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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lerê Lerê




A lista abaixo chegou até mim ao acaso. Não tinha referência, introdução e nem autoria. É muito útil e interessante para se criar adultos capazes, solidários e independentes. Ela estava em inglês e muitas das atividades não condiz com a nossa realidade brasileira, por isso eu traduzi e adaptei algumas tarefas para a nossa rotina. Ah, e dei pitaco em muitas coisas (entre parênteses), claro.

Antes vale dizer antes que:

  • Não existe nada de lúdico nisso. Não é brincar de fazer as coisas. É fazer de verdade! E a velha máxima "Quem faz de qualquer jeito, faz duas vezes" deve reinar sempre. As tarefas são sérias, diárias e obrigatórias. 
  • Mesmo que você tenha empregada todos os dias em casa, ela não deve se responsabilizar pelas tarefas das crianças (que vocês definirão quais serão). Arrumar as camas, guardar os brinquedos, molhar as plantas, alimentar os cachorros e lavar a louça depois de um lanche, por exemplo, é tarefa deles. Orientar a funcionária quanto a isso. 
  • Sempre bom fazer uma tabela com as atividades (assinada pela criança!!) e verificar o cumprimento dela ela todos os dias durante o primeiros dois meses. Depois vira rotina.
  • Nunca, jamais dê dinheiro em troca das tarefas. Ela ajuda porque precisa, e não porque será recompensada. A mesada é independente a isto.
  • Tenha paciência para ensinar no começo. Depois esse esforço valerá a pena.
  • Peça para que o pai/a mãe da criança cobre da mesma forma, senão vira bagunça.

Tarefas apropriadas de acordo com a idade das crianças

2-3 anos
  • guardar os brinquedos nas caixas (caixas leves e dispostas em armários baixos e firmes)
  • colocar livros nas prateleiras (livros são irritantes porque escorregam, providenciar um aparador sempre)
  • guardar a roupa suja no cesto
  • jogar o lixo no lugar certo
  • ajudar carregar as compras 
  • dobrar pano de prato e cuecas/calcinhas
  • colocar a mesa antes das refeições
  • buscar objetos simples quando solicitado (papel, copo, toalha, etc)
4-5 anos
  • alimentar os bichos de estimação
  • limpar algo que derramou
  • retirar a roupa de cama para lavar
  • arrumar o quarto
  • molhar as plantas 
  • preparar lanches simples (ex: passar manteiga na torrada, fazer um leite com Nescau)
  • esvaziar a mesa depois das refeições
  • enxugar e guardar a louça
  • recolher cartas da caixa de correio

6-7 anos
  • coletar os lixos da casa (e repor com um saco novo)
  • dobrar toalhas
  • lavar louças simples (copos, talheres, pratos, ainda com a ajuda de uma cadeira)
  • enrolar/dobrar as meias
  • tirar ervas daninhas do jardim (uma vez pedi isso ao meu filho e ele arrancou todos pés de salsinha! explicar antes)
  • rastelar as folhas do quintal
  • catar o cocô dos bichos de estimação
  • arrumar a cama (estendendo sobre o colchão, dobrar ainda é difícil pela pouca altura e braços curtos)
  • descascar batatas e cenouras (com o descascador, claro)
  • lavar as folhas e fazer salada (ainda com uma cadeira na pia)
  • repôr o papel higiênico no banheiro (um sonho? que todos aprendessem isso na infância, o mundo seria bem melhor)
8-9 anos
  • colocar a louça na máquina de lavar
  • trocar lâmpadas dos abajures (crianças adoram isso)
  • colocar a roupa na máquina e ligá-la
  • esvaziar a máquina de lavar roupa (e colocar num varal baixo, desses dobráveis)
  • passar pano nos móveis
  • lavar o quintal/garagem com a mangueira
  • comprar coisas simples em mercados/lojas próximos
  • guardar as compras do supermercado
  • fazer comidinhas (ovos mexidos, pipoca, miojo, um sanduiche, um leite quente, bolo de caneca no microondas)  
  • fazer sucos
  • usar a faca para cortar coisas simples (pão, legumes, frutas, queijo)
  • passear com os cachorros
  • varrer pequenas áreas 
10-11 anos
  • limpar banheiros
  • lavar toda a louça (incluindo panelas)
  • colocar lençóis novos na cama
  • aspirar a casa
  • dobrar e guardar roupas
  • limpar o fogão
  • lavar a cozinha
  • preparar refeições simples (lasanha, macarronada, montar uma pizza, fazer arroz)
  • usar o cortador de grama
  • fazer pequenas costuras (botões, pequenos rasgos)
12-13 anos
  • passar pano no chão
  • trocar as lâmpadas do teto
  • lavar/aspirar o carro
  • podar as plantas
  • pintar paredes
  • fazer as compras
  • cozinhar uma refeição completa
  • fazer pães e bolos
  • limpar janelas
  • passar roupas simples
  • cuidar de crianças menores


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Quem me ensinou a amar? Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar.


Ontem foi o dia do abraço (não me perguntem como e nem o porquê) e muitas pessoas nas redes sociais postaram esta famosa foto de uma garotinha apaixonada por um peixe. Digo que ela é famosa porque já roda pelo meu feed há alguns meses, sempre com intenções fofas. E ontem a imagem, repetidamente compartilhada, vinha acompanhada de frases como: "Que delícia de abraço!!"; "Feliz dia do abraço para vocês!", "Fulana, sinta-se abraçado assim por mim.", etc.

Oi? 

Ninguém reparou no absurdo da foto??



Se eu tivesse que escolher uma metáfora para ilustrar o amor errado eu nunca seria tão assertiva. Amar errado é quando uma menina ama um peixe e acha que, por isso, tem o direito de agarrá-lo.  

É claro que o contexto real da foto deve ser algo totalmente diferente. O pai da menina devia ser pescador, pegou um peixe, deixou-o morrer sadicamente saltitando pela areia, a pequena Felícia* ficou com pena (ou achou divertido) , o agarrou, a mãe achou lindo e fotografou. Ou algo parecido, não importa. O que importa é a interpretação bizarra que as pessoas fazem da cena.

-Dane-se a vida dele. Dane-se que ele tem necessidades. Ela quis abracá-lo e é isso que importa. Não é fofo?



Mês passado dei uma bronca em homens velhos e babacas que faziam carinho e beijavam a boca de minúsculos coelhinhos expostos num pet shop para serem vendidos na Páscoa (sim, pessoas equivocadas ainda compram coelhos para engambelar os filhos na data). Acima dos coelhos havia a placa "não toque nos animais", mas os caras amavam demais os peludos para se preocuparem em poupar os pobrezinhos dos seus próprios germes. Diante do meu sermão eles disseram: "Ahhhhhh, eu sei que é errado, mas eles são tão fofos!!". Gays.




Um peixe precisa de um abraço tanto quanto precisa de uma bicicleta, parafraseando a lógica que não tem autor e que rola à solta pela internet. Gostei da ideia da frase agora ser do Bono. Faz mesmo sentido um cara que canta "I can`t live with or without you" dizer uma bobagem dessas.

Podem me chamar do que for, mas acho criminoso a gente incentivar nossos filhos a aprisionar bichos para poder apreciá-los e amá-los sempre que der vontade. Hamsters, peixes, passarinhos, tartarugas, e muitos gatos e cachorros (não todos) são uns coitados adorados por pessoas egoistas e vaidosas e que se acham no direito de prender o objeto amado e ainda se divertir com isso. Já briguei feio numa pré-escola por causa dessa ridícula filosofia. A dona achava fofo ter aquário, coelhinhos em gaiolas e jabutis rotineiramente torturados por bebês. Achava que, com isso, colocaríamos a natureza ao alcance de crianças urbanas e, assim, eles aprenderiam desde cedo a cuidar dos animais.
Balela.
Experiências assim só ensinam as crianças a amar errado. Só mostram como aprisionar os amores e, muitas vezes, matá-los.

Vale dizer que a minha preocupação não é apenas com os animais e não é sobre eles que eu estou falando.

"Oncinha pintada, zebrinha listrada,
coelhinho peludooooooooo...."
(Titãs)

Me preocupo é com o sentimento equivocado de poder que ronda a humanidade.
A verdadeira educação amorosa, respeitando o parceiro e apreciando a liberdade alheia, deveria ser ensinada nas escolas desde o pré, sendo bastante enfatizada no início da adolescência.
Regra nº 1: Não, você não pode fuçar no celular do seu namorado. E nem na vida dele. Isso é errado.
Regra nº2: Se ele quer sair com os amigos você não tem que pensar se deixa ou não, porque esse é um poder que você NÃO TEM! 
Regra nº3: Se ele quiser ir embora não fique brava. Pode chorar, pode ficar com saudade e pode dizer isso a ele quantas vezes quiser (embora não devesse), mas não fique brava. Ele não é seu.
Etc, etc...


A lavagem cerebral deveria ser tão bem feita que, enfim, seria óbvio dar à pessoa amada não aquilo que você, neuroticamente, deseja, mas o que ela precisa. Aceitar a distância se ela for importante para o outro. Suportar ser abandonado e trocado se isso representar a felicidade alheia.
Puxa, é tão fundamental!
Quantas tristezas, quantos BOs e quantos crimes passionais seriam evitados se a gente ensinasse os nossos filhos a apreciarem a liberdade ao invés de se divertir com ratos correndo numa roda?





Felícia é uma menininha chata que adora os bichinhos.















quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Naquele sofá ele deitava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor...


Não tem prá ninguém. A febre agora entre a molecada miúda é a Peppa.
Peppa Pig é um desenho delicioso que passa no Discovery Kids sobre o cotidiano de uma família de porcos: pai, mãe, filha e filho. Desenho com linhas simples e temas rotineiros da vida das crianças. Uma graça. Para quem não conhece, deixo aqui um episódio:



No desenho da Peppa o pai é divertido e amoroso, mas é um bobalhão. Em todos os episódios a temática se repete: o pai faz tudo errado, a mãe (que sempre faz tudo certo) fica com pena dele, tenta contornar a situação e as crianças sempre acham graça. A dinâmica é basicamente essa.
Semana passada, enquanto estávamos vendo Peppa, o meu filho de 7 anos disse algo realmente curioso:

Uma família da pesada: pai paspalho, 
filho mais velho idiota, 
mulheres espertas.
-Mãe, por quê é que em todos os desenhos o pai é um idiota?

E todos os desenhos que conheço sobre famílias me passaram pela cabeça: idiota, idiota, idiota, idiota, idiota e... super idiota!!
Uau, filho, grande descoberta! Por quê será? Por quê será que plantam essa imagem paterna em todas as crianças do mundo ocidental desde cedo?
Idiota, preguiçoso, porco, excêntrico, inconsequente, irresponsável, estabanado, ingênuo, imaturo e as vezes alcoólatra. O pai é sempre um "loser" e sempre motivo de piada para os personagens e nós, telespectadores, rolarmos de rir.

O incrível mundo de Gumball: 

filha genial, pai totalmente retardado.
E o engraçado é que em todos os desenhos a mãe, por outro lado, é esperta e, em alguns, tem uma paciência maternal com o próprio marido, dando piscadelas e sorrisinhos para as crianças relevarem o pai. Ele é sempre tratado como um personagem "café com leite" que tem sérias dificuldades em ser adulto e precisa da nossa compreensão, coitado.
O que será que acontece?
Billy e Mandy: pai ridículo e imaturo, 
filho idem. Mandy genial e séria. 
Para compreender melhor o fenômeno imaginei o contrário. Imagina se os homens dos desenhos fossem inteligentes e talentosos e tivessem que suportar as suas esposas retardadas? Não seria cruel? Não haveria um punhado de abaixo-assinados de grupos feministas querendo proibir a coisa? E por quê é que, com os homens, pode?
Sacanagem.


Claro que tenho consciência de um jeito pueril dos homens serem, mesmo depois de adultos. Tenho pai e tenho marido. Sei que os homens são uns eternos moleques e que, mesmo por baixo de uma fachada autoritária e séria, mora ali um menino cheio de manias estranhas e atitudes doces e infantis.

"Há um menino, há um moleque, 
morando sempre no meu coração. 
Toda vez que o adulto balança ele vem prá me dar a mão."
(Milton Nascimento)


The Cleveland Show: pai ridículo.
Mas o povo dos desenhos extrapola. Tirando o Fred Flintstone e seu amigo Barney Rubble (que são bem bobinhos, mas não deixam de ser homens exemplares), os outros são bem retardados. Não gosto de saber que meus filhos crescem rindo de figuras masculinas que não merecem a nossa admiração. Acho que a imagem do pai deveria ser algo imaculado e exemplar. Pelo menos na primeira infância quando o papel masculino é definido para as crianças, tanto menino quanto menina.

Zé Buscapé: pai preguiçoso e burro; 
mãe brava e esperta.
Talvez meu filho de 7 anos tenha feito uma descoberta incrível. Talvez seja essa a raiz de toda a problemática moderna de não respeito às figuras de autoridade. Os Simpsons, esta semana, comemoraram 25 anos de existência e é bem possível que há 25 anos olhamos para os nossos pais no sofá e logo lembramos da figura patética do Homer. Tadinhos. Maldade pintar um pai de família cansado como um inútil preguiçoso.    

Os Flintstones: pai atrapalhado e imaturo; 
mãe madura e esperta. 
E tem mais!! Nos desenhos a maioria dos meninos homens é igualmente burra enquanto as meninas são inteligentes. Por quê??? Coitado dos meninos. Não tem, em seus desenhos favoritos, figuras masculinas sábias e dignas para se espelharem nem na idade em que estão e nem para um futuro distante.
Muita gente se preocupa com as menininhas que crescem brincando com Barbies magras e loiras e, com isso, têm a sua auto estima abalada, mas ninguém até hoje se preocupou com os pobres meninos que crescem assistindo (e rindo!!!) da sua condição masculina patética.

Os Simpsons: pai patético, filho imbecil, 
mãe esperta e filha genial
Não tenho a menor ideia do porquê a indústria infantil de entretenimento decidiu rotular os pais como imbecis e as mães como espertas e tolerantes. Os meninos como burros e pseudo-delinquentes e as meninas como geniais. É muita coincidência o mesmo tema se repetir em tantas histórias. Será que um bando de feministas loucas dominaram o processo de criação dos personagens? Será que as mulheres estão querendo se redimir de séculos de dominação masculina no ambiente doméstico?
Não importa a razão. O importante é que sutilmente a autoridade paterna e a condição masculina vem sendo ridicularizada sem a gente nem mesmo perceber. Com muito humor, muita diversão, mas de forma definitiva.

Goku e seu pai, Bardock
O feminismo caminhou muito nas últimas décadas, mas a verdade é que não podemos evoluir rindo dos homens. Porque precisamos arranjar maneiras legais de criar nossos meninos. Porque nossas filhas precisam crescer sabendo que os homens são igualmente sábios e dignos de respeito. Porque o pai deitado no sofá é o nosso companheiro de vida.

Por mais que eu odeie desenhos japoneses vou começar a incentivar meus filhos a assistirem Dragonball Z. Lá o pai do Goku é forte, corajoso e sábio, como todos os pais deveriam ser aos olhos de uma criança. Aliás, a árvore genealógica desses Super Sayajin é feita só de homens incríveis.
Santa sabedoria oriental...


"E nos seus olhos era tanto brilho 
que mais que seu filho eu fiquei seu fã."



De qual outra família vocês lembram nos desenhos animados?













quinta-feira, 21 de junho de 2012

Obrigar? Brigas?? -Obrigada, Brigadeiro!


Essa sou eu, aos 9 anos, servindo panquecas
que eu mesma fiz num café da manhã qualquer.

Um post anterior me fez pensar em muita coisa sobre o encontro entre a psicologia e a culinária.
Muitos filmes já falaram sobre isso: "A Festa de Babette", "Como água para chocolate" e outras dezenas de produções sobre chefs de cozinha.
É senso comum dizer que comer traz alegria e que cozinhar é um ato amoroso.
No tal post anterior falei ainda do apetite para comida refletir também o apetite sexual.
Pffff... grande coisa.




Os filmes acima também já concluiram a mesmíssima coisa. "Nove semanas e meia de amor" explicou a todos o importante passo a passo, e os morangos com champanhe de "Uma linda mulher" arrematou a aula.
Ok, todos nós entendemos a lição.
Mas eu precisava voltar aqui para dizer o quão importante é para uma criança aprender a fazer o seu próprio alimento.

Não acredito em psicoterapia infantil sem fogão no consultório. Sempre tive este apetrecho na minha sala de atendimento mesmo sem nunca conseguir teorizar a importância da comida no processo terapêutico. Alimentava meus pequenos pacientes por intuição e, por isso, era de vez em quando mal vista pelos outros colegas. Soava bobo e sem propósito. Eu até poderia "alimentá-los" simbolicamente com o meu afeto, mas... no concreto? Com comida de verdade? Parecia que não havia mesmo essa necessidade.
Cozinhar com pacientes não tem nada a ver com as teorias que emabasam a psicologia.
Mas um dia veio a explicação.

Eu estava fazendo uma formação em terapia familiar e precisávamos passar um final de semana mergulhados nas emoções e lembranças das nossas próprias famílias. Uma dinâmica chamada "Família de Origem do Terapeuta".
Depois de muitas coisas incríveis, ditas e ouvidas num ambiente como aquele, foi marcado um segundo encontro onde todos deveriam levar um prato de comida que fosse o símbolo da família de cada um.
Foi uma festa!
Um levou o frango com farofa da madrinha, outra levou o bolo de fubá da mãe, uma levou a sangria com açúcar da avó italiana servia aos netos no domingo... muitos quitutes carregados de histórias e boas lembranças.
E houve também, claro, o lamento de muitas receitas terem sido perdidas com a morte de quem as fazia. Triste mesmo.





Eu? Eu levei brigadeiro que eu apendi a fazer com 8 anos de idade e todos ficaram com dó de mim. Nem sei porquê! O brigadeiro foi a comida mais significativa da minha infãncia.
O meu leite materno.



Não, eu não tive uma família desprovida de afeto na cozinha e nem fiquei fora dos almoços de domingo. Nada disso! Eu era até bastante amada e minha família sempre foi bem normal. Com uma pequena diferença: eu não gostava das comidas oferecidas pelos adultos.
Nadica de nada.
A razão? Nenhuma. Pura recusa.

E assim fui crescendo: anêmica, magra e inapetente.
Parecia que a coisa seria assim para sempre quando surgiu uma descoberta maravilhosa que mudou o rumo da minha vida para sempre: posso fazer o meu próprio alimento e não dependo daquilo que os outros me oferecem.
Isso pode soar bobo e irrelevante para alguns, mas quando temos poucos anos de idade e estamos totalmente submetidos ao cardápio criado por aqueles que cuidam de nós, isso parece uma linda luz no fim do túnel.


Somos passivos na infância e, qualquer recusa em aceitar a dieta imposta, costuma ser mal recebida e vista como rejeição. E rejeitar o alimento que a sua mãe te oferece abala por demais a auto estima dela. E a nossa.
Negar o peito é um desaforo enorme na relação de uma mãe com o filho! E negar o arroz com cebola... também.
E aí a birra e a implicância se tornam, então, recíprocas.

Se somos seletivos com os alimentos somos taxadas de crianças enjoadas. Se reclamamos da nata no leite, somos frescos. Se recusamos o arroz manchado de beterraba irritamos os adultos na mesa.
-Não gosto da casquinha do feijão, não como biscoitos quebrados, não gosto de cenoura cozida. Só crua!!

Não é fácil ser criança e ter que nos submetermos ao paladar e à cultura gastronômica dos pais, e lutar por uma autonomia gastronômica é uma tarefa difícil quando se é criança.
Mas aí eu cresci e percebi que posso ser dona do meu próprio cardápio. E inaugurar o festival com... brigadeiro me parecia um belo começo.

-Uhuuu! Sou auto suficiente! Posso me alimentar do meu jeito! Vou comer brigadeiro até morrer.
Depois desta importante descoberta na vida de uma criança, a mágica da culinária se reflete na alma e toda a transformação psíquica acontece: alimentar-se sozinha, escolher o próprio cardápio, assar um pão para a família, fazer uma sobremesa para os pais... tudo isso tem bastante significado dentro de um processo terapêutico. E o seu desenrolar é lindo e sempre rico.

A culinária desencadeia uma transformação alquímica das emoções, e a psicoterapia com crianças então deslancha.
-Bon appétit!!!
Quando começamos a cozinhar para nós mesmos percebemos que somos independentes e que a nossa sobrevivência está garantida.

Quando cozinhamos para os nossos pais podemos então inverter os papéis e alimentá-los do nosso jeito. Com os nossos temperos.

E isso é muito enriquecedor para uma criança.

Mas agora fica a pergunta: qual seria a comida mais significativa da família de vocês?? Qual comida marcou mais a sua infância?
Pense em uma e me conte.
-

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cada equivocada!

Não sei se vocês sabem, mas este blog tem uma musa inspiradora. Muitas histórias aqui partem das pérolas que uma pessoa próxima me traz. E hoje a pérola foi essa:

-Não vejo a hora de me casar para poder fazer sexo todos os dias.

-Volta aqui e me ajuda com os 200 botões das costas!!!
-Blahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
Tolinha.
Ela ainda não entendeu o protocolo.
Queridinha, é assim: você namora e faz sexo todos os dias. No carro, no sofá da casa dos pais dele, na piscina, na varanda e no motel. Sempre bacana e sempre feliz. Mas no dia em que você casa, essa farra acaba, meu anjo.
Foi-se o tempo em que a lua de mel merecia lingerie nova e a especial "camisola da noite". Hoje você passa a noite de núpcias retirando as centenas de grampos do cabelo enquanto o marido vomita o whisky.
E, olha, não tem jeito, não adianta se iludir: no dia seguinte você ainda encontrará mais grampos escondidos, viu?
E no decorrer do casamento você fará sexo na... cama e a realidade será:


"Os homens brasileiros fazem sexo três vezes por semana e as mulheres, duas. Sendo assim, com quem é que eles curtem essa transa a mais?! Segundo a doutora Carmita, é por causa dos gays que a média masculina é maior que a feminina. “Entre casais de homens homossexuais, a frequência de relações é maior”, explica ela. A pesquisa também mediu quantas vezes as pessoas fazem sexo a cada encontro. Nesse caso, tanto eles quanto elas responderam a mesma coisa: duas.

Hahahah, por isso, se quiser quantidade, amiga, o jeito é nascer gay. Talvez isso aconteça porque os gays não têm filhos gritando, TPM e nem a famigerada menstruação. Ou talvez porque a coisa deve mesmo ser melhor.

Pffff.... as pessoas se iludem com algumas crenças.

Outra:
-Não vejo a hora de me aposentar, mudar para a praia e abrir uma pousada.
-Não obrigado. Só vou tomar um café preto.
Descanso com pousada??? Numa pousada você trabalha dobrado! Esquece.
Uma "dona de pousada na praia" outro dia estava me descrevendo a sua rotina insana. Ela assiste novela arrumada e de sapato porque a qualquer momento poderá chegar um hóspede. E o hóspede sempre aparece no dia que ela dispensou a funcionária no dia seguinte.
Assiste TV de...sapato!!!! Vocês podem imaginar o que é isso? Tsc, tsc, coitada.
E, segundo ela, a pior coisa para uma pousada não é ficar vazia. É ter UM hóspede. Ai que ódio que dá quando, às 9 horas da noite, aparece um hóspede, porque este único hóspede te obrigará, no dia seguinte, a acordar cedo para fazer 3 tipos de suco, dois bolos, comprar frios variados e a picar mil frutas.
Daí o cara a acorda e diz que não tem o hábito de comer de manhã. Bah!


Outra ilusão:
-Quero mudar para uma chácara para poder ter uma vida mais tranquila.
A palavra "fazenda" existe porque lá, os moradores estão sempre "fazendo" alguma coisa. Sempre se tem trabalho (urgente e importante) quando se vive na zona rural!
Vida tranquila as pessoas têm num apartamento onde você não deixa de dormir porque ouviu um barulho estranho, não se gasta dinheiro com telhas quebradas, o gás NUNCA acaba (amo gás encanado), não há preocupações com os dias do caminhão de lixo, não tem jardim para cuidar e a piscina está sempre limpa. Show de bola.
Quer ter uma vida tranquila? More num apê.

Outra constante:
-Vamos mudar para uma casa para as crianças crescerem com quintal e amigos.
Quer um filho feliz, jogando bola e cheio de amigos? More num prédio de tamanho e preço tipicamente familiares. Classe média! Nada muito chique, não. De preferência com mais de um bloco. Morro de inveja das crianças de prédio que tem dezenas de amigos por lá e que, depois da escola, sempre combinam de se encontrar nas quadras ou no salão de jogos. E lá eles brincam no elevador, dão o primeiro beijo escondido nas escadas de incêndio, sentam na portaria para ver o povo chegar, rabiscam a mesa de sinuca e ouvem a bronca do síndico.... infância perfeita!
Crinças que vivem em casa são sempre solitárias e muitas vezes precisam andar muitos quarteirões para encontrar um amiguinho. Isso se a mãe o deixar sair na rua!!! Que graça tem ter um quintal sem amigos? E que graça tem ter um gramado se ele está sempre cheio de cocô de cachorro? Sim, porque toda casa com criança também tem cachorro, já que existe a ilusão de que o cachorro fará companhia para um menino solitário.
Bobagem.
ELEVADOR, O MELHOR AMIGO DAS CRIANÇAS


Agora pergunto: qual outro equívoco é espalhado por aí como uma verdade?
Hahaha, já sei o que vocês vão responder:
  • Gays tem uma vida sexual intensa;
  • Crianças de prédio são sociáveis e felizes;
  • Moradores de prédios são mais tranquilos;
  • Ter uma pousada é uma grande roubada;
... ok, ok, entendi.
Já parei.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Associação Eduardo Dusek", com fins lucrativos.



Tenho problemas graves com o meu cachorro beagle que é uma peste. Algumas pessoas já sabem disso porque andei reclamando bastante dele nesses dias. Mas queria dizer, antes de mais nada, que o meu problema pessoal não vem ao caso no que eu pretendo dizer aqui hoje.
Ok? Posso falar? Então lá vai:

Acho um exagero esse povo que passa a existência zelando pelos animais abandonados.

Acredito que toda forma de vida deve ser amparada e sei também que os animais sofrem horrores nas mãos da raça humana que, não sei porque cargas d´água, decidiu ocupar o topo da hierarquia no planeta. O homem domesticou os animais, levou os coitadinhos para o ambiente insalubre de uma cidade e, assim, produziu seres passivos e deprimidos, que agora precisam de nós para sobreviverem.
Foi um erro. Domesticar animais foi, sem dúvida, uma grande idiotice.
Por isso acho ótima a intenção de algumas organizações que lutam contra o abuso a estes bichos e, pessoalmente, tenho uma compaixão especial por aqueles que cuidam dos cavalos forçados a um trabalho cruel no trânsito caótico.

Mas, o que era para ser um movimento pela minoria, acabou sendo uma proteção descabida pelos animais em detrimento das nossas crianças Muita energia, muito amor e muita dedicação está sendo depositada nos animais e, ironicamente, as nossas crianças acabam sendo postas de lado.
Quem convive comigo sabe que eu tenho uma famosa frase que repito sempre: "Não tenho pena de gente adulta." Não, não tenho. Mas tenho sempre muita pena das crianças que são totalmente submetidas ao sistema maluco de suas famílias e escolas.
Sim, existe o Conselho Tutelar e existe a Declaração dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, mas não existe uma comoção popular pela causa, e isso é uma enorme lástima.
Exemplo: Tenho dois anos de rede social e NUNCA vi uma postagem solicitando adoção para uma criança abandonada na esquina. Nunca vi alguém solicitando com urgência uma professora particular para uma garotinha que não tem ajuda em casa e está correndo o risco de repetir de ano. Nunca li uma denúncia de um menino que fica abandonado de noite no quintal enquanto a mãe se prostitui dentro de casa (nunca viram? eu já!).
Entretanto, todos os dias eu vejo centenas de compartilhamentos de causas urgentes de animais necessitando abrigo.

Posso ser excessivamente pragmática e demasiadamente racional, mas se o ser humano já ocupou este posto imbecil de superioridade, resta-nos seguir as regras desta configuração e começar, a partir disso, tentar rearrumar as premissas (sabendo que dificilmente os animais ocuparão novamente o espaço que merecem).
Acredito que deveríamos gastar todas as nossas fichas tentando arrumar os danos que já foram feitos, mas começar pelos cachorros não me parece ser uma boa escolha já que os cachorros, infelizmente, não tem poder de mudança.

Conheço várias (várias!!!) pessoas que se preocupam muito com os animais e fazem campanhas e feiras de adoção em massa. Conquistam convênios com veterinários bonzinhos para esterilizar os bichos, clamam por delegacias especiais para cuidar das agressões contra animais... bacana.
Mas não tenho no meu ciclo de amigos pessoas que gastam a mesma energia com as crianças. Nunca vi uma ONG de médicos que aceitam esterilizar mulheres gratuitamente. Nunca vi feiras na rua de pessoas clamando por adoções de... crianças.

É que os animais comovem. Crianças não mais.
Estamos calejados e entediados com o sofrimento humano.
As fotos de animais na net causam sempre reações de fofura e compaixão:"awwwwwnnnnnnnnn ti lindo!!" ;"quero levar prá minha casa!" ;"ai que vontade de abraçar!!". Quando colocam a foto de um bicho para ser adotado, em poucas horas ele consegue um lar. Incrível.
Mas as fotos de crianças não tem o mesmo impacto emocional. O povo acha bonitinho e tal, mas não desarma. Não causa uma comoção coletiva. Estranho, né?
Minha hipótese é de que a identificação com as crianças é muito explícita e direta, aí o mal estar fica muito óbvio e difícil demais para lidarmos.

Posso concluir, com isso, que cães e gatos se tornaram um símbolo do nosso afeto mais puro e genuíno. Eles representam agora o nosso instinto primitivo de proteção. Todo o zêlo, todo o amor que gostaríamos de exteriorizar, ultimamente, só conseguimos demonstrar pelos animais.
"O Brasil é o segundo país do mundo com maior população de animais domésticos, perdendo somente para os Estados Unidos. O gasto mensal com um animal brasileiro é, em média, 350 rais. Nos últimos quatro anos houve um aumento de 17,6% no número de cães e gatos no Brasil. São hoje 27,9 milhões de cães, 12 milhões de gatos e 4 milhões de outros pets. A relação é de um cão para cada 6 habitantes e um gato para cada 16 habitantes." (dados do IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 

Desculpa, mas isso tá errado. É um equívoco.
Um país com problemas educacionais (e por trás disso: problemas amorosos) tão sérios e urgentes como o Brasil não pode aumentar a sua "frota" de animais antes de arrumar a situação das crianças. Bichos não são a prioridade! Não ajudarão no desenvolvimento da nação.
Sei que o certo seria conseguir fazer tudo junto: cuidar de todos. Mas isso é utopia, e se eu tivesse que sacrificar uma causa, a causa dos animais, com certeza, seria a primeira.

"Troque o seu cachorro por uma criança pobre."
 (Eduardo Dusek)

Meu plano é esse: vamos esterilizar 100% os bichos domésticos e esperar uma década até que todos morram. O segundo passo é canalizar o nosso afeto (que ficará sem alvo) nas crianças. Os 350 reais por mês (hoje gastos com os animais) seriam obrigatoriamente doados para as escolas. Educaremos todos decentemente. Ensinamos as crianças a pensar. Ensinamos o amor ao próximo. A filosofia seria matéria básica desde o maternal. Zeramos o analfabetismo funcional e a educação ambiental equivocada. Enriquecemos o país com idéias, emprego, dinheiro e cultura. Repensamos a ética.
E depois de conquistar tudo isso, neste lindo dia teríamos então o direito de resgatar os nossos animais e gastar quanto dinheiro quiséssemos com eles.

Bom, é isso. Só isso.
Tudo isso.

PS: Não é a toa que este post está sem imagem. Qualquer uma seria tolice.

terça-feira, 27 de março de 2012

Oral B... bê

Só depois que temos filhos é que conseguimos entender Freud, uma vez que o sistema digestivo do bebê é a única coisa que ocupa o seu dia.
E o dia da sua pobre mãe.
Ou ele está mamando, ou ele está arrotando, ou vomitando, ou tendo cólicas, ou fazendo cocô ou sendo limpo. Fim da história. O resto é dormir para descansar. Um recém nascido nada mais é do que um cano com um intestino delicado e temperamental no meio. Um tubo onde a comida entra, é arrotada, digerida (com cólicas e muitos gases) e depois expulsa com sofrimento.
Pronto, isso é um bebê! Algo mais ou menos assim:


Com a diferença que em volta existe pele cheia de dobrinhas, dedos, cabelos e muita baba, resultando em algo paecido com...
hum, deixa eu procurar...
.... ah, assim:



Bom, a vida de um bebê e sua mãe seria mesmo muito chata se não houvesse algo embutido na rotina chamado: prazer. E aí começa a teoria Freudiana aonde a oralidade inaugura a libido deste pequeno ser. O Deus hedonista (se Deus existe mesmo ele deve ser bonzinho) pergunta:
-O que um bebê faz?
-Come.
-Só? Ok, então vamos colocar prazer na alimentação.
E desde então sugar dá prazer. Para o bebê e para a mãe!! Claro que não por obra de um deus, mas para incentivar o povo a se nutrir e permanecer vivo. É o famoso e bem menos fofo instinto de sobrevivência.
A pega, o encaixe perfeito com o mamilo, encher a boca de leite morno, colocar as bochechas para trabalhar, a respiração ofegante, o cheiro do leite, o cheio da mãe... um festival gastronômico várias vezes ao dia!!

Menú:
Entrada: colostro
Primo piatto: consomé de leite no peito direito.
Secondo piatto: peito esquerdo recheado de... leite.
Sobremesa: tapinha nas costas.



Toda a teoria do prazer oral, da relação erótica e incestuosa com a mãe, da inveja do pênis do pai... tudo começa a fazer sentido depois que viramos pais e acompanhamos o processo.
E depois ainda tem a evolução da energia erótica para as fases anal e genital.
-O que um menino de 2 anos precisa aprender a fazer?- pergunta Deus novamente.
-Cagar no lugar certo.
-Ok, então vamos colocar prazer nisso também.

Tudo muito compreensível.

Depois da famigerada fase anal, o prazer então migra para os genitais e aí é um tal de menino com a mão dentro da cueca, menininhas distraídas se esfregando no sofá, uma festa!!
Quando isso termina, as crianças passam por um período de latência onde a sexualidade fica adormecida. Começa lá pelos 8 anos e vai até os 11. É aquela idade onde a molecada não gosta de brincar com o sexo oposto, fogem dos banhos, são desajeitados, relaxados com a aparência e muito preguiçosos.
E então a libido, como um dragão adormecido, desperta com força total na puberdade.
E para aqueles que suportaram a fase apática e sem graça da pré-adolescência latente, a natureza criou um combo promocional, igual aos lanches do Mc Donalds: descubra o sexo e ganhe, junto, os prazeres oral, anal e...genital! Promoção, pague 1 e leve 3!!!
Ou seja, chegando nesta fase da sexualidade já adulta você reencontra todas as outras velhas conhecidas e, agora, reinventa moda com elas.

"Sou contra a moda que não dure. É o meu lado masculino.
Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera." 
 (Coco Chanel)

Sacanagem mesmo. Ninguém precisa jogar nada fora na moda do sexo.

Mas, independentemente da atividade sexual, é preciso lembrar que o prazer oral, por si só, continua por toda a vida. E, para algumas pessoas, o anal também. Infelizmente existe gente adulta e civilizada que adora contar as últimas novidades escatológicas do banheiro. Têm orgulho e prazer em relatar detalhes, gostam de se exibir quanto a tamanho e quantidade ou descever as frustrações de um intestino preso.
Bah! Fujo desse povo como o diabo da cruz.

Por outro lado acho o máximo pessoas que cultivam a oralidade como um prazer tão ou mais importante do que o sexo em si. Pessoas que se alimentam eroticamente. Gente que sabe despertar todas as papilas gustativas e coloca a libido a postos para o momento de comer.
Tão bom cozinhar para essas pessoas!
Tenho um filho que é assim: um gourmet. Geme, suspira e sorri sozinho ao comer, e encara as refeições como o melhor momento do dia. Manipula o alimento com as mãos como um selvagem e sempre sai sujo da mesa. Dá até dó de brigar com ele.

Tenho certeza absoluta (apesar de não conseguir provar) que o apetite sexual está intimamente ligado ao apetite por comida. Por isso as moças gulosas são tão atraentes e as inapetentes não entusiasmam. E ainda poderia arriscar dizer que pessoas que tem um gosto por alimentos exóticos são excêntricas justamente por provocar fantasias sexuais naqueles que os assistem comerem.
Por exemplo, acho admirável uma mulher que encara uma dobradinha com amor. Que tem xiliques ao descobrir novas pimentas. Que come todas as espécies de ovas que o povo abandona no festival de sushi. Que sugam tubos e ventosas dos frutos do mar com uma alegria lúdica. Que chupam maracujás azedos direto da casca. Que ficam felizes por experimentar novidades gastronômicas e tem um leque sempre amplo de preferências alimentares. Lindo demais!

Tem uma mocinha num pograma do Discovery Travel & Living que eu acho que foi contratada só pelo prazer que ela demonstra em comer TUDO o que lhe oferecem nas viagens, sem nojo nem preconceito. A menina manda bem. São as cenas mais sensuais que eu já assisti numa TV a cabo. Acho o máximo!
Nigella Lawson idem. Que delícia assitir aquela mulher comendo com as mãos e fazendo biquinho. Tenho certeza absoluta que pessoas assim tem uma vida sexual feliz.
Imagina que frustrante o cara inventar uma brincadeira suuuuper divertida com uma... gema de ovo... e a namorada dele dizer: "Eca, que nojo, vai sujar o meu vestido branco!!!" . Muito decepcionante.







Teria pavor em ser casada com um homem com sérias restrições alimentares. Conheci gente assim: não come cebola, não tolera laticínios, tem azia com tudo, não gosta de vegetais (nenhum!!!), não come carne sangrando, tem medo dos espinhos dos peixes, separa a salsinha no canto do prato... chato prá caramba! Vai num restaurante e fica investigando junto ao garçom os ingredientes do prato, obrigando o coitado a ir e voltar mil vezes à cozinha para perguntar ao chef... um inferno! Almoço perfeito para este tipo de gente é arroz (sem alho aparecendo), feijão, bife bem passado e batata frita. E nuggets!! De preferência em casa.
Tédio. Fala a verdade, você acha um homem desses atraente? Eu não. Acredito piamente que o comportamento gastronômico do cara diz muito sobre o desempenho dele entre 4 paredes.

Bom, resumindo, a energia erótica da oralidade acompanha a nossa existência e é muita sacanagem a gente não honrar ela de acordo. Desde o nascimento os bebês nos ensinam que isso é muito importante para a alegria e o prazer de viver.
E tenho dito.

"Eu me desenvolvo e evoluo com meu filho.
Eu me desenvolvo e evoluo com meu pai."
 (Marcelo D2, o sábio)


E, com isso, provamos que Mc Donalds acerta mais uma vez no marketing:

AMO MUITO TUDO ISSO



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A Escolha da Sofia



Ontem recebi um telefonema de manhã bem cedo. Era a Sofia nos convidando para o seu aniversário de 7 anos. E ela logo avisou: vai ser da Hello Kitty!
Sofia é uma amiga do meu filho que mora aqui na cidade onde vivemos. Compramos os presentes, nos arrumamos e, de noite, fomos à festa amorosamente preparada pela família da menina.

Aqui na região, depois do "Parabéns prá você" as crianças não tem o hábito de cantar "E prá Sofia nada? Tudo! Então como é que é? É!!!! É pique, é pique..." etc e tal.
Aqui não tem isso. Já dei alguns foras iniciando a gritaria sem obter respostas do público. Aqui também não tem a brincadeira de fazer um pedido no momento de cortar o bolo. Minúcias interessantes nas diferenças culturais do nosso pais grandalhão.

Mas aqui todos aguardam ansiosamente por dois momentos na hora do parabéns:
1- A resposta do "Com quem será? Com quem será? Com quem será que a Sofia vai casar????"
E na festa de ontem, no escuro do parabéns, fui surpreendida por uma resposta em coro de toda a família e amigos da menina: "É com ninguém! É com ninguém! É com niguém que a Sofia vai casar!!". Alto e forte, como se já tivessem planejado a resposta em segredo e estivessem ansiosos para revelar o combinado.
"O que eu quero? Sossego."
(Tim Maia)
Sorri sozinha.
Sofia tem mesmo este lema: não vai se casar e nem ter filhos quando crescer. Diz isso o tempo todo, gesticulando as mãozinhas morenas e dizendo de um jeito afetado e agudo:
-Deus me livre ter filhos!!! Eu quero sossego!!!!!!!!!! SOSSEGO!!!
Sim, foi-se o tempo que as fãs da Hello Kitty eram garotinhas românticas e tranquilas. Hoje são mulherzinhas estressadas que aos 7 anos já anseiam por, apenas, uma vida sossegada .



E aqui vai o outro momento esperado nos aniversários do interior de Minas Gerais:
2- A hora da criança decidir de quem vai ser o primeiro pedaço do bolo.
E ontem esta escolha foi bem estressante.
TODA a população adulta da festa era formada de parentes e todas as crianças eram priminhos ou vizinhos das casas ao lado. Eu e meus dois filhos éramos os únicos "estrangeiros" da casa. Apesar de oficialmente convidados, éramos bicos numa reunião familiar.

-O primeiro pedaço é meu!!!
-Não, é meu!
-Eu que mereço mais!!
Bom, Sofia tem duas irmãs adolescentes que encheram os balões e arrumaram a festa. Tem uma mãe fofa que fez o bolo e todas as comidas. Tem um pai ultra alegre e bem humorado que peregrinou na cidade procurando por... pães para o cachorro quente (rsrsr, vocês não tem idéia da cidade onde eu vivo!!!). Tem duas avós que largaram suas rotinas noturnas de senhoras velhas para prestigiarem a neta. Tem madrinha e padrinho. Tem tias que colaboraram com a festa: uma fez o pão de queijo, outra fez os brigadeiros e uma terceira trouxe as Hello Kittys de outra cidade para decorar as paredes (eu falo que fazer festa aqui é difícil!!!). E, por fim, tinha uma fileira de amiguinhas e primas com vestidos bem passados e lindos sorrisos banguelas. Todas ansiosas pelo posto de melhor amiga e merecedora do primeiro pedaço do bolo.
E agora??? A quem agradar? E como lidar com a frustração inevitável de todos os outros preteridos?



O clima foi tenso. Juro.
Demorou uns 5 minutos para a pequena Sofia se decidir. Nos primeiros minutos houveram gritos brincalhões do pai, das irmãs e das amigas exigindo o primeiro pedaço para si e se vangloriando de tudo o já que fizeram pela menina. Depois ouvimos as tias acalmando a aniversariante, lembrando-a que ela poderia escolher quem ela quisesse e que elas juravam que não haveria problema. Mas aí aconteceu um silêncio longo onde os olhinhos da Sofia se encheram de lágrimas. A mãe, percebendo o sofrimento da filha, iniciou um cafuné em sua nuca suada e infantil, morrendo de dó ao assistir a filha resolver, publicamente, talvez o primeiro grande dilema da sua vida.

Pronto. Meu cérebro cheio de sinapses que trabalham em momentos inapropriados já logo lembrou do filme onde uma outra Sofia tem poucos segundos para também escolher a quem agradar e a quem sacrificar. Dilema light, coisa tranquila: qual filho será levado ao campo de concentração nazista e qual será salvo junto com ela?
-Não me faça escolher. Eu não posso!!- grita Meryl Streep.
-Cale a boca, basta! Eu disse para você escolher!!! Se você não escolher eu levo os dois.
E, estranhamente, Maryl Streep entrega ao guarda uma loirinha de 3 anos que estava em seu colo (essa aí da foto), seguindo a sua viagem apenas com o filho de uns 6 anos de idade.
E a dúvida que assombrou o público na época foi: Por que ela entregou justamente a menina? Quais foram os critérios que ela usou nesta rápida tomada de decisão?
Ninguém nunca respondeu. Não há respostas para um drama desta intensidade.

E a pequena Sofia de ontem, antes mesmo de fazer 7 anos, também já aprendeu que a vida é feita de escolhas difíceis. E mais do que isso: desagradar aos outros, apesar de inevitável, é sempre dolorido e nos enche de culpa.
Bom, depois de muito pensar, Sofia finalmente fez a sua escolha:
-O primeiro pedaço vai para a Tia Cláudia.
Todos procuravam. A tal Tia Claudia era eu.

Hahahahah, eu ganhei o tal prêmio. Eu!!! A única pessoa neutra da festa inteira. A única a quem ela não precisava agradar.
Ninguém entendeu. Só eu. Minha querida Sofia honrou o nome que recebeu no dia em que nasceu, se enchendo de sabedoria ao optar por não escolher ninguém.
Privilégio que Meryl Streep não teve...

Mas hoje eu precisava contar esta história porque, ao receber a fatia do bolo de chocolate da Hello Kitty, a pequena Sofia satisfez um desejo infantil que eu, sem nunca nem desconfiar, carregava dentro de mim: ganhar o primeiro pedaço de um bolo.
A história me fez dormir feliz ontem a noite. Descobri, sorrindo na cama, que todos nós precisamos nos sentir especiais uma vez na vida e deve ser muito triste a gente passar a existência sem nunca receber o primeiro pedaço de algum bolo. Ou nunca ser homenageada. Ou nunca ser amada. De preferência em público, para que todos saibam que você é mesmo especial.


Todos os dias meu filho mais novo senta no meu colo e me pergunta: "Quem é o seu filho mais bonito? Qual filho você ama mais?". Minhas respostas são sempre vagas e bem humoradas. Finjo que não levo a sério a dúvida dele e, por ter dois filhos, pensava que eu nunca poderia responder o que ele deseja ouvir.
E o que ele quer é o primeiro pedaço do meu bolo.
Tadinho...
Mas depois de ontem, minha meta agora vai ser contar aos dois que, cada um deles é o único filho amado que eu tenho. Ah, e é o mais bonito também! Preciso afirmar isso com verdade na voz, no olhar e no coração. Sem margem para dúvidas. Ambos merecem. Ambos precisam ouvir isso de mim pelo menos uma vez na vida.
Mas como dizer isso sem que nenhum dos dois se frustre? Como resolver este dilema???
Vou ter que pedir ajuda à minha pequena e sábia amiga Sofia...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Culpinha Fashion




A melhor teoria que inventaram até hoje, no que diz respeito ao tempo que passamos com as crianças, é que a qualidade é melhor do que a quantidade.
Há! O psicólogo que inventou isso é um gênio!
Sua frase serviu como uma luva para amenizar a culpa das mães que trabalham período integral e/ou terceirizam a criação dos próprios filhos para babás e creches.
Daí quando são criticadas por isso (e sempre são!) já lançam a teoria que superestima a qualidade em detrimento da quantidade:

-Mas de noite passamos algumas horas juntas e nos divertimos muito!!! A qualidade do tempo que passo com a minha filha é muito mais importante do que a quantidade- diz cheia de razão.




É mentira.
Todos nós, no fundo, sabemos disso, mas as teorias servem para dar uma roupagem nova na culpa e diminuir o sofrimento das mães que agora passam a acreditar na coisa e se sentem mais leves.
As teorias transformam a culpa primitiva numa culpa fashion, que segue as novas tendências psicopedagógicas e agrada a todos: a sociedade que exige que a mãe trabalhe fora, o marido que recebe ajuda financeira em casa e principalmente as creches e babás que tem emprego garantido.
Mas nem sempre as mães ficam felizes. Algumas realmente gostam de trabalhar fora. Preferem mil vezes do que ficar em casa cuidando de menino.
Outras não. Outras sofrem horrores com essa realidade e dariam o reino por um ano à toa com as crianças em casa. Mas o trabalho é uma necessidade e não há nada que possa ser feito para mudar isso.

Às crianças, a teoria da qualidade não agrada.
As crianças não acreditam nesta verdade e nunca aprenderão a se contentar com pouco.
Passam então a exigir dos pais a tal qualidade prometida nas horinhas compartilhadas e ISSO é ruim prá caramba!! Ficam tiranas, exigentes e aprendem desde cedo a cobrar porque sabem que os pais estão em dívida.
A vida da mãe doméstica tem menos glamour, é mais sem graça, mas acaba sendo mais fácil. Diminui as expectativas e melhora a tolerância: tolerância da mãe, com as manias e barulhos das crianças, e deles, com nosso mal humor e necessidades da vida adulta.
Se não vivemos a rotina ao lado dos filhos temos, então, que ser uma mãe estereotipada nas poucas horas que temos com eles: fofa, atenciosa e disponível. E, curiosamente, temos que ser assim justo quando estamos cansadas depois de trabalhar o dia todo.
E ter que ser atenciosa no meio do cansaço gera muito mais ansiedade do que ter que ficar 24 hs por dias ao lado de uma criança. Prometer uma mar de rosas nas horas com os filhos é ansiogênico para eles e para nós.
E não cumprir isso é fracasso na certa.
Fora o medo de que, intimamente, beeeeem lá no fundo, gostamos mais nosso trabalho do que nossos filhos!!
Ai que culpa!

OU...

A melhor teoria que inventaram até hoje para as mães que param de trabalhar para ficar com os filhos é que estes primeiros anos em casa será fundamental para a estrutura psíquica da criança.
Há! O psicólogo que inventou isso é um gênio!!
As mães se sentem resguardadas por esta verdade incontestável e camuflam nisso a sua incompetência profissional e/ou o medo de enfrentar o mercado de trabalho depois de ter ficado ultrapassada e obsoleta.
Dizem aos quatro ventos que pararam de trabalhar para poder se dedicar aos filhos e que isso faz delas uma mãe melhor, apesar de mais pobre, rsrs.
E apesar de saberem que talvez isso não seja verdade.
As mães alternativas, moderninhas, adoram esta teoria e capricham no lanche dos pequenos, inventam atividades ao ar livre, levam e buscam a molecada nas mil aulas e espera o marido chegar no fim da tarde com uma janta saudável.
Como antigamente...


-Não tem salário nenhum que pague o tempo que eu tenho ao lado dos meus filhos. Tenho certeza de que a minha presença em casa fará deles adultos seguros e confiantes.- diz cheia de razão.



PS: Já usei a desculpa de ter que brincar com os meus filhos para me dedicar à construção de uma linda casa de Lego, hahaha, igual à mãe da foto. AMO LEGO!

Enquanto isso os maridos se dedicam à contrução da casa real, à compra do carro, ao sustento da família, à garantia do futuro dos filhos e, principalmente, à compra de mais Lego... claro!
Mas os homens não acham graça nenhuma nisso.
E a sociedade torce o nariz para o regresso das mães ao lar.

É óbvio que existem, sim, benefícios por trás desta opção materna, mas o problema é que não tem ciência nenhuma que consiga comprovar que os filhos destas mães serão mais felizes que os os outros que ficam em escolinhas período integral. Tudo não passa de uma abstração com base em alguns poucos dados de experiência das pessoas mais vividas.

Quando eu tive filho e enfrentei a desgastante rotina de ficar em casa o dia inteiro, muitas amigas da mesma idade que eu vinham me dizer:
-Claudinha, vai trabalhar!! Acredita em mim: é a melhor coisa que você pode fazer por você e, consequentemente, por seu filho.
Enquanto as mães das minhas amigas, gente de outra geração, diziam:
-Fica em casa!!! A infância deles passa rápido e você vai se arrepender de ter perdido esta fase.

Eu ficava em dúvida. Não sabia em quem acreditar!
Não sabia o que era melhor para mim, mas quando consultava meu próprio desejo conseguia acessar o que estava me deixando muito, mas muito angustiada: nunca seria feliz deixando meus bebês numa creche!
E essa certeza me definiu como uma mãe do segundo time, aquela que suporta mais ficar em casa do que trabalhar fora e deixá-los com alguém.
Para mim é mais fácil criar filho estando em casa porque eles vêem em mim uma mãe real que não se esforça em ser perfeita. É mais fácil negar brincar com o filho depois de ter passado o dia inteiro ao lado dele. E, sim, é possível ser feliz ao lado das crianças, me divertindo de verdade e mostrando aos pequenos que a companhia deles é agradável e necessária.
Mas isso pode mascarar um medo (ou preguiça? ou fraqueza??) de abandonar o ninho e sair para ganhar dinheiro.
Sei disso.
E lidar com esta culpa é também um enorme fardo.
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Culpa materna: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

E a moral da história é que não existe nada melhor para um filho do que uma mãe realizada e satisfeita, dentro do possível. Se ela fica mais feliz trabalhando, que trabalhe. Que sela fica mais feliz em casa, que fique.

Existe a pergunta que nunca quer se calar: O que querem as mulheres?
A resposta óbvia seria: Viver sem culpa!

Mas isso é uma utopia, esquece.
Então, já que a culpa é inevitável, que ela seja fashion e que te sirva bem. E que conviver com ela seja mil vezes pior do que a convivência com o seu filho!!
  Sab            Dom           2ªfeira        3ª feira        4ªfeira        5ªfeira
6ª feira!!!!!!
a letra B no tornozelo carrega um lembrete: Eu amo o meu Bebê!



Enquanto isso... nas creches: