Marcadores


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Melodramas da vida cotidiana.

O post de ontem sobre os pés gelados me fez lembrar desta história da formiguinha com o pé preso na neve. 


Minha avó contava e me fazia dormir deprimida. Ela, toda orgulhosa, dizia que o meu pai também chorava com o sofrimento da formiguinha quando ele era pequeno. Sim, minha avó era perfeita em interpretar a angústia com a sua voz fraca de formiga. E também devia ser meio sádica.
A Coleção Disquinho (acima) eternizou o melodrama.
Ainda não conclui nada sobre a moral da história. As vezes acho que ela é paternalista e que os personagens deveriam virar para a chata da formiga e dizer: "Se vira, neguinha! Coisa chata essa mania de pedir tudo prá todo mundo!". 
Já quis, inclusive, fazer uma versão atéia da história. 
"(...) E a Morte impassível respondeu: Mais forte do que eu, é Deus que me governa!!!! A formiga esperou, esperou mas a mão de Deus não surgiu por cima das montanhas. A Primavera não apareceu com o seu carro de veludo e ouro e nem nadica de nada aconteceu. A formiguinha ficou chateada, claro, mas teve a brilhante ideia de comer a neve que estava em cima do pé dela. Finalmente saiu de lá. Foi para casa calçar uma meia e tomar um chá."

Hahaha, final perfeito! Com exceção da inútil meia...

Mas hoje acho a história apenas burocrática, irritante e repetitiva. E é claro que isso me fez lembrar de um outro dramalhão... 
A Formiga e o Celular

Certa manhã de inverno, uma formiguinha saía para o seu trabalho diário quando lembrou que precisava cancelar o número do seu celular. Sabendo que não poderia continuar nem mais um dia com aquele telefone, a formiguinha decidiu pedir o cancelamento:
-Daiane, com quem eu falo?
-Ó Daiane, tu que és tão forte que trabalha no 0800 da Tim.... cancela o meu celular!
-Não posso, senhora. Mais forte do que eu é o departamento de cancelamentos. Vou estar transferindo....

A formiguinha ficou satisfeita.

E na sala de atendimento da TIM
-Rafael! Tô mandando um cancelamento prá você!
-Tá, vou jogar na musiquinha e fazer um xixi.
(PS: reparem que incrível esta foto de
formigas ingerindo corantes )
-Rafael, com quem eu falo?
-Ó Rafael! Tu que és tão forte, que trabalha no departamento de cancelamentos, para quem a Daiane me transferiu... cancela o meu celular!!
-Mais forte do que eu, é a música de espera que me interrompe.

"Plim, plim plim plom. Obrigada por ligar. Sua ligação é muito importante para nós. Neste dia dos pais, surpreenda aquele que nunca esquece de você...."

A formiguinha achou a música bonita e muito relaxante. Voltando-se para ela, a formiguinha pediu:

-Ó Música de espera, tú que és tão forte que interrompe o Rafael, para quem a Daiane do 0800 me transferiu.... cancela o meu celular!!!
-Mais forte do que eu é a ligação que cai e me corta ao meio.

Tu-tu-tu-tu-tu......

Já cansada, a formiguinha suplicou à ligação que cai:
-Ó ligação que cai, tú que és tão forte que corta ao meio a música de espera, que interrompe o Rafael, para quem a Daiane transferiu.... por favor, cancela o meu celular!!!!
-Mais forte do que eu é o número do protocolo que me refaz.

E, neste momento, uma onda de alegria encheu o coração da formiguinha. Sim! Ela havia anotado o número do protocolo. Nada estava perdido! Logo, logo, o seu celular "estaria sendo" cancelado, como prometeu a gentil Daiane. Ligou novamente.

-Qual o número do Protocolo, senhora?
- 97532-006.
-Pois não?
-Ó número do protocolo, tú que és tão forte que refaz a ligação que cai, que corta ao meio a música de espera, que interrompe o Rafael, para quem a Daiane me transferiu.... canceeeeeela o meu celular!
-Mais forte do que eu, é a repetição que me inutiliza!!!!

Vou estar transferindo. Tecle 3, tecle 8, "Plim, plim plim plom. Obrigado por ligar, sua ligação é muito importante para nós. Neste dia dos pais, surpreenda aquele..." Pois não? Só um minuto. Qual o seu nome, senhora? Vou estar transferindo. Pois não? Qual o protocolo? Do que se trata??

Já aflita e chorosa a formiguinha implorou à repetição:
-Ó repetição, tú que és tão forte que inutiliza o protocolo, que deveria refazer a ligação que cai, que corta ao meio a música de espera, que interrompe o Rafael do cancelamento, para quem a Daiane do 0800 me transferiu.... PELO AMOR DE DEUS!!!! Cancela o meu celular!!!!!
-Mais forte do que eu são os novos planos que a senhora precisa conhecer.
Já fraca, sem energia e sentindo o coração gelar, a formiguinha juntou as suas últimas forças para conhecer os novos planos.
-Para o Infinity e além!!!!!!!!

"Plano Infinity Mais. Fale com os seus amigos pagando apenas 25 centavos no primeiro minuto. Plano Infinity Plus. Precisa ligar para fixos? Com este novo plano isso custará, blá, blá, blá..."
Trêmula de medo, depois de ouvir todas as ofertas, a formiguinha suplicou:

-Ó novos planos, tú que és tão forte que eu preciso conhecer, que está acima da repetição, que inutiliza o protocolo, que deveria refazer a ligação que cai, que corta ao meio a música de espera, que interrompe o Rafael do cancelamento, para quem a Daiane do 0800 me transferiu.... PELO AMOR DE DEUS!!!! Cancela o meu celular!!!!!
-Mais forte do eu é o questionário obrigatório do motivo do cancelamento.
A formiguinha já estava sem forças quando foi transferida para o questionário. Com voz fraca implorou:
-Ó questionário obrigatório, tú que és tão forte que acontece depois dos novos planos que eu preciso conhecer, que está acima da repetição, que inutiliza o protocolo, que deveria refazer a ligação que cai, que corta ao meio a música de espera, que interrompe o Rafael do cancelamento, para quem a Daiane me transferiu. (suspiro....) Cancela o meu celular?
-Alô!!! Alôôôuuuu???
E neste momento o questionário fez a pergunta mais importante de todas:
-Por que você deseja cancelar o seu celular, senhora?
-Porque dificilmente consigo sinal para ele.
-Tudo bem, senhora. Só mais um minuto.

E então, magicamente, as nuvens se abriram e uma mão divina tornou o chip inativo.
-Mais alguma coisa, senhora?
-Sim: por que raios eu precisei pedir a mesma coisa para TANTA gente?
-Olha, esta resposta eu não tenho, senhora, mas posso estar transferindo para o setor responsável...

"Plim, plim plim plom. Obrigada por ligar, a sua liga...."











sábado, 14 de julho de 2012

Autossifuciência

No último final de semana recebi visitas aqui em casa, e uma delas falou algo que me surpreendeu:
-Claudinha, não adianta você calçar uma meia com os pés frios. Você pode vestir quantas meias quiser que seus pés nunca se aquecerão. Você precisa, primeiro, esquentar os seus pés para, só depois, calçar a meia. Entendeu?
-Bom dia, galera!!! Dormiram bem?
Puxa! Por isso que eu durmo E acordo com os pés gelados?? Entendi...
Sempre achei que as meias serviam para aquecer os pés, mas hoje, com quase 40 anos nas costas, aprendo que não, que as meias só servem para manter o calor de pés previamente aquecidos.
-E como, então, eu devo fazer então para esquentar os meus pés?
-É só esfregar.
Ah, tá.

Pfffff....
Odeio essas pegadinhas da vida! Sempre depositei minha inteira confiança nas meias e só agora me contam que elas nunca serviram prá nada.
Só hoje soube que precisamos ser autossuficientes no aquecimento dos pés.


Igual a quando eu li o meu primeiro livro de auto-ajuda. Neste dia também descobri algo igualmente irritante:
"Para encontrar um grande amor você precisa, antes de mais nada, ser feliz e se sentir completa na solidão. Só depois o grande amor, magicamente, aparecerá."
Não é chato isso? A gente crente que o amor virá para nos trazer felicidade e, num belo dia, descobrimos que a ordem dos fatores altera o produto:
  • SEJA FELIZ PARA ENCONTRAR O SEU GRANDE AMOR. (certo)
  • ENCONTRE O SEU GRANDE AMOR PARA SER FELIZ. (errado)

-Ma oê!!!!!
E tem mais! Se a sua felicidade não for genuína e completa, corre-se o risco do cara não ser o famoso "grande amor". Se você não estiver verdadeiramente feliz, você poderá atrair oportunistas, cafajestes ou, (pior!!) apenas bons amigos. Por isso nem adianta fingir uma alegria contagiante ou mentir dizendo que você está ultra feliz, jantando sozinha num sábado à noite.
Tem que sentir a paz interior no fundo do seu coração solitário.
E aí, depois que você finalmente encontrou o seu grande amor, os livros de auto-ajuda dizem ainda que nunca, JAMAIS devemos depositar a nossa felicidade nas mãos dele. Diz o lenda que ele não tem a responsabilidade de suprir as suas expectativas.
Pfffff... então os grandes amores também não servem prá nada!!
Se eu já me sinto feliz e completa, por que preciso de alguém ao meu lado? Correndo o risco prejudicar a minha felicidade, tão duramente conquistada??
Temos, portanto, que ser autossuficientes com a nossa felicidade.
E com os nossos pés quentes.

Orgasmo é a mesma coisa. Precisamos primeiro descobrir sozinhos o prazer para, só depois, encontrá-lo numa relação a dois. Mulheres que procuram o prazer no sexo, sem antes conhecê-lo sozinha, geralmente se dão mal porque acabam não sabendo do que precisam. Aí não dá nem para exigir ações e atitudes do pobre coitado do parceiro.
Quando eu era adolescente, era comum esse tipo de conversa:
-Não sou mais virgem! Eu e o Paulo agora fazemos sexo!
-Puxa, que legal! E você goza?
-Hum.... não sei. Ainda não entendi direito o que é isso.
-Será que gozei? Será que não?
Onde devo procurar o Nemo??
Nemo... quem é Nemo?
MUITO comum meninas terem a primeira relação sexual sem terem a menor idéia do que deveriam sentir. E o pior é que, quando sabem, concluem que, sozinhas, o prazer delas é bem melhor! Muitas descobrem que os parceiros não servem para muita coisa, afinal.
Temos ser que autossuficientes com o nosso prazer sexual.
E com a nossa felicidade.
E com os nossos pés quentes.
-E como, então, eu devo fazer para conhecer o prazer sexual?
-É só esfregar.

Hahaha.






Na psicoterapia também temos que ser autossuficientes.
Não adianta você se arrastar pelo chão, ter crises de pânico na rua, desejar cortar os pulsos... tsc, tsc.
Isso é só o começo.
Para você realmente ter sucesso na terapia, você tem que se olhar no espelho e dizer: "Quero mudar" (o AA e os Narcóticos Anônimos também exigem este primeiro passo).
Aí, então, tem que pedir ajuda para alguém. Tem que pesquisar nomes de terapeutas, tem que se dar ao direito de abrir uma brecha no orçamento para pagar o tratamento (isso é o mais difícil!!), tem que ir na consulta (juro! não basta marcar, tem que ir MESMO!) e, chegando lá, precisa
conversar com o psicólogo e dizer que quer ser cuidado.
Parece óbvio para vocês? Pois não é.
Ah, e depois tem que voltar na segunda sessão, viu?! Tecer um parecer sobre o que o cara te responde, chegar à algumas conclusões sobre a sua vida, pensar em mil coisas entre uma sessão e outra... muito trabalho!
Para fazer terapia precisamos ser autossuficientes ao organizar as nossas idéias. Um dia alguém chegará à conclusão que os psicólogos também não servem para nada, hahaha.
A verdade é que temos que ser autossuficientes com a nossa saúde psíquica.
E com o nosso prazer sexual.
E com a nossa felicidade.
E com os nossos pés quentes.

Mas o pior ainda está por vir: segurem-se.
Pedir prá Deus... também!!! Não adianta só pedir. Pedir é a parte mais fácil!! Tem que saber o que pedir, e quando pedir. E assumir todas as benfeitorias depois.
E saiba que nem o onipresente Deus pode te dar uma mãozinha nessas horas. O desejo tem que partir de você. É preciso ter inteira responsabilidade pelas próprias preces.
Não adianta dizer: "Ó Deus, coloque suas mãos divinas sobre a minha vida."
Nada disso!! Tem que saber o que você quer. E como quer. E prá quê você quer tudo aquilo.
É óbvio que, depois disso, muita gente acaba concluindo que Deus também não serve prá muita coisa.
Temos que ser autossuficientes com as nossas bençãos.
E com a nossa saúde psíquica.
E com o nosso prazer sexual.
E com a nossa felicidade.
E com os nossos pés quentes.

-Droga! Sifudemo...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Criação



Já faz mais de um ano que eu quero escrever aqui no blog sobre adoção, mas o que eu desejava escrever ia causar polêmica.
E eu ia dizer que acredito que, estatisticamente, as crianças adotadas dão mais trabalho do que as outras.
Quando eu falo "estatisticamente" é porque tem umas que não dão trabalho nenhum, e, por outro lado, têm filhos biológicos que dão um trabalho do caramba. Mas é fato de que existe uma grande incidência de crianças adotadas sendo atendidas por psicólogos mundo afora.

Uhhhhhh, que polêmica!! Todo mundo, no fundo, sabe dessa história, mas ninguém ousa dizer porque é demasiadamente incorreto.

Não escrevi sobre a minha constatação porque iam tecer comentários revoltados e eu não teria embasamento teórico nenhum para explicar o meu ponto de vista. Não existem pesquisas consistentes explicando o porquê dessa alta incidência de abacaxis psíquicos entre as crianças adotadas. Alguns psiquiatras e psicanalistas já teceram hipóteses sobre o mistério (a maldição da genética desconhecida; o "filho que eu quis ter para ser uma boa pessoa, mas no fundo eu não desejava"; o não reconhecimento familiar na criança adotada), mas ninguém nunca chegou a certezas. Gustavo Ioschpe deveria passar uns anos estudando o assunto e montando planilhas para, finalmente, desmistificar a adoção.

Bom, com tudo isso, o povo anda com medo de adotar. O que é estranho, porque a adoção existe desde que o mundo é mundo, e não só entre os humanos, mas em toda a natureza. Animais adotam, as plantas adotam!! Soa como algo instintivo e natural. E as crias adotadas não costumavam dar trabalho, mas, ultimamente, criou-se uma praga chamada "tabu" e aí a adoção, antes óbvia, virou um drama.

Mas hoje eu estou escrevendo aqui porque descobri algo incrível. Prestem bastante atenção. Ninguém tem que adotar. Quem quiser um filho em casa simplesmente "pega prá criar".
A diferença? Muita! Vou explicar:




Stuart foi adotado. Vivia num orfanato, mas foi escolhido por uma família que o desejava e, juntos, passaram por toda a burocracia do processo. Aí o povo passou a dizer que agora ele era um membro da família Little. O menino de óculos dizia que não, que ele era um rato, e que ele queria um irmão "normal", mas os pais ficavam bravos e dizia que ele era, sim, um menino igualzinho a ele.
E o filme, que deveria ser fofo, para mim chega a ser macabro e triste.Vocês não percebiam algo esquizofrenizante na família Little?? O sorriso da Geena Davis não os assutava? Uma alegria forçada, uma negação absurda...
Pois é. Já atendi muitas famílias de crianças adotadas exatamente assim. Uma negação total da realidade. E a minha hipótese é que esse jogo de enganação é prejudicial à criança: "eu finjo que sou sua mãe e você finge que é meu filho". E ninguém nunca, jamais, poderá dizer que o rei está nú.
Adotar uma criança desta forma é realmente um problemão.

Mas aqui vai a solução: uma sabedoria dos antigos resolve todo o problema. Tira o medo dos pais desejosos de um filho e dá um lar às milhares de crianças abandonadas.
Antigamente existia algo bem mais simples do que a adoção. Antigamente, como os bichos, você "pegava prá criar".
-Que lindos! Gêmeos! São seus filhos?
-Não, peguei prá criar.

Muitas pessoas acima de 50 ou 60 anos tem irmãos de criação que, vejam bem: "moravam na nossa casa, mas NÃO ERAM nossos irmãos." 
A mãe passeava com a criança de 5 anos a tiracolo e o povo perguntava:
-Que menina bonita. É a sua filha?
E a resposta era algo do tipo:
-Não, não é minha filha, eu peguei prá criar. O pai bebia, matou a mãe, e ela ficou sendo criada por uma irmãzinha de 8 anos, mas que não tinha juízo. Comia toda a papinha da neném e deixava a menina chorando de fome. Aí eu levei prá casa. Era só pele e osso e nem sorria. Em um mês ela engordou dois quilos, tadinha. É muito boazinha, já ajuda em casa e até me chama de mãe.

Preto no branco. Simples assim.
E tem gente que ainda não sabe como contar para o filho que ele é adotado!! Pffffff.

E a criança crescia na família sabendo de cor e salteado a sua origem, a sua história, e sabendo bem a diferença entre ela e os resto dos irmãos.
E... tudo bem!! Costumo perceber que, na grande maioria das vezes, só existe gratidão, respeito e amor nessas relações. Conheço muita gente que tem irmãos de criação e sempre deixam bem claro a diferença: "Olha Claudia, deixa eu te apresentar: essa é a minha irmã de criação. Mamãe pegou ela com 3 anos e ela viveu lá em casa até casar. Mas a gente gosta dela igual." 
Aqui na roça isso é muito comum e não vem acompanhado de sofrimento algum. Muito comum o povo antigo falar: tive 5 filhos e criei outros 2.

E, dentro desta minha teoria maluca, a diferença é:

  • Quando uma criança é adotada ela é considerada filho, mas age como se não fosse.
  • Quando uma criança é "pega prá criar" ela não é considerada filho, mas age como se fosse.

Sim, eu sei que a raça humana burocratizou a coisa e, hoje em dia, existe uma instituição chamada Fórum que traz instrumentos de pressão e cobrança chamados: Assistência Social, tutor legal, guarda provisória e guarda definitiva. E sei que isso estressa prá caramba! Mas encare a criança como se você estivesse, amorosamente, "pegando prá criar" e não se preocupe com a papelada burocrática. 
Só assine.
Fica mais fácil, mais óbvio e mais natural. Como o Balú! 



-Puxa Balú que bonitinho!
-Pois é. Achei por aí. Peguei prá criar e c
ortei o cabelinho chanel. O que você achou?

-É seu menino?
-Não, o tigre atacou os pais dele e eu peguei prá criar. O coração da mãe saiu prá fora ainda pulsando. O pai viu tudo e depois foi morto também. Era tanta unhada que nem dava mais prá saber o que era cabeça e o que era pé. Foi tanto sangue que dava prá encher um rio. Bom, mas ele é bonzinho e sorri o dia todo.


-Uau, Jane, já nasceu?
-Não, seu bobo, essa aqui eu peguei prá criar.



-Linda família, Sr. Tanner. Este peludo também é seu filho?
-Não, a gente pegou prá criar.
-Mas... mas... o nariz dele é A CARA do seu pênis!
-Hahaha, nossa querido, é mesmo!!! Vamos pedir um DNA. 

domingo, 24 de junho de 2012

Picanha


Um dia uma amiga me confessou algo incrível. Ela contou que, quando tem um orgasmo, acontece com ela uma coisa.... incrível. Inacreditável. Surreal.
E eu, que pensava conhecer muita coisa sobre o assunto, fiquei bem impressionada:
-Como assim?????? Que coisa mais estranha do mundo! Poxa vida, mas me diz: o que é que o fulano acha disso?
O "Fulano" era namorado dela há um ano, e com quem ela gostava muito de fazer sexo. E a resposta foi:
-Ah, ele não sabe. Eu nunca gozei com ele.
-Ah tá.

ISSO não me surpreendeu. Normal. Orgasmos femininos não pipocam por aí com frequência. As estatísticas contam que são artigos... raros? Não, não raros, mas bastante particulares e, por isso, não podem ser medidos em termos de normalidade.
Orgasmos são como cólicas menstruais: tem gente que tem sempre, tem gente que não tem nunca, tem gente que tem dez vez em quando e tem gente que finge ter.
Hahah, as meninas da minha escola sempre fingiam cólicas menstruais para ficarem sentadas na aula de Educação Física. Ninguém podia contestar e o professor tinha que ficar bem quieto porque, né, elas estavam com... cóóóóóólicas!!!! Pobrezinhas. E as cólicas fingidas davam a elas um charme danado. As meninas peitudas e gostosas da "gangue da cólica" tinham status no grupo das meninas magricelas como eu, numa época em que ficar menstruada era sinal de maturidade.

Bom, orgasmos femininos são como as tais cólicas: imprevisíveis e pessoais.
Mas com essa história de fingir orgasmos, amplamente divulgada na mídia e nos papos de botequim, aconteceu algo cruel com os homens e as mulheres. Os homens, tadinhos, agora acreditam que todas fingem e ficam inseguros com a parceira. Sim, porque se ela finge orgasmo pode também fingir outras coisas mais sérias. Mas.... o que existe de mais sérios do que fingir um orgasmo???? Fingir... amor? Ah, bobagem.
Por outro lado, as mulheres não podem mais ter uma relação sexual bacana (sem orgasmo) que já acham que podem ter encenado em algum momento.
Hahaha, juro. Já ouvi esse drama.
-Não gozei, mas foi tãããão legal que acho que eu devo ter dado a impressão de ter gozado. Será que ele vai ficar bravo porque eu dei a impressão de que gozei quando na verdade estava só curtindo o momento? Ou será que, pior: ele realmente acha que gozei? Merda, será que eu dei essa sensação? Ó meu deus, será que sou uma fingidora enrustida??? Será que sou como... MEG RYAN???


Odeio a tradução do "Get out of here": Vai dar uma volta???
E uma curiosidade inútil: a senhora que pede ao garçom "o que ela comeu" não é uma atriz, é a mãe do diretor. Haha, o diretor deve ter falado: "Mamãe, a senhora quer assistir a uma cena bem divertida e ver algo que você, provavelmente, nunca viu antes?" 
E a velha deve ter dito: "Ah, pode ser. Já lavei roupa hoje cedo mesmo."


As mulheres que fingem orgasmo só querem dar a impressão de serem boas de cama. E as que tem orgasmos naturais, rápidos e fáceis dão aos homens a certeza absoluta de que são.
Mas o que elas nem imaginam é que, por mais incrível que pareça, isso pode ser muuuuito desanimador para eles.
Minha teoria é de que homens não gostam de mulheres gratuitamente fogosas. Eles é que tem que atiçar o fogo! E se o fogo não for atiçado tão fácil, aí é que eles gostam mesmo porque o desafio finalmente está lançado.
Homens gostam de desafio e é por isso que o truco e o pôquer são tão populares nas bandas de lá.

Já viu o prazer que um homem sente ao acender a brasa de uma churrasqueira? Organiza o carvão com engenharia, assopra, põe gel, bota papel enrolado de um jeito especial, joga álcool, querosene, abana (de cima prá baixo para não subir fuligem, ângulo de 70 graus!) e já vi muitos ligarem até ventilador para ajudar na oxigenação da brasa. E se for um carvão manhoso, desses que não se entregam fácil, aí que é que eles gostam mesmo.
E depois, quando a chama fica alta e bonita, eles olham todo orgulhosos para a platéia e dizem: "Ninguém acende um fogo como eu!".

Saber acender o fogo é importante para os homens.

Um dia cheguei mais cedo num churrasco e a molecada começou a ficar com fome, mas não tinha nenhum homem no recinto, já que eles ainda nem tinham acordado. Eu olhei para uma amiga que estava lá e disse:
-A gente podia acender o fogo e ir assando umas linguiças para as crianças. 

Sim, porque um picanha eu nunca ousaria colocar na brasa!!! Seria muita petulância de uma mulher acreditar que dá conta de assar uma picanha. E se eu não colocasse a quantidade certa de sal grosso? Ou, melhor, e se eu não sacudisse a carne do jeito certo e não tirasse o sal grosso suficientemente antes de pôr na brasa? Iria desidratar a picanha e ainda salgar a bichinha. E se eu colocasse ela no andar errado da grelha? E se eu (ai meu deus!!!) fatiasse a carne no sentido das fibras ao invés de cortar translongitudinalmente???? Minha amiga olhou para mim com cara de transgressora e disse:
- Seráááá? Será que damos conta de acender o fogo sozinhas? Ah, vamos tentar, vai! Não deve ser tão difícil!
Eu desanimei:
-Não. Acho que eles ficarão ofendidos. Melhor esperar. Soca pão com vinagrete na criançada.



O homem é que tem que acender o fogo do churrasco.Tá na Bíblia.
Churrasqueira com acendedor automático é obra do demônio, certeza. Ou de alguma feminista, porque o acendedor automático de churrasqueiras modernas abala por demais a autoconfiança masculina.

E para acender o nosso fogo também. Tem que ser eles. Eles precisam demonstrar todo o conhecimento no assunto e ter a certeza de que acenderam uma chama respeitável. Precisam organizar tudo com engenharia, assoprar, pôr gel, achar o ângulo de 70 graus e ligar o ventilador.
E depois quando a chama está alta e bonita, eles primeiro cuidam da picanha para, só no fim, colocar a linguiça. Picanhas são lentas e delicadas. Picanhas precisam de ciência e cuidados. Linguiças não, linguiças já vem perfeitinhas lá da fábrica. Funcionam bem e assam rapidinho.

Hahaha, meu deus quanta metáfora!
Bom, resumindo: moça com fogo naturalmente aceso não tem graça. Obra do demônio. Ou de alguma feminista que acha que a mulher pode que ser dona do próprio prazer.
Bah.



PS: se o grifo branco continuar aqui, não liguem, ok? São irrelevantes e agem contra a minha vontade. Não saem nem por decreto. Vamos ignorá-los para ver se eles voltam para o lugar de onde nunca deviam ter saído.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Obrigar? Brigas?? -Obrigada, Brigadeiro!


Essa sou eu, aos 9 anos, servindo panquecas
que eu mesma fiz num café da manhã qualquer.

Um post anterior me fez pensar em muita coisa sobre o encontro entre a psicologia e a culinária.
Muitos filmes já falaram sobre isso: "A Festa de Babette", "Como água para chocolate" e outras dezenas de produções sobre chefs de cozinha.
É senso comum dizer que comer traz alegria e que cozinhar é um ato amoroso.
No tal post anterior falei ainda do apetite para comida refletir também o apetite sexual.
Pffff... grande coisa.




Os filmes acima também já concluiram a mesmíssima coisa. "Nove semanas e meia de amor" explicou a todos o importante passo a passo, e os morangos com champanhe de "Uma linda mulher" arrematou a aula.
Ok, todos nós entendemos a lição.
Mas eu precisava voltar aqui para dizer o quão importante é para uma criança aprender a fazer o seu próprio alimento.

Não acredito em psicoterapia infantil sem fogão no consultório. Sempre tive este apetrecho na minha sala de atendimento mesmo sem nunca conseguir teorizar a importância da comida no processo terapêutico. Alimentava meus pequenos pacientes por intuição e, por isso, era de vez em quando mal vista pelos outros colegas. Soava bobo e sem propósito. Eu até poderia "alimentá-los" simbolicamente com o meu afeto, mas... no concreto? Com comida de verdade? Parecia que não havia mesmo essa necessidade.
Cozinhar com pacientes não tem nada a ver com as teorias que emabasam a psicologia.
Mas um dia veio a explicação.

Eu estava fazendo uma formação em terapia familiar e precisávamos passar um final de semana mergulhados nas emoções e lembranças das nossas próprias famílias. Uma dinâmica chamada "Família de Origem do Terapeuta".
Depois de muitas coisas incríveis, ditas e ouvidas num ambiente como aquele, foi marcado um segundo encontro onde todos deveriam levar um prato de comida que fosse o símbolo da família de cada um.
Foi uma festa!
Um levou o frango com farofa da madrinha, outra levou o bolo de fubá da mãe, uma levou a sangria com açúcar da avó italiana servia aos netos no domingo... muitos quitutes carregados de histórias e boas lembranças.
E houve também, claro, o lamento de muitas receitas terem sido perdidas com a morte de quem as fazia. Triste mesmo.





Eu? Eu levei brigadeiro que eu apendi a fazer com 8 anos de idade e todos ficaram com dó de mim. Nem sei porquê! O brigadeiro foi a comida mais significativa da minha infãncia.
O meu leite materno.



Não, eu não tive uma família desprovida de afeto na cozinha e nem fiquei fora dos almoços de domingo. Nada disso! Eu era até bastante amada e minha família sempre foi bem normal. Com uma pequena diferença: eu não gostava das comidas oferecidas pelos adultos.
Nadica de nada.
A razão? Nenhuma. Pura recusa.

E assim fui crescendo: anêmica, magra e inapetente.
Parecia que a coisa seria assim para sempre quando surgiu uma descoberta maravilhosa que mudou o rumo da minha vida para sempre: posso fazer o meu próprio alimento e não dependo daquilo que os outros me oferecem.
Isso pode soar bobo e irrelevante para alguns, mas quando temos poucos anos de idade e estamos totalmente submetidos ao cardápio criado por aqueles que cuidam de nós, isso parece uma linda luz no fim do túnel.


Somos passivos na infância e, qualquer recusa em aceitar a dieta imposta, costuma ser mal recebida e vista como rejeição. E rejeitar o alimento que a sua mãe te oferece abala por demais a auto estima dela. E a nossa.
Negar o peito é um desaforo enorme na relação de uma mãe com o filho! E negar o arroz com cebola... também.
E aí a birra e a implicância se tornam, então, recíprocas.

Se somos seletivos com os alimentos somos taxadas de crianças enjoadas. Se reclamamos da nata no leite, somos frescos. Se recusamos o arroz manchado de beterraba irritamos os adultos na mesa.
-Não gosto da casquinha do feijão, não como biscoitos quebrados, não gosto de cenoura cozida. Só crua!!

Não é fácil ser criança e ter que nos submetermos ao paladar e à cultura gastronômica dos pais, e lutar por uma autonomia gastronômica é uma tarefa difícil quando se é criança.
Mas aí eu cresci e percebi que posso ser dona do meu próprio cardápio. E inaugurar o festival com... brigadeiro me parecia um belo começo.

-Uhuuu! Sou auto suficiente! Posso me alimentar do meu jeito! Vou comer brigadeiro até morrer.
Depois desta importante descoberta na vida de uma criança, a mágica da culinária se reflete na alma e toda a transformação psíquica acontece: alimentar-se sozinha, escolher o próprio cardápio, assar um pão para a família, fazer uma sobremesa para os pais... tudo isso tem bastante significado dentro de um processo terapêutico. E o seu desenrolar é lindo e sempre rico.

A culinária desencadeia uma transformação alquímica das emoções, e a psicoterapia com crianças então deslancha.
-Bon appétit!!!
Quando começamos a cozinhar para nós mesmos percebemos que somos independentes e que a nossa sobrevivência está garantida.

Quando cozinhamos para os nossos pais podemos então inverter os papéis e alimentá-los do nosso jeito. Com os nossos temperos.

E isso é muito enriquecedor para uma criança.

Mas agora fica a pergunta: qual seria a comida mais significativa da família de vocês?? Qual comida marcou mais a sua infância?
Pense em uma e me conte.
-

terça-feira, 19 de junho de 2012

A sombra sonora

Inferno astral.
Esta semana será meu aniversário e, como sou uma pessoa normal, todos os anos entro em pânico ao perceber que não fiz nada do que deveria ter feito.
Como, meu Deus, como pude me esquecer???
E, com isso, mais um ano se passou.
Ó céus!!!!
Ontem falei que a vida é só deitar no chão e tomar Sol. Respirar e se sentir parte do universo.
Mas eu estava mentindo, tá? Era pura filosofia barata.
A vida é ter dinheiro no banco, plano de saúde, carros em perfeito estado, ter casa própria, pensar no futuro, e garantir uma herança para os filhos.
Ah, e ser bonita e feliz.


Sim, eu sei que:
Eu devia estar contente 
porque estou com o peso ideal para a minha altura
sou uma mulher saudável, cheia de vida 
apesar de ter um doença séééééééria.
Eu devia agradecer ao Senhor
por ter tido sucesso na vida como mãe
eu devia estar feliz por ter marido, pais, amigos 
e pessoas que me aaaaamam.
Eu devia estar alegre e satisfeita por morar numa cidade tranquila
depois de ter passado apuro por muitos anos
nas metrópoles violeeeeeeeeeeentas.
Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhosa por ter talento em várias áreas
mas eu acho isso uma grande piada
e um tanto quanto perigoooooooosa.
Eu devia estar feliz por ter diminuido a minha barriga
mas confesso abestalhada que estou decepciiiiiiiiionada.
Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: "e daí?"
eu tenho uma porção de coisas grandes prá conquistar 
e eu não posso ficar aqui sarada (hahaha, "aqui sarada"!).
Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido 
passear pelo mundo, tirar foto em Veneza 
e ter tido tempo de subir lá no World Trade Ceeeeeeeenter.
Ah, mas que sujeita chata sou eu que não acha nada engraçado
viagem, visto, gôndola, mala, passaporte
eu acho tudo isso um saaaaaaaco.
É você olhar no espelho e se sentir uma grandessíssima idiota,
saber que é humana, ridícula, limitada que só usa dez por cento do seu potencial profissionaaaaaaaaal.
E você ainda acredita que é uma blogueira, psicóloga ou cidadã que está contribuindo com a sua parte para o nosso belo quadro virtuaaaaaaaaal.
Eu que não me sento na bola do pilates, com a perna escancarada, cheia de músculos
esperando a moooooooorte chegar.
Porque longe das cercas eletrificadas que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora de um disco voador.

PS: o grifo em branco é TOTALMENTE irrelevante, tá? Foi uma praga que o vídeo da Raulzito me trouxe. Reescrevi a coisa duas vezes (juro) para ver se saía mas ele migra de um lugar para o outro, tal qual a sombra sonora de um maldito disco voador.
Bom, mas dane-se.
Vamos todos morrer mesmo...
ÓÓÓÓÓÓÓ vida!!!





domingo, 17 de junho de 2012

Gaia


"Eu estou apaixonado por uma menina Terra."
(Caetano) 

Já ouviram falar de crianças anêmicas que comem terra? Grávidas desnutridas que chupam tijolos? Moleques que comem grama?
Então, por trás desse comportamento alimentar bizarro, curiosamente chamado de Pica, algumas vezes existe uma necessidade bioquímica do organismo em restaurar alguns nutrientes, no caso os sais minerais e o ferro presentes na terra e no tijolo e a fibra da grama que ajuda a vomitar algo indigesto.

Mas...
A ingleza Natalie Hayhurst, de 3 anos, corre risco de envenenamento constante. Ela é viciada em ingerir tijolo, vidro e pedras, e já comeu até uma lâmpada inteira. Em fevereiro, Natalie tirou a lâmpada que estava no abajur do quarto e comeu. Ao perceber o que havia acontecido, a mãe, Collen, correu para o médico com a filha, que foi operada para a retirada dos cacos de vidro.
Desde então, a criança é vigiada o tempo todo pela mãe, o pai e o irmão de 5 anos. Collen afirma que alguns dias são melhores do que os outros: "Ela não tenta mais comer vidro, uma vez que isso a machucou, mas vai tentar comer pedras e paus, o que ela encontrar no jardim. Natalie é capaz de comer um tijolo como se fosse um biscoito de chocolate.", afirma a mãe (Extra, O Globo) 

A reportagem dizia ainda que, no seu último aniversário, Natalie comeu a vela do bolo.
Sim, porque cupcakes e cookies são para as fofas.
Para quem não entendeu, eu explico: isso é loucura, tá? A menina não é normal. Portanto, a sabedoria intuitiva e irracional não está lá todas as vezes que comemos algo esquisito. Menino que come cola Tenaz e gente que lambe cinzeiro podem ser apenas loucos. 
Ou porcos.

Bom, digo isso porque desde pequena tenho uma mania que hoje acredito ser uma necessidade do meu sábio organismo. Tomar Sol deitada no chão. Faço isso desde pequena. Tenho uma necessidade fisiológica de tomar Sol todos os dias.
O Sol é a minha Pica, a minha mania, até então incompreensível. 

Porém... hoje sou portadora de uma doença grave chamada Esclerose Múltipla e todo dia recebo novos estudos comprovando que a falta de Vitamina D é a principal responsável pelo aumento da doença. E a vida urbana, longe dos raios solares, colabora para o aparecimento de doenças assim.
Por isso, acredito que meu organismo já tratou de me fazer mau humorada e triste caso eu não consiga deitar por meia hora no Sol. Ele já devia saber que a luz solar seria importante para a minha saúde. Espertão!
Tem também a lenda do Sol iluminar a glândula pineal e, assim, liberar endorfinas e serotoninas. O Sol, portanto, é um poderoso antidepressivo.
Uma vez terminei um namoro e quase enlouqueci. Liguei para a minha ex-sogra, deprimidíssima, e ela, sábia que era, depois de ouvir meus choramingos disse:
-Claudia, vá tomar Sol.
Só isso. E ela era tão elegante que eu posso jurar que nem teve o desejo de me mandar tomar outra coisa! Ou em outro lugar.
Fui, e foi perfeito.
Sigo este conselho desde então.

-Triste? Vá para o Sol. 

Mas acho gozado que não basta tomar Sol, tem que ser no chão. Justo eu que não piso no chão sem sapato nem por decreto, mas na hora de deitar ao Sol... tem que ser nele. O funcionário do clube sempre pergunta: "Claudia, as cadeiras estão sujas? Você quer que eu passe um pano nelas?". Não, seu moço, gosto de ficar no chão mesmo.
Por quê?
Bom, tem o fato do chão ser quente e queimar de um jeito indescritivelmente gostoso a pele da gente. Nada traz mais alegria do que deitar molhada numa pedra pelando e sentir as gotas de água se evaporarem do corpo lentamente.
Tem também o fato do chão neutralizar as energias levando embora os ions irritadiços. Mas hoje descobri a razão principal: o chão me deixa em contato direto com a mãe maior.
"Útero é pouco.
Meu desejo de acolhimento ainda não tem nome"

(adaptação tosca da Clarice Lispector)
Agora tem: mãe Terra.
Quando deitamos no chão sentimos o carinho do planeta (além das formigas que chegam minutos depois). Ouvimos o silêncio da sua carne, somos acolhidos na dureza macia do seu corpo e sentimos a paz da sua existência. E tem também o fato de que quando deitamos no chão, com o planeta nas costas e o Rei Sol no rosto, não existe maneira mais óbvia de pertencer ao universo.
Prá melhorar, ao se deitar no chão você está o mais perto possível dos bilhões de chineses que vivem do outro lado do mundo e participa, agora mais próximo do que nunca, da coletividade mundial. Então, como queria Tim Maia, você acaba tendo consciência de que respira o mesmo ar que rodeia o planeta e tem na pele o mesmo Sol que bronzeia a todos.
E que a vida é só isso.
E é boa.

" E de nada valeria acontecer de eu ser gente. E gente é outra alegria, diferente das estrelas!" (Terra, Caetano Veloso)

Sim, gente é outra alegria.
Mamãe Gaia deve estar satisfeita com a minha súbita compreensão.

Ou talvez tudo isso seja só uma loucura minha, tal qual a inglezinha Natalie, comedora de tijolos...



Essa moça abaixo deita no chão ao Sol e, subitamente, se dá conta de que existem 9 milhões de bicicletas em Pequim. Não é incrível eu ter descoberto este vídeo DEPOIS de postar este texto?