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domingo, 6 de março de 2011

Hunting High and Low

No post de ontem (feito sob encomenda para uma leitora especial!) falei do reencontro com os desejos infantis que salvam e redirecionam a vida para a auto-realização.

Fui dormir pensando nisso e tentando procurar uma forma de exemplificar a ideia. Consegui lembrar de MUITOS filmes que tratam do mesmo assunto: uma criança inicialmente tola, ingênua e invasiva que se mostra fundamental para tirar um adulto de uma crise existencial séria.

Mas, para mim, o filme que melhor ilustra esta história é uma animação incrível da Pixar: "Up", que no Brasil teve o título complementado por "Altas Aventuras".
Não viram????? Ah...
Não conheço nenhum adulto que não tenha se apaixonado por este filme.

 
"Up" merece uma tese. TUDO nele tem um significado arquetípico: o pássaro mágico, raro e colorido que está em perigo e precisa resgatar os filhotes, os cães que falam e são dominados por um vilão que se deslumbrou com a fama... tudo pode ser teoricamente explicado por uma boa psicóloga junguiana.

Mas esta animação aparentemente infantil é perfeita para ilustrar o que eu disse ontem porque tem:
  1. Um caderno de projetos, desejos e sonhos (alguém aí lembra do Caderninho de Perguntas do post anterior? pois é...), feito em conjunto pelo casal que se uniu justamente pelos interesses em comuns na infância.
  2. Um velho em crise que passou a vida resolvendo problemas práticos e necessários (a cena dele quebrando o cofre para pagar imprevistos do dia-dia me emocionou... não sei porque). E a vida fez dele alguém rabugento, amargo e cético.
  3. Um menino carente, na faixa de 8 ou 9 anos, que precisava de atenção e queria ser útil. Ele era inconveniente, esquisitinho, mas foi herói até o último fio do seu cabelo orientalmente espetado.
Com isso já dá para saber o fim da história. Não vou contar e nem me prolongar na chata tarefa de esmiuçar um filme.

Mas digo que a cena mais metafórica de todas é quando o velho joga pelos ares todos os bens materiais, os objetos que o faziam lembrar a esposa falecida, tudo o que ele tinha na vida para... salvar a sua vida.
Mas não jogou o sonho! Em momento algum ele abriu mão do seu projeto, por mais maluco que fosse.

Mas, importantíssimo: para o filme dar certo o menino tinha que ter 8 ou 9 anos.

E também os Cadernos de Perguntas devem ser respondidos preferencialmente nesta idade porque antes ainda existe a total falta de noção do mundo real. É com 9 anos que vários teóricos da psicologia concordam que a criança passa compreender totalmente a diferença entre fantasia e realidade.
Para alguns pequenos a perda da magia pode ser um luto terrível e é por isso que meu consultório sempre esteve cheio de crianças desta faixa etária.

E se demoramos alguns anos para fazermos a investigação do Caderno de Perguntas teremos pré adolescentes que passam a censurar e discriminar sonhos e desejos (só fica o desejo pela namorada). São contaminados pelo niilismo do adulto. Adolescentes não servem para responder Cadernos de Perguntas e nem para fazer Testes de Orientação Vocacional. Mas isso é outra história...

Portanto, na minha opinião de especialista em Cadernos de Perguntas, entre 8 e 9 é o período ideal para responder o questionário.

E programem a Máquina do Tempo para voltarem a esta idade antes de responderem o caderno que certamente vocês formularão numa emergência existencial, ok?

Tenho certeza de que os irmãos Gershwin tinham 9 anos quando escreveram esta música:

The Man I Love
Someday he'll come along
The man I love
And he'll be big and strong
The man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay
He'll look at me and smile
I'll understand
Then in a little while
He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word
Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good news day
He'll build a little home
That's meant for two
From which I'll never roam
Who would, would you
And so all else above
I'm dreaming of the man I love
Meu regresso aos nove anos de idade aconteceu assim:
Quando tinha 29 anos fui andando até a padaria da esquina de casa, em São Paulo, e parei em frente a uma casa. Fui para frente, para trás, andei prá frente de novo e comecei a sentir um cheiro tão bom, mas TÃO BOM que eu decidi que nunca mais poderia viver sem ele.
Demorei para descobrir o que era: esterco de vaca jogado na grama da casa.

E este foi meu "A-Ha moment"!

PS: Nunca tinha imaginado que A-Ha queria dizer isso! Para mim ainda eram os rapazes de mulets que cantavam "Hunting High and Low".
Depois de algum tempo que postei o texto aqui corri e mudei o título deste post. É OBVIO que deveria se chamar Hunting High and Low!!!!!!!!  O velho do filme precisou subir nas nuvens para redescobrir seus sonhos de infância. Eu só precisei olhar para baixo e apurar o faro.
Fácil.

Alguém lembra de um episódio do "Seinfeld" em que George sai com uma mulher bonita no Central Park e, na conversa, ele diz para ela que gosta de esterco de cavalo?
Depois ele entra no apartamento do Jerry inconformado porque a moça não quis mais saber dele. Jerry pergunta incrédulo: "Espera. Você disse a ela durantre um encontro que gosta de... esterco?"
E George responde bravo: "O que há de errado com esterco?"

Sim, George, o que há de errado com esterco???



Eu me casaria com George na hora!

George Constanza: The Man I Love!!!



sexta-feira, 4 de março de 2011

A Danada da Danae

Tenho na minha casa uma "Danae", pintura belíssima de Gustav Klimt que capta o momento em que ela está recebendo o sêmem dourado de Deus.
The God´s Golden Shower!!
Sim, ela está nua.
Sim, ela parece que está gostando.

Gosto demais desta imagem e esta reprodução já frequentou alguns cômodos das minhas casas: salas, corredores e hoje está no meu quarto.
Não por pudor! Apenas para apreciá-la por mais tempo, afinal não haveria problema nenhum em receber uma visita com Danae tendo um orgasmo na parede da sala.
Porque um dia alguém disse que isso é arte, então pode.



Além da minha parede, Danae também está em muitos outros lugares:

"Um peso de papel, que legal!
Combina com a minha Mont Blanc."
"Professora, comprei uma caixa para você guardar suas camisinhas e
nunca esquecer de usá-las."

"Puxa vida, amor, fui tomar cafè e não sei porquê lembrei que precisamos
comprar a pílula do dia seguinte."

"Fiquei com saudade de você então comprei essa T-shirt"
"Olha Vó, fui na feira de artesanato e comprei este quadrinho prá senhora.
Achei que tinha tudo a ver!!"











Estranho, né?
Mas pode! Eu JURO que pode.
E todos achariam que você é cult, um frequentador assíduo de exposições do MASP e você subiria muitos pontos no conceito da sogra que diria: "Nossa! Você gosta de Klimt?" 

Agora, diz prá mim se pode estampar isso na sua camiseta e ir almoçar na sogra:



-Fala aí sogrinha! 
Cadê aquela lasanha melhor do mundo? 
E olha que faltou o sêmem divino...


Não estou brincando, este é um questionamento que me acompanha desde o meu post "As 3 Graças", quando algumas pessoas se chocaram com a nudez das celebridades, mas passaram a vida vendo as peladas dos museus e achando normal.

Por quê as Cárites segurando maçãs, o "Nascimento da Vênus" de Botticelli, as gordinhas de Renoir, as prostitutas de Toulouse Lautrec são consideradas arte e essa desconhecida aí em cima chocou vocês?
A foto é bonita e não é pornográfica! 

Não entendo...


Tripé

Para quem está acostumado com as minhas piadinhas que atraem leitores, queria dizer que hoje eu não vou tratar do famoso tripé que faz tanto sucesso nos filmes pornôs.
Não! Hoje o assunto é bacana, mas agora estou pensando em outro tripé... desculpa aí.

Muito se fala em Freud, Jung e a galera das antigas, mas eu adoro muito um teórico da Psicologia que enriqueceu minha vida pessoal e profissional com o que eu apelidei de "A Teoria do Tripé".
Chama-se Tom Andersen. Está velho, mas vivo, e mora na Noruega.
E este cara diz o seguinte (Vou traduzir para a linguagem leiga, ok? Nem tudo é tão óbvio e simples):


A vida de todos é regida por um tripé, formado pelo PENSAR, AGIR e SENTIR. Eles trabalham juntos para fazerem a gente tomar decisões e se comportar no mundo.
Mas... sempre tem um "pé" que é mais curto, capenga. E é justamente este "pé" deficiente o motivo do sofrimento trazido pelas pessoas em terapia e também é ele que precisa ser fortalecido para que a cura terapêutica possa ocorrer.

Ou seja, a cura está na falha, na sombra, naquilo que não exercitamos.


Para Tom Andersen a falha no tripé pode provocar 3 situações:
  • Tem gente que age muito, sente muito, mas não pensa.
Este é o tipo de pessoa que casa por impuslso porque está apaixonado há uma semana, escolhe uma faculdade porque acha que vai amar o curso, decide mudar de cidade porque sente que vai ser muito feliz em outro lugar, termina um casamento de anos porque sentiu que não devia mais continuar, larga o emprego porque teve uma briga com o chefe. Conhece gente assim? São pessoas que não tem argumentação teórica para basear suas ações.
-Por quê você se separou?
-Ah, porque me deu uma "coisa" e eu achei que devia.


Barato Total (G. Gil)
Quando a gente tá contente
Tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz
Que eu me esqueça do meu compromisso
Com isso ou aquilo que aconteceu dez minutos atrás
(...)
Quando a gente tá contente
Nem pensa que está contente
Nem pensar que está contente a gente quer
Nem pensar a gente quer, a gente quer
A gente quer, a gente quer é viver

 Uma pessoa dessa quando vai para a terapia deve trabalhar bastante a parte do pensamento porque é nele que está a solução para estas paixões desenfreadas. O pensamento será o salvador, diminuindo a potência deste motor sentimentalóide que a leva a agir indiscriminadamente. Ele pode até coninuar agindo, mas precisa entender as razões.

Ao chegar na terapia, a pessoa vai querer chorar, pintar, colorir, contar mil histórias de mil brigas, mas, seja duro!! Fique firme na argumentação teórica querendo entender tim-tim por tim-tim porque foi que ela agiu desta ou daquela forma.
Ajude-a a construir o caminho do pensamento racional. Dá um trabalho danado!
  • Tem gente que pensa muito, sente muito, mas não age.
"Eu sempre quis estudar, sempre quis sair de casa, estou há anos querendo me separar, não consigo salvar meus filhos de um pai alcoólatra e agressivo, acho que vou morrer sem ter feito o que eu queria".

Estas são as frases usadas por este segundo tipo de gente. Em geral muito bem argumentadas, cheias de explicações dos prós de dos contras em ficar ou sair, cheias de choros e lamentações, mas... sem nenhuma ação.
A pessoa está paralisada nos seus pensamentos, afogada por sentimentos petrificantes, e sofre demais por não conseguir agir. Se sente fraca e incapaz.


Blackbird (Lennon e McCartney)
Blackbird singing in the dead of the night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of the night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.


A terapia está em trabalhar a ação. Incentivá-la a ser mais impulsiva, mais ousada.
Segundo Tom Andersen, é a ação que fará com que está pessoa saia da inércia que compromete a sua vida. E agir pode ser difícil prá caramba!!!
Então como convencê-las a agir? Investigando suas convicções e desejos. E procurar desejos dentro da apatia é duro. Processo longo!
No entanto, é uma enorme prazer ver o paciente tomando as rédeas de suas decisões. Andando para sua auto-realização, mudando o rumo da sua vida. Lindo.

  • Tem gente que pensa bem, age bastante, mas não sente.
Estas para mim são as pessoas mais difíceis de lidar porque são dotadas de um enorme poder de argumentação téorica. Gostam de explicar porque agiram de tal forma, querem entender o porquê de todas as minhas falas dentro da sessão e exibem os seus feitos e suas conquistas baseadas na mais pura razão. Definem metas, agem pela lei da mais valia. E costumam agir bem.
Têm filhos, casam, escolhem a profissão e definem prioridades baseadas em razões objetivas.
Costumam ser muito bem sucedidos, mas ficam distantes dos afetos e chega um dia em que não conseguem mais acessar os sentimentos, não reconhecem seus desejos. E passam a achar a vida sem graça e sem sentido.
A reaproximação com os afetos é difícil e pode ser assustadora.

Mas não existe nada mais lindo e emocionante do que os sentimentos virem (serena ou passionalmente) salvar um coração embrutecido. Como é bom ser psicóloga e poder assistir isso de camarote!!

Não gosto de generalizar porque esta informação não define nada, mas minha experiência mostra que este último grupo não chega em sofrimento no consultório. Não choram e nem são afetados por depressão. Sofrem mais de transtornos somáticos como crises de ansiedade, sindrome do pânico e fobias.

Para explicar este drama numa música, eu fiquei na dúvida entre "Explode Coração" e "O samba do grande amor", mas aí lembrei da incompreensão do amor descita nesta daqui:

O que será (C. Buarque)
(...)
O que será, que será?
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos dos desvalidos
Em todos os sentidos...
Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido...



Descobrir qual é o pé manco pode demorar muito tempo.
Eu, como paciente, fiz o trabalho para a minha última terapeuta logo nos primeiros minutos: "Oi tudo bem, você pode me ensinar a pensar?"
Sou uma paciente exemplar e fiz bem minha lição de casa.

Agora façam a de vocês.
Usem o Carnaval para pensar nos seus tripés e nas pessoas que vocês conheçem que se encaixam perfeitamente nestas descrições acima.
Depois me contem o que descobriram, ok?


quinta-feira, 3 de março de 2011

Perguntas que não querem se calar: Desodorantes

Olhem as imagens abaixo de desodorantes masculinos:




           Embalagens normais, com tampas de diversos formatos, ângulos definidos.
Certo?


Agora olhem atentamente as embalagens abaixo de desodorantes femininos:



Emabalgens com texturas macias, tampas arredondadas, sem ângulos.
Será que só eu percebi isso?
Será que é uma ENORME coincidência?
Ou será que existem designers que ficam testando a eficácia da textura, grossura e tamanho da embalagem? Calculando tudo em detalhes para conquistar de vez a aceitação do público feminino?

Não, talvez eu esteja louca, imaginando coisas com minha mente suja.
Mas, se eu estiver, quem explica por quê é que o Rexona Teens é menor?


O Prazer da Solidão

Marina Lima canta uma linda música, do Kiko Zambianchi, que é uma das 3 que sempre me vem à cabeça quando estou quieta, em silêncio. Eu cantava ela quando era muito pequena e fazia aula de violão e, desde então, não parei mais.
De cantar a música! Porque o violão eu não toquei nunca mais na vida.

E ultimamente ela tem me vindo à cabeça demais, porque estive bastante sozinha esta semana.

Mas estar sozinha é, para mim, como Tom Jobim define a diferença entre morar no Brasil e nos EUA:
"Morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda.
E morar no Brasil é uma merda, mas é bom."

Ficar sozinha é uma merda, mas é muito bom.


 
Três necessidades básicas no meu dia: solidão, silêncio e escuridão.
E todas estas três situações me levam para o mesmo lugar que é dentro de mim mesma, nas profundezas do meu ser, "in the dark side of my moon".

E eu adoro... não tenho mais medo do meu Darth Vader porque vi o fim do filme e sei que ele é meu pai e que me quer bem.  



Todos que convivem comigo sabem que tomo banho, janto e ando pela casa no escuro. Claro que quando estou sozinha, afinal não moro com morcegos! Mas entrar num cômodo e acender a luz quando estou lá dentro com a luz apagada é tão ofensivo para mim quanto apagarem a luz para quem está com ela acesa.

Na escuridão tudo fica bom. E eu sempre me surpeendo com a habilidadae do meu corpo em se localizar no escuro, encontrar roupas nas gavetas apenas com o tato, lavar louça perfeitamente (o tato é essencial para se lavar bem uma louça) e achar prazer no cheiro da roupa de cama limpa. Não sinto este cheiro com a luz acesa.

Existem restaurantes malucos e alternativos que te colocam para comer no escuro absoluto. É claro que você tem que confiar no chef e na vigilância sanitária. Dizem que o sabor da comida fica melhor, a textura surpeendente e... surpresa: você come quase metade do que comeria com a luz acesa. Fica satisfeito com pouco e cheio de boas lembranças gustativas e olfativas. Sim, os olhos são pecadores. Sofrem de gula e cobiça.
Quer fazer regime? Deixe de pagar a conta de luz por 2 meses.


E não acho justo dizer que a pessoa que gosta de fazer sexo no escuro é tímida ou recalcada. Pode simplesmente ser alguém permissivo, bonzinho, que deixa todos os outros sentidos também participarem da brincadeira.

A visão é autoritária, mandona, sufoca o olfato, a gustação, o tato e a audição que ficam apagados, submissos a um reles cenário bonito exigido pela visão pecadora e obcecada pela luxúria.

Tadinhos! Nunca conseguem demonstar todo o potencial deles. E eles tem um potencial danado...



O silêncio é tão maravilhoso que ainda não inventaram uma música que supere seu poder de emocionar e acalmar.
Escolhi meu esporte, a natação, pelo silêncio que habita as águas. Lá não tem música de academia, não tem gente falando e gritando, não tem apito e nem o quicar da bola. Só meu pulmão se enchendo e formando bolhas ao se esvaziar. E este é o MEU som, este pode.
Não consigo entender como alguém consegue ligar uma TV e não desligar nunca mais. Recebem visitas com ela ligada, almoçam com ela ligada, namoram com ela ligada e, pasmem, tem gente que comete a insanidade de DORMIR com ela ligada!! No quarto!!!!!! Com propaganda do Feirão de Carros, das Casas Bahia e chamadas do Carnaval Globeleza!!!!!

"Escuta o mato, escuta. "
(T. Jobim)


E a solidão, ah, a solidão é vital para encontrar o eixo, reorganizar a essência que fica perturbada com tantas intervenções.

Depois que tive filhos esta foi a mudança mais brusca que senti: a falta de espaço para a solidão no meio das adoráveis vozes, mãozinhas, pezinhos e beijinhos inundando a gente de mini presenças. Mas, felizmente, com o tempo tudo se organiza e hoje a minha amiga solidão consegue aparecer de vez em quando para me fazer uma visita.

E o casamento só poderia ser bom para mim com respeito e um espaço para minhas necessidades vitais. Mas os casamentos conseguem maravilhas quando olhamos para  felicidade um do outro. Que bom.


Eu te amo você
Acho que eu não sei não
Eu não queria dizer
Tô perdendo a razão
Quando a gente se vê
Mas tudo é tão difícil
Que eu não vejo a hora
Disso terminar
E virar só uma canção
Na minha guitarra.

(...)
Mas tudo é tão difícil
Que era mais fácil
Tentarmos esquecer
E virar mais uma ilusão
Nessa madrugada
Eu te amo você
Já não dá prá esconder
Essa paixão
Mas não quero te ver
Me roubando o prazer da solidão
Eu te amo
Te amo você
Não precisa dizer
O mesmo não
Mas não quero me ver
Te roubando o prazer da
Solidão

Resumo da música: eu te amo, não dá mais para esconder, tô perdendo a razão, mas... não me tire o prazer da solidão, ok? Porque, se você tirar, tudo fica mais difícil e aí eu vou preferir tocar violão de madrugada. Promete? Combinado? Então assina aqui.

E para quem quer começar a usar o "kit escuridão, silêncio e solidão" eu, que sou especialista, sugiro que comecem devagar.
Se forem ficar sozinhos por muito tempo, não fiquen em silêncio (as boas músicas servem para isso). Se forem ficar em silêncio acendam a luz. Se forem ficar no escuro, não fiquem sozinhos...
Depois de um tempo vá intercalando, eliminando as possibilidades, e com alguns meses de prática conseguirão a incrível proeza de encontrar... nada!!!!
Hahaha, não tem pote de ouro no fim do arco-íris. Não tem Santo Graal no fim da busca. Só você mesmo!
Bem-vindo à sua existência.

Mas agora já estou sozinha demais. Pronto. Podem acender as luzes, ligar o som e mandar entrar a platéia.
"Send in the clowns!!!"

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Mister M. dos Blogueiros

Eu, na minha ampla experiência de 15 dias como dona de um blog, trago agora dicas quentes para o caso de vocês quererem se iniciar na prática luzitana de gastar horas pensando em bobagens que não vão lhes trazer dinheiro algum.


Sim, eu poderia ser a dona exclusiva do segredo de um blog de sucesso e guardar essas informações apenas para meu uso pessoal, mas sou o "Mister M." da técnica marketeira de seduzir leitores. Conto tudinho!
Sou odiada pelos donos de blog que escondem o segredo às sete chaves, mas não tenho o menor respeito pela categoria.



"Principe negro das noites de Domingo, conte-me tudo. Senhor de todos os sortilégios, não me esconda nada!" (na voz do Cid Moreira... ouviram?)

E aqui vai:

Remexa na nostalgia do seu público alvo
Holly Hobbies, Cubo Mágico, Paquita, Comichão e Coçadinha, Scooby-Doo... tudo friamente calculado para desarmar o lado adulto e fazer as emoções juvenis e baratas se interessarem pelo assunto. Mas cuidado para não exagerar porque pode produzir o efeito contrário e acabar causando uma aversão pela babaquice da infância.
O texto com a Holly Hobbie foi o menos lido de toda a enorme história do blog. Culpa da bonequinha sem rosto: muito fofa, muito vintage, mas que acabou não agradando. Ainda mais quando eu caí na bobagem de misturar ela com Freud. Desenterrou traumas de infância, e tenho certeza que o trauma diz respeito à coleção de papéis de carta que a sua mãe...usou, haha... jurando que você não queria mais. A minha fez isso.


Mulher pelada vende prá caramba.
Ah, jura?
Quando decidi que queria fazer um post sobre educação, a exigência banal da letra cursiva e a urgência em atualizar o o ensino, ou seja, papo sério que nem todo mundo está interessado, eu pensei: "Como poderei chamar a atenção para o post?". Voilá! Mulher pelada!! E ainda coloquei o nome do post de "Eu e Angelina na banheira" para atiçar a curiosidade da galera ainda mais.
Então fica a dica: se vai falar sobre política internacional, coloca mulher pelada brincando com o globo terrestre que nem Charles Chaplin. Se vai falar sobre religiões orientais ilustra a página com gueixas semi nuas e pompoaristas asiáticas. Sempre cai bem.
E se for falar sobre as maravilhas do Omega 3 para o organismo:

O salmão aumenta os índices do colesterol bom.


Assuntos sobre sexo são essenciais.
Quando fui comemorar a primeira semana do blog ("You got to see the baby") decidi fazer um paralelo entre o cuidado com ele a a maternagem, a amamentação na livre demanda, bla, bla, bla. Nada mais chato!
Mas... se no meio do post eu coloco uma referência erótica das minhas procuras pelo Google Images, quebro o clima fofo e a leitura fica mais animada.
E o mais engraçado disso é que a piada foi tão boa, tão boa que nem eu mesma tinha conseguido perceber a profundidade dela. Ela só me foi revelada ontem: "Dispensei os pintos enormes jorrando algo que não era leite, mas acabei ficando com um PICASSO". Entenderam? Tudo bem, eu também não tinha entendido.
Vai falar sobre a impossibilidade dos jornalistas se aprofundarem nos assuntos da redação? Ui, que porre! Então ataca de "Melô do Sexo Anal". Mas com um vídeo fofo para não chocar.


Faça seu leitor se sentir inteligente
Coloque ao acaso referências estranhas para que ele se sinta superior e inteligente por acahar que foi o único que teve capacidade de entender a piada. Tipo "Subi num morro bem alto em Ribeirão Preto e gritei: "Prometo nunca mais escrever com letra cursiva!!!" ".
É claro que isso foi uma referência ao filme "E o Vento Levou" (mesmo porque não há morros altos em Ribeirão Preto), mas eu jogo a frase assim como quem não quer nada só para dar a sensação de que tenho um segredinho com meu leitor esperto.
O texto do Caetano e seus filhos evangélicos massageou o ego dos entendidos em MPB que se sentiram espertalhões por conhecerem todas as referências citadas. Sucesso total!
Mas lembre que tem uma parcela dos seus seguidores que REALMENTE não captam a piada, então você vai precisa explicar.
Alô galera da gringolândia: "Ado, A Ado cada um no seu quadrado." é uma musiquinha inteligente e criativa que bombou ano retrasado aqui no Brasil, ok? E a letra é só essa mesmo, com uma repetição cada vez mais acelerada e irritante.

Use e abuse das celebridades
Elas já são muito bem pagas para ficarem expostas na capa das revistas, portanto sinta-se à vontade para roubar suas fotos e use-as indiscriminadamente no blog porque dá ibope.
Quer falar sobre o respeito incondicional que devemos ter pela escolha filhos? Não, não cite psicólogos da USP e muito menos pedagogos.Vá de filhos de celebridades em fotos engraçadinhas e fofas.
Quer contar como é difícil escrever para leitores pobre de espírito? Vá de Vera Fisher, de preferência pelada. Tire proveito das idéias malucas que as celebridades têm e simplesmente assinem embaixo, deixando a polêmica para elas.
Sim, somos todos rasos e loucos por uma fofoca de gente famosa. Use a superficialidade humana a seu favor.


Não pese na mão em assuntos sérios.
Quem se interessa por coisas sérias vai ler revista científica, jornais, caderno de economia... não blog! Não use o curto tempo de seus leitores enchendo eles de assuntos densos e dramáticos como aquecimento global, a corrupção na política ou a maldade que sofrem os animais de circo! Como diz minha amiga Patrícia Marx, na fase pós Balão Mágico "Pise mansinho no meu coração que é para não machucar a minha grama.". Pegue leve.
Vai falar de Deus (ou da falta dele)? Põe foto de macarrão e deixe o sarcarmo para o Dr. House. Vai falar de inveja? Ponha uma peituda e termine com uma piadinha.
Finja que você não é sério, mas seja sempre.


Esqueça as músicas e o youtube
O povo já circula bastante em redes de relacionamento (entupidas diariamente de dicas "quentes" de músicas e vídeos) para se dar ao trabalho de abrir links dentro do seu blog. Link no blog é como um doce de figo que os outros te oferecem e você aceita só para ser educado.
Tentei poucas vezes, mas tive uma resposta discreta do público. "Eu gostei do seu post mas não tive tempo de ver o link.", disse um amigo. Foi educado. Tenho certeza que ele nunca verá.
O povo não tem mais paciência de ficar vendo a bolinha girar enquanto o arquivo carrega. Já existe uma "bolinha fobia" na net!  Poupe seu leitor da espera e ofereça a ele algo pronto, sempre com a sua opinião sobre o assunto para evitar que ele perca tempo pensando.
Seja um mensageiro alegre e generoso, sempre entregando conteúdos de bandeja.


"Nossa, Claudinha, adoro seus conhecimentos fast food!" 
"Obrigada e volte sempre!!"



Mas, mais importante que tudo isso: seja comprometido com suas idéias e encare a tarefa imbecil de ficar horas sentado para entreter os outros como algo que deve ter uma função, de preferência benéfica para o mundo.



Entendeu? Então memorize tudo isso porque esta mensagem será destruída em 15 segundos.
Ninguém pode saber que contei o segredo do markentig do blogueiro. Isso vale milhões...

.... mentira! Não vale não, porque blog não dá dinheiro.



PS: é óbvio que isso é brincadeira. Não sou o Chapolim Colorado que tem todos os movimentos friamente calculados. Foi só uma análise "a posteriori" que fiz ontem à noite quando fechei para balanço. Portanto, podem relaxar!! Não estou usando meus conhecimentos profissionais para manipular suas mentes e nem vender o meu peixe podre encontrado na frente de casa.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Campanha do Cubo Mágico

Está rolando na internet a "CAMPANHA PELA VIDA: CADA UM CUIDA DA SUA".
Todo mundo tá aderindo, achando engraçado e concordando plenamente com o mote da campanha virtual.


Eu não concordei. Queria agora avisar para quem me conhece que eu não estou na campanha, tá? Adoro que cuidem da minha vida. Sintam-se à vontade para cuidar dela quando quiserem.

E sabe qual é a frase mais babaca que eu já ouvi? "Cada um com os seus problemas." É agressiva e tola em medidas iguais. Agressiva porque nenhuma pessoa merece ouvir isso de alguém. E tola porque não conheço ninguém que cumpre o que a frase propõe:
  • É óbvio que você perderia o domingo com seu cunhado no hospital se ele estivesse muito doente e te pedisse uma ajuda.
  • É óbvio que, se o seu vizinho chato for assaltado no meio da noite, você com certeza ficará cuidando dos filhos dele de madrugada enquanto ele vai à polícia fazer um B.O..
  • É óbvio que se o estágiário no trabalho, incapaz e burro, viesse te pedir ajuda você pararia tudo para tentar ajudá-lo.
Para que então ser tão arredio, negando a atenção dos outros e anunciando que não se interessa pelo bem estar alheio?

Eu, sei, eu sei, calma!!! Não sou tão ingênua assim. A frase da campanha na internet não está falando de cuidar dando carinho e amparo, mas "cuidar" no sentido de vigiar, querer saber demais, se intrometer. Mas até nisso eu não concordo:
  • Você não ficaria preocupada se uma amiga se envolvesse com um cara mau caráter, suspeito e agressivo? Eu ficaria.
  • Você não avisaria a família de um grande amigo se descobrisse que ele está usando drogas pesadas e se metendo numa grande encrenca? Eu avisaria.
  • Você não ficaria preocupada ao saber que seu primo gay sofre em silêncio, sozinho, sem ninguém para conversar?  Eu ficaria e tentaria puxar o assunto com ele sem sombra de dúvida.
Se intrometer na vida de um conhecido não é necessariamente um gesto de gente que não tem o que fazer. Pode ser uma atitude de alguém que pára o que está fazendo para se preocupar com o outro.

E a intromissão desmedida dos estranhos (misturada com fofoca e difamação) é mínima e irrisória perto do imenso benefício da presença das pessoas na nossa vida. A não ser que você seja uma celebridade. E se for esse o caso, troque com urgência sua assessoria de imprensa, ok?


E hoje eu, Claudia, vou lançar agora a "CAMPANHA DO CUBO MÁGICO" que tem como filosofia:


VIVER EM SOCIEDADE É COMO ESTAR NUM CUBO MÁGICO.
UMA VEZ QUE VOCÊ SE MISTURA, AS COISAS NUNCA MAIS FICARÃO COMO ANTES.

Ou alguém aí algum dia já conseguiu resolver o cubo? 




Porque não existe nada mais triste do que um cubo que nunca foi misturado por maõzinhas curiosas



E o mote da campanha será:
"ADO AADO VEM MEXER NO MEU QUADRADO!"


Se voces quiserem participar da minha campanha, por favor me ajudem a divulgar.