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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Quem me ensinou a amar? Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar.


Ontem foi o dia do abraço (não me perguntem como e nem o porquê) e muitas pessoas nas redes sociais postaram esta famosa foto de uma garotinha apaixonada por um peixe. Digo que ela é famosa porque já roda pelo meu feed há alguns meses, sempre com intenções fofas. E ontem a imagem, repetidamente compartilhada, vinha acompanhada de frases como: "Que delícia de abraço!!"; "Feliz dia do abraço para vocês!", "Fulana, sinta-se abraçado assim por mim.", etc.

Oi? 

Ninguém reparou no absurdo da foto??



Se eu tivesse que escolher uma metáfora para ilustrar o amor errado eu nunca seria tão assertiva. Amar errado é quando uma menina ama um peixe e acha que, por isso, tem o direito de agarrá-lo.  

É claro que o contexto real da foto deve ser algo totalmente diferente. O pai da menina devia ser pescador, pegou um peixe, deixou-o morrer sadicamente saltitando pela areia, a pequena Felícia* ficou com pena (ou achou divertido) , o agarrou, a mãe achou lindo e fotografou. Ou algo parecido, não importa. O que importa é a interpretação bizarra que as pessoas fazem da cena.

-Dane-se a vida dele. Dane-se que ele tem necessidades. Ela quis abracá-lo e é isso que importa. Não é fofo?



Mês passado dei uma bronca em homens velhos e babacas que faziam carinho e beijavam a boca de minúsculos coelhinhos expostos num pet shop para serem vendidos na Páscoa (sim, pessoas equivocadas ainda compram coelhos para engambelar os filhos na data). Acima dos coelhos havia a placa "não toque nos animais", mas os caras amavam demais os peludos para se preocuparem em poupar os pobrezinhos dos seus próprios germes. Diante do meu sermão eles disseram: "Ahhhhhh, eu sei que é errado, mas eles são tão fofos!!". Gays.




Um peixe precisa de um abraço tanto quanto precisa de uma bicicleta, parafraseando a lógica que não tem autor e que rola à solta pela internet. Gostei da ideia da frase agora ser do Bono. Faz mesmo sentido um cara que canta "I can`t live with or without you" dizer uma bobagem dessas.

Podem me chamar do que for, mas acho criminoso a gente incentivar nossos filhos a aprisionar bichos para poder apreciá-los e amá-los sempre que der vontade. Hamsters, peixes, passarinhos, tartarugas, e muitos gatos e cachorros (não todos) são uns coitados adorados por pessoas egoistas e vaidosas e que se acham no direito de prender o objeto amado e ainda se divertir com isso. Já briguei feio numa pré-escola por causa dessa ridícula filosofia. A dona achava fofo ter aquário, coelhinhos em gaiolas e jabutis rotineiramente torturados por bebês. Achava que, com isso, colocaríamos a natureza ao alcance de crianças urbanas e, assim, eles aprenderiam desde cedo a cuidar dos animais.
Balela.
Experiências assim só ensinam as crianças a amar errado. Só mostram como aprisionar os amores e, muitas vezes, matá-los.

Vale dizer que a minha preocupação não é apenas com os animais e não é sobre eles que eu estou falando.

"Oncinha pintada, zebrinha listrada,
coelhinho peludooooooooo...."
(Titãs)

Me preocupo é com o sentimento equivocado de poder que ronda a humanidade.
A verdadeira educação amorosa, respeitando o parceiro e apreciando a liberdade alheia, deveria ser ensinada nas escolas desde o pré, sendo bastante enfatizada no início da adolescência.
Regra nº 1: Não, você não pode fuçar no celular do seu namorado. E nem na vida dele. Isso é errado.
Regra nº2: Se ele quer sair com os amigos você não tem que pensar se deixa ou não, porque esse é um poder que você NÃO TEM! 
Regra nº3: Se ele quiser ir embora não fique brava. Pode chorar, pode ficar com saudade e pode dizer isso a ele quantas vezes quiser (embora não devesse), mas não fique brava. Ele não é seu.
Etc, etc...


A lavagem cerebral deveria ser tão bem feita que, enfim, seria óbvio dar à pessoa amada não aquilo que você, neuroticamente, deseja, mas o que ela precisa. Aceitar a distância se ela for importante para o outro. Suportar ser abandonado e trocado se isso representar a felicidade alheia.
Puxa, é tão fundamental!
Quantas tristezas, quantos BOs e quantos crimes passionais seriam evitados se a gente ensinasse os nossos filhos a apreciarem a liberdade ao invés de se divertir com ratos correndo numa roda?





Felícia é uma menininha chata que adora os bichinhos.















segunda-feira, 4 de março de 2013

A Prateleira


Um dia ouvi de uma pessoa próxima sobre o seu medo de estar em uma prateleira. Não consegui entender de imediato a expressão, mas logo compreendi que estar em uma prateleira significa ter sido deixado de lado e, ao mesmo tempo, continuar disponível para o relacionamento.
É assim: 
-Sempre vejo você e o Pedro juntos. Vocês estão namorando?
-Não. A gente sai junto e ele me devolve na prateleira.

E as pessoas não gostam de serem colocadas na prateleira.
Têm vergonha disso. Se sentem humilhadas por serem apenas uma opção (e não a prioridade) na vida do parceiro. Mas, ao mesmo tempo que se sentem usadas, engraçado isso, se recriminam diariamente por não sairem da prateleira para cuidarem da própria vida. Culpam o parceiro quando, no fundo, sabem que a responsabilidade é delas.
Porém, quando estão quase desistindo, quase pulando definitivamente da história, o telefone magicamente toca e aí  ficam envaidecidas e gratas por terem sido escolhidas. E na segunda-feira voltam para a prateleira. Mas, agora, cheias de honra.
Vida estressante essa. Estar na prateleira subentende uma montanha russa emocional de raiva, saudade, alegria, vaidade, esperança, culpa, auto-crítica e uma enorme carência afetiva. Estar na prateleira é tudo aquilo que nossas mãe dizem para a gente nunca fazer na vida, mas acabamos sempre fazendo porque, porque.... ah, sei lá.
Minha hipótese é que estar numa prateleira tem o seu charme.

Eu não preciso procurar a minha bolsa numa prateleira porque ela está sempre ao meu lado, pendurada na cadeira. Minha bolsa não é escolhida, ela é funcional. Está ao meu lado por ser necessária. Mas quando quero algo realmente diferente, algo que fará meu dia especial, eu vou na prateleira e elejo um objeto exclusivo. Isso me dá a sensação de ser privilegiada, por ter escolha, e ainda dou ao objeto a honra de ser lembrado.

-Oi leva eu! Eu também quero ir... 
(link da música aqui)
Quando você é a prioridade na vida de alguém, não existe massagem clara no ego, por mas contraditório que pareça.
Pode-se ter a sensação que o marido te leva ao cinema porque você está por ali, e, portanto, parece ser a escolha mais óbvia. Sua esposa te chama para comer uma pizza porque, também, talvez você seja a companhia mais fácil.
Estar num relacionamento estável e oficial é delicioso pela estabilidade emocional que gera, mas não tem o encanto de ser escolhido.
Casamentos, em sua enorme maioria, são previsíveis. A vida de solteiro, não. E cada status de relacionamento tem o seu lado bom.

E é isso que as pessoas da prateleira precisam perceber: estar na prateleira e ser escolhido é legal, e é POR ISSO que muita gente fica nela. Ser lembrado e eleito para usufruir de um final de semana ao lado da pessoa amada provoca uma adrenalina rejuvenecedora, massageia o ego e proporciona um bem enorme para a auto-estima.

A não ser que:
1º você nunca seja escolhida/o.
2º você não tenha voz ativa na relação.

Se você ficar mais de um mês amarelando na prateleira, esqueça. Pule fora. Ele/ela não te quer, simples assim.

Se você é retirado vez ou outra da prateleira, suporta o estresse e gosta da adrenalina de ser escolhido, fique nela. Mas saiba que, apesar de ser apenas mais um/uma da vida do outro, você pode (e deve!) ser verdadeiro com seus próprios sentimentos. Pode dizer que ficou chateado porque a pessoa não ligou, pode dizer que adora quando é lembrado, pode ficar bravo e pode demonstrar ciúmes. Ufa. Isso dá um verniz mais humano à estranha relação. Por mais que você seja um bobo exigindo direitos que você NÃO tem, pelo menos você fez a sua parte. Você tentou.
E depois de cobrar, brigar e espernear por respeito, duas coisas podem acontecer: ou parceiro te larga (vale dizer que essa alternativa é a mais provável), ou diz: "Tá booooooooooooom, vamos namorar, então".

Seja qual for o resultado, valeu a pena. Sempre acho que devemos agradecer aos parceiros, bons ou ruins, que passaram pela nossa vida. E perdoá-los por nutrir expectativas nos nossos corações.
São essas as pessoas que nos ensinam a crescer. Nos ensinam a detectar nuances sutis nas falhas das comunicações. Nos fazem entender que a nossa voz nunca pode morrer, por mais difícil que seja encontrar um lugar para ela numa história de amor.
Ou, como diz lindamente Anais Nin num trecho do seu diário: são essas as pessoas que nos ensinam a amar humanamente.


"Ontem à noite eu chorei. Chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque meus olhos estavam abertos para a realidade. (...) Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar. Ainda consigo amar apaixonadamente sem acreditar. Isso significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela."






Por pior que seja a prateleira, 
ela pode deixar saudade depois que pulamos dela. 
Saibam disso.  

PS: antes que alguém me pergunte ou desconfiem (incrível como esses posts geram problemas), nada disso tem a ver comigo, ok?





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Damas fora.




Dizem que uma dama sempre sabe a hora de se retirar. Acho essa frase muito certa e concordo com ela, embora eu nem sempre saiba me comportar com tamanha finesse.
Quando percebe que não tem mais nada a lucrar com a situação e/ou não pode colaborar com contribuições relevantes, a elegante dama se retira. E ela sai, preferencialmente "à francesa", ou seja, sem se despedir. É mais chique.
E este é um benefício exclusivo das mulheres.

Quando uma mulher termina um namoro ou casamento sempre achamos que ela foi sensata e madura. As mulheres tem esse dom de deixar suas saídas sempre glamourosas. Se ela sai sem dar satisfação, então, fica ainda melhor. Parece que o tolinho do homem não soube decodificar os sinais e, portanto, não poderá reclamar por não ter sido previamente avisado.
-Como assim "eu vou embora"?? Sem se explicar, querida?
-Se eu soubesse que você precisava que eu desenhasse para você todas as minhas reclamações no decorrer destes últimos anos eu deveria, no início, ter comprado um caderninho. Agora já é tarde. Adeus.


No entanto, homens não podem se retirar sem dar satisfação. Este é um direito que eles NÃO tem. Em geral, homens quando terminam uma relação são vistos como imaturos. Se saem sem avisar, então, são os maiores filhos da mãe do mundo.
Há! Adoro ser mulher por causa disso!! Poxa, precisávamos mesmo ter alguma vantagem depois de termos nascido com úteros que doem e peitos que caem. Para as mulheres, vítimas absolutas durante toda a história da existência humana, sempre existiu a vantagem da maturidade. Ufa.

-Querida, não quero mais.
-Hã? Você é gay??
Digo isso porque parece que existe um pacto silencioso entre os casais onde fica definido que é a mulher que deve se retirar. 99% dos divórcios que acompanhei só aconteceram por causa das mulheres que, num belo dia, deram um basta e se retiraram. É raro ver um homem terminando uma relação. Eles traem, inventam atividades extra-conjugais no fim de semana, trabalham mais do que o necessário, enrolam, ofendem a esposa para ver se elas desistem, dão um gelo nelas para ver se elas arranjam outro, mas não olham para a parceira e dizem: "Querida, não quero mais."
Eles esperam pacientemente pela retirada de suas damas.
E a minha opinião é que eles não vão embora justamente para não serem taxados de cafajestes. Parece que existe um combinado entre o casal onde eles dão a deixa para ELAS serem as elegantes e deixarem eles imunes ao julgamento da comunidade.
Ah, também existe o fato de homens não conseguirem sobreviver sozinhos. A filosofia de vida deles parece ser: antes mal acompanhado do que só.

Resumindo, a regra é a seguinte:

  • Quando mulheres são abandonadas, são vitimas. Quando abandonam, são maduras.
  • Quando os homens são abandonados, mereceram. Quando abandonam, são cachorros.

Simples assim. Vamos analisar estas imagens:


Dama se retirando.
Cafajeste indo embora.









Dama se retirando.









Cafajeste indo embora (pela esquerda).


Eu sei, eu sei, isso tudo é muito sexista e limitante. Uma grande bobagem.


...mas é a mais pura verdade, sorry.
Escrevo isso porque já faz tempo que assisto a retiradas de damas e cafajestes e, por mais que todos ponderem as particularidades das relações, as conclusões do público são sempre as mesmas. Ela foi a madura do casal e ele, o fraco.
Ah, deixa a gente se gabar disso, vai! Puxa, sofremos taaaanto, ganhamos menos, lavamos mais louça, limpamos mais crianças, sangramos todo mês.... deixa a gente ser elegante de vez em quando. Pode ser?
Valeu.

Pronto, depois desta minha brilhante conclusão (que todos sabiam, mas ninguém ainda tinha oficializado) ficou mais fácil para uma mulher sair de um relacionamento com elegância. 
Quero ver sair de uma piscina...








domingo, 16 de dezembro de 2012

Os homens são de Marte e as mulheres são chatas.

Esta semana vi no Facebook uma foto acompanhada de comentários furiosos, alegando que a postagem era machista.
E a foto era essa:
8 coisas que tornam uma mulher apaixonante:
  1. fofa e carinhosa
  2. mesclar santinha e safada
  3. ter o bumbum no lugar
  4. não reclamar muito
  5. saber cozinhar
  6. não reclamar sobre futebol
  7. se cuidar
  8. ser fiel
Devo ser a pessoa mais machista do mundo porque concordo com tudo isso, desculpa aí.
Também odeio gente que reclama demais e as mulheres que fazem isso tornam-se mesmo in-su-por-tá-veis. Sim, sou das antigas que acreditam que a mulher deveria ser mais cordata e passiva. Desculpa, mil desculpas, mas eu acho isso. E veja que os caras não pedem que elas não reclamem. Não!!!! Eles tem noção da realidade. Pedem apenas que não reclamem... muito.

E eu, apesar de ser mulher, também não perdoo mulheres que não se cuidam e que não saibam cozinhar. Nada é mais brochante e desanimador do que uma mulher que não sabe cozinhar. Chega a ser infantil e sonso.

E ser fofa e carinhosa, caramba, não é mais do que uma obrigação!! Mulher tem que ser carinhosa, óbvio. Se não está na Bíblia, esta regra certamente consta no manual do proprietário. Pode checar que tá lá.

Bom, e "ser fiel" é o que se espera de qualquer parceiro (homem ou mulher) e ter a bunda no lugar é o que se espera de qualquer animal. Sorte que todos nós temos. E perceba que eles não reclamam da celulite e nem exigem demais da lei da gravidade. Só pedem, encarecidamente, que a coisa esteja no lugar, entre as costas e as coxas. 

Outro item: "suportar o futebol". Isso também pode ser traduzido como: suporte as manias estranhas do outro. Pode ser futebol, pode ser política, um programa esdrúxulo da TV, bicicleta, rock, ou o que mais houver. Mas, gente, é óbvio que temos que suportar porque, afinal, a mania é DELE e não nossa!  

Bom, resumindo, não vejo nada de errado na lista dos homens. 

Estranhíssima é a foto oposta:

8 coisas que tornam um homem apaixonante:
  1. pegada 
  2. perfume
  3. corte de homem bem resolvido 
  4. barba cerrada (não é serrada??? o Google não respondeu)
  5. prestatibilidade e parceria
  6. estilo
  7. cueca box branca
  8. cara de mau com um coração super romântico.
Não é uma lista de exigências estranha? MUITO mais sexista, detalhista e fútil do que a lista anterior.

Primeiro item: homem tem que ter pegada. Bom, isso eu já sabia. As mocinhas da minha palestra me contaram e eu socializei neste post aqui. Toda mulher diz que a "pegada" (uma palavra abstrata, intraduzível e cujo significado é impossível de explicar), é uma obrigação masculina que determina a continuidade ou não de um relacionamento.
Não é exigir demais dos pobres???
-Olha, Paulo, eu até gosto de você mas o problema é que você não tem pegada.
Aí o cara vai passar o resto da vida sem entender o que ficou faltando. Vai criar traumas, vai ficar frustrado, e NUNCA conseguirá resolver o problema dele porque, percebam, não existe "aula de pegada". Não existe um passo-a-passo no Youtube esclarecendo o assunto porque ninguém define o que é afinal uma pegada.  "Pegada" é algo que, se você não tem, então nunca irá entender o que é e, portanto, está condenado a definhar na sarjeta sexual da vida.
A mulher pode se tornar bem cuidada, pode aprender a cozinhar, pode decidir ser fofa, mas o homem nunca conseguirá decodificar e adquirir a tal pegada.
E eu acho isso muito, muito injusto.

Perfume. Poxa, perfume?? Exigir de um homem que ele use perfume é o mesmo que ele pedir que você escove os dentes antes de beijá-lo. Ou que tome uma ducha antes do sexo. Sacanagem, não acham? Vocês não acham absurda essa exigência?

Terceiro item: "corte de homem bem resolvido". What??????? Nada mais mal explicado, preconceituoso e elitista.

Barba cerrada. Hum..... ok, esse item eu poupo da minha crítica porque concordo.

Prestem atenção ao próximo item: "PRESTATIBILIDADE e parceria".  As mulheres querem tanto, exigem tanto, que até inventam neologismos para definir seus desejos.
Prestatibilidade existe??
Pelo que eu entendi elas querem um homem que seja parceiro e que lhes preste serviços. Tipo, troque o courinho da torneira, mate uma barata (e jogue no lixo) e saia  na chuva para buscar o carro no estacionamento. Entendi, mas isso não é o mesmo que o homem exigir que você cozinhe?? E porque eles são machistas ao exigir a comida e você está nos seus direitos ao querer a instalação da resistência do chuveiro? E, tem mais: TODO homem que eu conheço atualmente cozinha (muitos, inclusive, melhor do que as esposas), mas nunca vi uma moça trocando o pneu para o marido.

Estilo. Putz, outro item abstrato. TODOS nós temos estilos, mas elas não definem o estilo que lhes atrai porque.... porque..... ah, porque são mulheres. Elas querem e ponto final. Eles que se virem para entender.

Cueca box (o certo seria boxer, mas aí já é exigir demais dos textos do Facebook). Como assim??? Se os caras acima pedissem, sei lá, calcinhas vermelhas as feministas, obviamente, iam cair matando, mas as mulheres tem o direito de escolher o modelo E a cor das cuecas. No mínimo um contrasenso.

Último item da lista: "cara de mau com um coração super romântico". Trocando em miúdos, isso é o mesmo que dizer que ele deve "mesclar a santinha com a safada", claro, mas as mulheres dizem de modo a parecer uma necessidade afetiva e não uma tara sexual. Mulheres são maduras e demonstram saber o que quer. Homens são pervertidos e sempre exigem demais.

Bom, resumindo: é duro ser homem hoje em dia. Não podem pedir nada que já são taxados de machistas e, prá piorar, atualmente precisam satisfazer uma lista de exigências abstratas e confusas como "pegada", "estilo", ter um corpo perfumado e um cabelo com "corte de homem bem resolvido". Além da cueca certa.

Tadinhos... e pensar que eles só queriam um bumbum no lugar certo.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

LEGOLAND



O post anterior me fez lembrar desta música abaixo. Esta música me fez lembrar das minhas aulas de psicologia analítica e as minhas aulas de psicologia me fizeram ouvir, esta semana, relatos de amigas (lembrem-se que não falo de pacientes aqui) de uma forma diferenciada. 
E, ouvindo os outros, eu descobri algo incrível.
Mas este texto é apenas a primeira parte da história. Lá vai:


"Terezinha de Jesus numa queda foi ao chão.
Acudiram três cavalheiros
todos de chapéu na mão.
O primeiro foi seu pai,
o segundo seu irmão,
o terceiro foi aquele
que a Tereza deu a mão."



Existe uma instância psíquica da teoria junguiana chamada ânimus, que nada mais é do que os aspectos masculinos da psique de uma mulher.
Os aspectos masculinos a fazem lutar, brigar e conquistar coisas importantes para a sua vida. Mas, para isso, a moça tem que estar de bem com o seu próprio ânimus. Se a relação de uma mulher com o próprio ânimus for ruim, ele pode se tornar um tirano, boicotando-a pela vida afora. Criticando o seu desempenho profissional, sacaneando os seus relacionamentos amorosos, questionando a competência da moça, ridicularizando-a quando ela se aventura em um desafio.... um inferno.

E existe nos homens, claro, a instância oposta: a ânima.
A ânima são os aspectos femininos de um homem que o acolhe, o emociona, o incentiva com afeto, o surpreende com beleza, arte e poesia. A ânima pode ser uma mãe boa interna que o encoraja ou uma musa inspiradora que o preenche de leite e mel. Mas, de novo, preciso dizer que a ânima precisa estar em sintonia com o rapaz. Se ela for uma ânima ruim, negativa, pode se transformar numa bruxa má ou numa sedutora vulgar que usa a feminilidade de forma destrutiva. Como sereias que levam os navios à desgraça.
Bom, numa aula sobre o assunto, uma professora disse:
-O ânimus não pode ser hierarquicamente superior, como um pai, e nem pode ser um igual, como um irmão. Se isso acontecer não há ganhos com a conquista do ânimus.
E eu logo falei:
-Ah, entendi, como o "terceiro" da Terezinha de Jesus?
A professora, então, sorriu e falou, com uma paciência maternal:
-Sim, Claudia, sim. Como o terceiro da Terezinha de Jesus.

Terezinha caiu e precisava de ajuda para levantar. Apareceram 3 homens, mas ela deu a mão justamente para aquele que não era o seu pai e nem o seu irmão. Podia ser um reles pretendente amoroso, mas eu adoro achar que era o ânimus. Fica mais místico.
E aí é que está a beleza da teoria junguiana: a ânima e o ânimus são instâncias que surgem para resgatar o paciente de uma crise. Terezinha caiu. Nós também caímos, e precisamos fazer as pazes com estas nossas instâncias opostas se quisermos ser salvos.
Já falei sobre isso neste post aqui. Leonardo Dicaprio certamente, foi o ânimus da moça do Titanic.

Bom, do ponto de vista prático, o ânimus deve estar dentro de nós, como uma voz que nos orienta. Mas se você não possui um bom ânimus, não consegue acessá-lo ou ignora-o por completo, tcharããããm... não se preocupe!! Ele virá até você sob a forma de um homem de carne e osso. (É preciso lembrar que o mesmo acontece com a ânima, tá? E neste caso, obviamente, é uma mulher que aparece).
E ele/ela sempre chega da forma mais improvável e linda.
É claro que o cara é um homem especial que te valoriza, te inspira, te incentiva, te motiva, te corrige, te orienta, te elogia... e é claro que podemos nos apaixonar por ele.
E aí que está a dificuldade: diferenciar o ânimus de um grande amor.

Digo isso porque esta semana conversei com duas mulheres que me contaram sobre o encontro delas com os respectivos ânimus (vale dizer que este encontros sempre são emocionantes e eu adoooooro ouvir histórias assim). E o mais incrível é que as duas falaram, basicamente, a mesma coisa: Sinto-me segura e amparada ao lado dele, mas sei que não é um amor romântico, é um amor pelo masculino e, ao mesmo tempo, por mim mesma.  É como se ele estivesse me ajudando a evoluir como mulher. Como se ele estivesse me preparando para algo maior.

E eu comentei com ambas: "Uau, que super sacada! Você acabou de economizar anos de terapia."
Tem gente que conhece o ânimus e acredita que lá está um grande amor. E aí fica sofrendo, chorando, insistindo, dando murro em ponta de faca. Não reconhece que o cara só tem uma função provisória na sua vida e que, não necessariamente, veio para ficar.
Ou tem gente que conhece o ânimus e foge de medo. Ou, pior, enlouquece...
Existem histórias que falam de pessoas que se desestruturaram diante de um ânimus/ânima, e o filme "Perdas e Danos", com o Jeremy Irons se apaixonando pela nora, é o que eu mais consigo lembrar agora.
"O segundo foi o seu pai..."  

Ah, tem também o filme "Ensina-me a viver", onde um jovem rico, deprimido e potencialmente suicida conhece uma velha alegre e se apaixona pela ânima da velha sábia, salvando-o da crise existencial que ele se encontrava. (com uma trilha sonora incrível do Cat Stevens)

Mas aí vem a pergunta crucial: como diferenciar o ânimus/a ânima de um grande amor?

Vixi... difícil, mas costumo dizer que se o cara ou a moça falam E-XA-TA-MEN-TE  o que você precisava ouvir é quase certo que é apenas a personificação de uma instância psíquica. Se existe algo mágico no ar e você tem a percepção de ser personagem de uma história incrível, também pode ser. Se você tem a sensação que está conversando com você mesmo, putz, é batata! E se tudo flui bem, mas a química entre vocês não existe, é certeza.
Sim, é duro, mas precisamos admitir que o amor não é assim tãããão incrível. Amor não é essa completude toda. Amor em geral tem arestas, tem espinhos e, infelizmente, nunca dizem aquilo que e gente queria ouvir.
Pena...

O amor não é aquela coisa colorida onde tudo se encaixa perfeitamente.
O nome disso é Lego.


Ei, para tudo!! Ou... pode ser a sua (seu) ânima/ânimus!!!

Encontros coloridos e absolutamente perfeitos! 
E viva a Legoland!!


Agora eu quero saber: com tudo isso que eu falei hoje, vocês detectaram histórias de encontro com ânima/ânimus no decorrer da vida? Não é exatamente isso que eu disse?
Quem concorda? Quem tem algo a acrescentar?? 





sábado, 10 de novembro de 2012

Lavou, tá sujo.




Hoje estava comendo o meu Sucrilhos e parei para ler a caixa. Adoro ler caixa de cereal. Sempre aproveito para testar a minha visão cansada. Tantas letrinhas miúdas, né?
Na caixa de ontem, ao final da lista dos ingredientes existia a frase obrigatória: CONTÉM GLÚTEM e, depois disso, uma última frase, em letras menores: contém traços de amêndoas.
Dei risada alto, sozinha.
Estranho.
Katy Perry, com notas de mau
gosto residual, puxada na
peruca uva.

Já tinha lido isso em outros produtos mas nunca entendi o significado da coisa. A amêndoa não é ingrediente porque, se fosse, estaria na listagem anterior.
Ok, isso eu entendi.
Mas, então, o que significa "traços" de amêndoas, afinal?  E por quê precisa ser mencionado?
Será que algum funcionário guloso deixou cair uma mísera amêndoa no tonel da farinha de milho e eles precisaram notificar? Será que alguma funcionária usou óleo de amêndoas e deixou o cheiro no produto?
O que significa um "traço" de algum coisa?
Odeio esses neologismos para detalhes insignificantes: gosto residual com NOTAS de caramelo; filé ao vinho do porto, PUXADO na canela.
Tudo bobagem.

Bom, a explicação do tal "traço" eu encontrei aqui.

Diz o texto que, por mais que as caldeiras sejam lavadas entre a fabricação de um produto e outro, sempre sobra uma sujeirinha que configura o tal "traço". O "traço" é o cúmulo da honestidade, do detalhismo exagerado. É quase um sintoma de TOC.
Entendo que isso seria necessário para pessoas muito, muito, muito intolerantes com alguns alimentos, como é o caso do meu amigo Seinfeld.
Ahahaha, adoro esse vídeo!


-Mas, peraí, Jerry. Se você não toma leite,
como consome essa quantidade absurda de cereais?

Mas por quê a Kellogg´s precisa avisar sobre uma.. amêndoa? As farinhas não avisam em seus rótulos sobre a enorme quantidade de pedacinhos de insetos. O McDonalds não diz nada sobre cabelos e minhocas.
Por quê amêndoas são, então, um problema??

Sim, porque afinal as amêndoas não são alergênicas. Amêndoas não estão na lista dos produtos proibidos pela dieta kosher e, pelo que eu sei,  também não é um alimento sagrado em cultura alguma.
E vale lembrar que a amêndoa não é um tempero forte como coentro, orégano ou erva-doce que deixaria um cheiro forte e contaminaria o produto para sempre.
Comer uma casquinha de uma amêndoa não provoca problemas maiores em ninguém.
Pffff, amêndoa é uma bobagem.
Ao invés de gastar tinta avisando isso na caixa, deveriam é deixar prá lá e acabar com essa palhaçada.
E, prá complicar ainda mais: afinal qual é o produto Kellogg´s feito com... amêndoa???  Nunca vi! Se existir, por favor me avisem, porque ando mesmo enjoada dessa rotina de flocos de milho +  flocos de arroz.


Relatório Final da Investigação: na calada da noite, a fábrica da Kellogg`s arrenda o espaço para a Nutty Bavarian e os funcionários, na pressa de trocar o turno, não esfregam direito o alumínio. Caso fechado.

-Vambora, Maria, que o povo do tigre Tony quer começar a trabalhar.
-Péra, home, deixa eu lavar as tigelas.
-Nãããã, deixa asssim. Se sobrar alguma sujeira, eles escrevem depois na caixinha.


Mas a verdade é que desde que os meus filhos começaram a lavar as fôrmas aqui de casa, eu acho que preciso também começar a notificar problemas parecidos na hora de enviar minhas receitas para as amigas :

Bacalhau ao Forno: batata, bacalhau, tomate, cebola, azeitona, azeite, ovos, sal. NÃO CONTÉM GLÚTEM. contém traços de cookies. 

Bolo de Cenoura:  farinha de trigo, açúcar, cenoura, óleo, ovos, fermento químico. CONTÉM GLÚTEM. contém traços de bacalhau.



E isso me faz lembrar de uma ótima frase usada entre os jovens (percebam que eu já me excluo deste grupo). A frase é:  Lavou, tá novo.
É usada, por exemplo, quando um rapaz pega a ex-namorada de um amigo.
-Puxa, mas não é estranho você ficar com a Jú depois dela namorar o Bruno por tantos anos?
-Bobagem. Lavou, tá novo.

Ótima, né?


-Pronto, Jú, já tá bom.
Agora vamos dar uma olhada nessas orelhas.


Mas o que os jovens não sabem é que que existe essa coisa chamada... traços.
Juliana: peitinhos, barriga com piercing de titanium, coxas, nariz corrigido cirurgicamente, cabelos alisado com formol, dentes branqueados quimicamente CONTÉM GLÚTEO contém traços de Bruno.

Lavou, tá sujo.

Isso porque estamos apenas falando dos traços microbiológicos. Ainda não entramos no mérito dos traços emocionais.
-Vixi, a Jú ainda contém traços de Bruno...


CAMILA: amiga, simpática, trabalhadora, evangélica, boa filha, honesta. NÃO CONTÉM GLÚTEO. contém traços masoquistas.

RICARDO: espada, bonito, simpático, ativo, atlético.  CONTÉM GLÚTEO. contém traços gays.



Espero que o "Relatório Kellogg´s" não vire moda daqui prá frente.
Ei pessoal, vamos deixar os detalhes de lado! Esquece isso! Qual é o problema se tem uma coisa suja aqui e outra acolá?? Sujeiras são boas. Dizem até que melhoram a nossa imunidade.
Nossas características confessas já nos dão trabalho suficiente na vida. E se formos fuçar demais descobriremos tantos traços, tantas notas, somos puxados em tantas coisas...

Ah, e ainda temos os benditos glúteos que nos dão um trabalho danado.



sábado, 29 de setembro de 2012

Minha vida, agora com Paixão.



Estou com alguns textos prontos aqui no blog, mas sem coragem de publicar.
Ai, ai, é uma droga esse medo de escrever bobagens. Não tenho medo da polêmica (nem poderia!), tenho medo da pieguice e do senso comum. Pavor! Leio os posts e penso que são desnecessários e ruins, psicologismos de quinta categoria. Acredito que o mundo, definitivamente, não precisa de mais "Augusto Curys" ditando banalidades.
Eu estava nessa maré baixa de inspiração quando, ontem, aconteceu algo incrível: eu, com 38 anos de idade, descobri a paixão.
E foi lindo.

Vou explicar.
Nesta semana o salário acabou antes de terminar o mês. Já aconteceu com vocês? É assim ó: o dinheiro acaba e o mês, teimoso, insiste em continuar. Sim, é mesmo horrível.
Bom, mas mesmo nesta situação dramática precisamos nos virar para manter algumas necessidades básicas. Não dá para continuar vivendo sem sal nem açúcar, por exemplo. Não dá para ficar esta última semana sem desodorante, sem pasta de dente, sem shampoo... e, para mim, não dá para passar um dia sequer sem hidratante.
Impossível!
Tem gente que acorda no meio da noite para fazer xixi. Alguns, viciados, acordam para fumar. Tem gente que levanta para comer. Eu acordo para passar hidratante. Sim, eu sei que é loucura, mas é a mais pura verdade. Levanto as 3 da manhã, sento na cama, passo hidratante e volto a dormir. Vai entender...

E, portanto, mesmo na falta de recursos financeiros eu precisava urgentemente de um hidratante para terminar o mês. Como fazer, meu Deus? Como comprar um reles "Johnson`s" ou "Vasenol" com apenas 5 reais?? Sim, porque, o caríssimo "Nívea", não dava nem prá cogitar. Então, com medo de uma potencial noite insone com a pele pedindo um creme, decidi comprar o mais barato e o mais cafona. Comprei o "Paixão".
Odiava a propaganda do creme com óleo de amêndoas "Paixão". Odiava o nome!! Odiava a embalagem cintilante. Detesto o cheiro de óleo de amêndoas (cheiro de gordura) e jurava para mim mesma que nunca compraria o dito cujo.
Mas... a necessidade falou mais alto e, ontem, eu assumo que comprei.
Depois de cheirar toda a coleção de cremes "Paixão" da prateleira, optei pelo branco que tem cheiro de... cheiro de quase nada. Eca, tinha uns que cheiravam a tutti-fruti e outros lembram sabonete de rodoviária.
Paguei R$4,49 e fui para casa na fissura, como um drogado, para passar o tal creme na perna.
Virei, apertei, e ele demorou para sair porque é grosso e muito, muito cremoso. Já fiquei agradavelmente surpresa com isso pois, pelo preço, eu imaginava algo bem ralo.
E então veio a maravilha: espalha bem, delícia, macio, cheiroso, gelado, fresco... tudo de bom. Dormi bem a noite inteira e hoje cedo eu estava com a pele perfeita: o pé liso e macio, a perna ainda gelada e úmida, os cotovelos brilhantes, um verdadeiro milagre.
Puxa! Tantos anos desperdiçando dinheiro com  farmácias de manipulação em busca da alegria dermatológica! Rios de dinheiro com os gringos "L`Occitane" e "Le Roche Posay ".Tantas décadas comprando "Boticário" e "Natura" com a ilusão da satisfação da pele. Tantos meses de gestação à base do caríssimo "Payot" para uma barriga sem estrias e hidratada.
Tudo isso prá quê??? Prá nada, o "Paixão" estava ali o tempo todo. Mas eu, boba, não enxergava.

Por isso, depois de adulta eu finalmente me despi dos preconceitos, venci barreiras da elegância e me entreguei à "Paixão".E foi tão bacana e tão delicioso que, mesmo sem ganhar nem um centavo com isso, eu precisava vir aqui para contar.
A moral da história? Procuramos soluções em lugares distantes, pagamos um preço alto pela satisfação, sem perceber que a paixão pode estar em qualquer mercadinho de esquina para nos acolher. Meu próximo passo é abandonar os cremes caríssimos para o rosto e acatar uma dica de uma esteticista amiga minha: rasgue uma cápsula de vitamina E na mão, espalhe no rosto e, depois de seco, passe por cima um creme Rugol (11 reais!!!!). Só. Barato, né? Vou testar e contar se é mesmo bom. Vai ser libertador não gastar mais 150 reais com o meu creme importado.

E por falar em paixão...

Quando eu era moça comecei a namorar sério e meu pai, todo orgulhoso, falou do meu namoro com um amigo dele que, naquele dia, jantava lá em casa. O homem parou de comer, olhou fundo nos meus olhos adolescentes e falou:
-Claudia, vou te fazer uma única pergunta: Você é apaixonada pelo cheiro do seu namorado?
Fiquei sem graça e respondi que não sabia (mentira, eu não era nem um pouco apaixonada pelo cheiro dele e sabia disso muito bem). Ele, muito compenetrado, falou algo que eu guardei para a vida. Algo bem inapropriado para um jantar na mesa com os meus pais, mas a lição foi mais ou menos assim:
-Nunca, nunca cometa a besteira de casar com um homem por quem você não é perdidamente apaixonada pelo cheiro da pele dele. Escuta bem o que eu digo, não faça essa bobagem de subestimar o cheiro do parceiro.
Bom, resumindo: o cara me fez terminar o namoro e, desde então, comecei a achar que ele tinha mesmo razão.
Passei a levar a sério essa coisa de cheiro. Parei de usar desodorante perfumado, aposentei minha coleção de perfumes e sou super exigente com a essência dos hidratantes. Inúmeras vezes interrompi um pote de hidratante porque o cheiro dele me perturbava. Tudo isso para não ofuscar o meu cheiro natural, hahahah.
Na verdade eu nem sei se o meu cheiro é bom (a gente não sente o próprio cheiro, né?), mas fiquei com medo da história. Vai que o meu namorado se apaixona apenas pelo meu perfume sem nem conhecer direito o cheiro da minha pele? Vai que eu o iludo com perfumes franceses e meu casamento dá errado por causa de uma propaganda olfativa enganosa?
Por isso não uso perfume e tenho cheiro de... Claudia.
Prefiro assim. E a "Paixão" não afetou em nada a minha promessa de não me perfumar.

Happy End


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Dependência ou Morte!


Hoje, dia da Independência do Brasil, é aniversário de uma amiga querida. A enorme ironia da coisa é que justamente esta moça, há poucos dias, me ensinou uma coisa bacana: a dependência também pode ser uma conquista difícil. A dependência pode ser uma escolha rebelde, transgressora e ultra pós moderna.
Vou explicar.

O ser humano é naturalmente apegado, e as relações interpessoais são um exemplo clássico do alcance ensandecido deste apego. As românticas, principalmente.
Entretanto, é moderno e louvável a gente lutar pelo desapego: erguer nossas espadas fálicas e nos declararmos independentes para ir e voltar quando quisermos dos amores. A sociedade aplaude de pé alguém que supera a perda de um grande amor e, rapidamente, se redescobre na solidão emancipada. É admirável alguém sair de um casamento e ficar feliz com uma vida ao som do mar e à luz do céu profundo.

Mas...
Hoje em dia aprendi que batalhar pela dependência é uma luta igualmente dura. ABAIXAR a espada nas margens plácidas e, amorosamente, aceitar pertencer. Aceitar se submeter às vontades do outro. Acatar condições, enfiar o rabo entre as pernas e voltar para casa com humildade.
E eu descobri que isso também é lindo.
O povo que declara "independência ou morte" sai de um divórcio cheios de milho, crente que estão arrasando, enquanto os que declaram a dependência já voltam com o fubá pronto. Já assumiram o desejo de partir, já sentiram o gosto da liberdade, já curtiram as delícias da solteirice, já sofreram de saudade, já se humilharam pedindo o perdão, já aceitaram a nova condição de vida compartilhada ad eternum e voltam agora felizes, crescidos.
Aos olhos de alguns parece que são uns fracos, indecisos e imaturos, mas o povo que separa e volta apenas anda na contramão do apego.
Em geral são famosos por serem rebeldes. São transgressores pela própria natureza e, por isso, têm como missão, dentro do casamento, aprender a serem submissos e aceitar as regras caretas de uma relação a dois. Enquanto uns são demasiadamente apegados e precisam lutar pela individualidade dentro de um casamento (levantando espadas, gritando e exigindo o seu espaço com braços fortes), estes transgressores parecem que nasceram emancipados e, um dia, percebem que, para serem felizes e completos, precisam assinar uma carta de escravidão.
E isso pode ser duro! Pode parecer estranho, pode incomodar muito, e pode demorar tempo.

Essa história me fez lembrar de uma adaptação minha de uma famosa frase do Tom Jobim: "Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom."

"Ser casado e bom, mas é uma merda. 
Ser solteiro é uma merda, mas é bom."

E não é verdade???
Cada um tem uma aprendizagem a fazer na solteirice. Cada um tem uma aprendizagem a fazer no casamento. Uns precisam aprender a independência. Uns precisam batalhar pela dependência.
E todos precisam ser felizes em um formoso céu, risonho e... límpido!

Desejo a você, amiga aniversariante, paz no futuro e glória no passado. E obrigada por seus ensinamentos.

Para ilustrar esta história, além do Roberto Carlos (que voltou, e agora é prá ficar porque aqui, aqui é o lugar dele) tem uma bela música do Reginaldo Rossi regravada de maneira incrível. Melhora bem no minuto 2:46.



Agora fica a dúvida: será que a moça só voltou porque os outros homens a deixaram pela manhã???
Ahahahah, se eles tivessem ficado, será que ela voltava?
Ouçam a música e tentem me responder.

Ah, e ouçam também a versão original, cafonérrima aos ouvidos mais conservadores, mas uma pérola.

domingo, 24 de junho de 2012

Picanha


Um dia uma amiga me confessou algo incrível. Ela contou que, quando tem um orgasmo, acontece com ela uma coisa.... incrível. Inacreditável. Surreal.
E eu, que pensava conhecer muita coisa sobre o assunto, fiquei bem impressionada:
-Como assim?????? Que coisa mais estranha do mundo! Poxa vida, mas me diz: o que é que o fulano acha disso?
O "Fulano" era namorado dela há um ano, e com quem ela gostava muito de fazer sexo. E a resposta foi:
-Ah, ele não sabe. Eu nunca gozei com ele.
-Ah tá.

ISSO não me surpreendeu. Normal. Orgasmos femininos não pipocam por aí com frequência. As estatísticas contam que são artigos... raros? Não, não raros, mas bastante particulares e, por isso, não podem ser medidos em termos de normalidade.
Orgasmos são como cólicas menstruais: tem gente que tem sempre, tem gente que não tem nunca, tem gente que tem dez vez em quando e tem gente que finge ter.
Hahah, as meninas da minha escola sempre fingiam cólicas menstruais para ficarem sentadas na aula de Educação Física. Ninguém podia contestar e o professor tinha que ficar bem quieto porque, né, elas estavam com... cóóóóóólicas!!!! Pobrezinhas. E as cólicas fingidas davam a elas um charme danado. As meninas peitudas e gostosas da "gangue da cólica" tinham status no grupo das meninas magricelas como eu, numa época em que ficar menstruada era sinal de maturidade.

Bom, orgasmos femininos são como as tais cólicas: imprevisíveis e pessoais.
Mas com essa história de fingir orgasmos, amplamente divulgada na mídia e nos papos de botequim, aconteceu algo cruel com os homens e as mulheres. Os homens, tadinhos, agora acreditam que todas fingem e ficam inseguros com a parceira. Sim, porque se ela finge orgasmo pode também fingir outras coisas mais sérias. Mas.... o que existe de mais sérios do que fingir um orgasmo???? Fingir... amor? Ah, bobagem.
Por outro lado, as mulheres não podem mais ter uma relação sexual bacana (sem orgasmo) que já acham que podem ter encenado em algum momento.
Hahaha, juro. Já ouvi esse drama.
-Não gozei, mas foi tãããão legal que acho que eu devo ter dado a impressão de ter gozado. Será que ele vai ficar bravo porque eu dei a impressão de que gozei quando na verdade estava só curtindo o momento? Ou será que, pior: ele realmente acha que gozei? Merda, será que eu dei essa sensação? Ó meu deus, será que sou uma fingidora enrustida??? Será que sou como... MEG RYAN???


Odeio a tradução do "Get out of here": Vai dar uma volta???
E uma curiosidade inútil: a senhora que pede ao garçom "o que ela comeu" não é uma atriz, é a mãe do diretor. Haha, o diretor deve ter falado: "Mamãe, a senhora quer assistir a uma cena bem divertida e ver algo que você, provavelmente, nunca viu antes?" 
E a velha deve ter dito: "Ah, pode ser. Já lavei roupa hoje cedo mesmo."


As mulheres que fingem orgasmo só querem dar a impressão de serem boas de cama. E as que tem orgasmos naturais, rápidos e fáceis dão aos homens a certeza absoluta de que são.
Mas o que elas nem imaginam é que, por mais incrível que pareça, isso pode ser muuuuito desanimador para eles.
Minha teoria é de que homens não gostam de mulheres gratuitamente fogosas. Eles é que tem que atiçar o fogo! E se o fogo não for atiçado tão fácil, aí é que eles gostam mesmo porque o desafio finalmente está lançado.
Homens gostam de desafio e é por isso que o truco e o pôquer são tão populares nas bandas de lá.

Já viu o prazer que um homem sente ao acender a brasa de uma churrasqueira? Organiza o carvão com engenharia, assopra, põe gel, bota papel enrolado de um jeito especial, joga álcool, querosene, abana (de cima prá baixo para não subir fuligem, ângulo de 70 graus!) e já vi muitos ligarem até ventilador para ajudar na oxigenação da brasa. E se for um carvão manhoso, desses que não se entregam fácil, aí que é que eles gostam mesmo.
E depois, quando a chama fica alta e bonita, eles olham todo orgulhosos para a platéia e dizem: "Ninguém acende um fogo como eu!".

Saber acender o fogo é importante para os homens.

Um dia cheguei mais cedo num churrasco e a molecada começou a ficar com fome, mas não tinha nenhum homem no recinto, já que eles ainda nem tinham acordado. Eu olhei para uma amiga que estava lá e disse:
-A gente podia acender o fogo e ir assando umas linguiças para as crianças. 

Sim, porque um picanha eu nunca ousaria colocar na brasa!!! Seria muita petulância de uma mulher acreditar que dá conta de assar uma picanha. E se eu não colocasse a quantidade certa de sal grosso? Ou, melhor, e se eu não sacudisse a carne do jeito certo e não tirasse o sal grosso suficientemente antes de pôr na brasa? Iria desidratar a picanha e ainda salgar a bichinha. E se eu colocasse ela no andar errado da grelha? E se eu (ai meu deus!!!) fatiasse a carne no sentido das fibras ao invés de cortar translongitudinalmente???? Minha amiga olhou para mim com cara de transgressora e disse:
- Seráááá? Será que damos conta de acender o fogo sozinhas? Ah, vamos tentar, vai! Não deve ser tão difícil!
Eu desanimei:
-Não. Acho que eles ficarão ofendidos. Melhor esperar. Soca pão com vinagrete na criançada.



O homem é que tem que acender o fogo do churrasco.Tá na Bíblia.
Churrasqueira com acendedor automático é obra do demônio, certeza. Ou de alguma feminista, porque o acendedor automático de churrasqueiras modernas abala por demais a autoconfiança masculina.

E para acender o nosso fogo também. Tem que ser eles. Eles precisam demonstrar todo o conhecimento no assunto e ter a certeza de que acenderam uma chama respeitável. Precisam organizar tudo com engenharia, assoprar, pôr gel, achar o ângulo de 70 graus e ligar o ventilador.
E depois quando a chama está alta e bonita, eles primeiro cuidam da picanha para, só no fim, colocar a linguiça. Picanhas são lentas e delicadas. Picanhas precisam de ciência e cuidados. Linguiças não, linguiças já vem perfeitinhas lá da fábrica. Funcionam bem e assam rapidinho.

Hahaha, meu deus quanta metáfora!
Bom, resumindo: moça com fogo naturalmente aceso não tem graça. Obra do demônio. Ou de alguma feminista que acha que a mulher pode que ser dona do próprio prazer.
Bah.



PS: se o grifo branco continuar aqui, não liguem, ok? São irrelevantes e agem contra a minha vontade. Não saem nem por decreto. Vamos ignorá-los para ver se eles voltam para o lugar de onde nunca deviam ter saído.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Red Light

Durante toda a minha vida de psicóloga/namorada/amiga eu já ouvi duas versões da mesma história. Vamos ver qual é a versão de vocês.
Cena: o seu companheiro chega do trabalho e lhe diz, amigavelmente:
-Vamos ao shopping comprar umas camisolas bonitas para você, querida? Tô achando os seus pijamas tão gastos e velhos. Ô, tadinho do meu amor!

Acabou. Só isso. Agora vamos às reações:
Algumas mulheres ouvem isso com alegria: "Oba, ele me deseja e pede que eu fique linda. Que bom! Vamos logo comprar essas camisolas.". Mas outras ficam com o orgulho ferido: "Camisola sexy?? Por que? Só eu já não te  basta?? "

E, neste caso, uma frase besta como esta pode dar margem para brigas homéricas, ressucitando traumas, complexos, raivas e cobranças:
-Querida, desculpa, mas eu precisava te contar que não é normal uma mulher dormir com o marido vestindo moletom e camiseta velha.
-Sim, eu entendo, mas por que você sempre fala de um jeito que acaba com a minha auto estima?
-Porque não dá para lidar com a coisa de uma maneira sutil! Se eu te dou uma lingerie sexy, como já comprei muitas, dando indiretas que eu quero um sexo mais apimentado, você joga o presente no fundo da gaveta ao invés de usar.
-Porque pinica, entra na bunda e o arame do sutiã dói!!!!!!!!!! 
-Engraçado, por que é que nas outras mulheres não dói?
-Outras mulheres??? Ah, aquelas aquelas vagabundas que trabalham no seu escritório? Nelas não dói? Você já investigou?
-Amor, não seja infantil. A verdade é que você anda relaxada, sem vaidade e se esqueceu que é uma mulher linda.
-Culpa sua! Relaxado é você que me fez esquecer de ser mulher. - já chorando.
-Porque o seu pijama é tão brochante, mas tão brochante que eu nem lembro que existe uma mulher por trás dele!!!!!!!  

E por aí vai, madrugada afora. O cara pedindo para a esposa ser mais atraente e ela se sentindo ofendida.

Curiosidade inútil de hoje 1: Até a gostosa Demi Moore ouviu reclamações do seu marido que, elegante e discreto, jogou no Twitter uma foto dela (ao lado) com uma calcinha beje e sem graça, reclamando do modelo demodê. 
Marido besta! 
No mesmo ano o casamento terminou, uma vez que Ashton Kutcher foi flagrado procurando calcinhas mais ataentes pela cidade.


Porém...  se a mulher é apimentada e vaidosa o cara TAMBÉM RECLAMA!!!
Marina e Roxanne eram assim: super eróticas e viviam todas faceiras. Mas os parceiros não achavam iso nada legal.

"Roxanne, you don't have to put on the red light. (...)
Roxanne, you don't have to wear that dress tonight. (...)
I know my mind is made up, so put away your make up."
(The Police)
Tradução tosca: "Roxanne, vc não precisa acender a luz vermelha, nem usar o seu vestido esta noite. Já decidi, jogue fora a sua maquiagem."


"Marina morena Marina você se pintou
Marina você faça tudo, mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu
Marina você já é bonita com o que deus lhe deu".
(Dorival Caymmi)

Curiosidade inútil de hoje 2: "Marina Morena" é o nome de uma filha do Gilberto Gil (acima) que se casou com Fernando Torquatto, o famoso MAQUIADOR DAS CELEBRIDADES!!!! Hahaha, não é uma piada uma Marina Morena se casar com um maquiador? E o pior é ele realmente não a maquiava e deixava ela ir nas festas como mostrado acima, apenas com o que Deus lhe deu.
Bom, mas agora o casamento deles também já acabou. Talvez por ele não a maquiar como devia, ou, talvez, justamente por ele ser, bem, um...maquiador. Talvez Marina fosse muito blush para o pincel de Fernando.
Desculpe, Marina Morena mas eu tô de mal!

É de se pensar que um cara que não queira uma mulher muito fogosa e atraente, no fundo, no fundo, não dá conta do recado. Ou talvez seja um ciumento enrustido, morrendo de medo dos outros homens também a acharem linda.

Resumindo: eu não entendo todo este drama que acontece durante as exigências com a vestimenta noturna/íntima.
Sim, porque precisamos lembrar que roupa é apenas um símbolo do meio de toda a discussão. O que importa mesmo é o comportamento que emana de tais peças. É importante dizer que não é exatamente a calcinha linda ou o moletom velho que vem ao caso, mas a atitude por trás dessas escolhas.
Ah, e vale lembrar também que a reclamação pode vir dos dois lados. Homens que se deitam com camisetas furadas e cuecas sem elástico podem receber as mesmíssimas queixas, só que as mulheres costumam ser mais educadas.

Está mesmo cada dia mais difícil compreender as exigências dentro das relações.
Uma sábia senhora italiana que eu conheço disse que, na época dela, para um casamento dar certo uma mulher só precisava: "ser uma dama na rua, uma puta na cama e ter memória curta".
Hahaha, adoro este último item.
Mas, hoje, a verdade não é bem essa. As vezes precisamos ser uma puritana na cama, uma executiva na rua e ganhar dinheiro. Ou precisamos ter menos amigos na rua, roncar menos na cama e servir sobremesa. Ou precisamos.... ah, são muitas variáveis.

Minha experiência acompanhando a vida íntima de muitos casais mostra que sempre haverá reclamações. Ou pela falta de pimenta ou pelo excesso.

"No meu temperamento tem um pouco de pimenta.
 Não é todo mundo que gosta, nem todo mundo que aguenta."
(Clarice Lispector)

Conclusão: ou as calcinhas estão velhas e gastas ou são desnecessariamente rendadas.
E assim sempre será... amém.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Superego

-Sabe doutor, sinto que eu sempre carreguei os
meus pais adotivos nas costas...
                                                                                                     

                                                                                                              Metrópolis, 16 de março de 2012.

Ilmo Sr. Quentin JeromeTarantino,

Como vai? Espero que bem e sempre criativo.

Já fazem alguns anos que eu penso em lhe escrever. Assisti a "Kill Bill 2" e fiquei honrado com a menção à minha pessoa ao final do filme. Estava sentado no escuro do cinema e, quando ouvi tudo aquilo, achei muito, muito bacana  Foi mesmo uma linda surpresa.

-Estranho, achei que no seu planeta
os morcegos voassem... hehe.
Aquela história da minha essência ser extraordinária e a minha fantasia, na verdade, é de ser uma pessoa mundana (ao contrário do Homem Aranha e Bataman) me deixou envaidecido. Sempre soube disso, claro, mas gostaria que alguém tornasse pública a diferença gritante entre eu e o os pseudo-heróis que hoje, infelizmente, vendem mais lancheiras do que eu. São sempre homens em crise que se defendem do sofrimento psíquico com uma fantasia narcísica de superpoderes. Bah... a Marvel deveria se envergonhar disso.

Confesso que aquele disurso do Bill foi uma das melhores homenagens que recebi na vida. Seinfeld me ama, eu sei, mas não tem muita profundidade para fugir do óbvio: "Ele é super, é especial!" etc e tal.
Você não, você falou bonito e foi muito perspicaz ao descrever a minha tentativa de ser normal ao abafar a todo custo o meu brilho natural. Na época eu me senti compreendido por você e fiquei muito feliz.
Mas, desde então, muita coisa mudou.

A verdade é uma só: não quero mais ser super. Hoje tenho uma missão, preciso pendurar as botas vermelhas, pôr o "pega-rapaz" de molho. Não que eu tenha me tornado uma pessoa ruim ou ficado indiferente ao sofrimento alheio. Nada disso. Lembre-se que sou super bom e super solidário, afinal, eu também nasci para ser o superbacana.

Mas é que daqui prá frente preciso deixar de ser tão especial. Eu devo. Louis Lane me cobra. Minha "Double L" quer um homem de verdade, não um... superhomem.
-Hummm, você está cheiroso, Superman.
-Sim, su sou cheiroso O TEMPO TODO!!!!!  Buááá´!

Prá começar ela exige que eu vista a cueca do jeito certo. Minha particularidade, tão curiosa e tão imitada pelos outros heróis não tem o menor charme para a minha própria esposa. Para ela, usar a cueca para fora da calça não me torna excêntrico, e sim... cafona. Ela também quer que eu me liberte da roupa justa e sempre limpa que me acompanha todos os dias por baixo do terno. Não consigo ficar nú diante da minha mulher. Não consigo me mostrar, ser natural, você tem idéia do que é isso????

Minha esposa diz que quer ter uma vida normal ao meu lado e eu acredito que ela tem este direito. Na terapia de casal ela falou que desejaria jogar na minha cara que eu não sirvo nem para abrir um vidro de palmito. Ela gostaria de reclamar que estou com o dente sujo ou que meu ronco não a deixa dormir. O problema é que nada disso acontece e ela sempre se sente diminuida ao meu lado. Louis sempre se olha no espelho e reclama que está engordando enquanto eu, eu continuo... lindo. Ela diz que quer estar por cima alguma vez na vida (não sexualmente falando, claro), já que eu nunca dei chance dela me recriminar por nada. Prá você ver: nem a gostosa da Mulher Maravilha eu pego!!!


-Solte o meu cabelo a la garconne, "Double M".
Bom, até então tudo parecia simples. Abrir mão da perfeição me soava como uma imensa declaração de amor à minha amada. Apesar da tristeza em abandonar o meu brilho reluzente e meu heroismo folclórico, eu estava me sentindo tranquilo e até entusiasmado com a idéia de ser normal. Iria definitivamente ser apenas o bom e velho Mr. Kent e tocar a vida daquela forma estabanada e meiga.

Já tinha até mandado avisar ao Gilberto e seus seguidores que eu nunca mais restituiria a glória de ninguém e nem mudaria, como um deus, o curso de história alguma. Ia contar ao Gil que eu também mudei, ironicamente, por causa da... mulher! A minha mulher!!

-Você levanta a pata para fazer... xixi??? Que inveja.
Você não tem idéia do malabarismo que eu preciso fazer. 
Mas o pior, obviamente, aconteceu. A minha verdade não sai de mim, e isso tem me deixado deprimido e angustiado.
Me sinto como aqueles adolescentes que se auto mutilam com giletes e facas. Quero rasgar a minha pele para encontrar nas minhas profundezas um outro EU. E queria, sinceramente, que este outro EU tivesse menos encanto.





Quero gozar do prazer de ter uma vida medíocre. Quero ser feliz com pouco. Preciso descobrir o conforto da incompletude. E queria que você soubesse, Quentim, que o excesso de potenciais causa muito sofrimento. Tome cuidado, amigo talentoso e especial.

Por exemplo, descobri outro dia que a minha essência me intoxica. Criptonita (a única substância conterrânea à qual eu já tive acesso) me intoxica, como se as minhas origens me fizessem mal. Por isso eu precisava me libertar de mim mesmo. Deixar de ser assim tão...super, porque disso depende o meu casamento.
Mas o problema é que não consigo!!!
Não consigo justamente por ter muita coisa poderosa e forte pulsando dentro de mim. Sou demasiadamente especial e lamento profundamente ter que honrar cada capacidade que mamãe e papai me deram antes de me lancarem no universo como um reles Moisés.
E por isso tenho medo de nunca conseguir conciliar a minha real identidade com a necessidade de ser mundano.

Sei que isso parece ridículo: "Pobre menino rico, poderoso, lindo e perfeito!!". Sei, sei... tenho consciência de que muita gente gostaria de estar no meu lugar por pelo menos um dia, e é justamente por isso não saio reclamando da minha vida por aí. Soaria arrogante e infantil. Estou dizendo apenas para você porque, naquele filme, senti que você me conhecia e que seria o único a me entender.

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. A Louis Lane manda um beijo para os seus. Um beijo na família, na Sofia e nas crianças. O Luthor aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal,
Adeus

                                                                                                                Ass:  Superman