Marcadores


Mostrando postagens com marcador medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador medicina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Fisgadas


Já disse no post anterior  que, apesar de ser psicóloga, eu levo o cérebro muito, muito a sério (isso foi uma piada). Acho inadmissível que psicólogos, professores e cuidadores de creche desconheçam as bases neurológicas da aprendizagem, desenvolvimento motor e afetos.
Pronto, agora posso continuar o meu assunto.

E o assunto de hoje é o luto. Vixi... psicopatas, tumores, luto... prometo amenizar nos próximos textos, mas precisava muito escrever sobre isso porque ando perdendo o sono devido à angústia da uma pessoa amada.


"Não adianta nem tentar me esquecer. 
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver."

(Roberto Carlos)


A minha teoria é a seguinte: mais do que uma saudade, o luto é uma reorgnização neurológica que leva tempo e requer paciência.

No fim da primeira guerra, quando os EUA receberam milhares de amputados, algo que antes era apenas uma lenda passou a ser levado a sério: a dor fantasma. Pernas inexistentes doíam. Braços inexistentes coçavam. Antes disso os médicos achavam que as sensações eram apenas delírio de pessoas traumatizadas, mas, com a enormidade das queixas, passaram a investigar o fenômeno e, assim, descobriram algo incrível.

A perna não existe mais, mas o espaço que ela ocupava no cérebro continua lá. O espaço cortical, tadinho, não foi avisado do acontecido e continua trabalhando como antes. Até que essa compreensão aconteça essas estranhas sensações realmente incomodam. E isso não é loucura, é apenas o cérebro pedindo ajuda para se reorganizar. E graças à plasticidade neural isso é possível de acontecer: neurônios migram e se rearranjam, conexões entre áreas distantes são estabelecidas e todo o espaço muda. O lugar do cérebro ocupado pela perna perdida passa, lentamente, a abrigar funções agora mais importantes. Uma pessoa que ficou cega precisa agora de mais equilíbrio e tato, certo? Não tem problema! O cérebro cuida disso, aumentando áreas responsáveis por estas funções em detrimento da decodificação da visão, agora desnecessária. Legal né?

Ok, depois desta aula vamos ao que interessa aqui: o luto.
O filho morreu, mas o espaço que ele ocupava no cérebro continua lá. Prá piorar, antes do filho morrer, o cérebro, para economizar energia, funcionava no automático. A gente escova os dentes no automático. Muda a marcha do carro no automático. Guarda a chave na bolsa no automático. Isso acontece porque não podemos nos dar ao luxo de pensar sobre absolutamente tudo no decorrer do dia. Não daria tempo! O cérebro, então, cria estratégias para a gente realizar tarefas sem pensar. E quem decide o que deve ou não ser pensado são os sistemas simpático e para-simpático.

Bom, o filho morreu, mas o lugar neurológico dele continua ocupado e o automático continua acionado. A mãe segue colocando o prato dele na mesa, continua preocupada com o horário de buscá-lo na escola, continua querendo comprar shampoo infantil para ele no mercado. Por quê? Porque isso é hábito, e os hábitos são atalhos feitos para o cérebro não ter tanto trabalho. O filho não existe mais, mas o hábito de se preocupar com ele ainda perdura para esta mãe. A musiquinha do desenho animado preferido dele ainda desperta a sua atenção. O cheiro dele desperta o seu amor.

"... que a saudade dói latejada. 
É assim como uma fisgada no membro que já perdi."
(Chico Buarque, Pedaço de Mim)


O marido morreu, mas você continua dormindo apenas do seu lado na cama (e procurando por ele na cama no meio da madrugada). Continua esperando ele descer as escadas para passar o café. Continua pegando duas toalhas de banho para o banheiro. Continua comprando as frutas que só ele gostava para deixá-las, agora, apodrecendo na geladeira. E vale dizer que isso é MUITO angustiante porque dá a rápida ilusão de que a pessoa realmente está por perto seguido, na sequência, pela dureza fria da falta. Além de nos dar a impressão de que estamos enlouquecendo.
Entretanto, dia após dia o cérebro se reorganiza e o automático vai mudando. As emoções despertadas pela lembrança da pessoa passam a ser outras (veja bem: as conexões mudam!!!) e o lugar ocupado pela pessoa morta com o tempo vai sendo ocupado. E isso também é triste!!!! "Meu Deus como pude me esquecer do nome daquela atriz que ele adorava?" O excesso de lembranças nos afligem, mas a falta delas nos aflige ainda mais. Irônico, não?
Bom, mas o sistema nervoso leva tempo para mudar. Em média doze meses, mas são necessários, certamente, nove. Antes disso as mudanças cognitivas não são perceptíveis.

"E agora, que faço eu da vida sem você? 
Você não me ensinou a te esquecer. 
Você só me ensinou a te querer 
e te querendo eu vou tentando me encontrar." 
(Fernando Mendes)
Vocês também achavam que essa música era do Caetano? Eu achava.


Mas o povo antigo era sábio. Intuitivamente sabiam da necessidade deste tempo e inventaram uma coisa útil chamada luto. 
A pessoa enlutada era poupada por um ano de festas, risadas e multidões. E era uma enorme heresia ousar tirá-la desta situação. Ela podia se dar ao luxo de se isolar por um ano, esperando o seu cérebro superar as perdas. Não tinha a obrigação de ser feliz e podia se entregar à tristeza sem culpa ou vergonha. O problema era quando desejava sair do luto antes da hora (tudo tem que ter um problema não é?) e era censurada por isso. 


Hoje a sociedade não suporta o luto. Hoje o desafio dos familiares e amigos passou a ser tirar a pessoa de casa e fazê-la sorrir o mais rápido possível. Se a coisa não melhorar em dois meses, uma depressão já é diagnosticada e uma medicação, prescrita. Entendo as boas intenções nessas tentativas, mas acontece que, com isso, todos atropelam o tempo necessário para a delicada reorganização neuronal. E a pessoa enlutada se sente na obrigação de superar a perda sem nem mesmo ter tido tempo suficiente para a sua elaboração. Daí sim temos o perigo da depressão. Não pela perda em si, mas pela esforço em esconder a angústia.

Pronto, eu precisava dizer isso hoje. As pessoas precisam saber que existe uma razão neurológica para algo interpretado como sendo, apenas, sentimental. As pessoas precisam conhecer mais sobre o cérebro, uma vez que dependem dele para tudo no decorrer da vida.
Mas também tenho que lembrar que não sou uma louca fria e racional que quer explicar todas as emoções do mundo. Sei que a saudade dói e a tristeza é insuportável. Queria apenas dizer que as coisas mudam e a angústia diminui bastante.
Mas, para isso, precisamos de tempo. Podemos, sim dispensar as estrelas por uns meses. Ei, elas estão lá há milhares de anos!!!! Elas podem esperar. 

"Parem os relógios 
Cortem o telefone 

Impeçam o cão de latir 

Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão 
Venham os pranteadores 
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem: 
"Ele está morto" 


Ponham laços nos pescoços brancos das pombas 

Usem os policiais luvas pretas de algodão. 


Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste. 

Minha semana de trabalho e meu domingo 

Meu meio-dia, minha meia-noite. 
Minha conversa, minha canção. 


Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me. 

As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas. 


Embrulhem a lua e desmantelem o sol 

Despejem o oceano e varram o bosque 

Pois nada mais agora pode servir."
(W. H. Auden)











Nuts


A história aconteceu com a amiga de uma pessoa muito próxima. Moça casada, sem filhos, casamento feliz e marido bacana. Mas um dia ele a chamou para uma conversa séria. E a fala dele foi mais ou menos assim:
-Querida, eu preciso da sua ajuda. Já faz algum tempo que ando tendo pensamentos insistentes e apavorantes. Tenho desejo sexual por crianças. Nunca tive isso e não sei porque estou tendo agora. Vejo crianças e me dá vontade de fazer sexo com elas. Acho isso desprezível e não desejo prejudicar ninguém, mas tenho medo de um dia não conseguir me controlar. Estou te contando porque já não sei mais o que fazer.

A moça pirou. Teve nojo, raiva, pena, tristeza e acabou por se separar. Depois de alguns meses descobriu algo incrível: o ex marido estava com um tumor cerebral. Na área que comanda a sexualidade. Operou e os desejos por crianças cessaram.
Já ouvi alguns pedófilos dizerem: "Não me tirem da cadeia! Não me soltem porque irei estuprar e matar mais crianças por ai.", como se estivessem pedindo ajuda para impedir um impulso pelo qual não têm controle.

Uma outra amiga também se separou quando o marido se tornou agressivo e frio. Depois de separados, o mesmo diagnóstico: tumor cerebral. E o médico afirmou que todo o estranho comportamento dos últimos tempos poderia, sim, ser explicado pelo fato. Ela cuidou dele até o fim.

Charles Whitman era um rapaz normal e legal mas, do nada, entrou atirando na torre da Universidade do Texas matando 13 pessoas e ferindo dezenas. Esses eventos não existiam antes de 1966. Foi ele quem inventou essa moda que, hoje, virou epidemia. Mas antes de fazer essa imensa bobagem o cara escreveu uma carta pedindo para alguém, por favor, fazer uma autópsia em seu cérebro (ele sabia que seria morto na universidade), uma vez que ele suspeitava que, além da enxaqueca, havia algo na sua cabeça algo que justificasse esse desejo estranho de matar. Bingo! Um tumor já necrosado do tamanho de uma noz deformava e comprometia a sua amídala cerebral, responsável pelas emoções.

Esta semana li na Folha de São Paulo a história de um neurocientista que também defende a ideia de que os psicopatas tem disfunções anatômicas que justificam a falta de afeto e empatia. Não é a primeira vez que li sobre isso, mas o gozado deste texto é que o responsável pela pesquisa se submeteu a um exame de imagem e descobriu que ele próprio tem o cérebro de um psicopata. Diz ele que isso justifica uma frieza que sempre espantou os seus familiares.
Na USP há uma importante linha de pesquisa que diz que adolescentes que roubam os pais, mentem compulsivamente e apresentam pequenos comportamentos delinquentes tem sérias disfunções anatômicas que se revelam na cintilografia de perfusão cerebral. E o lobo pré-frontal costuma ser o alvo dos problemas.

Sempre acreditei nisso. Já atendi algumas crianças psicopatas e, mais do que atender a criança em si, tinha uma enorme preocupação em esclarecer aos pais:
-A culpa não é dele e a culpa não é de vocês. Por favor, entendam e não se martirizem por isso. Ele nasceu assim. 

Houve uma época em que a ciência culpava os pais de crianças autistas pelo estranho comportamento. A psicologia dizia que era uma falha no início da relação da mãe com o bebê. Balela! Hoje se sabe que os autistas tem uma disfunção no sistema límbico. Simples assim. Mas antes disso muitos pais se culparam durante décadas por causa de julgamentos precoces.

Fora a infinidade de problemas de comportamento que ficam como sequela depois de acidentes com traumatismo craniano. Conheço muitos casos de pessoas que, depois que se acidentaram, passaram a mentir, roubar e serem pessoas ruins. A família dizia que era trauma do acidente, que estavam querendo chamar a atenção, que precisavam de psicoterapia, mas os neurologistas insistiam: é sequela do acidente. Tem gente que fica cega, com problemas de memória, tem gente que fica paraplégica, mas alguns começam a roubar.

Bom, só digo tudo isso porque acho que devemos levar mais a sério a neurociência.

Nas escolas, nos presídios e nos consultórios de Psicologia



Imagina se descobrirmos que os pedófilos tem problemas neurológicos? O que fazer com isso? Continuar culpabilizando-os? O que mudaria nas leis e na punição dessas pessoas?
Sempre achei a pedofilia curiosa. É estranha, cruel (aliás, cada vez mais, no consultório, chego à conclusão que nenhum fator de risco para problemas na vida adulta supera a violência sexual na infância) e sempre imperdoável, mas acontece em todas as culturas e épocas. Por quê? Qual é a origem desta aberração no fluxo normal da sexualidade adulta? Sempre buscamos causas psicanalíticas e ambientais para explicar o comportamento (Ex: quando criança o agressor foi também abusado, pai agressivo, mãe sedutora, insegurança com a própria sexualidade, repressão na família), embora nunca tenha existido um consenso a esse respeito. Só nos esquecemos de procurar por motivos dentro do cérebro.

Devemos, sim, aprofundar os estudos neste sentido, ainda mais com a previsão sombria que os tumores cerebrais serão a próxima epidemia mundial dos próximos séculos. Já disse aqui que acredito nisso.
Claro que não são todos os tumores que causam problemas afetivos (depende da localização, óbvio) e nem todos os problemas de caráter devem ser explicados por disfunções neurológicas, mas já está passando da hora de levarmos o cérebro mais a sério.
Ah, e devemos levar mais a sério a genética também! Muitos comportamentos indesejáveis poderiam ser explicados por esta dupla, neurociência e genética, enquanto perdemos tempo desgastando as as relações ao culpar nossos pais, amigos, namorados e professores por problemas emocionais que poderiam ser comprovados, apenas, com alguns exames assertivos.

Tem vários links e vídeos que falam das previsões tumorais (e agora também: comportamentais) nos cérebros do futuro, mas eu deixo o Jornal Nacional dizer isso na linguagem dos leigos. E de forma ultra ponderada, como preza o bom senso da Rede Globo.





Ah, hoje falei sobre esse assunto bizarro também porque prometi falar de outra história, mas queria, antes de mais nada, introduzir estes dados aqui.
Agora sim continuo no próximo post.


domingo, 2 de setembro de 2012

Bipolar


Os ursos polares adoram o frio.
Os bipolares, às vezes sim... às vezes não.



O gigantesco crocodilo do Nilo, no final das chuvas, cava uma toca rente o rio e se fecha lá dentro durante toda a seca. Seu coração mal bate para poupar energia. Durante meses ele não se mexe, não se alimenta, não defeca e seu metabolismo praticamente para. Porém... quando as chuvas começam e a água se infiltra na terra, uma única gota é capaz de acordar o crocodilo do sono profundo.
E ele acorda faminto...
                                               
foto: Helmut Newton

Bom, a hibernação do crocodilo do Nilo é uma constante entre os animais. Depois de meses ativos: convivendo com o grupo, comendo, engordando, acasalando, brigando e construindo lares, os bichos passam meses isolados, emagrecendo, arredios e aparentemente tristes.
São bipolares.
Na verdade a bipolaridade é o padrão basal de comportamento do mundo. A existência do Polo Sul e do Polo Norte deveria servir de ilustração para mostrar aos habitantes da Terra que a bipolaridade é uma regra básica para se viver neste planeta.
A constância, a mesmisse, é que deveriam ser patológicas.

E a flora, claro, também é sazonal:
No inverno a minha trepadeira aparenta ter morrido, deixando a nossa casa com um aspecto decadente, mas é só o calor começar que as folhas crescem em pouquíssimos dias. E ela passa o verão inteiro feliz da vida deixando minhas paredes verdes.
Numa certa semana de Agosto o ipê amarelo fica absolutamente espetacular. Na semana seguinte ele está só com galhos secos e... voilá... na terceira semana a mesma árvore já está coberta de folhas ternas e novas.

E assim funciona para tudo na natureza. Menos para nós, pobres humanos.


Não sei quem foi o idiota que determinou que a raça humana estava imune a estas inconstâncias do temperamento e da aparência física. A única herança que me sobrou disso é receber a informação do dermatologista que meu cabelo cai mais no outono. Pffff, grande coisa.
Preciso de mais!
Preciso de cientistas me dizendo que devo comer o dobro no inverno. Preciso de técnicos afirmando que devo me deitar ao sol todos os dias depois do café da manhã. Preciso de uma prescrição médica dizendo que devo passar semanas na cama comendo, dormindo e me acasalando. Vou pesquisar no Google para ver qual foi o médico que recomendou isso para a Yoko e o John.
-Hã? Os jornalistas é que devem vir aqui? É isso, doutor? Posso ficar pelado, inclusive? Eu e a Yoko devemos continuar na cama.... sei...ah, e nos beijando sempre, tá bom. Ok, doutor, entendi, vou avisar o meu agente. 

Tenho certeza absoluta que temos nossa hibernação, nosso cio e nosso período de engorda como todos os outros bichos, agora o problema é que o homem se considera acima dessas minúcias irrelevantes do ciclo da vida e, com isso, acaba não respeitando a sua própria natureza.
Por que o Zé Colméia tem o direito de ficar meses dormindo numa caverna enquanto eu preciso acordar todo santo dia do ano para organizar a mesmíssima rotina doméstica? Por que ele pode engordar no verão e eu tenho que ficar linda para caber no biquini?
Já sei a resposta: porque os ursos não são semelhantes ao homem. Sim, sei disso, mas o engraçado é que na hora de ficarem com uma cânula na barriga gotejando bilis para nos doar, nossos metabolismos são bem parecidos...

Se fico no quarto sem desejo de me socializar, me chamam de deprimida, mas talvez eu esteja apenas hibernando. Já pensou nisso? Imagina se os amigos do crocodilo ficassem infernizando a vida dele para ele vencer a preguiça, sair da toca e dar um rolê? O réptil não ia ter energia para encarar o verão.
Se um homem perde o desejo sexual já tacam um Viagra no pobre, mas talvez ele esteja apenas esperando pelo cio da fêmea. Esperando pelos ferormônios certos. Se uma moça fica com muitos caras nas férias de verão a coitada já é rotulada de biscate. Tsc, tsc, tadinha. Tenho certeza que o cio da fêmea humana acontece em Janeiro para, depois de 9 meses, ela dar cria exatamente na... Primavera, como na linda floresta do Bambi!

Cultura inútil: no hemisfério sul, mais mulheres perdem a virgindade em Janeiro do que morreram pessoas na guerra do Vietnã. Juro, li esta estatística estranha há mais de 10 anos em um jornal. Bom, hoje em dia o número deve ser maior. Hoje em dia já deve estar equivalente ao número de mortos na segunda guerra, seguindo a lógica da comparação bizarra. 
Minha explicação para isso é: mulheres perdem a virgindade em Janeiro porque forças maiores exigem isso delas. Simples assim.
Bom, passei o inverno inteiro sem nadar e ouvi recriminações por isso, mas hoje entendo que eu estava, tal qual um crocodilo, guardando energias para a primavera. Neste final de semana retomei os treinos e foi muito mais fácil e gostoso. Nada como poupar calorias e engordar alguns quilos.

Abaixo a natureza humana! Vamos oficializar a hibernação e respeitar o ciclo da vida.
A razão deste post?  Uma conversa com uma amiga hibernadora hoje cedo e esta foto maravilhosa de uma paródia do bebê-caramujo da fotógrafa de fofuras, Anne Geddes.





Ahahahaha, ótima, não? Gosto do detalhe dos pés sujos da moça dorminhoca.
E ela ainda hiberna... dormindo de conchinha!!! Sortuda.




quarta-feira, 1 de junho de 2011

TPM =Tenha Piedade de Mim


Uma conhecida veio com essa idéia semana passada. Achei a teoria tão interessante que continuei pensando nela até hoje.
Ok, vamos lá.
Minha amiga tem TPMs fortíssimas. O marido, a empregada e seus funcionários sofrem na mão dela durante 10 dias. Todos os meses. Ela tem 31 anos, é casada mas não tem filhos.
Semana passada me falou, em tom de desabafo:
-Ai, acho que meu corpo está bravo comigo.
-Como assim?
-Acho que todo mês meu útero fica bravo porque eu não estou grávida e se vinga de mim me deixando triste, irritada e em maus lençóis com as pessoas com quem eu convivo.

Uau! Adorei esta imagem. O útero, fulo da vida, gritando 10 dias seguidos:


"Eu não aguento mais essa vida inútil! Minha auto-estima está péssima.
O coração trabalha prá caramba, súper eficiente e workaholic. O cérebro, se pára, os povo já declara a morte. Até a ridícula da vesícula provoca um problema danado se arranja uma pedrinha.
E eu? Fico o mês inteiro arrumando o salão, deixando tudo em ordem para receber visita e... todo mês me dão o bolo!!! Sacanagem! Tenho que jogar tudo no lixo. A comida, a decoração...
Agora deram para enfiar um DIU em mim que me deixa 5 anos (eu disse CINCO!!!!!) sem fazer absolutamente nada!
Vocês pensam que é fácil? Com o intestino aqui ao lado me cutucando, a bexiga me amassando e eu... só à toa?? Impedida de trabalhar? Me colocam "na geladeira" e acham que eu vou ficar quieto??
Que nada.
Vou transformar a vida desse povo num inferno. Vou amaldiçoar o marido por não deixá-la procriar. Vou detonar o povo do trabalho por não deixá-la ficar em casa tendo filhos. E vou irritar a bendita até ela implorar para ter criancinhas catarrentas pulando no seu sofá.

Quero crescer e ficar do tamanho de uma melancia. Quero pezinhos me dando chutes. Quero esmagar o intestino e a bexiga para me vingar por todos estes anos sofrendo na mão deles. 
Eu sou o simbolo da vida. Sou badalado e famoso. Mas só me dão atenção quando trabalho, e os tontos não me deixam trabalhar... caraca.
Deixa eu ocitocinizar a galera. Prolactinizar essa mulherada."  

Não é interessante esta idéia de achar que o corpo fala realmente?
Se todas as mulheres do mundo procriassem ininterruptamente não haveria TPM. O mundo talvez seria mais doce e os casamentos mais pacíficos.
Mas insitem para que os filhos sejam adiados o máximo possível e aí a irritação do útero toma proporções descabidas. Prá piorar inventaram de superpopulacionar o mundo e deixam os pobrezinhos cada ano mais à toa.
Que coisa, né?
Será que depois dos filhos nascidos a TPM diminui?
Eu não posso responder esta pergunta já que nunca sofri monstruosamente deste mal. Mas vou investigar e continuar a minha pesquisa maluca.

Um dia um aluninho meu (3 anos) me contou que se lembrava de quando vivia na barriga da mãe. Eu, toda interessada, perguntei: "E como é que era lá dentro?". Ele parou, olhou para o lado, e falou bem sério:
-Tinha cheiro de cocô.

E não é o moleque me mostrou algo que eu nunca tinha pensado? Capaz de ter mesmo.
Pobre útero...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sou morto, mas não sou corno.


A vida do psicólogo Malcom Crowe não andava nada bem.
Sua esposa o esnobava, o mundo parecia lhe virar as costas e ele já não tinha muito trabalho, só um paciente estranho e cheio de esquesitices.
Diziam até que a mulher dele estava com um outro cara.
Ele estava entrando em desepero quando descobriu que, na verdade, estava morto.
E a sua reação, surpreendentemente, não foi ruim. Malcom ficou feliz e aliviado com a notícia.
Happy End.
  
Pacman: o médium canibal, hahaha!!!

E a minha reação no cinema foi:
Ah... por isso que ninguém olhava para o coitado?  Só o fofíssimo Cole, que ficou o filme inteiro choramingando: "I see dead people, I see dead people...".
Ele deu UM MONTE de dicas!!!
Dãããr!! Como eu não percebi isso antes?


O mundo parou para falar do fim surpreendente de "O sexto sentido".
Tinha gente que falava com um ar blazê: "Nossa, tava na cara! Eu percebi desde o começo!"; outros citavam detalhes técnicos: "Você não reparou que o reflexo do Bruce Willis não aparece no close da maçaneta da porta????"


Não, eu passei muito tempo admirando o olhar do Bruce para me preocupar com maçanetas.


"Uh....as vezes um charuto não é apenas um charuto."
já dizia Bill Clinton

Uso este exemplo do filme sempre que quero mostrar o lado bom de um diagnóstico médico.
Falo também de um cara que conheci que, quando criança, lia muito mal, repetiu de ano, se sentia a pior de todas as crianças da escola. Até que num maravilhoso dia descobriu que tinha miopia: 5 graus!!! E o sentimento foi igual ao de Malcom Crowe: ufa... não sou burro! E o óculos virou seu melhor amigo.

-Pronto? Podemos sair?
Não é bom saber que não somos os culpados pelos sintomas horríveis que carregamos?
Ufa, sou diabética, por isso estava sempre tão cansada. Eu não sou preguiçosa!
Ufa, tenho hipotireodismo, por isso minha libido diminuiu! Não há nada de errado com meu casamento.
Ufa, tenho psicose, por isso os vizinhos estavam falando mal de mim embaixo da minha cama. Não há nada de errado com meus vizinhos. Nem com a minha cama.
(PS: esta história dos vizinhos na cama é real.)

E depois do diagnóstico a pergunta é sempre a mesma: "Mas durante quanto tempo eu vou ter que tomar a Insulina? O Puran T4? O Risperidona??" 
E a resposta é: depende.
Em doenças com começo, meio e fim a coisa pode ser calculada, pode até haver uma previsão.
Mas para as doenças crônicas não tem nem o que pensar.
Você quer ter qualidade de vida? Então tome para o resto da vida. Simples assim
Você pode até se revoltar com o seu destino, discordar do diagnóstico, não aceitar a medicação, mas vai ter que aracar com as consequências e suportar não só os sintomas chatos, mas também a evolução inevitável da doença.
Your choice. Você foi avisado.

O diagnóstico é mesmo assustador, e saber que você não está saudável é realmente pessimo.
Sei disso.

Mas, por outro lado, há uma sensação libertadora e incrivelmente deliciosa quando você percebe que:
1- Finalmente descobriram o seu problema. Uhu!!!!!! 
2- O seu problema tem um nome. Agora você faz parte de um grupo que pode trocar informações e experiências. Corre pro Google!
3- Seus sintomas tem um culpado: a doença. Ótimo! Isso te absolve de toda responsabilidade. A não ser que você mergulhe numa explicação psicosomática maluca que diz que foi você que produziu a sua própria doença. Por favor, evite este pensamento!!! Não ajuda. 
4- Você pode chorar, pode lamentar, mas o choro tem que acabar porque agora você tem uma segunda tarefa a cumprir: o tratamento. E é tão bom se desesperar com hora marcada para terminar o choro! 
5- O tratamento sempre existe.  Se a cura ainda não foi descoberta, pelo menos a sua vida, de agora em diante, tende a melhorar bastante com a atenção médica que você receberá. Sem falar do carinho das pessoas que te amam!!!!!!!!!

E é tão bom saber que existem médicos e cientistas que ficaram anos num laboratório só para te dar um remedinho! Milhões de dólares foram gastos... por você!!
Hahaha! Adoro fantasiar isso!
Juro que não consigo entender as pessoas que não aceitam uma medicação. A adesão ao tratamento de algumas doenças, como AIDS, é surpreendentemente baixa.
Acho incrível, porque acho tão bom olhar para o seu remédio e dizer:


"Oi amiguinho. Obrigado por vir de tão longe para me ajudar. Não vejo a hora de conhecer todos os benefícios que você pode me proporcionar. Eu juro que vou suportar todos os seus efeitos colaterais, ok? Prometo. Porque eu sei que você só quer o meu bem, né? Fofinho!!!" 

Whisky, Cachorro e Remédio: os melhores amigos do homem.
E a frase acima era para o remédio, viu?
O whisky veio de longe, mas não quer seu bem. O cachorro, às vezes.
   
O terceiro estágio é a adaptação à nova situação.
Inserir a rotina médica na sua vida, os medicamentos nos seus hábitos diários e, claro, mudar tudo que está ao seu alcance para ajudar no tratamento: dietas, exercícios, fisioterapia, vida mais tranquila, psicoterapia, e pedir a ajuda dos familiares e povo do trabalho, blá, blá, blá.
Muitos assuntos que fogem do foco aqui.


Mas enquanto isso, na casa do pequeno Cole:

Eu vi o que você fez no verão passado.
E eu também vi você de cueca no quintal
E eu sei que foi você que quebrou a minha vidraça.
E minha mãe só suporta a sua porque são vizinhas.
Todo mundo aqui na rua fala mal de vocês!!!!!!

 Oh, oh... diagnóstico errado!




sábado, 16 de abril de 2011

Espero, logo leio.

Um dia fui numa médica conceituada, que cobrava MUUUITO por uma consulta.
Fiquei 5 horas na sala de espera, sofrendo com a TV ligada sem volume (porque fazem isso???) e revistas de laboratório médico para ler.
Não queria ser avaliada e nem diagnosticada. Isso eu já tinha feito com outros médicos. Precisava só que ela me medicasse.
Depois da consulta rápida ela disse que me ligaria para falar da medicação. Um mês se passou e ela ainda não tinha me ligado. Eu estava doente, precisando urgentemente de remédio, de preferência na veia!
Eu então pedi meu dinheiro de volta. Ela achou ruim, mas devolveu.
Juro por Deus que se eu tivesse me divertido na sala de espera eu não teria chiado tanto. Mas a sala de espera já é um prenúncio do tratamento que você terá dentro do consultório médico.

Por isso o assunto do post de hoje é:
Diga-me o que tem para ler na sua sala de espera e eu te direi que profissional tu és.

Minha terapeuta assinava "Casa Claudia" e tinha livros chiques de arte para a gente folhear.
Eu amava. Chegava até mais cedo para ver as novidades do mês no quesito decoração. É óbvio que a minha psicóloga era elegante e chique. E a casa dela devia ser linda!! (hahahah, sempre fantasiei isso a respeito dela).
Depois de 5 anos, milagrosamente, eu tive alta.
Fiquei mal, como se tivessem tirado um pedaço de mim. Claro que senti falta da minha querida psicóloga, mas o pior foi que materializei a falta dela na revista e entrei em crise de abstinência da "Casa Claudia". Tive que assinar ela por dois anos para me acostumar com a distância.
Eu mesma chamaria isso de "objeto de transição",
Hahahah, esses psicólogos são todos doidos.
E o pior é que a revista tem o meu nome, dá margem para mil interpretações...

Anna Freud, Jung, Freud e o divã,
hahaha, bom jogo para uma sala de espera!
Uma outra psicóloga que me dava supervisão tinha algo incrível em sua sala de espera: uma mesa gigante com um quebra-cabeça de 5 mil peças para o povo ir montando.
Cada um que sentava ali encaixava algumas peças e a imagem ia sendo lentamente montada a muitas mãos, curiosas e desconhecidas. Adorava ver a evolução do projeto no decorrer das semanas.
E além do quebra-cabeças ela oferecia Resta 1, desafios de encaixes, dama, jogos chiques e estilosos.
Ela dizia que antes de entrar em terapia a pessoa deve organizar o pensamento, se concentrar. Ler revistas tira o foco do assunto que deverá ser tratado na sessão.
Concordo com ela. Adorei o seu raciocínio.


Um médico meu tinha só revista "Vip" na sala de espera. Só!!!! É uma revista masculina e muito instrutiva. Traz, por exemplo, dicas quentes sobre arte na cidade de São Paulo:
"No segundo andar do Masp, perto do bebedouro, tem um canto ideal para você dar uma rapidinha com sua gata."
"No Museu do Ipiranga tem uma saída de emergência perfeita. Vá de manhã, numa terça-feira, dia de menos movimento"
É claro que eu me divertia com a literatura tão exótica e inatingível para nós mulheres, leitoras tolinhas de novidades sobre a roupa ideal para um primeiro encontro e maquiagem para o verão. Mal sabemos nós as intenções do cara no primeiro encontro marcado no museu.
Hahahaha, e a gente crente que o cara é intelectual.
Eu ia muito neste médico, por isso passei a saber de cor e salteado toda a lista das mulheres mais sexys do mundo.
Scheila Carvalho ganhou tantos anos seguidos que saiu da competição. Era ò concur!
Uma vez comentaram comigo que o cara devia ser safado porque as revistas, na verdade, eram dele. Ele devia ser o doido que assinava aquilo.
Será? Poxa, um médico tão ético, tão sério, tão atencioso.
Um dia descobri: ele era safado mesmo. Bingo!

Minha obstetra tinha uma montanha de "Veja" velha na sala de espera. Foi um sofrimento ficar 9 meses relendo notícias de 4 anos atrás!
Quando meu filho nasceu dei para ela de presente uma assinatura da revista "Crescer".
Sim, existem UNIMEDs que proibem terminantemente o médico de cobrar por fora para fazer o nosso parto!!!! Aí a gente fica feliz, agradecida, e sentimos até vontade de gastar uma grana dando um presentinho.
Fica a dica: ótimo presente para um obstetra. Sucesso garantido! Melhor que vinhos, cestas de guloseimas e folheados a ouro.
Ela me ligou agradecendo, feliz da vida e impressionada em como as pacientes dela estavam AMANDO a novidade no consultório.
Ah... Jura??? Hello!!! Grávidas = revista sobre bebê e parto!!!
Claro que tem tudo a ver! Incrível como ela não tinha pensado nisso antes.
Um dia descobri: ela mesma não tinha filhos e nem era casada. Ou seja, não entendia nada sobre a necessidade de decorar um quartinho de bebê e nem precisava de dicas para compreender um marido enciumado.

Este mês fiquei 2 horas num consultório médico bem tradicional. Revistas oferecidas: "Caras" e "Quem". Básico.
Depois de ver todas as sub-celeberidades nos camarotes do Carnaval e as mega-celebridades no tapete vermelho do Kodak Theatre eu fiquei enjoada de tantos rostos sorridentes.
O estranho de morar na roça é isso. A gente desacostuma com o excesso de estímulos visuais.
Fui, enjoada, devolver minha quinta revista quando achei uma coisa incrível na mesinha da sala de espera: uma Bíblia!!!
Lembrei do meu post polêmico sobre a Bíblia e decidi dar uma segunda chance ao best-seller. Andei recebendo dicas de onde eu deveria começar a ler para me acostumar com o tipo de leitura.
Novo Testamento
Livro de Mateus
Igual às pessoas que se iniciam na culinária japonesa e precisam começar com um sushi de "salmon skin", fritinho, ou um uramaki California com maionese. Os sashimis são um segundo passo. Ir direto nas ovas e nos polvos com ventosas é demais para as jovens almas ocidentais.
E o meu "California Roll" da Bíblia deveria ser o Novo Testamento, mais espcecificamente o Livro de Mateus.
Ah... com essa dica agora a leitura ia dar certo!!
Uai, por quê, não? Eu estava mesmo à toa.



E a coisa era uma árvore genealógica tão complexa, tão complicada, que me deu sono.
Na próxima consulta eu tento novamente, prometo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os remédios e as razões psiquiátricas


Fluoxetina, Sertralina, Venlafaxina, Amitriptilina,
Tupac, Rivotril, Diazepam,
Frontal, Lexotan, Exodus, Pondera, Orap. 
"E o pulso ainda pulsa.
E o corpo ainda é pouco."
(Arnaldo Antunes)

Você toma ou já tomou algum destes aí em cima? Não????? Incrível...
70 % das pessoas que eu conheço tomam.
Não, eu não estou falando dos meus pacientes! Se fosse, ia ser realmente uma amostra bastante suspeita. Estou me referindo ao meu círculo pessoal de amizades, gente que sai por aí para bater papo furado com diagnósticos secretos de TOC, Depressão, Bipolaridade, Transtorno de Ansiedade e até a famosa Síndrome do Pânico.
Tudo devidamente medicado, garantindo uma boa qualidade de vida à galera que, agora, consegue sair e dar risada.

Rivotril é atualmente um dos 10 remédios mais vendidos no Brasil, junto com Paracetamol, VickVaporub, Pílula Anticoncepcional, Hipoglos... não é incrível?
E comprá-lo é burocrático e chato: receita azul, duas cópias, preenchimento obrigatório dos seus dados pessoais. Quer dizer: existem médicos por trás da venda do Rivotril, porque não é nada que possa ser vendido indiscriminadamente para satisfazer um simples desejo de auto-medicação.

O VickVaporub é.
Aliás, alguém já viu algum médico prescrever Vick para uma criança gripada? Eu também não, mas uso sempre. É a crença popular vencendo anos e anos de pesquisa médica e milhoes de dólares investidos pelos laboratórios que financiam congressos e contrata elegantes representantes para convencerem os médicos a prescreverem os remédios deles.
-Não doutor, obrigada, pode guardar a amostra-grátis do seu laboratório milionário. Eu uso o bom e velho VickVaporub no peitinho e no nariz do meu filho. E às vezes até passo entre o nariz e a boca para ele dormir sentindo aquele cheirinho!

Hahahah, quantas vezes já dormi assim! O catarro derrete e vai escorrendo por cima da pomada. 
E tem gente que jura que o efeito é ainda melhor se você passar nos pés e colocar uma meia! Deve ser mesmo uma delícia sentir os pés gelando e depois esquentando com a cânfora.
Ok, vou fazer isso hoje a noite, depois conto para vocês.

Bom, não estou aqui para dizer se os médicos estão certos ou errados diagnostiando e medicando um excessivo número de problemas psiquiátricos e nem tenho a pretensão de concluir algo sobre as razões do aumento brutal da venda de antidepressivos e ansiolíticos.
Só quero dizer que não acho que tem a ver com o estresse das grandes cidades porque nas vilas pequenas e bucólicas as coisas são ainda piores.

Moro numa cidade linda, sem violêcia urbana, sem trânsito (aqui não tem semáforo!), sem assalto, natureza abundante, onde os vizinhos sentam na calçada para conversarem e as crianças brincam na rua. Mesmo assim o índice de suicídio aqui é altíssimo. As fobias são epidêmicas: pânico de lagartixa, de chuva, de morcego, de sapo, de subir na balsa e de ... lagarta, que aqui se chama mandruvá.
TODO mundo tem medo de mandruvá nessa cidade!!! As crises de ansiedade em lugares amplos, como uma queremesse, são uma constante e as professoras, como no restante do país, estão deprimidas e estressadas. E vira e mexe aqui também tem crimes bárbaros e brutais, em geral com motivações passionais. Vocês já ouviram a música da Cabocla Tereza? Pois é, tipo aquilo.

"Agora já me vinguei. É esse o fim de um amor
Esta cabocla eu matei. É a minha história, dotor."
 
Cansei de ser fofo.

Vocês já foram no paraíso de Fernando de Noronha?
Lugar lindo, absurdamente bem conservado, mas é só bater um papinho rápido com algum morador local para perceber como eles são deprimidos e tristes. Inacreditável!
Aqui no Brasil o campeão de suicídio é Pomerode, uma cidadezinha pacata e maravilhosa de Santa Catarina. Colonização alemã, arquitetura fofa, paisagem linda... mas as cordas são o artigo de maior venda na cidade.
Vai entender!

Portanto, não dá para, estatisticamente, buscar dados que justifiquem a depressão e o suicídio.
Falta de Sol? Não, porque senão em Ferando de Noronha não haveria este problema.
Estresse urbano? Não, porque senão Pomerode estaria livre.
Falta de Deus? Não, porque o aumento incrível das novas religiões nunca foi visto na história do país.

O que eu acho é que assim como a pedofilia, os crimes, a inveja, a religião, os ritos, a homossexualidade... os distúrbios psiquiátricos acompanham a existência da raça humana, independentemente da época e do lugar.
Só que agora são medicados. Se isso é bom ou ruim a longo prazo? Eu não sei.
Só sei que para a pessoa que sofre é um grande alívio. Portanto, a curto prazo ajuda bem.

Tem gente que fica ansioso num show do U2 com milhares de pessoas.
Tem gente que fica ansioso numa missa com 150 pessoas.
Tem gente que tem pânico de elevador.
Tem gente que tem pânico de canoa.
Tem gente que tem medo de ladrão.
Tem gente que tem medo de sapo.

Só muda o nome... o resto é tudo igual.
E os remédios são benvindos para muita gente, contanto que tenha um bom médico por trás para saber quando e como interrompê-los.
E se é que se deve interrompê-los!!! E isso é uma outra história que pretendo falar um dia aqui no blog.  

terça-feira, 8 de março de 2011

Guns & Roses



Uma vez fui para Goiânia de ônibus e um amigo querido sentou exatamente ao meu lado.
Adoro coincidências!
E para honrar nosso encontro inusitado passamos as 12 hs da viagem conversando.

Meu amigo é Ginecologista e, dentre mil assuntos, ele me contou algo que eu não sabia: MUITA mulher tem vergonha do aspecto de suas vaginas e vão ao consultório buscando uma cirurgia plástica.
Quê???
Não sabia disso. Nem imaginava!

Como ele disse, é claro que o problema não é a vagina que fica lá dentro escondida. Ter vergonha da vagina é como ter vergonha do formato pontudo de um fígado ou do aspecto cinza do seu cérebro.
Não. A vergonha delas está nos lábios, mais precisamente os pequenos.

Aí confessei para ele um segredo que subitamente começou a me afligir: nunca vi o órgão sexual de uma mulher!!!! Nunca na vida!
Claro, de uma mulher que não seja eu.

Falei para ele e ele riu.
Tenho mãe, tenho irmã, tenho primas, tenho muitas amigas que já estiveram peladas ao meu lado e nadei 5 anos numa piscina universitária cujo banheiro tinha um chuveiro coletivo para 12 mulheres tomarem banho juntas. E estava sempre cheio.

Mas nunca vi os pequenos lábios de uma mulher. 
Já vi algumas Playboys, mas lá também não tem nada disso. É uma nudez "artistica" e tem photoshop para o caso de aparecer algo que prejudique a moral e os bons costumes dos leitores da revista:
- Eu leio Playboy por causa das ótimas entrevistas e porque sempre tem umas listas boas sobre vinhos. E também porque lá não tem pequenos lábios!! Não gosto deles.


Ao contrário da nudez masculina, óbvia e balançante, a feminina é baixa, discreta, escondida e camuflada por pêlos. Por isso nunca vi nada. Também confesso que não fiz esforço nenhum para ver.
E acho que vou morrer na ignorância, afinal nunca serei:
  • enfermeira
  • médica
  • doula
  • depiladora radical e sádica
  • colocadora de piercing
  • lésbica ou bissexual
Nesta altura do campeonato as opções acima não se encaixam mais na minha vida.

Portanto, vou morrer sem ver os grandes e muito menos os pequenos lábios das mulheres. E sem ter nenhum padrão de comparação para desenvolver um trauma.

Mas neste momento meu amigo interveio: "É claro que você já viu, Claudinha, todo mundo já viu em filmes pornôs, é é aí que está a raíz do trauma feminino. TODAS as mulheres dos filmes são operadas, fizeram cirurgia para cortar o máximo possível os pequenos lábios e dar à genitália um aspecto rosa e liso, sem reentrâncias. As mulheres normais vêem aquilo e passam a achar que tem problemas. Tem umas inclusive que desenvolvem sérios traumas. Se acham inadequadas, feias e tem vergonha do parceiro."

Ah...coitadinhas das mulheres.
Pensamos tanto nos homens com seus traumas sobre o tamanho e aspecto de seus "Guns" que nunca tivemos acesso ao sofrimento silencioso e secreto das mulheres, com vergonha de suas "Roses".
Mulher é bicho discriminado mesmo. Nem trauma pode desenvolver em paz!!!

Alô galera da moda: deixem de contratar magrelas para as passarelas e evitem que moças traumatizadas com sua barriga pochete morram de anorexia, como Carola Scarpa fez semana passada.

Alô galera da industria pornográfica: deixem de contratar vaginas rosas e lisas e evitem que moças traumatizadas com sua genitália real queiram pagar qualquer preço para enfrentarem uma cirurgia inútil e dolorida, tirando pedaços preciosos do seu corpo.



É duro ir de Campinas à Goiânia num ônibus leito ouvindo dois tagarelas que não param um minuto de conversar.
Eu sei.
Mas se eles forem falando sobre vaginas, vulvas, lábios e filmes pornôs tudo fica mais fácil.
E a viagem passa rapidinho...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Doente, mas linda!

Hoje li uma reportagem da  revista Veja sobre novidades no tratamento da Esclerose Múltipla, doença que tenho há 9 anos. Ok, ok, sei que muita gente não sabia dessa porque não ando com minhas ressonâncias magnéticas penduradas no pescoço e ultimamente ando me preocupando com coisas mais importantes como: como inserir uma foto neste blog? porque demorei tanto tempo sem saber fazer pipoca caramelada?

Mas, voltando ao assunto, a reportagem tem uma ex-paquita, Louise Wischermann (vulgo Pituxa, "É tão bom, bom, bom, bom...") diagnosticada com a esclerose múltipla no Canadá, onde morava há 11 anos com o marido. E, querem saber? Lá ela não recebia a medicação gratuitamente e teve que voltar ao Brasil porque aqui, sim AQUI, existe o melhor tratamento gratuito para a doença no mundo! A doença não tem cura, mas os medicamentos são importantes para conter os danos, dentro do possível. No Canadá ela gastaria, em média, US$2.000 por mês para se tratar. Aqui é de graça e, se você não se adaptar à medicação (muita gente não se adapta porque os efeitos colaterias são barra pesada) existem outros 3 tipos de medicamentos, todos gratuitos. Volto a dizer: isso não existe em nenhum lugar do mundo!!

Resumindo: se você algum dia tiver esclerose múltipla, torça para estar no Brasil. E a piada é: o médico vira para a Pituxa e diz: "Tenho uma notícia boa e uma ruim para te dar: a boa é que você tem esclerose múltipla, a ruim é que você tem que voltar para o Brasil!!!" hahaha...

Eu trato no bom e velho HC porque é lá que as coisas graves devem ser tratadas. Pesquisas, equipe multidisciplinar e residentes bacanas, dispostos a aprender. Adoro o HC!! Estive na Neurologia como profissional e hoje sento no banco dos pacientes. Sou paciente do sistema público de saúde, apesar de ter minha carteirinha da Unimed na bolsa. Sim, existe possibilidade de ser feliz e saudável mesmo sem grana.

Por que estou falando isso? Só para a gente enumerar algo realmente legal que existe neste país. Faz bem lembrar dessas coisas. E faz bem lembrar também que é aqui na terrinha que acontecem as pesquisas mais promissoras no que diz respeito às possibilidades da célula tronco deixar de ser uma utopia.

Para quem se interessa, garanto: está tudo muito bom...bom, bom, bom com Pituxa. Sua luta agora é com a Convenção de Haia e seu marido que não deixam ela trazer o filho para cá. Sim, ela separou. Sim, ele não quis uma mulher doente, segundo o que ela conta. Convenção de Haia não convém em muitas situações. Mas isso é uma outra história que deve ser tratada num outro lugar...

O título deste post se deve a uma outra reportagem sobre a mesma Pituxa que termina dizendo: "Apesar de doente ela continua linda." Não sabia que doença e beleza eram grandezas inversas.