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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Simples? Sim, please.


Minha mãe é professora de piano e eu cresci acostumada a ouvir o plimplimplim dos alunos sem nunca me antenar ao que eles tocavam. E isso é triste. Treinei os meus ouvidos para serem insensíveis à lindíssima evolução da aprendizagem musical. Na infância os meus amigos perguntavam:
-Como você consegue fazer a tarefa e ver TV com este barulho?
-Barulho? Que barulho? Não ouço nada.

Bom, mas outro dia eu estava na casa dos meus pais e fiz questão de ouvir uma aula. Atualmente penso que posso ficar sem a minha mãe e vou me arrepender por não ter apreciado ela dar aulas do jeito manso e excêntrico que só ela tem. O bom de ficar velha é que passamos a valorizar momentos assim, não exatamente por prazer, mas por pura nostalgia antecipada. O prazer veio depois.
Sentei num silêncio respeitoso alguns metros atrás da aluna e fiquei ouvindo ela tentando acertar um acorde da mão esquerda. Plimplompléééém, plimplimplóóómmm, sem sucesso. A moça estava desanimada tentando ler as bolinhas confusas da partitura quando minha mãe veio com a frase que mudou a minha vida:

-Está difícil? Se está difícil é porque não está certo. 

Simples assim.
Está difícil? Então não está certo.
Mas isso não é uma lição fácil para mim que cresci acreditando que a vida é, obviamente, complicada e lendo frases como estas abaixo:





Passei todos estes anos acreditando que a angústia era normal sem nunca ter me dado conta de que todas as vezes que acertei na vida... não teve sofrimento! Nem dúvida! Nem nenhum tipo de angústia!!  Nunca tinha percebido isso: o certo sempre foi fácil e o difícil sempre acabou se mostrando errado.
Pronto, a minha vida agora é outra. Incrível como uma frase dita na hora apropriada faz diferença. Diferença para mim, porque o momento estava tenso demais para que a aluna, naquela aula, se abrisse com tranquilidade a um conselho tão simples de uma senhora tão simplória. Talvez um dia a moça entenda isso. Talvez nunca.
Bendita hora que fui ouvir, despretensiosamente, a aula de piano da minha mãe.

Você quer prestar um concurso, mas não consegue se dedicar à rotina de estudos? Está estressada com os dias insanos que a vida exige de você? É noiva do cara que, apesar de te amar, ainda não sabe se quer ou não se comprometer?
Tenho uma ótima notícia para você: talvez nada disso seja certo. Talvez você não queira prestar concursos (nem todo mundo precisa passar em concursos, se você não sabe), talvez você esteja vivendo de um jeito errado no lugar errado e é bem possível que você esteja gastando muita energia com um relacionamento sem futuro. Agora sou uma romântica que acha que os amores não tem impedimentos financeiros, profissionais, filosóficos, temporais e nem geográficos. Tem impedimento? Então não está certo.
Tem sofrimento? Então não está certo.

Eu sei, eu sei, não precisam me falar. Conheço as dezenas (centenas?) de frustrações e anos despendidos para criarem uma lâmpada. Foi difícil. Conheço as pesquisas que suportam tentativas e erros até chegarem ao resultado ideal. Já ouvi falar dos ginastas que precisam repetir incansavelmente o mesmo salto até conquistarem uma medalha olímpica. Ah, e sei também que um casamento não é fácil e que engolir sapos faz parte da brincadeira. Não sou tão imatura a ponto de pregar aqui a vida mansa. Sei que não é assim.

Mas depois da fala mágica da minha mãe passei a acreditar que este tipo de gente só é persistente nas atividades que se dedicam porque, no fundo no fundo, sabem que estão no caminho certo.
Não certo para a ciência ou para a sociedade, certo para eles. E é certo porque estão realizados. Cansados, irritados, vá lá, mas em paz com a escolha deles na vida.
E daí a persistência não é sacrifício, é alegria, autorrealização, autossuperação (vocês não odeiam esta reforma ortográfica? eu odeio).
Claro que Thomas Edison não perderia tempo fazendo piruetas e Nadia Comaneci não suportaria passar anos em um laboratório. Exigir isso deles é maldade. E talvez seja maldade exigir que você termine o doutorado, insista no noivado, continue com a mesma rotina.

Você vai descobrir que é necessário deixar as coisas irem
embora simplesmente pelo fato delas serem pesadas. 


E a pergunta que não quer calar é: como saber se o meu caminho está errado ou se eu só preciso me dedicar mais a ele?

Hum, vejamos: você se sente violentado? Usado? Desperdiçado (desperdiçado é um ótimo parâmetro)? Seu corpo está em sofrimento evidente? Desenvolveu problemas emocionais nos últimos tempos? Não? Então é bem possível que o caminho esteja certo e você só precisa de paciência.
Mas se algum destes fatores te atormentam tenho o imenso prazer em contar que... tcharam... está tudo errado!! Você não é burro, nem incompetente, nem mal amado, nem preguiçoso. A culpa não é sua! Nem dos outros! Uhuu! Estavam todos só vivendo de um jeito errado.

Nickolas Sparks é um babaca (até aí nenhuma novidade). O povo do pilates é exagerado (e tudo aquilo é mentira porque pilates é, em geral, bem fácil e gostoso). A vida é simples e os sacrifícios só são válidos se são confortáveis.


Coco Chanel tinha razão.
Minha mãe teve razão: o acorde tem que ser confortável, ou não será bonito.
E este post, agora, também tem razão: a vida tem que ser confortável ou não valerá a pena.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Mas os meus cabelos...


Passei a vida iludida com as propagandas de xampu (acabo de ir ao Google ver qual é, afinal, a forma correta de escrever isso). Eu era exatamente como no gráfico ao lado. Para escolher o produto certo eu lia e relia as letras miúdas, prestava atenção aos anúncios e pesquisava muito antes de escolher.
Queratina, vitaminas, benefícios da natureza (shimeji, camomila, jaborandi, mandioca, maracujá, manteiga de karitê, aloe vera, tutano, lanolina, frutas cítricas), muito ventilador ligado, muito refletor de luz, muitos símbolos químicos dando a entender que a tecnologia era moderna. Tudo para nada.
Já fazia mais de 20 anos que, mesmo com as promessas da indústria de xampu, o meu cabelo caia horrores, coçava, tinha o aspecto pesado, sem movimento e sem brilho. E as fórmulas que me sugeriam para remediar a situação eram as mais diversas possíveis. Segui todas: dermatologistas, trocar de xampu periodicamente, usar um creme na hora de pentear, uma máscara noturna, spray hidratante, fazer hidratações mensais, xampu anti-resíduos 1x por semana, usar tal marca, passar a usar apenas a linha profissional, não usar condicionador.... muitas dicas inúteis. Nunca nada se resolveu.

Mas há 4 meses eu fiz uma loucura que resultou em algo milagroso. E a coisa foi tão boa, tão boa que eu fiquei com medo. Medo de causar danos a longo prazo, medo de prejudicar a pele que recobre o meu cérebro lesado, medo do meu corpo ter urticárias com a espuma que passou a escorrer pelas minhas costas, medo no meu bumbum ficar ferido com o produto que passou a entrar e sair dele, uma paranóia só. E, claro, fiquei com medo de contar para as amigas e ferrar os cabelos alheios. Por isso esperei alguns meses em silêncio para hoje finalmente sair do armário e dizer que

ATUALMENTE O MEU XAMPU É.... 
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 . 
TCHARAMMMMMMMM!

Calma, não sou louca. Não são os cheirosos!! É esse do meio, transparente, com cheiro de nada. Nunca me arriscaria a sair na rua fedendo a maçã verde. Ou eucalipto.

Nos primeiros dias eu dissolvi ele num copo d`água  para minimizar os possíveis danos, mas poucos dias depois já estava enchendo a mão de detergente para, feliz da vida, esfregar no meu cabelo. Por incrível que pareça na primeira vez que você aplica não faz muita espuma, mas na segunda lavagem (é sempre bom repetir o procedimento) parece que você entrou de cabeça numa máquina de lavar louças. E o mais legal de tudo é que em poucos segundos você já começa a ouvir o cabelo assobiar "puiiiii" "puiiiiiiiiii", dando a certeza absoluta que ele está limpíssimo.  Sabe quando você passa o dedo numa pia de inox e ela faz um barulhinho, garantindo que está limpa? Então, quando se lava o cabelo com detergente você ouve esse barulho por toda a sua cabeça. 
Depois? Depois nada de condicionador. Enxuga com uma toalha e, quando ele ainda estiver um pouco úmido passa umas gotas de silicone para cabelo por todo o fio, só para ele não ficar eriçado (eu comprei o mais barato). E pronto, acabou. 

O ralo do chuveiro que antes ficava entupido agora fica com um micro novelo e a escova, que antes ficava peluda de cabelo, agora tem dois ou três fios. Desembaraçar o cabelo nunca foi tão fácil e a necessidade de lavar a cabeça passou a ser duas vezes por semana, apenas.

No meio deste período resolvi, por um dia, lavar o cabelo com xampu e sabe o que aconteceu? Coceira, queda absurda e cabelo feio e sem brilho. Nunca mais me arrisco.

Desde a primeira lavagem você vai perceber que o seu cabelo nunca esteve tão limpo, brilhante, macio, com balanço, e hidratado. Já fiz o teste: quando estive em dois salões de beleza eu perguntei para as cabeleireiras:
-Oi, deixa eu te perguntar, você acha que preciso fazer uma hidratação no cabelo? 
Elas pegam no meu cabelo com conhecimento, testam os fios e dizem (pela primeira vez na vida!!!)
-Não, ele tá ótimo! Mas você podia cortar, fazer umas luzes, blá, blá, blá. 
Incrível! Quem conhece essa raça sabe que essas mulheres nunca, jamais dizem isso.

E não são só elas! Já me disseram que meu cabelo está mais bonito, já me perguntaram o que eu ando fazendo para deixá-lo macio e hoje o meu filho me disse que ele está cheiroso.

Eu não tenho a menor ideia do que tem dentro de um detergente e nem quero saber. Tenho certeza que é química pesada, mas não estou nem aí. Aderi há 4 meses ao movimento "No Poo" (sem xampu, a moda da vez em termos de ecochatice), mas, como sou transgressora eu aderi pelo avesso: ao invés de xampu, não use vinagre nem bicarbonato de sódio, use detergente!

Vale dizer que meu cabelo não tem tintura e nunca fiz alisamentos. São virgens! Aliás, acho que a única coisa virgem que sobrou no meu corpo é o cabelo. E preciso dizer que eles não são oleosos. Muito pelo contrário, são até bem secos. Eu imagino que as pessoas com problemas de oleosidade se beneficiarão ainda mais.
Vale lembrar também que não desejo destruir com a indústria de produtos para cabelos e nem acho que a minha experiência vale para todo mundo. Ah, e não testei com outra marca, só mesmo o Ypê.
Quando fui pesquisar no Google sobre o uso de detergente em cabelos não achei absolutamente nada e, por isso, resolvi deixar aqui o meu relato para alguém que queira testar. 
Nunca mais na vida vou gastar dinheiro com xampu e espero nunca mais ter o cabelo que eu tinha antes.

O próximo passo é colocar a coisa numa embalagem decente para eu me sentir mais chique, claro, e também para não escandalizar as faxineiras que ficam cho-ca-das quando vão limpar o meu banheiro e se dão conta que eu lavo o cabelo com detergente. 
É isso. De resto eu sou bem normal. 








quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Chiclete


Já faz mais de uma semana que ouço a mesma música ininterruptamente porque ela me acalma quando eu preciso de colo no meio da rotina.
A mesmíssima música toca no meu carro, na minha cozinha e no meu computador enquanto leio bobagens. Quando acaba eu ponho de novo. E de novo.
Chama-se Wild World e quem a compôs e canta lindamente é o Cat Stevens. Putz, já é a vigésima vez que falo do cara aqui no blog. Não sou fã, tá? Apenas gosto bastante.

Bom, escrevo sobre isso aqui hoje porque já faz algum tempo que acredito piamente na teoria que diz que quando uma música não sai da nossa cabeça é sinal de que existe ali uma mensagem que precisa ser decodificada pela consciência. Pseudo verdades de pseudo psicólogos que se acham capazes de colocar sentido até nas músicas chicletes. Eu, apesar de cética, acredito na teoria maluca porque todas as vezes que tentei entender mensagens escondidas em músicas insistentes elas realmente faziam sentido.
Tudo bem que essa canção específica é bonita e tal, mas isso não justifica a minha teimosia em ouví-la. E me intriga muito o fato dela me sensibilizar além da conta. Não costumo perder tempo com músicas que usam em abundância a palavra... baby.

PS: eu ADORO o momento 2:37 até o 2:51. 

Mundo Selvagem

Agora que já perdi tudo para você, você diz que quer começar algo novo e isso está partindo meu coração. Você está indo embora. Baby, estou lamentando.
Mas se você quer mesmo partir, tome cuidado. Espero que tenha muitas coisas bonitas para vestir,
mas saiba que as coisas bonitas tornam-se ruins lá fora.
Oh baby, baby, é um mundo selvagem. É difícil atravessar apenas com um sorriso.
E eu sempre lembrarei de você como uma criança, garota.
Você sabe, eu vi muito do que o mundo pode fazer e isso está partindo meu coração em dois
porque eu nunca quero te ver triste. Não seja uma garota má.
Mas se você quiser partir, tome cuidado. Espero que faça bons amigos lá fora,
Mas apenas se lembre que existem muitos amigos ruins. Cuidado.

Bom, eu sempre achei que esta música poderia ser a carta de um pai para uma filha que sai de casa pela primeira vez. Um pai bem bobo por sinal! Um idiota que logo no começo já joga na cara da filha que ele abandonou a própria vida por causa dela e que ela agora, mal agradecida, resolveu crescer.
Isso não me emociona. E não gosto de pais que adoram falar com autoridade sobre os inúmeros perigos da vida só para jogar na cara depois um "Eu te avisei, eu te disse!!!".  Essa interpretação da música, definitivamente, não tem a ver comigo. Soa como o Cartola avisando à filha que o mundo é um moinho. Não gosto de previsões negras sobre o futuro dos outros.
Principalmente dos filhos.

Outra leitura que podemos fazer da mesma canção (inclusive a mais óbvia e a razão pela qual ela fez tanto sucesso) é a história de um cara que acabou de levar um fora e, agora, deseja sorte para a ex.
Isso é bacana. Quando um relacionamento acaba, por pior que seja o seu fim, é sempre necessário desejar boa sorte ao parceiro. Não só desejar, mas torcer de verdade pela sua felicidade com o restinho do amor que sobrou no fundo da gaveta do coração. O cara tinha outra? Torça para que a outra o faça feliz. Simples assim.
Até que gosto da ideia, mas Cat Stevens faz questão de ressaltar que ela poderá se ferrar no tal mundo selvagem e nada me garante que ele também não vai lançar um "Eu te disse!!" no futuro. Não, isso definitivamente também não me emociona. Se for para desejar boa sorte sou mais o Peninha com a sua lindíssima Sonhos que diz com serenidade que ele vai ser feliz e que ela não o destruiu. Ufa.

"Mas não tem revolta, não
Eu só quero que você se encontre 

Saudade até que é bom 
É melhor que caminhar vazio 
A esperança é um dom que eu tenho em mim 
Eu tenho, sim
Não tem desespero, não
Você me ensinou milhões de coisas 
Tenho um sonho em minhas mãos 
Amanhã será um novo dia 
Certamente eu vou ser mais feliz."


Peninha é cafona e, por isso, deixo aqui o seu melhor intérprete .

Se nada disso faz sentido, qual seria então a razão da música me perseguir? Como prosseguir na minha pesquisa?
Resolvi então rever o video e lá, logo no início, Cat Stevens diz claramente: escrevi essa música para mim mesmo. Ao ouvir isso os meus olhos lacrimejaram. Bingo! Direto na ferida.
Essa música está me perseguindo porque está sendo dita (ou gritada) por mim para mim mesma. "Claudia, querida, ao contrário do que você sempre pregou, o mundo é selvagem e o mau existe. Sempre te vi como uma garotinha e, por isso, não quero te ver triste."

É a música do ritual da passagem. Este ano faço 40 anos e estou, como Cat Stevens, me preparando para um segundo retorno ("second comeback" que ele diz no vídeo). Já estava na hora de perceber que o mundo é selvagem. Pode parecer bobagem, mas não é.
E agora? Agora o jeito é aprender a andar pelo lado selvagem da vida. Chega de chiclete cor de rosa.






sábado, 1 de dezembro de 2012

Meu Rei Lagarto




"We're off to see the lizard, the wonderful Lizard of Oz
Because, because, because,
Because of the wonderful things he does..."





Ufa, finalmente hoje vou explicar porque comecei com este longo assunto do ânimus. Tudo não passou de uma descoberta pessoal, e foi assim:

Sabe sonhos recorrentes? Desses que a gente tem durante a vida toda?
Então, eu sempre tive e o assunto era basicamente o mesmo: bebês jacarés. O enredo variava um pouco, mas a descoberta do sonho era sempre a mesma: pequenos jacarés habitavam o fundo da garrafa da minha coca-cola, o fundo da piscina onde eu nadava, o final da panela de brigadeiro, o forro do meu edredom. E eu... não sabia!!! Nem desconfiava, imaginem só! Mas um dia, no sonho, descubro eles por lá: pequenos, agitados e úmidos, e a minha reação sempre era de nojo: "Ecaaaaa, eu nadando aqui/bebendo coca-cola/comendo na panela/dormindo nessa cama esses anos todos sem nunca desconfiar que os filhotes estavam aqui dentro. Que nojo!!!!"
Os sonhos eram assim, e os filhotes de jacaré me atormentaram pela vida afora.

Por causa disso passei a ter repulsa por répteis com patas (cobras não!). As patinhas com unhas, o rabo inquieto, a pele escamosa, os olhos grandes... tudo me causava ojeriza.
-See you later, alligator!!

Quando fui estudar psicologia e aprendi que os sonhos trazem ensinamentos importantes (se forem corretamente interpretados), logo lembrei dos meus bebês répteis. Sabia que um dia eu teria que encará-los e decodificar o significado deles na minha vida. Sabia que, se o enredo acontecia com muita frequência, era óbvio que os sonhos estavam querendo me dar um recado importante. No entanto, nenhum terapeuta interpretou a história por mim, e o nojo que os bichos me causavam sempre me esquivou de um confronto pessoal e voluntário.

Bom, tudo corria bem até que eu entrei numa fase difícil e precisei ser forte. Foi duro, barra pesada mesmo. Eu estava me sentindo frágil, vulnerável, com medo e bastante triste. Meu marido viajou por alguns dias e, no dia 15 de Fevereiro de 2011, eu sentei sozinha no meu computador e... ah, fiz um blog. Assim, ao acaso.
Na hora de dar o nome ao blog, o minúsculo lagarto Basiliscus que andava sobre as águas foi o único e mais óbvio que eu consegui pensar. Eu não tinha nenhuma segunda opção. Sim, definitivamente o réptil seria o meu padrinho nesta empreitada.

Mas é engraçado que na época eu não associei o lagartinho aos sonhos. Nem lembrei!! Semana passada, lavando louça, TUDO veio à tona: o Brasilicus é o meu ânimus, claro! O pequeno réptil dos meus sonhos, sempre escondido, abafado e recriminado, veio finalmente à superfície da minha consciência para me ajudar. Para me resgatar.
"Me dê a mão vamos sair prá ver o Sol..."


Nunca escrevi: diários, contos, poemas e nem era boa em redação. Nunca tive identificação com a escrita, mas quando fui defender a minha pesquisa na universidade, a mulher da banca (que veio de outra cidade e nem me conhecia) disse na mesa da defesa da tese:
-Claudia, você promete para mim que nunca vai parar de escrever? Sua escrita é muito divertida e leve.
Vale dizer que o meu trabalho era sobre câncer. Câncer infantil. Com embasamentos teóricos, procedimentos e conclusões. Meu deus, o que podia ter de divertido nisso? Desconsiderei totalmente o pedido da moça, claro. Achei que ela estava louca. Mas no decorrer dos anos inúmeras pessoas disseram a mesma coisa: "escreva"," escreva sobre isso". Tsc, tsc. Nunca achei que seria proveitoso.

-But you said it was only "for a while"!!!
Porém, num belo dia, a escrita, travestida de um pequeno réptil ousado e transgressor, me salvou de uma pane psíquica. Sim, porque: quer algo mais transgressor do que um lagarto que anda sobre as águas?? Beeeeem diferente dos pequenos que ficavam escondidos no fundo escuro da minha vida.
Bom, e a minha interpretação tosca é que, no sonho, os pequenos jacarés eram meu ânimus que estavam sempre por perto, rondando, e nunca, jamais, me fizeram mal. Eram bebês e precisavam apenas de cuidados, tadinhos. Mas eu, tola, morria de nojo e fugia dos bichos. Penso que eles queriam apenas subir à superfície, crescer e participar da minha vida. Estavam apaixonados por mim, os pobres.

E sei que o blog é meu ânimus porque já me contaram que o que eu escrevo aqui é demasiadamente masculino. Muitas pessoas me dizem isso: que o blog é masculino e até um pouco sexista, com mulheres de biquini, peitinhos e piadas de botequim.
Achei estranho e surreal, mas tive que concordar, claro.
-Ô rapá, chega aí. Deixa eu te contar a
diferença entre a puta e a santa!
Um amigo meu, psicólogo, um dia disse que é fácil recomendar o Brasilicus para os amigos homens porque eles se identificam com o estilo do blog.
Boa parte dos meus leitores fiéis são homens e meu patrocinador/guru aqui dentro é homem. Um homem maravilhoso que me dá dicas importantes para eu não apenas me divertir por aqui, mas também ganhar dinheiro escrevendo: "mande para o portal tal", "tente vender o seu blog", "deixe ele mais moderno"...
Incrível.
Por eu ser casada e compromissada, meu ânimus, desta vez, veio me salvar através de um blog. Jardineiros são arriscados.
Mas veio de forma ainda mais masculina, criativa e linda.





Escrever hoje me dá prazer e me faz sentir completa e feliz.
Se é bom ou não eu juro que não sei, mas, como Clarice Lispector: “Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando…” (e eu juro que foi ela mesma que disse isso!)



Happy, happy end!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Jardineiro Fiel

(continuação do post anterior: LEGOLAND)

Ontem conversei com uma amiga que me confessava uma vantagem em ser lésbica:
-Não existe ciúmes. Eu, minha esposa, e todas as nossas ex-namoradas somos amigas e saímos sempre juntas. Entre nós não existe isso de "problemas com a ex" porque a ex dela, veja só, é a minha melhor amiga. Não é perfeito isso?
Eu ri e falei que era bobagem, que aquilo é uma civilidade natural entre as duas e não, necessariamente, uma característica da condição sexual delas. Ela insistiu e disse que não, que aquela era, sim, uma característica maravilhosa das mulheres lésbicas. 
Convencida e entusiasmada, eu falei:
-Puxa, que legal! Ahhhhh, eu quero ser lésbica também. Será que dá tempo?
-Impossível, Claudinha. Não conheço ninguém menos lésbica do que você.

Putz, verdade, também sinto isso. Não existe uma gota de masculinidade correndo nas minhas veias. Não que eu seja perua, afetada e nem fofa, nada disso, mas sou excessivamente feminina na minha essência.
Sempre desconfiei que o meu ânimus era gay. 

História ilustrada sobre o meu encontro com o ânimus:
Eu estava no primeiro ano de casamento e morava em São Paulo. Uma dia fui abastecer o carro e me apaixonei perdidamente por um pequeno jardim que havia no posto de gasolina. Tão alegre, tão delicado, tão provençal... nada a ver com a paisagem que o envolvia. Fiquei inexplicavelmente encantada pelo jardim (veja bem, nunca dei bola para plantas). Desci do carro e fui investigar quem havia feito o serviço. Descobri o telefone do jardineiro com uma lojista e liguei para o cara no mesmo dia.
Tudo bem que eu morava num apartamento pequeno, mas, ah, e daí?? Eu também poderia contratar um jardineiro, não é?!
No telefone eu disse que precisava de alguém para arrumar minhas floreiras e ele explicou que, antes de pensar num projeto, precisava me conhecer. Pegou o meu endereço e prometeu ir à minha casa de tarde.
Ele tinha, indiscutivelmente, uma voz gay ao telefone. Fiz então um bolo e esperei pelo meu jardineiro gay que queria me conhecer. Oba!
Quando a campainha tocou.... putz, pensa num cara lindo? Era ele. Bronzeado, musculoso, estiloso (uma coisa meio Paulo Zulu rural) e um belo rosto. Pazinhas e rastelinhos aparecendo nos bolsos da mochila cáqui à tiracolo. Um charme.
Conversamos a tarde inteira e ele topou fazer o serviço, mas tinha que ser rápido já que no fim do mês ele iria se mudar da cidade porque, segundo ele, iria "se casar com uma pessoa".
Gay.

O serviço ficou lindo e a minha varanda, agora, era a mais bonita do bairro.

Três anos depois...
Eu estava separada e deprimida, embora a minha varanda ainda fosse bela.
Um dia eu estava sentada nela, triste, lamentando a destruição das casas ao lado que foram demolidas para a construção de um prédio. No meio do enorme terreno que se formou abaixo, sobrou apenas uma jabuticabeira. Eu olhava para a jabuticabeira, prevendo o seu triste fim, quando um homem no terreno me acenou e gritou:
-Claudia, tá linda a sua varanda. Você tá de parabéns!!!
Era o meu jardineiro. Ele, coincidentemente, foi até o lugar resgatar a jabuticabeira e olhava para a minha varanda, admirando o serviço que havia feito.
Subiu no meu apartamento, tomou um suco comigo e conversamos. Eu tinha largado do meu marido e ele largou da "pessoa". Estávamos, os dois, solteiros e solitários. Ficamos amigos.

Mas, olha, entenda, não ficamos apenas amigos, ficamos inseparáveis. Além de jardineiro o cara era fotógrafo e me levava para todos os cantos com ele: estúdios, reunião com lindas modelos, laboratórios de revelação, feira de plantas, CEASA, loja de papéis especiais... eu passava o dia inteiro ao seu lado e almoçava na casa dele sempre que não tinha natação na hora do almoço.
-Claudia, você gosta de pastel de quê?
-Ah, nem sei, acho que de carne.
No dia seguinte a empregada dele fazia pastel de carne. Só para mim. Ele era vegetariano.
-Claudia você sabe fazer pão? Não??? Vou te ensinar.
E comíamos o pão de noite.
Passados uns meses, ele me perguntou:
-A que horas os passarinhos começam a cantar no seu apartamento?
-Putz, nunca ouvi. Acho que nem tem passarinhos por lá.
-Tem sim. Passarinhos cantam em todo lugar. Vou dormir na sua casa e descobrir o horário. Os passarinhos sempre cantam uma hora antes do Sol raiar e, se a gente ouvir eles, dá tempo de tomar um café e chegar aonde eu quero te levar.


Ele dormiu (no sofá cama!), ouviu os benditos passarinhos, e me levou para ver o sol nascer num lugar mágico em São Paulo: em cima da estação Sumaré do metrô, onde há um jardim encantado (criado e mantido por taxistas) e um sol que nasce num horizonte incrível. Desde então passamos a ir sempre lá.
Ouvir os passarinhos e ver o sol nascer era importante para nós. Durante estes momentos ele segurava na minha mão e ficava em silêncio.
E o jardineiro virou o meu tutor, meu guru: "Claudia, compre estes lápis de cor, desenhe, deite aqui  e durma um pouco, você está cansada, ouça esta música, leia este livro, pegue a lupa e veja o lindo formato destes líquens, compre esta orquídea para a sua varanda, passe a mão deste musgo e sinta a maciez".

Durante um ano inteiro o cara cuidou de mim. É claro que eu, vez ou outra, me envolvi com outros homens, mas ele sempre fazia questão absoluta de conhecê-los. E, engraçado, se divertia com eles e gostava de todos.

Um dia eu reclamei:
-Você passa o dia todo com uma máquina na mão registrando tudo. Até a minha mãe você já fotografou, mas nunca virou as suas lentes para mim. Por quê?
Ele respondeu:
-Claudia, você é linda e eu poderia passar a vida te fotografando, mas eu corria o risco de me apaixonar por você, e a minha função na sua vida não é essa.
-Ah, tá, se é assim então tá bom.

Nesta época eu já tinha conhecido o meu atual marido e o jardineiro, lentamente, saiu da minha vida. No último dia em que eu o vi ele me deu essas duas fotos acima: o passarinho que nasceu na samambaia da varanda e a flor amarela da minha floreira (agora me diz: existe ilustração melhor do que esta última foto para a ânima e o ânimus?).
Abaixo das fotos havia apenas a frase abaixo, escrita com a sua letra rebuscada de artista:

E foi assim que meu ânimus, salvando uma jabuticabeira perdida no meio de destroços, entrou na minha vida e me resgatou da depressão, me ensinando coisas que eu faço, religiosamente, até hoje:
  • Preste atenção aos pássaros.
  • Acorde cedo e veja o sol nascer.
  • Faça pão.
  • Pense no que você deseja e... realize!
  • Pegue uma lupa e perceba que o milagre está nos detalhes. Não veja a sua vida de fora! Mergulhe nela e maravilhe-se com as pequenas coisas.
  • Não precisa ser atraente e nem sexy para ser encantadora. Você não precisa ser fotografada. Não se preocupe com isso!
E que assim seja...
Quem me conhece acha que isso em mim é natural: passarinhos, artesanato, pães, comidinhas, valorização das pequenas coisas... mas não é. Foi o meu ânimus que me ensinou tudo isso depois de adulta, e foi com essas pequenas atitudes que eu sobrevivi à uma enorme crise.
E o final dessa linda história é que o cara sumiu e eu, engraçado, nunca perguntei o sobrenome dele. Nem o telefone atual. Desapareceu como um fantasma. Puf....
Sei que ele nunca vai ler esta homenagem, mas gostaria de dizer que lhe sou eternamente grata por tudo.

Bom, este foi o encontro com o meu ânimus gay, que, detalhe, nunca foi gay!! Mas isso é uma outra história.
Amanhã eu termino e explico porque eu comecei com esse papo de ânimus.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Porque nem tudo é perfeito. Aliás... nada é!


Minha vida está um caos matemático porque Deus descansou no Domingo.
Sacanagem, Deus não devia ter feito isso.
Se ele tivesse terminado o mundo no sábado a noite e, rapidamente, levantado os braços como um mecânico de um pit stop, hoje em dia a semana teria apenas 6 dias e tudo seria mais óbvio.
Duas semanas seria... uma dúzia de dias. Simples, né? Adeus quinzena (que nunca foi quinzena porque 14 dias não tem nem denominação!). Adeus mês com 30 dias que NUNCA se divide por 7 e deixa o calendário uma bagunça. Se a semana tivesse só 6 dias, um mês teria 24 dias. Um dia tem 24 horas. Um mês teria 24 dias e o ano continuaria com 12 meses.
Perfeito! O sistema "duzimal" comandaria o mundo.

Mas nããããão. Deus não tinha pressa. Deus aproveitou o Domingo para tirar uma soneca antes de anunciar que a obra estava acabada e, assim, inaugurou a praga do número 7.
-Então, Adão, ontem terminei tudo e hoje tirei o dia para dar um rolê e conhecer melhor o pessoal. 
-E, com isso, acaba de inventar um troço chamado "empata foda"...
-Hahahahaha, sim!! Estou fazendo serão no meu dia de descanso.
-É... tô vendo. Foda.

(Achei muito engraçada esta imagem do casal apaixonado ignorando totalmente o Deus/Jesus ao lado)


Digo isso porque tudo que é importante na vida tem que ser feito 3 vezes por semana, e uma semana com 7 dias não permite uma divisão exata na logística das coisas. E aí a rotina descontrola e fica difícil de organizar.

Por exemplo:
Quem entende do assunto diz que o exercício físico, para ser considerado eficiente, deve ser feito 3 vezes por semana. Fazer ginástica duas vezes por semana não provoca nem cócegas no nosso metabolismo. Ou faça 3 vezes por semana ou nem diga aos outros que você faz alguma atividade. E fazer todo dia também não pode: provoca fadiga muscular e aumenta o risco de lesões. POR ISSO não faço todo dia. Ordens médicas.

Outra: este mês fui numa especialista em cabelos e, já que estava por lá, perguntei a ela quantas vezes por semana devemos lavar o cabelo. Ela foi taxativa: 3 vezes. Nem mais nem menos.
Para molhar as plantas também: 3 vezes por semana. Se molhar demais ela fica preguiçosa e as raízes não se aprofundam. Se molhar menos, desidratamos as coitadinhas.
Sexo depois do casamento (claro, antes é todo dia ) deve ser feito 3 vezes por semana, dizem os sexólogos espertões. Mais do que isso foge do padrão de normalidade, e menos indica problemas no casamento. Ok, ok, três vezes por semana será.

Bom, isso tudo já estava demasiadamente confuso quando um médico desavisado da minha intolerância com a semana de dias ímpares me prescreveu injeções para o resto da vida que devem ser tomadas, adivinhem?? Sim, 3 x por semana.
Desde então vivo numa eterna confusão:
-Clau, hoje é dia de você tomar a sua injeção.
-Não é não.
-É sim, você não tomou ontem.
-É que são 3x por semana.
-Mas 3x por semana não é a mesma coisa que "dia sim dia não"?
-Não, porque a semana tem 7 dias, e 7 não é múltiplo de porcaria nenhuma! Maldito número primo! E duas semanas, pasme você, decidiram que tem... 15 dias. Por quê? Porque o número 7 é tão desgraçado que nem se dão ao trabalho de multiplicá-lo decentemente. Deus devia ter aprendido a tabuada ANTES de inventar o mundo. Depois? Ah, depois já era tarde demais!
-Puxa, que confuso.
-SIIIIIIIIIIIIM! É tudo muuuuuuuuito confuso e isso é um inferno. Tudo podia ser mais simples. A rotina podia ser mais simples, a minha agenda podia ser mais simples, mas... não! Deus quis descansar. "Ui, ui, que difícil fazer um mundo. Ai, preciso descansar um pouco". Bah, o cara não é perfeito??? E por quê é que gente perfeita precisa de descanso?
-Clau, você parece nervosa. Deita um pouco e relaxa.
-Não posso. Deus pode descansar, eu não. Tenho que refazer a minha agenda agora.



E num Domingo qualquer...
- Dois vezes três é igual a.... seis?
Uia, tem gente que não vai gostar nada de saber disso.

Por isso, hoje decidi organizar minha agenda e acabar com essa palhaçada.
Será assim:
  • Molhar as plantas: 2ª, 4ª e 6ª feira. Fácil. E se chover eu me reorganizo.
  • Sexo: 3ª, 5ª e Sábado. Domingo não porque é dia santo. Boa!

Lavar cabelo tem que ser no mesmo dia que fazemos exercícios físicos, para limpar o suor. Ótimo, assim, matamos duas obrigações num só dia:
  • Lavar cabelo + ginástica: 2ª, 4ª e 6ª.  Mas... e a piscina do fim de semana?? Vixi, tenho que tirar o cloro dos cabelos nestes dias também. Ó meu Deus, meus cabelos ficarão fracos de tanto serem lavados e esfregados. Droga. 
Ah, já sei, não farei mais a ginástica. Ou, melhor, rasparei o cabelo.
Pronto, decidido.

Ei! Não vejo a hora de chegar na idade onde consideramos o sexo como um exercício físico, porque aí seria uma obrigação a menos para organizar no tal esquema luzitano "3 vezes por semana".
Sim, sim, tudo ficará melhor neste dia.
Mas...

Médico geriatra pergunta:
-Você faz exercícios físicos?
-Faço sexo, doutor.
-Mas... quantas vezes por semana?
-Três, como prega o protocolo.
-Em cima ou em baixo.
-Ah, daí varia.
-Nada disso! Sexo só pode ser considerado exercício físico se for por cima. Ficar deitado qualquer um fica. 
-Puuuuxa, bem pensado, nunca tinha visto por este ângulo. 

-De novo você em cima, amor?
-Cala a boca e, por favor, não me faça voltar para a academia. Já lavei o meu cabelo ontem. Agora vira porque hoje eu preciso trabalhar a parte interna das coxas. 

Chega de blog, vou colocar o lixo para fora. Ah! Mais uma praga que tenho que fazer... 3 vezes por semana.
Qual outra atividade precisamos fazer 3 vezes por semana e a imbecilidade do número 7 não permite a perfeição?







sábado, 29 de setembro de 2012

Minha vida, agora com Paixão.



Estou com alguns textos prontos aqui no blog, mas sem coragem de publicar.
Ai, ai, é uma droga esse medo de escrever bobagens. Não tenho medo da polêmica (nem poderia!), tenho medo da pieguice e do senso comum. Pavor! Leio os posts e penso que são desnecessários e ruins, psicologismos de quinta categoria. Acredito que o mundo, definitivamente, não precisa de mais "Augusto Curys" ditando banalidades.
Eu estava nessa maré baixa de inspiração quando, ontem, aconteceu algo incrível: eu, com 38 anos de idade, descobri a paixão.
E foi lindo.

Vou explicar.
Nesta semana o salário acabou antes de terminar o mês. Já aconteceu com vocês? É assim ó: o dinheiro acaba e o mês, teimoso, insiste em continuar. Sim, é mesmo horrível.
Bom, mas mesmo nesta situação dramática precisamos nos virar para manter algumas necessidades básicas. Não dá para continuar vivendo sem sal nem açúcar, por exemplo. Não dá para ficar esta última semana sem desodorante, sem pasta de dente, sem shampoo... e, para mim, não dá para passar um dia sequer sem hidratante.
Impossível!
Tem gente que acorda no meio da noite para fazer xixi. Alguns, viciados, acordam para fumar. Tem gente que levanta para comer. Eu acordo para passar hidratante. Sim, eu sei que é loucura, mas é a mais pura verdade. Levanto as 3 da manhã, sento na cama, passo hidratante e volto a dormir. Vai entender...

E, portanto, mesmo na falta de recursos financeiros eu precisava urgentemente de um hidratante para terminar o mês. Como fazer, meu Deus? Como comprar um reles "Johnson`s" ou "Vasenol" com apenas 5 reais?? Sim, porque, o caríssimo "Nívea", não dava nem prá cogitar. Então, com medo de uma potencial noite insone com a pele pedindo um creme, decidi comprar o mais barato e o mais cafona. Comprei o "Paixão".
Odiava a propaganda do creme com óleo de amêndoas "Paixão". Odiava o nome!! Odiava a embalagem cintilante. Detesto o cheiro de óleo de amêndoas (cheiro de gordura) e jurava para mim mesma que nunca compraria o dito cujo.
Mas... a necessidade falou mais alto e, ontem, eu assumo que comprei.
Depois de cheirar toda a coleção de cremes "Paixão" da prateleira, optei pelo branco que tem cheiro de... cheiro de quase nada. Eca, tinha uns que cheiravam a tutti-fruti e outros lembram sabonete de rodoviária.
Paguei R$4,49 e fui para casa na fissura, como um drogado, para passar o tal creme na perna.
Virei, apertei, e ele demorou para sair porque é grosso e muito, muito cremoso. Já fiquei agradavelmente surpresa com isso pois, pelo preço, eu imaginava algo bem ralo.
E então veio a maravilha: espalha bem, delícia, macio, cheiroso, gelado, fresco... tudo de bom. Dormi bem a noite inteira e hoje cedo eu estava com a pele perfeita: o pé liso e macio, a perna ainda gelada e úmida, os cotovelos brilhantes, um verdadeiro milagre.
Puxa! Tantos anos desperdiçando dinheiro com  farmácias de manipulação em busca da alegria dermatológica! Rios de dinheiro com os gringos "L`Occitane" e "Le Roche Posay ".Tantas décadas comprando "Boticário" e "Natura" com a ilusão da satisfação da pele. Tantos meses de gestação à base do caríssimo "Payot" para uma barriga sem estrias e hidratada.
Tudo isso prá quê??? Prá nada, o "Paixão" estava ali o tempo todo. Mas eu, boba, não enxergava.

Por isso, depois de adulta eu finalmente me despi dos preconceitos, venci barreiras da elegância e me entreguei à "Paixão".E foi tão bacana e tão delicioso que, mesmo sem ganhar nem um centavo com isso, eu precisava vir aqui para contar.
A moral da história? Procuramos soluções em lugares distantes, pagamos um preço alto pela satisfação, sem perceber que a paixão pode estar em qualquer mercadinho de esquina para nos acolher. Meu próximo passo é abandonar os cremes caríssimos para o rosto e acatar uma dica de uma esteticista amiga minha: rasgue uma cápsula de vitamina E na mão, espalhe no rosto e, depois de seco, passe por cima um creme Rugol (11 reais!!!!). Só. Barato, né? Vou testar e contar se é mesmo bom. Vai ser libertador não gastar mais 150 reais com o meu creme importado.

E por falar em paixão...

Quando eu era moça comecei a namorar sério e meu pai, todo orgulhoso, falou do meu namoro com um amigo dele que, naquele dia, jantava lá em casa. O homem parou de comer, olhou fundo nos meus olhos adolescentes e falou:
-Claudia, vou te fazer uma única pergunta: Você é apaixonada pelo cheiro do seu namorado?
Fiquei sem graça e respondi que não sabia (mentira, eu não era nem um pouco apaixonada pelo cheiro dele e sabia disso muito bem). Ele, muito compenetrado, falou algo que eu guardei para a vida. Algo bem inapropriado para um jantar na mesa com os meus pais, mas a lição foi mais ou menos assim:
-Nunca, nunca cometa a besteira de casar com um homem por quem você não é perdidamente apaixonada pelo cheiro da pele dele. Escuta bem o que eu digo, não faça essa bobagem de subestimar o cheiro do parceiro.
Bom, resumindo: o cara me fez terminar o namoro e, desde então, comecei a achar que ele tinha mesmo razão.
Passei a levar a sério essa coisa de cheiro. Parei de usar desodorante perfumado, aposentei minha coleção de perfumes e sou super exigente com a essência dos hidratantes. Inúmeras vezes interrompi um pote de hidratante porque o cheiro dele me perturbava. Tudo isso para não ofuscar o meu cheiro natural, hahahah.
Na verdade eu nem sei se o meu cheiro é bom (a gente não sente o próprio cheiro, né?), mas fiquei com medo da história. Vai que o meu namorado se apaixona apenas pelo meu perfume sem nem conhecer direito o cheiro da minha pele? Vai que eu o iludo com perfumes franceses e meu casamento dá errado por causa de uma propaganda olfativa enganosa?
Por isso não uso perfume e tenho cheiro de... Claudia.
Prefiro assim. E a "Paixão" não afetou em nada a minha promessa de não me perfumar.

Happy End


domingo, 2 de setembro de 2012

Com dinheiro e com amor.


Mês passado este blog ganhou bastante dinheiro. Duas adoráveis pessoas colaboraram com ele e o saldo ficou significativo como nunca havia ficado. Mas eu recebi a notificação dos depósitos e fiquei... petrificada. Não consegui agradecer. Um telefonema? Um email? Não, nada.
Incrível, porque costumo ser uma pessoa fofa e educada e agradecer é o básico do básico da boa educação. Mas fui uma idiota e me recolhi calada.
O mais engraçado é que, calada, eu fiquei feliz e realizada como não me lembro de ter ficado antes. Sim, porque não é como ganhar dinheiro trabalhando, é ganhar dinheiro fazendo algo que me dá um profundo prazer e que eu nunca na vida pensei em encarar como um "ganha pão" ou algo parecido. Então por quê não telefonar e falar "obrigada" aos meus patrocinadores anônimos?
Na verdade não agradeci porque me senti envergonhada por ter ganho dinheiro com o blog, já que esta não era a intenção inicial deste espaço.
Acho incrível como pessoas me pagam para que eu escreva algo que, obviamente, é de graça. E um detalhe importante é que os doadores não são pessoas ricas que precisam lavar dinheiro num blog qualquer. E (incrível!) não são parentes também! Juro. É gente "apenas" fofa que valoriza meu texto e tenta me recompensar de alguma forma.
Preciso de dinheiro? Muito! Pedi? Não, nunca!! Secretamente, eu gostaria de ganhar dinheiro escrevendo? Claro!
Então por quê fiquei com vergonha?
Não sei.

Além de envergonhada fiquei travada, e é esta a razão do sumiço do blog.
-Sabe, eu tinha um blog onde eu escrevia todos os dias com alegria e entusiasmo. Gostava de receber retorno e ficava muito feliz apenas com os elogios dos leitores. Mas um dia umas pessoas legais decidiram me dar dinheiro e eu, então, parei de escrever. Ah, sei lá entende, achei maldade com elas, tadinhas. Prá quê gastarem dinheiro comigo?

Melôs da Claudinha: "Money, get away!! "
"All you need is love, love..."
Putz... sua tonta, você definitivamente merece ser pobre! Mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que a Claudia alcançar o reino da classe média alta. Sim porque ser rica de verdade nem passa pela minha cabeça oca.

Isso é comum em pessoas idiotas como eu: medo de ser uma fraude. Já li algo sobre isso numa reportagem rasa numa revista feminina qualquer: mulheres que são promovidas e tem medo do chefe estar redondamente enganado sobre a capacidade delas em ocupar aquele cargo; gente que recebe elogio e se sente culpada por ter dado a impressão (errônea, claro) de ser competente. E é comum autores terem sucesso com o primeiro livro e, depois, ficarem achando que foi apenas sorte e não encontrarem coragem para continuar a escrever com medo de serem "desmascarados" pelo público.
Fiquei relendo alguns textos do blog neste período de reclusão e pensava: "Puxa, isso ficou realmente bom! Será que eu conseguirei escrever algo semelhante um dia? Será que vou fazer jus ao investimento em mim?"

Mas hoje eu acordei e decidi honrar os constantes pedidos de pessoas pedindo para o blog voltar. Ahhhhhhhhhhhhhh, ADORO o público batendo palma insistentemente depois do show exigindo o bis! Decidi também honrar cada centavo depositado na minha conta e aproveito a ocasião para agradecer e dizer que vocês não fazem ideia de como me senti valorizada e honrada com isso.
DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO...

Sei que sou psicóloga e, teoricamente, não deveria ter este tipo de trauma, mas acho que meu dinheiro acabou antes que a minha terapeuta conseguisse exterminar com todas as neuroses.
Mas, mesmo com dinheiro na conta (ai, coitada de mim, que dó!!!)...

THE SHOW MUST GO ON!


terça-feira, 19 de junho de 2012

A sombra sonora

Inferno astral.
Esta semana será meu aniversário e, como sou uma pessoa normal, todos os anos entro em pânico ao perceber que não fiz nada do que deveria ter feito.
Como, meu Deus, como pude me esquecer???
E, com isso, mais um ano se passou.
Ó céus!!!!
Ontem falei que a vida é só deitar no chão e tomar Sol. Respirar e se sentir parte do universo.
Mas eu estava mentindo, tá? Era pura filosofia barata.
A vida é ter dinheiro no banco, plano de saúde, carros em perfeito estado, ter casa própria, pensar no futuro, e garantir uma herança para os filhos.
Ah, e ser bonita e feliz.


Sim, eu sei que:
Eu devia estar contente 
porque estou com o peso ideal para a minha altura
sou uma mulher saudável, cheia de vida 
apesar de ter um doença séééééééria.
Eu devia agradecer ao Senhor
por ter tido sucesso na vida como mãe
eu devia estar feliz por ter marido, pais, amigos 
e pessoas que me aaaaamam.
Eu devia estar alegre e satisfeita por morar numa cidade tranquila
depois de ter passado apuro por muitos anos
nas metrópoles violeeeeeeeeeeentas.
Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhosa por ter talento em várias áreas
mas eu acho isso uma grande piada
e um tanto quanto perigoooooooosa.
Eu devia estar feliz por ter diminuido a minha barriga
mas confesso abestalhada que estou decepciiiiiiiiionada.
Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: "e daí?"
eu tenho uma porção de coisas grandes prá conquistar 
e eu não posso ficar aqui sarada (hahaha, "aqui sarada"!).
Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido 
passear pelo mundo, tirar foto em Veneza 
e ter tido tempo de subir lá no World Trade Ceeeeeeeenter.
Ah, mas que sujeita chata sou eu que não acha nada engraçado
viagem, visto, gôndola, mala, passaporte
eu acho tudo isso um saaaaaaaco.
É você olhar no espelho e se sentir uma grandessíssima idiota,
saber que é humana, ridícula, limitada que só usa dez por cento do seu potencial profissionaaaaaaaaal.
E você ainda acredita que é uma blogueira, psicóloga ou cidadã que está contribuindo com a sua parte para o nosso belo quadro virtuaaaaaaaaal.
Eu que não me sento na bola do pilates, com a perna escancarada, cheia de músculos
esperando a moooooooorte chegar.
Porque longe das cercas eletrificadas que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora de um disco voador.

PS: o grifo em branco é TOTALMENTE irrelevante, tá? Foi uma praga que o vídeo da Raulzito me trouxe. Reescrevi a coisa duas vezes (juro) para ver se saía mas ele migra de um lugar para o outro, tal qual a sombra sonora de um maldito disco voador.
Bom, mas dane-se.
Vamos todos morrer mesmo...
ÓÓÓÓÓÓÓ vida!!!





domingo, 17 de junho de 2012

Gaia


"Eu estou apaixonado por uma menina Terra."
(Caetano) 

Já ouviram falar de crianças anêmicas que comem terra? Grávidas desnutridas que chupam tijolos? Moleques que comem grama?
Então, por trás desse comportamento alimentar bizarro, curiosamente chamado de Pica, algumas vezes existe uma necessidade bioquímica do organismo em restaurar alguns nutrientes, no caso os sais minerais e o ferro presentes na terra e no tijolo e a fibra da grama que ajuda a vomitar algo indigesto.

Mas...
A ingleza Natalie Hayhurst, de 3 anos, corre risco de envenenamento constante. Ela é viciada em ingerir tijolo, vidro e pedras, e já comeu até uma lâmpada inteira. Em fevereiro, Natalie tirou a lâmpada que estava no abajur do quarto e comeu. Ao perceber o que havia acontecido, a mãe, Collen, correu para o médico com a filha, que foi operada para a retirada dos cacos de vidro.
Desde então, a criança é vigiada o tempo todo pela mãe, o pai e o irmão de 5 anos. Collen afirma que alguns dias são melhores do que os outros: "Ela não tenta mais comer vidro, uma vez que isso a machucou, mas vai tentar comer pedras e paus, o que ela encontrar no jardim. Natalie é capaz de comer um tijolo como se fosse um biscoito de chocolate.", afirma a mãe (Extra, O Globo) 

A reportagem dizia ainda que, no seu último aniversário, Natalie comeu a vela do bolo.
Sim, porque cupcakes e cookies são para as fofas.
Para quem não entendeu, eu explico: isso é loucura, tá? A menina não é normal. Portanto, a sabedoria intuitiva e irracional não está lá todas as vezes que comemos algo esquisito. Menino que come cola Tenaz e gente que lambe cinzeiro podem ser apenas loucos. 
Ou porcos.

Bom, digo isso porque desde pequena tenho uma mania que hoje acredito ser uma necessidade do meu sábio organismo. Tomar Sol deitada no chão. Faço isso desde pequena. Tenho uma necessidade fisiológica de tomar Sol todos os dias.
O Sol é a minha Pica, a minha mania, até então incompreensível. 

Porém... hoje sou portadora de uma doença grave chamada Esclerose Múltipla e todo dia recebo novos estudos comprovando que a falta de Vitamina D é a principal responsável pelo aumento da doença. E a vida urbana, longe dos raios solares, colabora para o aparecimento de doenças assim.
Por isso, acredito que meu organismo já tratou de me fazer mau humorada e triste caso eu não consiga deitar por meia hora no Sol. Ele já devia saber que a luz solar seria importante para a minha saúde. Espertão!
Tem também a lenda do Sol iluminar a glândula pineal e, assim, liberar endorfinas e serotoninas. O Sol, portanto, é um poderoso antidepressivo.
Uma vez terminei um namoro e quase enlouqueci. Liguei para a minha ex-sogra, deprimidíssima, e ela, sábia que era, depois de ouvir meus choramingos disse:
-Claudia, vá tomar Sol.
Só isso. E ela era tão elegante que eu posso jurar que nem teve o desejo de me mandar tomar outra coisa! Ou em outro lugar.
Fui, e foi perfeito.
Sigo este conselho desde então.

-Triste? Vá para o Sol. 

Mas acho gozado que não basta tomar Sol, tem que ser no chão. Justo eu que não piso no chão sem sapato nem por decreto, mas na hora de deitar ao Sol... tem que ser nele. O funcionário do clube sempre pergunta: "Claudia, as cadeiras estão sujas? Você quer que eu passe um pano nelas?". Não, seu moço, gosto de ficar no chão mesmo.
Por quê?
Bom, tem o fato do chão ser quente e queimar de um jeito indescritivelmente gostoso a pele da gente. Nada traz mais alegria do que deitar molhada numa pedra pelando e sentir as gotas de água se evaporarem do corpo lentamente.
Tem também o fato do chão neutralizar as energias levando embora os ions irritadiços. Mas hoje descobri a razão principal: o chão me deixa em contato direto com a mãe maior.
"Útero é pouco.
Meu desejo de acolhimento ainda não tem nome"

(adaptação tosca da Clarice Lispector)
Agora tem: mãe Terra.
Quando deitamos no chão sentimos o carinho do planeta (além das formigas que chegam minutos depois). Ouvimos o silêncio da sua carne, somos acolhidos na dureza macia do seu corpo e sentimos a paz da sua existência. E tem também o fato de que quando deitamos no chão, com o planeta nas costas e o Rei Sol no rosto, não existe maneira mais óbvia de pertencer ao universo.
Prá melhorar, ao se deitar no chão você está o mais perto possível dos bilhões de chineses que vivem do outro lado do mundo e participa, agora mais próximo do que nunca, da coletividade mundial. Então, como queria Tim Maia, você acaba tendo consciência de que respira o mesmo ar que rodeia o planeta e tem na pele o mesmo Sol que bronzeia a todos.
E que a vida é só isso.
E é boa.

" E de nada valeria acontecer de eu ser gente. E gente é outra alegria, diferente das estrelas!" (Terra, Caetano Veloso)

Sim, gente é outra alegria.
Mamãe Gaia deve estar satisfeita com a minha súbita compreensão.

Ou talvez tudo isso seja só uma loucura minha, tal qual a inglezinha Natalie, comedora de tijolos...



Essa moça abaixo deita no chão ao Sol e, subitamente, se dá conta de que existem 9 milhões de bicicletas em Pequim. Não é incrível eu ter descoberto este vídeo DEPOIS de postar este texto?