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segunda-feira, 4 de março de 2013

A Prateleira


Um dia ouvi de uma pessoa próxima sobre o seu medo de estar em uma prateleira. Não consegui entender de imediato a expressão, mas logo compreendi que estar em uma prateleira significa ter sido deixado de lado e, ao mesmo tempo, continuar disponível para o relacionamento.
É assim: 
-Sempre vejo você e o Pedro juntos. Vocês estão namorando?
-Não. A gente sai junto e ele me devolve na prateleira.

E as pessoas não gostam de serem colocadas na prateleira.
Têm vergonha disso. Se sentem humilhadas por serem apenas uma opção (e não a prioridade) na vida do parceiro. Mas, ao mesmo tempo que se sentem usadas, engraçado isso, se recriminam diariamente por não sairem da prateleira para cuidarem da própria vida. Culpam o parceiro quando, no fundo, sabem que a responsabilidade é delas.
Porém, quando estão quase desistindo, quase pulando definitivamente da história, o telefone magicamente toca e aí  ficam envaidecidas e gratas por terem sido escolhidas. E na segunda-feira voltam para a prateleira. Mas, agora, cheias de honra.
Vida estressante essa. Estar na prateleira subentende uma montanha russa emocional de raiva, saudade, alegria, vaidade, esperança, culpa, auto-crítica e uma enorme carência afetiva. Estar na prateleira é tudo aquilo que nossas mãe dizem para a gente nunca fazer na vida, mas acabamos sempre fazendo porque, porque.... ah, sei lá.
Minha hipótese é que estar numa prateleira tem o seu charme.

Eu não preciso procurar a minha bolsa numa prateleira porque ela está sempre ao meu lado, pendurada na cadeira. Minha bolsa não é escolhida, ela é funcional. Está ao meu lado por ser necessária. Mas quando quero algo realmente diferente, algo que fará meu dia especial, eu vou na prateleira e elejo um objeto exclusivo. Isso me dá a sensação de ser privilegiada, por ter escolha, e ainda dou ao objeto a honra de ser lembrado.

-Oi leva eu! Eu também quero ir... 
(link da música aqui)
Quando você é a prioridade na vida de alguém, não existe massagem clara no ego, por mas contraditório que pareça.
Pode-se ter a sensação que o marido te leva ao cinema porque você está por ali, e, portanto, parece ser a escolha mais óbvia. Sua esposa te chama para comer uma pizza porque, também, talvez você seja a companhia mais fácil.
Estar num relacionamento estável e oficial é delicioso pela estabilidade emocional que gera, mas não tem o encanto de ser escolhido.
Casamentos, em sua enorme maioria, são previsíveis. A vida de solteiro, não. E cada status de relacionamento tem o seu lado bom.

E é isso que as pessoas da prateleira precisam perceber: estar na prateleira e ser escolhido é legal, e é POR ISSO que muita gente fica nela. Ser lembrado e eleito para usufruir de um final de semana ao lado da pessoa amada provoca uma adrenalina rejuvenecedora, massageia o ego e proporciona um bem enorme para a auto-estima.

A não ser que:
1º você nunca seja escolhida/o.
2º você não tenha voz ativa na relação.

Se você ficar mais de um mês amarelando na prateleira, esqueça. Pule fora. Ele/ela não te quer, simples assim.

Se você é retirado vez ou outra da prateleira, suporta o estresse e gosta da adrenalina de ser escolhido, fique nela. Mas saiba que, apesar de ser apenas mais um/uma da vida do outro, você pode (e deve!) ser verdadeiro com seus próprios sentimentos. Pode dizer que ficou chateado porque a pessoa não ligou, pode dizer que adora quando é lembrado, pode ficar bravo e pode demonstrar ciúmes. Ufa. Isso dá um verniz mais humano à estranha relação. Por mais que você seja um bobo exigindo direitos que você NÃO tem, pelo menos você fez a sua parte. Você tentou.
E depois de cobrar, brigar e espernear por respeito, duas coisas podem acontecer: ou parceiro te larga (vale dizer que essa alternativa é a mais provável), ou diz: "Tá booooooooooooom, vamos namorar, então".

Seja qual for o resultado, valeu a pena. Sempre acho que devemos agradecer aos parceiros, bons ou ruins, que passaram pela nossa vida. E perdoá-los por nutrir expectativas nos nossos corações.
São essas as pessoas que nos ensinam a crescer. Nos ensinam a detectar nuances sutis nas falhas das comunicações. Nos fazem entender que a nossa voz nunca pode morrer, por mais difícil que seja encontrar um lugar para ela numa história de amor.
Ou, como diz lindamente Anais Nin num trecho do seu diário: são essas as pessoas que nos ensinam a amar humanamente.


"Ontem à noite eu chorei. Chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque meus olhos estavam abertos para a realidade. (...) Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar. Ainda consigo amar apaixonadamente sem acreditar. Isso significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela."






Por pior que seja a prateleira, 
ela pode deixar saudade depois que pulamos dela. 
Saibam disso.  

PS: antes que alguém me pergunte ou desconfiem (incrível como esses posts geram problemas), nada disso tem a ver comigo, ok?





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Damas fora.




Dizem que uma dama sempre sabe a hora de se retirar. Acho essa frase muito certa e concordo com ela, embora eu nem sempre saiba me comportar com tamanha finesse.
Quando percebe que não tem mais nada a lucrar com a situação e/ou não pode colaborar com contribuições relevantes, a elegante dama se retira. E ela sai, preferencialmente "à francesa", ou seja, sem se despedir. É mais chique.
E este é um benefício exclusivo das mulheres.

Quando uma mulher termina um namoro ou casamento sempre achamos que ela foi sensata e madura. As mulheres tem esse dom de deixar suas saídas sempre glamourosas. Se ela sai sem dar satisfação, então, fica ainda melhor. Parece que o tolinho do homem não soube decodificar os sinais e, portanto, não poderá reclamar por não ter sido previamente avisado.
-Como assim "eu vou embora"?? Sem se explicar, querida?
-Se eu soubesse que você precisava que eu desenhasse para você todas as minhas reclamações no decorrer destes últimos anos eu deveria, no início, ter comprado um caderninho. Agora já é tarde. Adeus.


No entanto, homens não podem se retirar sem dar satisfação. Este é um direito que eles NÃO tem. Em geral, homens quando terminam uma relação são vistos como imaturos. Se saem sem avisar, então, são os maiores filhos da mãe do mundo.
Há! Adoro ser mulher por causa disso!! Poxa, precisávamos mesmo ter alguma vantagem depois de termos nascido com úteros que doem e peitos que caem. Para as mulheres, vítimas absolutas durante toda a história da existência humana, sempre existiu a vantagem da maturidade. Ufa.

-Querida, não quero mais.
-Hã? Você é gay??
Digo isso porque parece que existe um pacto silencioso entre os casais onde fica definido que é a mulher que deve se retirar. 99% dos divórcios que acompanhei só aconteceram por causa das mulheres que, num belo dia, deram um basta e se retiraram. É raro ver um homem terminando uma relação. Eles traem, inventam atividades extra-conjugais no fim de semana, trabalham mais do que o necessário, enrolam, ofendem a esposa para ver se elas desistem, dão um gelo nelas para ver se elas arranjam outro, mas não olham para a parceira e dizem: "Querida, não quero mais."
Eles esperam pacientemente pela retirada de suas damas.
E a minha opinião é que eles não vão embora justamente para não serem taxados de cafajestes. Parece que existe um combinado entre o casal onde eles dão a deixa para ELAS serem as elegantes e deixarem eles imunes ao julgamento da comunidade.
Ah, também existe o fato de homens não conseguirem sobreviver sozinhos. A filosofia de vida deles parece ser: antes mal acompanhado do que só.

Resumindo, a regra é a seguinte:

  • Quando mulheres são abandonadas, são vitimas. Quando abandonam, são maduras.
  • Quando os homens são abandonados, mereceram. Quando abandonam, são cachorros.

Simples assim. Vamos analisar estas imagens:


Dama se retirando.
Cafajeste indo embora.









Dama se retirando.









Cafajeste indo embora (pela esquerda).


Eu sei, eu sei, isso tudo é muito sexista e limitante. Uma grande bobagem.


...mas é a mais pura verdade, sorry.
Escrevo isso porque já faz tempo que assisto a retiradas de damas e cafajestes e, por mais que todos ponderem as particularidades das relações, as conclusões do público são sempre as mesmas. Ela foi a madura do casal e ele, o fraco.
Ah, deixa a gente se gabar disso, vai! Puxa, sofremos taaaanto, ganhamos menos, lavamos mais louça, limpamos mais crianças, sangramos todo mês.... deixa a gente ser elegante de vez em quando. Pode ser?
Valeu.

Pronto, depois desta minha brilhante conclusão (que todos sabiam, mas ninguém ainda tinha oficializado) ficou mais fácil para uma mulher sair de um relacionamento com elegância. 
Quero ver sair de uma piscina...








terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Do not skip the ad!

E lá vou eu novamente filosofar na mesa do café da manhã...



Toda vez que vejo esta foto estampada na caixa de Sucrilhos acho engraçado haver uma discreta frase na lateral: "O leite e a fruta são apenas sugestão de consumo".
Há! Sempre achei isso muito curioso. Será que algum mané realmente acredita que dentro da caixa haverá morangos frescos e leite gelado? Com uma tigelinha à tiracolo? Será que a empresa já foi processada por iludir alguém e, por isso, a obrigatoriedade da frase?

Hoje descobri que sim. Hoje meu filho gritou, todo contente, no corredor dos cereais:
-Mãe, vamos levar esse! Já vem com morango!!

Pois é...
Precisamos sempre pensar nos iludidos. Não podemos esquecer dos deslumbrados e, para estes, temos que avisar tudo, tudinho.

E aí que está a graça da história. TODOS nós nos iludimos com a divulgação de um produto. Em maior ou menor grau, todos somos engambelados pela propaganda e não percebemos que muita coisa não vem incluída no pacote.

Hope avisa: A Gisele e o chiclete são apenas sugestões de consumo.

Já aconteceu de você comprar uma lingerie só porque achou linda a moça da propaganda? Comigo já. Aí a gente chega em casa, veste a calcinha e se sente profundamente enganada, apesar de nunca confessar que momentaneamente achávamos, sim, que ficaríamos gatas. Vou processar a Valisère.

Também já usei produtos para o cabelo que me deixaram frustrada. Não por culpa do creme, mas da moça deslumbrante do comercial. Homens elegantes nos carros chiques, casas arejadas, ensolaradas e com cortinas esvoaçantes em comercial de inseticída e tudo que NÃO vem incluso nos produtos, mas a gente jura por Deus que terá algo semelhante ao pagar por ele.  

Existe uma frase no marketing que diz:
"Se você quer ganhar dinheiro, invista na inocência das crianças, na vaidade das mulheres e na ambição dos homens"


Hoje acredito que não. Acho que a frase deveria ser mudada:
"Se você quer ganhar dinheiro, invista na inocência das crianças, na ingenuidade das mulheres e na ilusão dos homens."

Tá, tá... até aí tudo dentro dos conformes. Os marketeiros renomados ganham fortunas justamente para fazer isso com as nossas mentes. Até aí não existe novidade.
Mas....

O estranho é que estamos tão treinados à ilusão que começamos a fazer isso no cotidiano.
E não percebemos.
Na vida real não existem letras miúdas dizendo que grande parte do cenário é apenas uma opção, não garantia. Não existem letras miúdas nos informando que os relacionamentos não serão tão lindos, os bebês não serão tão fáceis e os trabalhos, não tão glamourosos  E aí nos frustramos profundamente quando percebemos que, na vida que construímos (com escolhas racionais e emocionais), não existe toda a alegria que acreditávamos. Acho que, com a divulgação desenfreada de comerciais e propagandas, acabou que a vida real nos ilude com as mesmíssimas promessas, mesmo sem marketeiro algum por trás
.  
A felicidade da família e a melancia são opções de consumo.


Mas... para provar que a vida pode, sim, ser uma eterna propaganda, eu decidi comprar o morango e o leite gelado que faz "splash" e reproduzir um Sucrilhos igual ao da embalagem.
Não é tão bonito e nem um pouco gostoso, mas... quem se importa???

E com isso descobri que podemos acatar a sugestão de consumo e consumir tudo na vida de um jeito alegre e colorido.
Hoje em dia faço assim: se um filho meu chora de madrugada, já me sinto numa propaganda de Vick Vaporub. Se tenho se sair com ele para o hospital. Simples! Imagino que estou num comercial de plano de saúde.
Se brigo com o meu marido, já penso num comercial de perfume, com portas batendo, malas sendo apressadamente feitas, moça escorregando pela parede até se sentar no chão, close nas lágrimas rolando pelas bochechas e relógio na parede mostrando a demora.
Se fico presa no elevador, já ajo como se estivesse num comercial famoso da década de 80.
Até para prisão de ventre tem comercial! Até para dor de cabeça, hemorróidas, cólica ... é uma fartura!

Hoje, especificamente, me sinto divulgando algum produto excêntrico da Polishop, tentando perder alguns quilos com programas de fitness caseiro.
E haja glamour!




-Deixa eu adivinhar: você também acreditou que a 
Gisele Bundchen viesse dentro da embalagem.

-Gisele? Não. Eu queria mesmo era o chiclete.

-Xiiiiii..... garçom, desce mais dois. 




domingo, 16 de dezembro de 2012

Os homens são de Marte e as mulheres são chatas.

Esta semana vi no Facebook uma foto acompanhada de comentários furiosos, alegando que a postagem era machista.
E a foto era essa:
8 coisas que tornam uma mulher apaixonante:
  1. fofa e carinhosa
  2. mesclar santinha e safada
  3. ter o bumbum no lugar
  4. não reclamar muito
  5. saber cozinhar
  6. não reclamar sobre futebol
  7. se cuidar
  8. ser fiel
Devo ser a pessoa mais machista do mundo porque concordo com tudo isso, desculpa aí.
Também odeio gente que reclama demais e as mulheres que fazem isso tornam-se mesmo in-su-por-tá-veis. Sim, sou das antigas que acreditam que a mulher deveria ser mais cordata e passiva. Desculpa, mil desculpas, mas eu acho isso. E veja que os caras não pedem que elas não reclamem. Não!!!! Eles tem noção da realidade. Pedem apenas que não reclamem... muito.

E eu, apesar de ser mulher, também não perdoo mulheres que não se cuidam e que não saibam cozinhar. Nada é mais brochante e desanimador do que uma mulher que não sabe cozinhar. Chega a ser infantil e sonso.

E ser fofa e carinhosa, caramba, não é mais do que uma obrigação!! Mulher tem que ser carinhosa, óbvio. Se não está na Bíblia, esta regra certamente consta no manual do proprietário. Pode checar que tá lá.

Bom, e "ser fiel" é o que se espera de qualquer parceiro (homem ou mulher) e ter a bunda no lugar é o que se espera de qualquer animal. Sorte que todos nós temos. E perceba que eles não reclamam da celulite e nem exigem demais da lei da gravidade. Só pedem, encarecidamente, que a coisa esteja no lugar, entre as costas e as coxas. 

Outro item: "suportar o futebol". Isso também pode ser traduzido como: suporte as manias estranhas do outro. Pode ser futebol, pode ser política, um programa esdrúxulo da TV, bicicleta, rock, ou o que mais houver. Mas, gente, é óbvio que temos que suportar porque, afinal, a mania é DELE e não nossa!  

Bom, resumindo, não vejo nada de errado na lista dos homens. 

Estranhíssima é a foto oposta:

8 coisas que tornam um homem apaixonante:
  1. pegada 
  2. perfume
  3. corte de homem bem resolvido 
  4. barba cerrada (não é serrada??? o Google não respondeu)
  5. prestatibilidade e parceria
  6. estilo
  7. cueca box branca
  8. cara de mau com um coração super romântico.
Não é uma lista de exigências estranha? MUITO mais sexista, detalhista e fútil do que a lista anterior.

Primeiro item: homem tem que ter pegada. Bom, isso eu já sabia. As mocinhas da minha palestra me contaram e eu socializei neste post aqui. Toda mulher diz que a "pegada" (uma palavra abstrata, intraduzível e cujo significado é impossível de explicar), é uma obrigação masculina que determina a continuidade ou não de um relacionamento.
Não é exigir demais dos pobres???
-Olha, Paulo, eu até gosto de você mas o problema é que você não tem pegada.
Aí o cara vai passar o resto da vida sem entender o que ficou faltando. Vai criar traumas, vai ficar frustrado, e NUNCA conseguirá resolver o problema dele porque, percebam, não existe "aula de pegada". Não existe um passo-a-passo no Youtube esclarecendo o assunto porque ninguém define o que é afinal uma pegada.  "Pegada" é algo que, se você não tem, então nunca irá entender o que é e, portanto, está condenado a definhar na sarjeta sexual da vida.
A mulher pode se tornar bem cuidada, pode aprender a cozinhar, pode decidir ser fofa, mas o homem nunca conseguirá decodificar e adquirir a tal pegada.
E eu acho isso muito, muito injusto.

Perfume. Poxa, perfume?? Exigir de um homem que ele use perfume é o mesmo que ele pedir que você escove os dentes antes de beijá-lo. Ou que tome uma ducha antes do sexo. Sacanagem, não acham? Vocês não acham absurda essa exigência?

Terceiro item: "corte de homem bem resolvido". What??????? Nada mais mal explicado, preconceituoso e elitista.

Barba cerrada. Hum..... ok, esse item eu poupo da minha crítica porque concordo.

Prestem atenção ao próximo item: "PRESTATIBILIDADE e parceria".  As mulheres querem tanto, exigem tanto, que até inventam neologismos para definir seus desejos.
Prestatibilidade existe??
Pelo que eu entendi elas querem um homem que seja parceiro e que lhes preste serviços. Tipo, troque o courinho da torneira, mate uma barata (e jogue no lixo) e saia  na chuva para buscar o carro no estacionamento. Entendi, mas isso não é o mesmo que o homem exigir que você cozinhe?? E porque eles são machistas ao exigir a comida e você está nos seus direitos ao querer a instalação da resistência do chuveiro? E, tem mais: TODO homem que eu conheço atualmente cozinha (muitos, inclusive, melhor do que as esposas), mas nunca vi uma moça trocando o pneu para o marido.

Estilo. Putz, outro item abstrato. TODOS nós temos estilos, mas elas não definem o estilo que lhes atrai porque.... porque..... ah, porque são mulheres. Elas querem e ponto final. Eles que se virem para entender.

Cueca box (o certo seria boxer, mas aí já é exigir demais dos textos do Facebook). Como assim??? Se os caras acima pedissem, sei lá, calcinhas vermelhas as feministas, obviamente, iam cair matando, mas as mulheres tem o direito de escolher o modelo E a cor das cuecas. No mínimo um contrasenso.

Último item da lista: "cara de mau com um coração super romântico". Trocando em miúdos, isso é o mesmo que dizer que ele deve "mesclar a santinha com a safada", claro, mas as mulheres dizem de modo a parecer uma necessidade afetiva e não uma tara sexual. Mulheres são maduras e demonstram saber o que quer. Homens são pervertidos e sempre exigem demais.

Bom, resumindo: é duro ser homem hoje em dia. Não podem pedir nada que já são taxados de machistas e, prá piorar, atualmente precisam satisfazer uma lista de exigências abstratas e confusas como "pegada", "estilo", ter um corpo perfumado e um cabelo com "corte de homem bem resolvido". Além da cueca certa.

Tadinhos... e pensar que eles só queriam um bumbum no lugar certo.



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

70, 70, aí se tenta de novo.

Nesta semana o Brasilicus chegará a 70 000 acessos.
-E daí???? - todos me perguntarão.

E daí nada.
Claro que isso não tem absolutamente nada de importante e os números nem são tão altos que mereçam algum tipo de comemoração. Conheço gente que recebe estes acesso num único dia.
É só um número, óbvio, mas como eu disse neste post aqui, levo o número 7 muito, muito a sério, e se fiz uma homenagem nos 7 mil acessos, preciso fazer uma melhor ainda nos 70 mil.
E a homenagem de hoje será mostrar ao mundo que um bloguinho fuleiro, discreto e pouco acessado como o meu pode mudar o mundo. Muitos blogs grandes e importantes já salvaram mulheres de serem apredrejadas até a morte, já denunciaram (e até ajudaram a derrubar) regimes totalitários e controladores e já mudaram a vida de muita gente no decorrer desta última década. Os blogs são incríveis!
O meu também.
Duvida? Vou provar.

1) Este post mostrou ao mundo que o fio dental é traiçoeiro e sacana por sempre nos deixar na mão. O fio dental, nesta época, não avisava que estava acabando porque vinha numa embalagem turva que não dava pistas sobre o conteúdo. Ninguém conseguia prever que ele iria acabar, claro, porque não dava prá ver nada lá dentro! E pelo fato do produto ser muito leve, enquanto o fio vai sendo usado não há mudanças no peso da caixinha no decorrer das semanas. Uma amiga perfeccionista e bastante obsessiva disse que percebe que o fio dental está terminando pelo BARULHINHO DA ROLDANA!
Sei....
Bom, mas ela não conta porque, como eu disse: é louca, rsrs.
Mas graças ao Brasilicus que denunciou um importantíssimo drama sofrido pelos consumidores brasileiros, hoje em dia o fio dental vem numa embalagem transparente.... assim:
-Agora dá prá saber quando vai acaba-ar lalalalala-la!! 
(este é o novo da Johnson, tá?)


2) Este post aqui contou sobre a importância de dormir abraçado com alguém e deu explicações revolucionárias sobre conceitos complexos da bioenergética. O texto afirmou que os travesseiros em formatos de braços não resolvem nada e que é fundamental ter contato físico com uma pessoa de verdade na cama para evitar irritabilidade, estresse e depressão.
Lá no Japão, uma leitora leu o meu texto e inventou um serviço incrível:

"Mais uma criação inusitada vinda do Japão: no bairro de Akihabara, um dos mais alternativos de Tóquio, capital japonesa, é possível contratar uma mulher para dormir (só dormir, viu?) com você. Por cerca de R$ 120, é possível alugar uma mulher para dormir junto.
Mas não passa do sono. Não há serviços sexuais. No máximo, por algum dinheiro extra, ela vai te fazer cafuné até que você durma. Chamado de "Soine-ya", o serviço é estranho até para os padrões japoneses. Muitos acham que o serviço oferecido transforma a mulher em um mero objeto.
No entanto, os criadores do serviço dizem que o " Soine-ya" está indo muito bem. Parece que há muita gente precisando de carinho e atenção na terra do sol nascente. Será que um serviço parecido iria fazer sucesso aqui no Brasil?" (Yahoo Notícias, 2 de Outibro de 2012)

"Mero objeto"?? Imagina! As moças salvarão vidas com este trabalho digno e importantíssimo.
E, sim!!! Claro que um serviço assim faria sucesso por aqui, já que a idealizadora do "Personal Teddy Bear" é brasileira.
Vou abrir uma filial aqui, com descontos especiais para quem não ronca. E não baba. Ah, e não sofre de flatulências noturnas, óbvio.


"You put the boom boom into my heart
(...)
Jitterbug into my brain
Goes a bang bang bang till my feet do the same.
Wake me up before you go go"


Brasilicus tem um orgulho danado em equilibrar as energias dos japoneses solitários. Agora é esperar os índices de suicídio diminuirem drasticamente no país do sol nascente (agora nascendo em boa companhia!!). De nada.


3) Você, leitor assíduo, deve se lembrar desta postagem onde criei uma seita ridícula: "Seja um Ovomaltine você também!!!". Pelo fato do produto se achar o máximo e se dar ao direito de não possuir uma embalagem decente, eu ridicularizei ele no blog, deixando o pobre numa situação bastante delicada no mundo dos achocolatados. Porém, graças à minha crítica construtiva, hoje o Ovomaltine possui uma embalagem bonita e muito mais atraente, ganhando de vez a simpatia de milhões de consumidores. Sua auto estima está melhor, seu preço aumentou ainda mais e todos os marketeiros me escrevem agradecendo.
"Cha-cha-cha-cha-cha changes!!!!!!"




4) Agora o papo é sério: o absurdo da exigência da letra cursiva.
Poucos meses depois que eu e Angelina Jolie solicitamos, encarecidamente, uma modernização no processo de ensino e aprendizagem, soube que lá nos EUA o texto teve repercussão e já existem planos concretos para abolir de vez a tradição ridícula da letra cursiva:
"O ensino da letra cursiva (de mão) será opcional no estado norte-americano de Indiana e deverá ser banido definitivamente nos próximos anos. A decisão deve ser seguida por mais de 40 estados do país que também consideram esta forma de escrever como ultrapassada. Na avaliação deles, é mais importante se concentrar no aprendizado das letras bastão (de forma).
O argumento dos defensores desta lei, que provocou polêmica nos Estados Unidos nas últimas semanas, é de que hoje as crianças praticamente não necessitam mais escrever as letras com caneta ou lápis no papel. Seria mais importante elas aprenderem a digitar mais rapidamente, já que quase toda a comunicação acontece por meio de letras de forma nos celulares e computadores." (Veja, 18/07/2011)

Vou continuar minha luta por aqui. Obrigada, Mr. Mike Pence por ler meu blog e fazer as devidas mudanças no seu estado de Indiana. Torço para que a sua decisão vire exemplo para o resto do mundo. Thank you very, very much.


Nota: Quando a este post do Yakult, lamento informar que nada mudou. O povo é mesmo osso duro de roer. Enquanto isso continuamos a roer nossas garrafinhas de soro com lactobacilos vivos para tentar tirar o resto do papel "arumínio". Eu já inventei um serviço útil e rentável no Japão que salvará vidas e diminuirá o estresse. Modificar a embalagem do Yakult seria querer demais. Reconheço meus limites.
Nota 2: As fotos fora de foco e sem produção foram feitas há 10 minutos no quintal da minha casa. Créditos para o fotógrafo Enrico, 6 anos. A cara de idiota é minha, enrolando fio dental no nariz (descartei este pedaço do produto, claro).


Agora eu quero saber de você. É, você que está ai agora sentadinho lendo o blog.
"Ô da poltrona!!", conta prá mim qual das mais de 200 postagens colaborou com alguma informação nova para você. Desta vez não quero elogios nem confete (juro!). Quero saber qual  postagem aqui trouxe cha-cha-cha-cha-cha-changes prá sua vida.
Você lembra de alguma em especial? Qual?


Uhuuuuuuuuuuuuu!!!! É nois!!!






-Pronto? Acabou? Posso ir embora agora????

BLAM!







sábado, 1 de dezembro de 2012

Meu Rei Lagarto




"We're off to see the lizard, the wonderful Lizard of Oz
Because, because, because,
Because of the wonderful things he does..."





Ufa, finalmente hoje vou explicar porque comecei com este longo assunto do ânimus. Tudo não passou de uma descoberta pessoal, e foi assim:

Sabe sonhos recorrentes? Desses que a gente tem durante a vida toda?
Então, eu sempre tive e o assunto era basicamente o mesmo: bebês jacarés. O enredo variava um pouco, mas a descoberta do sonho era sempre a mesma: pequenos jacarés habitavam o fundo da garrafa da minha coca-cola, o fundo da piscina onde eu nadava, o final da panela de brigadeiro, o forro do meu edredom. E eu... não sabia!!! Nem desconfiava, imaginem só! Mas um dia, no sonho, descubro eles por lá: pequenos, agitados e úmidos, e a minha reação sempre era de nojo: "Ecaaaaa, eu nadando aqui/bebendo coca-cola/comendo na panela/dormindo nessa cama esses anos todos sem nunca desconfiar que os filhotes estavam aqui dentro. Que nojo!!!!"
Os sonhos eram assim, e os filhotes de jacaré me atormentaram pela vida afora.

Por causa disso passei a ter repulsa por répteis com patas (cobras não!). As patinhas com unhas, o rabo inquieto, a pele escamosa, os olhos grandes... tudo me causava ojeriza.
-See you later, alligator!!

Quando fui estudar psicologia e aprendi que os sonhos trazem ensinamentos importantes (se forem corretamente interpretados), logo lembrei dos meus bebês répteis. Sabia que um dia eu teria que encará-los e decodificar o significado deles na minha vida. Sabia que, se o enredo acontecia com muita frequência, era óbvio que os sonhos estavam querendo me dar um recado importante. No entanto, nenhum terapeuta interpretou a história por mim, e o nojo que os bichos me causavam sempre me esquivou de um confronto pessoal e voluntário.

Bom, tudo corria bem até que eu entrei numa fase difícil e precisei ser forte. Foi duro, barra pesada mesmo. Eu estava me sentindo frágil, vulnerável, com medo e bastante triste. Meu marido viajou por alguns dias e, no dia 15 de Fevereiro de 2011, eu sentei sozinha no meu computador e... ah, fiz um blog. Assim, ao acaso.
Na hora de dar o nome ao blog, o minúsculo lagarto Basiliscus que andava sobre as águas foi o único e mais óbvio que eu consegui pensar. Eu não tinha nenhuma segunda opção. Sim, definitivamente o réptil seria o meu padrinho nesta empreitada.

Mas é engraçado que na época eu não associei o lagartinho aos sonhos. Nem lembrei!! Semana passada, lavando louça, TUDO veio à tona: o Brasilicus é o meu ânimus, claro! O pequeno réptil dos meus sonhos, sempre escondido, abafado e recriminado, veio finalmente à superfície da minha consciência para me ajudar. Para me resgatar.
"Me dê a mão vamos sair prá ver o Sol..."


Nunca escrevi: diários, contos, poemas e nem era boa em redação. Nunca tive identificação com a escrita, mas quando fui defender a minha pesquisa na universidade, a mulher da banca (que veio de outra cidade e nem me conhecia) disse na mesa da defesa da tese:
-Claudia, você promete para mim que nunca vai parar de escrever? Sua escrita é muito divertida e leve.
Vale dizer que o meu trabalho era sobre câncer. Câncer infantil. Com embasamentos teóricos, procedimentos e conclusões. Meu deus, o que podia ter de divertido nisso? Desconsiderei totalmente o pedido da moça, claro. Achei que ela estava louca. Mas no decorrer dos anos inúmeras pessoas disseram a mesma coisa: "escreva"," escreva sobre isso". Tsc, tsc. Nunca achei que seria proveitoso.

-But you said it was only "for a while"!!!
Porém, num belo dia, a escrita, travestida de um pequeno réptil ousado e transgressor, me salvou de uma pane psíquica. Sim, porque: quer algo mais transgressor do que um lagarto que anda sobre as águas?? Beeeeem diferente dos pequenos que ficavam escondidos no fundo escuro da minha vida.
Bom, e a minha interpretação tosca é que, no sonho, os pequenos jacarés eram meu ânimus que estavam sempre por perto, rondando, e nunca, jamais, me fizeram mal. Eram bebês e precisavam apenas de cuidados, tadinhos. Mas eu, tola, morria de nojo e fugia dos bichos. Penso que eles queriam apenas subir à superfície, crescer e participar da minha vida. Estavam apaixonados por mim, os pobres.

E sei que o blog é meu ânimus porque já me contaram que o que eu escrevo aqui é demasiadamente masculino. Muitas pessoas me dizem isso: que o blog é masculino e até um pouco sexista, com mulheres de biquini, peitinhos e piadas de botequim.
Achei estranho e surreal, mas tive que concordar, claro.
-Ô rapá, chega aí. Deixa eu te contar a
diferença entre a puta e a santa!
Um amigo meu, psicólogo, um dia disse que é fácil recomendar o Brasilicus para os amigos homens porque eles se identificam com o estilo do blog.
Boa parte dos meus leitores fiéis são homens e meu patrocinador/guru aqui dentro é homem. Um homem maravilhoso que me dá dicas importantes para eu não apenas me divertir por aqui, mas também ganhar dinheiro escrevendo: "mande para o portal tal", "tente vender o seu blog", "deixe ele mais moderno"...
Incrível.
Por eu ser casada e compromissada, meu ânimus, desta vez, veio me salvar através de um blog. Jardineiros são arriscados.
Mas veio de forma ainda mais masculina, criativa e linda.





Escrever hoje me dá prazer e me faz sentir completa e feliz.
Se é bom ou não eu juro que não sei, mas, como Clarice Lispector: “Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando…” (e eu juro que foi ela mesma que disse isso!)



Happy, happy end!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Jardineiro Fiel

(continuação do post anterior: LEGOLAND)

Ontem conversei com uma amiga que me confessava uma vantagem em ser lésbica:
-Não existe ciúmes. Eu, minha esposa, e todas as nossas ex-namoradas somos amigas e saímos sempre juntas. Entre nós não existe isso de "problemas com a ex" porque a ex dela, veja só, é a minha melhor amiga. Não é perfeito isso?
Eu ri e falei que era bobagem, que aquilo é uma civilidade natural entre as duas e não, necessariamente, uma característica da condição sexual delas. Ela insistiu e disse que não, que aquela era, sim, uma característica maravilhosa das mulheres lésbicas. 
Convencida e entusiasmada, eu falei:
-Puxa, que legal! Ahhhhh, eu quero ser lésbica também. Será que dá tempo?
-Impossível, Claudinha. Não conheço ninguém menos lésbica do que você.

Putz, verdade, também sinto isso. Não existe uma gota de masculinidade correndo nas minhas veias. Não que eu seja perua, afetada e nem fofa, nada disso, mas sou excessivamente feminina na minha essência.
Sempre desconfiei que o meu ânimus era gay. 

História ilustrada sobre o meu encontro com o ânimus:
Eu estava no primeiro ano de casamento e morava em São Paulo. Uma dia fui abastecer o carro e me apaixonei perdidamente por um pequeno jardim que havia no posto de gasolina. Tão alegre, tão delicado, tão provençal... nada a ver com a paisagem que o envolvia. Fiquei inexplicavelmente encantada pelo jardim (veja bem, nunca dei bola para plantas). Desci do carro e fui investigar quem havia feito o serviço. Descobri o telefone do jardineiro com uma lojista e liguei para o cara no mesmo dia.
Tudo bem que eu morava num apartamento pequeno, mas, ah, e daí?? Eu também poderia contratar um jardineiro, não é?!
No telefone eu disse que precisava de alguém para arrumar minhas floreiras e ele explicou que, antes de pensar num projeto, precisava me conhecer. Pegou o meu endereço e prometeu ir à minha casa de tarde.
Ele tinha, indiscutivelmente, uma voz gay ao telefone. Fiz então um bolo e esperei pelo meu jardineiro gay que queria me conhecer. Oba!
Quando a campainha tocou.... putz, pensa num cara lindo? Era ele. Bronzeado, musculoso, estiloso (uma coisa meio Paulo Zulu rural) e um belo rosto. Pazinhas e rastelinhos aparecendo nos bolsos da mochila cáqui à tiracolo. Um charme.
Conversamos a tarde inteira e ele topou fazer o serviço, mas tinha que ser rápido já que no fim do mês ele iria se mudar da cidade porque, segundo ele, iria "se casar com uma pessoa".
Gay.

O serviço ficou lindo e a minha varanda, agora, era a mais bonita do bairro.

Três anos depois...
Eu estava separada e deprimida, embora a minha varanda ainda fosse bela.
Um dia eu estava sentada nela, triste, lamentando a destruição das casas ao lado que foram demolidas para a construção de um prédio. No meio do enorme terreno que se formou abaixo, sobrou apenas uma jabuticabeira. Eu olhava para a jabuticabeira, prevendo o seu triste fim, quando um homem no terreno me acenou e gritou:
-Claudia, tá linda a sua varanda. Você tá de parabéns!!!
Era o meu jardineiro. Ele, coincidentemente, foi até o lugar resgatar a jabuticabeira e olhava para a minha varanda, admirando o serviço que havia feito.
Subiu no meu apartamento, tomou um suco comigo e conversamos. Eu tinha largado do meu marido e ele largou da "pessoa". Estávamos, os dois, solteiros e solitários. Ficamos amigos.

Mas, olha, entenda, não ficamos apenas amigos, ficamos inseparáveis. Além de jardineiro o cara era fotógrafo e me levava para todos os cantos com ele: estúdios, reunião com lindas modelos, laboratórios de revelação, feira de plantas, CEASA, loja de papéis especiais... eu passava o dia inteiro ao seu lado e almoçava na casa dele sempre que não tinha natação na hora do almoço.
-Claudia, você gosta de pastel de quê?
-Ah, nem sei, acho que de carne.
No dia seguinte a empregada dele fazia pastel de carne. Só para mim. Ele era vegetariano.
-Claudia você sabe fazer pão? Não??? Vou te ensinar.
E comíamos o pão de noite.
Passados uns meses, ele me perguntou:
-A que horas os passarinhos começam a cantar no seu apartamento?
-Putz, nunca ouvi. Acho que nem tem passarinhos por lá.
-Tem sim. Passarinhos cantam em todo lugar. Vou dormir na sua casa e descobrir o horário. Os passarinhos sempre cantam uma hora antes do Sol raiar e, se a gente ouvir eles, dá tempo de tomar um café e chegar aonde eu quero te levar.


Ele dormiu (no sofá cama!), ouviu os benditos passarinhos, e me levou para ver o sol nascer num lugar mágico em São Paulo: em cima da estação Sumaré do metrô, onde há um jardim encantado (criado e mantido por taxistas) e um sol que nasce num horizonte incrível. Desde então passamos a ir sempre lá.
Ouvir os passarinhos e ver o sol nascer era importante para nós. Durante estes momentos ele segurava na minha mão e ficava em silêncio.
E o jardineiro virou o meu tutor, meu guru: "Claudia, compre estes lápis de cor, desenhe, deite aqui  e durma um pouco, você está cansada, ouça esta música, leia este livro, pegue a lupa e veja o lindo formato destes líquens, compre esta orquídea para a sua varanda, passe a mão deste musgo e sinta a maciez".

Durante um ano inteiro o cara cuidou de mim. É claro que eu, vez ou outra, me envolvi com outros homens, mas ele sempre fazia questão absoluta de conhecê-los. E, engraçado, se divertia com eles e gostava de todos.

Um dia eu reclamei:
-Você passa o dia todo com uma máquina na mão registrando tudo. Até a minha mãe você já fotografou, mas nunca virou as suas lentes para mim. Por quê?
Ele respondeu:
-Claudia, você é linda e eu poderia passar a vida te fotografando, mas eu corria o risco de me apaixonar por você, e a minha função na sua vida não é essa.
-Ah, tá, se é assim então tá bom.

Nesta época eu já tinha conhecido o meu atual marido e o jardineiro, lentamente, saiu da minha vida. No último dia em que eu o vi ele me deu essas duas fotos acima: o passarinho que nasceu na samambaia da varanda e a flor amarela da minha floreira (agora me diz: existe ilustração melhor do que esta última foto para a ânima e o ânimus?).
Abaixo das fotos havia apenas a frase abaixo, escrita com a sua letra rebuscada de artista:

E foi assim que meu ânimus, salvando uma jabuticabeira perdida no meio de destroços, entrou na minha vida e me resgatou da depressão, me ensinando coisas que eu faço, religiosamente, até hoje:
  • Preste atenção aos pássaros.
  • Acorde cedo e veja o sol nascer.
  • Faça pão.
  • Pense no que você deseja e... realize!
  • Pegue uma lupa e perceba que o milagre está nos detalhes. Não veja a sua vida de fora! Mergulhe nela e maravilhe-se com as pequenas coisas.
  • Não precisa ser atraente e nem sexy para ser encantadora. Você não precisa ser fotografada. Não se preocupe com isso!
E que assim seja...
Quem me conhece acha que isso em mim é natural: passarinhos, artesanato, pães, comidinhas, valorização das pequenas coisas... mas não é. Foi o meu ânimus que me ensinou tudo isso depois de adulta, e foi com essas pequenas atitudes que eu sobrevivi à uma enorme crise.
E o final dessa linda história é que o cara sumiu e eu, engraçado, nunca perguntei o sobrenome dele. Nem o telefone atual. Desapareceu como um fantasma. Puf....
Sei que ele nunca vai ler esta homenagem, mas gostaria de dizer que lhe sou eternamente grata por tudo.

Bom, este foi o encontro com o meu ânimus gay, que, detalhe, nunca foi gay!! Mas isso é uma outra história.
Amanhã eu termino e explico porque eu comecei com esse papo de ânimus.