quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Chiclete


Já faz mais de uma semana que ouço a mesma música ininterruptamente porque ela me acalma quando eu preciso de colo no meio da rotina.
A mesmíssima música toca no meu carro, na minha cozinha e no meu computador enquanto leio bobagens. Quando acaba eu ponho de novo. E de novo.
Chama-se Wild World e quem a compôs e canta lindamente é o Cat Stevens. Putz, já é a vigésima vez que falo do cara aqui no blog. Não sou fã, tá? Apenas gosto bastante.

Bom, escrevo sobre isso aqui hoje porque já faz algum tempo que acredito piamente na teoria que diz que quando uma música não sai da nossa cabeça é sinal de que existe ali uma mensagem que precisa ser decodificada pela consciência. Pseudo verdades de pseudo psicólogos que se acham capazes de colocar sentido até nas músicas chicletes. Eu, apesar de cética, acredito na teoria maluca porque todas as vezes que tentei entender mensagens escondidas em músicas insistentes elas realmente faziam sentido.
Tudo bem que essa canção específica é bonita e tal, mas isso não justifica a minha teimosia em ouví-la. E me intriga muito o fato dela me sensibilizar além da conta. Não costumo perder tempo com músicas que usam em abundância a palavra... baby.

PS: eu ADORO o momento 2:37 até o 2:51. 

Mundo Selvagem

Agora que já perdi tudo para você, você diz que quer começar algo novo e isso está partindo meu coração. Você está indo embora. Baby, estou lamentando.
Mas se você quer mesmo partir, tome cuidado. Espero que tenha muitas coisas bonitas para vestir,
mas saiba que as coisas bonitas tornam-se ruins lá fora.
Oh baby, baby, é um mundo selvagem. É difícil atravessar apenas com um sorriso.
E eu sempre lembrarei de você como uma criança, garota.
Você sabe, eu vi muito do que o mundo pode fazer e isso está partindo meu coração em dois
porque eu nunca quero te ver triste. Não seja uma garota má.
Mas se você quiser partir, tome cuidado. Espero que faça bons amigos lá fora,
Mas apenas se lembre que existem muitos amigos ruins. Cuidado.

Bom, eu sempre achei que esta música poderia ser a carta de um pai para uma filha que sai de casa pela primeira vez. Um pai bem bobo por sinal! Um idiota que logo no começo já joga na cara da filha que ele abandonou a própria vida por causa dela e que ela agora, mal agradecida, resolveu crescer.
Isso não me emociona. E não gosto de pais que adoram falar com autoridade sobre os inúmeros perigos da vida só para jogar na cara depois um "Eu te avisei, eu te disse!!!".  Essa interpretação da música, definitivamente, não tem a ver comigo. Soa como o Cartola avisando à filha que o mundo é um moinho. Não gosto de previsões negras sobre o futuro dos outros.
Principalmente dos filhos.

Outra leitura que podemos fazer da mesma canção (inclusive a mais óbvia e a razão pela qual ela fez tanto sucesso) é a história de um cara que acabou de levar um fora e, agora, deseja sorte para a ex.
Isso é bacana. Quando um relacionamento acaba, por pior que seja o seu fim, é sempre necessário desejar boa sorte ao parceiro. Não só desejar, mas torcer de verdade pela sua felicidade com o restinho do amor que sobrou no fundo da gaveta do coração. O cara tinha outra? Torça para que a outra o faça feliz. Simples assim.
Até que gosto da ideia, mas Cat Stevens faz questão de ressaltar que ela poderá se ferrar no tal mundo selvagem e nada me garante que ele também não vai lançar um "Eu te disse!!" no futuro. Não, isso definitivamente também não me emociona. Se for para desejar boa sorte sou mais o Peninha com a sua lindíssima Sonhos que diz com serenidade que ele vai ser feliz e que ela não o destruiu. Ufa.

"Mas não tem revolta, não
Eu só quero que você se encontre 

Saudade até que é bom 
É melhor que caminhar vazio 
A esperança é um dom que eu tenho em mim 
Eu tenho, sim
Não tem desespero, não
Você me ensinou milhões de coisas 
Tenho um sonho em minhas mãos 
Amanhã será um novo dia 
Certamente eu vou ser mais feliz."


Peninha é cafona e, por isso, deixo aqui o seu melhor intérprete .

Se nada disso faz sentido, qual seria então a razão da música me perseguir? Como prosseguir na minha pesquisa?
Resolvi então rever o video e lá, logo no início, Cat Stevens diz claramente: escrevi essa música para mim mesmo. Ao ouvir isso os meus olhos lacrimejaram. Bingo! Direto na ferida.
Essa música está me perseguindo porque está sendo dita (ou gritada) por mim para mim mesma. "Claudia, querida, ao contrário do que você sempre pregou, o mundo é selvagem e o mau existe. Sempre te vi como uma garotinha e, por isso, não quero te ver triste."

É a música do ritual da passagem. Este ano faço 40 anos e estou, como Cat Stevens, me preparando para um segundo retorno ("second comeback" que ele diz no vídeo). Já estava na hora de perceber que o mundo é selvagem. Pode parecer bobagem, mas não é.
E agora? Agora o jeito é aprender a andar pelo lado selvagem da vida. Chega de chiclete cor de rosa.






2 comentários:

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