sexta-feira, 8 de julho de 2011

Amor 90% poliéster


Gunther Von Hagens é um alemão esperto. Inventou um jeito de plastificar cadáveres e anda ganhando muito dinheiro com isso. Tira a pele, fica um ano cuidando do que sobra, coloca os mortos em posições engraçadinhas e os expõe.
Ele chama de arte e lota galerias com seus mortos, recebendo visitantes que adoram.
-Puxa, que veia grossa, que músculos lindamente trançados, que intestino sinuoso!!!

Eu não acho que seja nada de artístico. Para mim é uma belíssima aula de anatomia humana e, particularmente, acho a coisa bem bonita.
E já existem 10.000 pessoas no mundo que tem contratos assinados com o cara doando seus próprios corpos para o dia em que morrerem serem eternizados por ele. Muita gente acha estranho alguém querer isso para si, mas eu acharia bacana.
Vou para a Alemanha assinar um contrato.
Mas irei exigir uma posição bem confortável. Nada de trapézio ou plantando bananeira. Vou ver as opções que ele pode me oferecer.

-Montarria invérrtida eu já tenho na minha coleçáo. Parra você posso deixarr reservado o frrango assado!!

Hahahaha....
Agora, fala a verdade: duvido que Van Hagens seja casado. Quem olha para um cádaver e pensa em... sexo? E quem faz sexo com um cara que pensa isso?????

Ok, mas não é sobre o alemão pervertido que eu queria falar.
Ontem eu estava assistindo na TV um programa sobre morte e o especialista (chama-se tanatologista, existem especialistas para tudo neste mundo!!!) disse algo que me fez pensar:

Precisamos de filtro para conseguirmos olhar para o Sol. Os rituais também são como filtros, que necessitamos para olharmos diretamente para um cadáver. Enterrar, cremar, preparar o corpo, velar junto à família, tudo isso é uma maneira que encontramos para lidar com a morte.

Hum... bacana.

E precisamos também de rituais para olhar diretamente para o passado, já que existem situações difíceis de serem olhadas, como por exemplo ex-namorados, ex-esposas e ex-maridos.
Cada um tem um jeito particular de cuidar de seus mortos.

Um amigo meu pegou uma bacia de alumínio e botou fogo em tudo que dizia respeito à relação que havia terminado, inclusive fotos do casamento! E eu desesperada: "Não!! É mãe dos seus filhos... tá louco???"
Mas ele fez o ritual de cremação no quintal sem dó nem piedade da falecida.
E o cadáver foi consumido.

Uns fazem um velório longo e optam por ficar enlutados por anos. A digestão do cadáver é lenta e sofrida para as bactérias e vermes que não desejam se alimentar de tanto amor. Ficam com dó.


Mas um dia o amor morto passa pela mágica de Lavoisier e se transforma em outra coisa. Vai para o andar de cima (ou para o andar de baixo, se for uma minhoca, haha)

"Se o amor é como um grão:
 morre e nasce trigo, vive e morre pão."
(GilbertoGil)



OBS: Preciso falar. O nosso querido Diogo Mainardi disse que a melhor coisa que Gilberto Gil, enquanto Ministro, poderia fazer pela cultura do país era parar de cantar.
Hahaha!
Cruel. 
Bolsonaro, por outro lado, diria que a melhor coisa que o Gil poderia fazer pela cultura do Brasil era não ter tido filhos. (vide post: Liberdade de Expressão)
Eu digo que a melhor coisa que o Gil poderia ter feito pela cultura do país era ensinar os meninos a criarem os seus próprios websites e fazerem suas próprias home pages, como ele mesmo prega na sua musiquinha. Informatizar e educação e globalizar a cultura para termos padrão de comparação e deixarmos de viver alienados da produção cultural do resto do mundo.


Mas eu ontem pensei, assistindo o alemão maluco na TV, que podemos também olhar para os amores passados desta forma: plastificando-os e eternizando-os com beleza e uma pitada de bom humor.
Ah, mas é importante dizer que não é assim tão fácil!!
Van Hagens demora 1 ano em cada corpo e gasta mais de 40 mil dólares em cada "obra de arte". E isso porque ele nem paga pela matéria-prima!!!
Pois é... achou que era fácil o milagre de transformar algo horrível em arte? Nada disso!! Exige tempo, conhecimento e muito investimento.
Não é qualquer um que tem sangue frio suficiente para olhar as fotos do casamento que acabou e dizer, friamente:
-Olha que lindo meu cabelo, como minha mãe estava magrinha, puxa que luz maravilhosa, que beleza de sapato!!

Sim, é possível ver uma foto antiga e não ter o impulso de dizer confissões no gravador e nem achar desconcertante rever um grande amor.
Tom Jobim não sabia nada da técnica de plastificação dos mortos.Tom Jobim era amigo do poetinha que dizia que o amor só é eterno enquanto dura.
Mas o amor pode ser eterno mesmo depois que acaba.
Plastificado e colocado em poses engraçadas.

-Puxa querida, obrigado por terminar comigo, você salvou a minha pele.
-Que bom. Você, dizendo isso, tirou um peso do meu peito.


Mas, de novo, não acho que isso seja uma arte. É mais uma belíssima aula de civilidade e respeito pela própria história.

7 comentários:

  1. Putz, era pra mim este post(pergunto)
    Se sim, touché! Se não, touché também! rss...
    Brigada por nos lembrar que plastificar também é possível...e quem sabe até saudável...
    Habe dich lieb.
    ps. Fui à exposição em questão e adorei! Não era nada do que imaginava antes e você está certíssima: é uma tremenda aula de anatomia. Inovadora, interessante e inquietante. Vale a peníssima!

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  2. doentio,este Gunther von Shweinerei faz recordar as cronicas sobre o bulling, deve ter sido bulificado ao extremo com estupro e tudo!

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  3. Acho mais é aterrorizante. Banalizando a carne humana, sem pele, desacralizada o sentido profundo disto só pode ser perigoso. Nao queria encontrar o cara na cozinha desossando um pernil.

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  4. Claudinha, amei, amei, amei pensar em tudo que vc colocou. Tão bom refletir, repensar, elaborar, arrumar as estantes da mente (bem, arrumar é meio ilusão, mas não achei outra palavra).
    Já perdi nessa vida, pessoas que amei muito, assim como você. A morte é um dos eventos mais crus que alguém enfrenta vivo (sim, sempre imagino que o morto está melhor que o vivo ainda, apesar de amar a vida). Pra mim, que experimentei morte anunciada e repentina, digo que a crueza é a mesma. O momento em que ouvimos a notícia tem o poder de inverter nossa noção de tempo. Ele parece eterno e ecoará para sempre. Como as pessoas que sabem dizer onde estavam no momento do atentado de 11 de setembro por exemplo. Quem, como eu, acompanhou a morte de alguém muito amado, que presenciou o morrer, sabe que a densidade do ar parece tal a ponto de podermos cortá-lo com um faca... Não sei descrever tão bem como você. Essas vivências te mudam para sempre. Nem pra melhor ou pior, Só diferente. Tudo se relativiza para sempre. Nada realmente parece tão grave. Nunca mais fazemos tempestades em copos d`águas, sei lá, a gente se depara com o muro da finitude. E daí entende melhor o post da sua escritora favorita (vc!) e se pega tirando foto da mudinha de gerânio que vc plantou e floresceu. Vc presta mais atenção na vida, na sua vida. E daí consegue olhar qualquer coisa nela sem tanto medo. Talvez porque, independentemente do que tenha ocorrido, aconteceu na sua história de vida...Daí dá pra fazer plastificações, brincar até, ver d outro modo....
    Obrigada por me fazer pensar nesta manhã linda.
    beijos
    Love you!

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  5. O Poeta estava errado: o amor fica. Estou mais com Thorton Wilder.

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    1. "Somente podemos dizer que estamos vivos naqueles momentos em que nossos corações estão conscientes de nossos tesouros." (Thornton Wilder).
      Era isso? Tesouro??? rsrs

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  6. Essa tambem serve! A consciencia de nossos tesouros nos deixa vivissimos! Mas Thornton Wilder diz que mesmo depois que tudo se vai, o amor fica.

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