sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Asas e raízes


Existe uma perda silenciosa e sutil acontecendo na elite econômica do Brasil e a sociedade um dia irá lamentar o prejuízo para o futuro da nação. Existe também um luto acometendo milhares de famílias. Existe um buraco, existe dor, mas ninguém fala sobre isso. Porque todos deveriam estar felizes.
E estão.
Mas estão sofrendo. 

Praticamente todos os amigos dos meus pais tem filhos saindo do Brasil para nunca mais voltar. A grande maioria dos meus amigos ou já saíram daqui, ou planejam sair ou sofrem a perda de um irmão que saiu. Fui outro dia em um churrasco onde os 3 casais presentes estavam correndo com o processo de imigração. Virou moda. Parece que é a única coisa certa a fazer e que, quem não faz, vai ficar para trás. Toda uma geração está saindo do país. O buraco é epidêmico, aparece em quase todas as famílias minimamente abastadas.
Não são um nem dois, são a enorme maioria, e meus pais estão incluídos nessa estatística. Os filhos ficam adultos e vão para outros lugares do mundo conquistar uma vida melhor. Com  mais oportunidades, melhores condições de trabalho, menos violência e, em geral, mais beleza. Sim, as cidades brasileiras são feias e deprimentes.
A insatisfação com o país está roubando os nossos médicos, nossos engenheiros, nossos pesquisadores, professores, dentre muitos. Mas, vejam bem, não são qualquer um! Estão saindo os melhores. A perda destes profissionais ainda não está sendo sentida, mas com certeza será a principal tragédia das próximas décadas aqui no Brasil. O preço por perder a elite cultural do país não será barato e toda a comunidade pagará por isso.

Mas além da perda intelectual, há, claro, uma outra ainda mais sofrida. Avós não vêem os netos crescendo, pais choram pelos filhos distantes, irmãos perdem a referência fraterna de um dia para o outro, priminhos se distanciam, amizades se desenroscam, e todos se vêem sozinhos e tristes. Aprender a lidar com o perda é a nova rotina dessas famílias brasileiras e, como todo luto, tem as suas fases: o drama da separação, o desespero sangrento que se assemelha às mais insuportáveis dores físicas, o vazio na rotina, a raiva de ter sido abandonado, a culpa por não conseguir ficar feliz por eles, o exercício diário de tentar se convencer que a tecnologia realmente aproxima as pessoas, a alegria diante das boas notícias vindas de lá e o êxtase nas raras visitas, seguidas sempre da dura realidade da falta. Mais uma vez.
Até que tudo deixa de doer e todos se acomodam na nova configuração familiar. Todo mundo, então volta a ser feliz e finge que superou a perda, mas isso nunca acontece.

O êxodo sempre existiu em todas as épocas e em todas as culturas (e em muitas espécies animais, óbvio), mas a realidade brasileira atual se assemelha, claro que guardando as devidas proporções, a uma guerra. Estatisticamente as perdas são incríveis.

Culpa da duríssima realidade política brasileira, culpa da violência sem controle, dos direitos civis negligenciados, etc e tal. Isso é evidente. Mas também isso tudo só acontece porque existe um tipo de pessoa que se arrisca na procura por uma vida diferente. Diferente e, em geral, boa. Eu ainda não ouvi falar de gente que foi e não se deu bem. Em geral a família toda, apesar óbvia da tristeza da perda, se deslumbra e morre de orgulho da lindíssima vida que os rebentos conquistam longe de todos. No fim acabam concordando que a mudança valeu a pena.

Mas existe também um outro tipo de jovem. Gente que se acostuma às intempéries do país e talvez por preguiça, por medo, ou por excesso de apego, não tem vontade de sair.
Eles não tem asas, tem raízes.



Há 7 anos eu sou psicóloga em uma cidade pequena. Pequena é exagero, ela é minúscula. E durante este tempo conheci dois tipos de jovens: os que amam morar aqui e os que odeiam. Os que amam são acomodados. Querem casar com alguém daqui, cuidar do negócio do pai ou trabalhar, por exemplo, na escola local até a aposentadoria. Não conhecem outros lugares e nem desejam. Não precisam.
Os que odeiam não vêem a hora de sair e trabalhar em algo que os leve para longe, fazer algo bem diferente do que os pais e os avós fizeram. Desejam ardentemente conhecer o mundo e se programam todos os dias para o grande voo. Eles precisam disso.
São duas raças de pessoas e durante todos estes anos eu admirei as duas. É ótimo ser feliz com o que você já tem e, ao mesmo tempo, é lindo ter ambições e correr atrás do que deseja. O problema todo é que existe uma glamourização dos desertores. A ousadia é supervalorizada e a repetição da história, vista como retrocesso. O rapaz que fica na roça do pai é visto pelos colegas como fraco e o que sai para tentar a vida em outro lugar, um conquistador.
Com isso a zona rural perde os jovens, a cidade perde bons profissionais e as famílias perdem os filhos.

Me dei conta de tudo isso quando li um texto de um amigo querido que há anos saiu do Brasil e, hoje em dia, vive muito bem nos Estados Unidos. E o texto diz assim:

"MORAR FORA...
Não é apenas aprender uma nova língua. Não é apenas caminhar por ruas diferentes ou conhecer pessoas e culturas diversificadas. Não é apenas o valor do dinheiro que muda. Não é apenas trabalhar em algo que você nunca faria no seu país. Não é apenas conquistar um diploma ou fazer um curso diferente. Morar fora não é só fazer amigos novos e colecionar fotos diferentes. Não é só ter horários malucos e ver sua rotina se transformar. Não é só aprender a se virar, lavar, passar, cozinhar. Não é só comer comidas diferentes, pagar suas contas e se preocupar com o aluguel. Não é só não ter que dar satisfações e ser dono do seu nariz. Não é só amar o novo, as mudanças e também sentir saudades de pessoas queridas e algumas coisas do seu país. Não é apenas já saber que é alguém do Brasil ligando quando toca seu celular e aparece numero privado. Não é só a distância. Não são apenas as novidades. Não é só uma nova vista ao abrir a janela. Morar fora é se conhecer muito mais... É amadurecer e ver um mundo de possibilidades a sua frente. É ver que é possível sim, fazer tudo aquilo que você sempre sonhou e que parecia tão surreal. É perceber que o mundo está na sua cara e você pode sim, conhecê-lo inteiro. É ver seus objetivos mudarem. É mudar de idéia. É colocar em prática. É ver sua mente se abrir muito mais, em todos os momentos. É se ver aberto para a vida. É não ter medo de arriscar. É aceitar desafios constantes. É se sentir na Terra do Nunca É querer voltar e não conseguir se imaginar no mesmo lugar. Morar em outro pais é se surpreender com você mesmo. É se descobrir e notar que na verdade, você não conhecia a fundo algo que sempre achou que conhecia muito bem: Você mesmo!
A Vida eh uma viagem...
Enjoy every single destination..."

Concordo com ele em tudo.
Claro.
Mas queria também lembrar que existe um outro tipo de gente. Gente que consegue conhecer a si mesmo ficando no mesmo lugar. Assumindo a empresa do pai, a fazenda do avô, a casa da família, e mantendo a mesmíssima tradição de séculos. Precisamos dizer para os nossos jovens que também é possível (e bonito) ser feliz sem precisar mudar. Chega de só incentivar o povo a sair.

Eu mesma sou uma representante dos preguiçosos. Ou dos medrosos. Ou dos apegados. Ou dos satisfeitos. Dêem o nome que quiserem. Já tive chance e possibilidade de sair do país. Eu queria? Não. Me arrependi? Não.
Vim hoje aqui dar o meu depoimento.
É possível ser feliz no Brasil, apesar de tudo. Não vamos apenas valorizar e invejar os que estão longe. Eu, por exemplo, hoje valorizo e invejo a minha cunhada que vive há décadas na mesma casa pequena numa rua perigosa e sem graça de uma cidade perigosa e sem graça do Brasil. Vive porque quer, já tem tem passaporte e dinheiro que permitem que ela vá para muitos outros países. Invejo porque ela é felicíssima ali e em momento algum reclama da vida. Invejo porque ela acha bacana criar o filho no bairro que os avós ajudaram a fundar quando chegaram da Itália. Valorizo porque ela cuida da avó com Alzheimer que foge pelas ruas e precisa ser lembrada de beber água para não desidratar.
Valorizo porque demonstrar carinho pela avó que a criou é importante para ela.
E assim ela se encontrou. 
No lugar onde sempre esteve.



8 comentários:

  1. Minha filha, você disse aquilo que eu não tive coragem de dizer quando vi meus netos queridos ir embora com a sua irmã. Hoje, passados 14 anos, só me resta mostrar aos amigos o sucesso que eles estão fazendo em um lugar que amanhece quando aqui anoitece.

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  2. O problema, do meu ponto de vista é que nós abrimos mão de muitas coisas para viver essa vida cigana. Junto com as descobertas e a magia dos voos, vem uma dor imensa pela falta de convivência com quem amamos. AMigos de infancia, primos no dia a dia...isso tudo são coisas que nós não temos, em nome de experiencias exóticas e horizontes diferentes. Da mesma forma que alguns criticam os quem tem raízes, muitos criticam quem opta por sair. Na verdade, quanto mais eu penso, mais acho que as pessoas criticam por criticar, independente da opçao que você faça. Dizer que você está errado é a palavra do dia. Ouvi de pesoas que eu amo que eu era egoísta, fria e desalmada. Que eu os estava privando da cnvivência com as minhas filhas. Ai eu tinha que lembra-los que nos três meses de férias que elas estão no Brasil, pouca gente encontra tempo para elas. Quando você faz uma escolha, voce abre mão do outro caminho. O importante é não nos arrependermos das nossas escolhas - e principalmente respeitarmos as escolhas alheias. Amo e admiro você, minha amiga de raízes firmes e fortes.

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    1. Eu sou uma árvore! Já fui vasinho... Muda com vasinho!!!!! Realmente é muito triste ser estrangeiro para sempre!!!!!

      Texto lindo irmanzinhaaaa!

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  3. Excelente texto, antes de mais nada. Eu, já me aproximando da curva final da vida, estou sentindo a ausência de meu filho mais novo (42) que foi convidado para trabalhar em New York. Visitei-o recentemente e saí de coração apertado, com aquela sensação de que dificilmente o verei novamente. Mas, acho que ele fez a opção pragmática correta: lá ele anda sozinho nas ruas, usa tranquilamente os transportes coletivos, livrou-se daquela neura de "sempre estar atento para o próximo assalto", e vê, no dia a dia, um repeito mínimo (ainda que insuficiente) aos direitos dos cidadãos - os que têm renda. Por outro lado Cláudia, admiro também sua opção "anti-megalópica". Provavelmente você VIVE melhor que nós das urbes poluídas e violentas. Para encerrar, o que entristece mais a todos nó é não percebermos nenhum movimento quer dos governantes quer da população, através de grupos de pressão, sejam eles quais forem, de alterar esse status quo: nada de política de retenção de talentos, nada de um mínimo de cuidado com os bens públicos, etc. etc.

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  4. Espero que meu texto tenha ido! :(
    Beijos, querida.
    Ire.

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  5. Pois é, ótima reflexão!

    Eu já passei por esta reflexão e por esta discussão muitas vezes.

    Uma vez fui ao Canadá fazer um módulo do MBA e visitar meu irmão (que faz parte desta estatística) e quando cheguei lá vi um email de um amigo dizendo que nossa amiga Lucia Rodrigues tinha sido assassinada... sequestro relâmpago e tal...

    Depois conheci, em Toronto um rapaz brasileiro que estava "cooptando" brasileiros, do MBA, das melhores escolas e etc, para mudar para o Canadá, contou uma história triste, de que o filho tinha sido assaltado, levaram um grande susto e decidiram sair do Brasil.

    O que senti com estas duas situações? Senti que tinha que voltar pra casa! Minha família toda (quase toda) estava aqui, meus amigos, meus pais, primos... tanta gente querida aqui, como simplesmente ir embora?

    Na Motorola, ir para os EUA ou outro país era bastante factível, aliás até ajude alguns amigos a se mudarem, mas nunca me ocorreu, o máximo que consegui ficar longe foram uns 45 dias e olhe lá.

    Realmente esta situação de grande "mobilidade" está propiciando isto, justamente como a Cláudia menciona, e eu concordo plenamente com o texto, ter asas é muito bom, mas ter as raízes é indispensável. Como sempre disse aos amigos, daqui não saio, daqui ninguém me tira!

    Abs!

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  6. Lindo texto, Clau, adorei! Belíssima capacidade de escrever de maneira absolutamente ponderada! Bjs.

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  7. Classe média soooooofre

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