problemas de caráter devem ser explicados por disfunções neurológicas, mas já está passando da hora de levarmos o cérebro mais a sério.
Ah, e devemos levar mais a sério a genética também! Muitos comportamentos indesejáveis poderiam ser explicados por esta dupla, neurociência e genética, enquanto perdemos tempo desgastando as as relações ao culpar nossos pais, amigos, namorados e professores por problemas emocionais que poderiam ser comprovados, apenas, com alguns exames assertivos.

Tem vários links e vídeos que falam das previsões tumorais (e agora também: comportamentais) nos cérebros do futuro, mas eu deixo o Jornal Nacional dizer isso na linguagem dos leigos. E de forma ultra ponderada, como preza o bom senso da Rede Globo.





Ah, hoje falei sobre esse assunto bizarro também porque prometi falar de outra história, mas queria, antes de mais nada, introduzir estes dados aqui.
Agora sim continuo no próximo post.


2 comentários:

  1. Muito muito bom! Eu que entrei só agora na Psicanálise, é bom ler isto e ver outros lados da coisa. Vc tem toda razão. Como falar pra super mãe fofa, como super marido fofo, que desejaram tanto seus filhos, lutaram tanto por isso e agora tem 2 filhos autistas que Winnicott disse que foi alguma falha na fase da Dependência absoluta?? It just doesn't make sense! Vão ignorar a genética aí? Very good my friend! very good!
    Tania

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  2. E por aí ! Ao invés de cadeias e hospícios im bom tratamento neurológico . Os nazistas pesquisavam esse assunto e ficamos com preconceito mas precisamos reavaliar nossas posturas . Andamos no caminho errado todo esse tempo jogando nas costas dos pais a culpa dos descontroles dos filhos .

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